Resident Evil: Dark Heart

8 Capítulo 8 - Lugares escuros


Lugar desconhecido

A água da chuva era terrivelmente gelada, e ela sabia que não poderia estar ali, porque ela estava na Rússia, e o inverno russo é tão frio que certamente choveria neve, e não água líquida.

Porém, contrariando toda a lógica daquele pensamento, ela estava ali, sob uma forte chuva que caía, em frente a um trem onde se lia Ecliptic Express em letras garrafais.

Só pode ser um sonho... Ou melhor, um pesadelo!

Rebecca Chambers aproximou-se o suficiente para tocar o trem – experimentar a resistência do metal contra o toque humano. Ela estava ali, de verdade, sem truques. Sentiu o metal contra seus dedos e, reparando bem, agora até mesmo conseguia ouvir o barulho das gotas de chuva caindo. Rebecca olhou para o céu cinza-chumbo que pairava sobre ela, inerte, e abriu os braços, sentindo a água tocar seu corpo. Era real demais para ser um sonho...

— Curtindo a viagem? – Uma voz ecoou das sombras.

Rebecca afastou as pernas e juntou os braços ao corpo, pronta para correr ou lutar.

— Não se preocupe, eu sou um dos mocinhos – disse Billy Coen, caminhando na direção da luz.

Rebecca experimentou uma mistura de alegria e confusão. Ao mesmo tempo em que se sentia um pouco melhor por ver um rosto conhecido, ver exatamente aquele rosto só aumentava sua desconfiança de que se tratava de um sonho – como ele poderia estar ali sem ser um sonho?

— O que você está fazendo aqui, Billy?

— Você me conhece?

— Sim... Não se lembra de mim? Rebecca Chambers?

— Se eu a conhecesse certamente me lembraria – disse Billy, recostando-se no trem.

Claro, é um sonho. Eu sabia.

Mas... Era tão real... Rebecca silenciou-se. Estava confusa. Viagem no tempo? Realidade alternativa? Nada do que conseguia pensar era suficientemente lógico para explicar o que ela estava vivendo. Esforçou-se para se lembrar da última vez que viu alguém conhecido – mas sua mente se mantinha como um grande borrão. Estava mergulhada na escuridão. O primeiro conhecido que se lembrava de ter visto era justamente Billy Cohen.

— Escute, o que eu vou dizer é uma coisa estranha, mas eu não sei outra forma de dizer isso: eu já vivi isso tudo, não era para eu estar aqui, agora. Eu deveria estar na Rússia neste momento – desabafou de uma vez.

Billy não pareceu abalado. Esboçou um meio-sorriso:

— E eu queria estar na Disneylândia. A vida não é justa.

Rebecca deixou os ombros caírem.

— Você não está entendendo Billy...

— Não, você é que não está entendendo, Rebecca Chambers. Eu preciso que me diga como sair daqui, e tudo acabará bem para nós dois.

***

— Quando foi a última vez que ela foi vista? – perguntou Zion, visivelmente transtornado.

Todos pareciam assustados. A missão mal começou e já haviam perdido um dos soldados – e logo o médico do grupo. Aquilo era um péssimo sinal.

— Rebecca e eu conversamos algumas trivialidades... Então, a deixei para trás por um segundo para conversar com você, Zion... Depois fomos atacados pelos lobos... – disse Carlos.

Zion encarou o céu.

— Soldado Andersen, reporte o acontecimento à base de operação.

— Sim senhor – disse Rufo, batendo continência e se afastando do grupo com o telefone via satélite.

— O que vamos fazer? – perguntou Carlos.

— Nós temos que prosseguir com a missão.

— E deixar a Rebecca para trás? Que tipo de guia é você? – disse Carlos, irritado.

— Escute, Olivera. Rebecca é um soldado com treinamento militar, ela é capaz de encontrar o caminho de volta... Não podemos atrasar a missão, acha que aqueles animais vão dormir para sempre?

— Seu canalha!

Carlos ameaçou atacar Zion, mas foi contido por Seth Marshall.

— Calma, garotos, todos nós somos amigos aqui – disse o grandalhão, se colocando na frente de Carlos.

Zion retirou um tablet de dentro do bolso do casaco e mostrou a tela para Carlos. O aparelho mostrava o que pareciam ser nuvens pesadas se deslocando lentamente.

— Você sabe o que é isso? Uma tempestade de neve se aproxima rapidamente. Se demorarmos a subir a montanha, corremos o risco de não conseguir. Eu não sei vocês, mas não posso devolver o pagamento que já recebi.

— Então, tudo isso é por dinheiro? – perguntou Cassandra.

— Sempre é por dinheiro, Dra. Milles. Não sei como a senhora paga suas contas, mas as minhas não desaparecem por mágica.

Jim Phoenix era o único que se mantinha em silêncio. Só conseguia pensar em Melissa, e na vida que ela o bebê mereciam. Se tudo desse errado, não teria o que fazer.

— Vamos, ainda temos muito o que andar – disse Zion.

— Eu vou procurar a Rebecca – disse Carlos. – Vão sem mim.

Carlos começou a voltar o caminho.

Zion não disse nada. Olhou de relance para Seth, que entendeu a mensagem e seguiu Carlos escuridão adentro.

***

Rebecca e Billy corriam pelos apertados corredores.

O trem estava infestado por zumbis e, como se não bastasse, agora eram perseguidos por um homem-sanguessuga nojento. A criatura rastejava atrás deles, e era resistente a tiros. De repente, estavam em um beco sem saída.

A pistola de Rebecca estava vazia, e a criatura continuava avançando.

— A janela – indicou Billy.

Os dois saíram do vagão e subiram para o teto. Ainda chovia, e a água contra o rosto era gelada. Podia um sonho ser tão real? Enquanto andavam no teto do vagão Rebecca pensou no que estava prestes a fazer. Tinha certeza (quase) absoluta de que se tratava de um sonho... Sabia cada coisa que aconteceria, cada passo, como se estivesse presa em um filme ou videogame.

— Billy – disse ela, ainda sobre o teto do Ecliptic Express. – Eu não posso continuar...

— O que está dizendo? – ele pareceu surpreso.

— Estou dizendo que isso não é real... E que eu sei exatamente como posso acordar...

— Rebecca...

— Adeus, Billy.

Antes que Billy Coen (ou o que quer que ele fosse) pudesse fazer alguma coisa, Rebecca Chambers se jogou do trem. Durante cinco segundos ela viu a face de Billy se afastando, ainda com a chuva acertando-o. Viu a escuridão envolver o trem e a si mesma – uma escuridão quase líquida, quase palpável. E durantes aqueles cinco segundos (que poderiam ter durado uma eternidade) Rebecca Chambers pensou sobre os segredos que guardamos nos lugares mais escuros da mente, acreditando que estão a salvo. Mas isso não é, necessariamente, uma verdade absoluta.

Depois, nada.