Ressoar do Trovão
1 Sonhos, Pesadelos, Nós Não Sabemos.
Notas iniciais
Jodie Mees
O dia realmente estava lindo, mas eu não ligava. A única coisa que era importante para mim era entender os sonhos que me atormentavam há tempos, sempre com o garoto no qual nunca falei e muito menos sei o nome.
Eles começaram dois anos atrás, sim, dois anos. Entretanto, no início, eles não me causavam insônia, me impossibilitando de dormir mais de seis horas por noite, isso só aconteceu por um ano. Só que agora, inferno, eles estavam muito piores. Eu só conseguia ouvir o rosto deformado do garoto, e imediatamente acordava em um solavanco.
Eu estava decidida, iria contar para alguém.
Avistei Patrick e senti pena, porque a partir daquele momento era só eu que iria abrir a boca.
— Eu não aguento mais. — suspirei. — Preciso te contar.
— Fala, queridinha. — mandou Patrick revirando seus olhos castanhos, provavelmente decidiu não encher o saco e cobrar o “oi” que nunca recebia.
A procura do garoto dos meus sonhos naquela escola pequena não foi difícil, assim que meus olhos bateram nele, falei:
— Tá vendo aquele garoto de blusa branca? — Patrick fez uma cara de dúvida e percebi que aquela informação não era o suficiente. — Um moreninho do terceiro ano, usa óculos...
— O que? Você se pegou com ele no banheiro? — Pat perguntou com um sorrisinho malicioso em seu rosto que eu não achei legal, por isso ignorei e continuei.
— Eu tive um sonho com ele, mas só me lembro de algumas partes... — respirei fundo e prossegui. — Me lembro dele meio distorcido, parecia que tínhamos meio que uma amizade, confiança, e era muito bom... só que muito estranho também.
Pat arqueou as sobrancelhas e um sorriso debochado formou-se em seus lábios.
— Só em seus sonhos pra isso acontecer, não é?! Acha que ele iria construir uma amizade com a mais depravada da escola? — Ele só captou a parte da amizade. Lancei um olhar repreendedor para ele e bufei, isso realmente magoou, no entanto, não demonstrei. — Palavras de toda a escola, não minhas... As garotas te odeiam, os meninos te rodeiam para tirar nem que seja uma casquinha sua.
Continuei o olhando, esperando que ele continuasse, porque eu sabia que iria sair mais verdades daquela boquinha, verdades dolorosas. E esse era o defeito de Patrick: ser sincero demais. Tudo bem, ser sincero é ótimo, mas não no nível desse garoto.
E essa era a realidade. Os garotos não me rodeavam porque eu era a mais “bonita” da escola, longe disso, me rodeavam porque sabiam do jeito que eu era, me rodeavam porque, desse modo, conseguiriam beijar alguém fácil, fácil. E eu? Eu aceitava.
Essa escola era diferente, talvez por ser de cidade pequena, eu não sei. Por isso que, do mesmo jeito que Patrick, me excluíam.
— Sou o único que anda com você. E porque eu não sou menina, e também porque sou um excluído dessa escola idiota. O que eu posso fazer se essa gente não aceita sinceridade? — eu estava pronta para dar meia volta e ir para casa pra não aturar as besteiras que o meu amigo – provavelmente não mais depois dessa conversa – falava. — Mas não é só por isso, gatinha. Eu sou seu amigo porque sei que você não é assim de verdade.
Encarei-o com um carinho que eu tinha certeza que meus olhos — e nenhuma parte do meu corpo – transmitiam, grata por ele pensar isso de mim. Porém eu tinha um orgulho enorme, e não iria abraça-lo agora.
Suas mãos estenderam-se a sua frente, pronto para um abraço. Contudo, percebendo que eu não iria mover um centímetro, suas mãos foram arrumar seus cabelos castanhos lisos, disfarçando o movimento que iria fazer anteriormente.
Abaixei a cabeça e passei a fitar meus tênis.
Eu não era uma vadia, as pessoas que me rotulavam assim. Se rapazes podem “pegar” várias garotas, por que elas também não? A sociedade era completamente machista, mesmo que não percebessem, e infelizmente me julgavam por uma coisa que eu gostava.
Eu gostava de beijar várias bocas, apenas.
Eu nem ao menos me vestia como uma “depravada”, não andava com saias curtas, e muito menos com saltos e camisas de barrigas de fora – não querendo dizer que quem se veste assim é uma vadia. Eu era uma pessoa normal, vestia calça jeans, camisas normais e sempre tinha os meus tênis surrados nos pés.
Encarei o moreno desconhecido dos meus sonhos. Será que ele pensava dessa forma também?
Se ele pensasse, eu não ligaria.
Ele estava sossegado em um banquinho de madeira, rindo com sua provável namorada enquanto seu amigo estava com um rosto neutro. Estava tranquilo, feliz e... tranquilo.
Ao contrário de mim.
O sonho voltou em minha mente novamente e grudou em mim como uma goma de mascar na sola de um sapato. Foi um completo alívio ter contado isso pra alguém depois de dois anos. E eu esperava ter feito a coisa certa, esperava que depois disso eu nunca mais acordasse no meio da madrugada e não conseguisse dormir.
Encarei os olhos de Patrick e disse sem emoção alguma:
— Eu sou assim, Patrick — suspirei. —, eu gosto de ser desse jeito e nada vai me mudar.
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