Ressoar do Trovão
2 É Real ou Estou Sonhando Novamente?
Notas iniciais
Jodie Mees
A aula já havia acabado, e eu agradecia por isso. Sai do prédio da escola e encarei o céu que agora já estava negro por causa do inverno que o fazia escurecer mais cedo; eram seis horas da tarde, porém parecia nove horas da noite. Entretanto eu sabia que não era só por isso, uma tempestade estava se aproximando — uma coisa que era muito comum nessa cidade -, e quando estava prestes a seguir minha caminhada, um pingo gelado e fino caiu em meu nariz.
Já apressando o passo, não querendo me molhar por nada, saí dos portões da escola, estava louca para chegar logo em minha casa quentinha e aconchegante. Só que toda pressa foi em vão, uma mão que eu conhecia muito bem puxou-me e eu olhei pra trás irada.
— O que é? — perguntei ríspida, sabendo exatamente quem era.
— Quero continuar o que estávamos fazendo ontem… no banheiro, para ser mais especifico. — disse Trevor com um sorriso sapeca em seus lábios.
— Você se esqueceu da regra, Trevor? — perguntei com uma de minhas sobrancelhas arqueadas. — Uma vez, depois que eu uso eu jogo fora.
— Pensei que você abriria uma exceção. — disse ele, dessa vez com um semblante sério sem tirar os olhos de mim.
— Eu nunca abrirei uma exceção, supera. — zombei, dando as costas para ele.
— Eu não acredito que você vai ser vadia a esse ponto. — falou Trevor com uma risada anasalada sem humor, fazendo eu me virar.
— Você já sabia, Trevor, eu sou exatamente a vadia que todos dizem que sou. — cuspi.
Dei as costas para Trevor pela segunda vez e segui meu caminho, minha casa não era muito longe. A escola estava num lugar afastado, e há algumas quadras dali estava minha casa, onde em seus fundos encontrava-se uma pequena floresta.
Agarrei as duas alças da minha mochila e apressei o passo mais uma vez. Desci a pequena lomba, no entanto deparei-me com algo que chamou minha atenção.
Cheguei um pouco mais perto e percebi que era um garoto, provavelmente da escola já que estava com mochila, estava de costas e com as mãos em seu rosto.
— Ei, você está bem? — perguntei virando o garoto para mim.
Mas me assustei, o rosto do rapaz estava totalmente desfigurado, assemelhando-se um pouco com síndrome de down, mas de um jeito totalmente horrendo e pior. E mesmo com todos esses fatos me atrapalhando de ver quem era, eu soube. Era o garoto dos meus sonhos.
E tudo estava se repetindo. Era real ou eu estava sonhando novamente?
— Estou com sede. — disse o garoto em um sussurro quase inaudível, com uma voz grossa que eu sabia que não era natural dele.
Como minha casa encontrava-se a menos de três quadras daquela esquina, eu peguei o garoto por um dos braços e passei a caminhar com ele. Tentei ao máximo ser rápida, mas ele caminhava com dificuldade.
Com um pouquinho de hesitação — já que eu era uma completa desconhecida pra ele -, eu coloquei as costas da minha mão direita sobre a testa do garoto e logo senti a pele quente sob ela.
— Você está fervendo. — disse eu.
— Eu estou morrendo de sede, me ajude, por favor… — ele falava aquilo repetidamente, e em menos de dez minutos — que normalmente eram cinco — chegamos ao nosso destino.
Era uma casa simples de material, branca e com um jardim florido na sua frente por causa da minha avó que amava esse tipo de coisa. E atrás da casa encontrava-se não só a pequena floresta, porém também um rio azul claro, quase transparente e com pedras em sua volta.
Decidi entrar pela porta dos fundos, onde se localizava a cozinha. Fui até lá com um pouco — lê-se muita — dificuldade por causa do peso que carregava — mais conhecido como o garoto dos seus sonhos.
E a partir daquele momento eu vi que aquilo era realmente a realidade. Eu nunca havia chegado até essa parte em meus sonhos, não sabia se chorava ou ficava maravilhada.
Encostei o garoto na parede branca ao lado da porta e procurei avidamente a chave em um dos bolsos da minha mochila. Coloquei com certa dificuldade o objeto na fechadura por conta do nervosismo, mas enfim consegui abrir.
Avistei a cozinha, que era decorada com um piso verde-quase-preto e azulejos brancos com alguns desenhos os enfeitando. Era simples, mas completamente confortável. No centro estava a mesa de jantar junto com mais seis cadeiras, e em sua frente, a pia… aonde eu encontraria água.
Coloquei meu visitante na cadeira e suspirei aliviada por ter o largado ali; mesmo sendo um pouco magrinho, o garoto era pesado.
Olhei para ele, e sua face continuava da mesma forma: com uma distorção inexplicável. Eu tinha certeza que ele tentava ao máximo manter os olhos abertos, só que isso estava se tornando um desafio. Então, por um milésimo de segundos, eu vi sua verdadeira face, seus traços não grotescos e suas pintinhas distribuídas aleatoriamente. Foi só eu piscar os olhos e a imagem arrepiante voltou. Não liguei.
— Qual seu nome? — perguntei em um sussurro, temendo que qualquer coisa que eu fizesse o assustasse e ele saísse correndo, mesmo quando quem deveria estar com medo era eu.
— Samuel. — murmurou ele ainda com dificuldade ao falar, no entanto não pude evitar e dei um sorriso mínimo, o rosto do garoto que atormentava em meus sonhos finalmente tinha um nome.
Sem pensar, eu peguei as mãos descobertas dele para tentar conforta-lo de alguma forma, e imediatamente senti um choque. Não aquele tipo de choque, mas sim um choque de verdade. Reprimi um grito e olhei-o com a testa franzida.
— Sede… — ele sussurrou, já com os olhos fechados.
Eu realmente tinha me esquecido. Virei-me para a pia só que logo olhei para Samuel de novo.
— Por favor, fique aí. — pedi. Depois virei-me para a pia novamente e procurei por um copo de vidro, peguei um grande o suficiente — temi que um corpo normal de 200 mililitros não saciasse Samuel -, coloquei-o embaixo da torneira e esperei impacientemente que ele enchesse.
Virei-me para Samuel pronta para entregar aquele copo gigante de água, entretanto deparei-me com a cadeira vazia, e a porta? Bem, ela estava aberta. Uma decepção apoderou-se de mim, assim como a raiva.
Aquele idiota, cretino, ingrato.
Joguei o copo no chão propositalmente. Era a única vez que eu havia sido gentil com alguém, e o que eu recebi em troca? Nada, porque ele fugiu.
Olhei para o chão e me arrependi instantaneamente quando vi aqueles cacos de vidro e agua esparramadas para todo o lado.
— Droga, agora vou ter que limpar tudo isso aqui. — murmurei mal-humorada para mim mesma.
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