Resident Evil: Dark Heart
9 Capítulo 9 - A noite está apenas começando
Lugar desconhecido
Rebecca abriu os olhos lentamente, e viu um teto branco.
Estava em um quarto confortável, apesar de um leve cheiro de mofo no ar. Passou as mãos pelo próprio corpo, procurando por alguma fratura (ou pela falta de alguma coisa). Mas estava tudo lá, exatamente onde deveria estar, e ela agradeceu a Deus por isso. Apalpou o spray de pimenta que sempre carregava consigo (a arma havia sumido, mas, pelo menos tinha algo com que se defender caso precisasse), e então olhou em volta. Do lado da cama havia uma escrivaninha, e sobre ela uma solitária máquina de escrever. Na parede próxima havia uma estante com frascos suspeitos e, ao lado da porta, havia um enorme e antiquado baú.
Onde estou? A última coisa da qual me lembro é...
Antes que descobrisse a resposta para aquela pergunta retórica, Rebecca ouviu passos que pareciam vir do lado de fora do quarto. Sentou-se sobre a cama, e agarrou o spray de pimenta, esperando pelo pior. Não estou sozinha aqui, pode ser amigo ou inimigo... E é mais provável que seja um inimigo, se a cartilha de sobrevivência da academia estiver certa.
Rebecca se levantou e deu dois passos na direção da porta. Deveria estar preparada para o que entrasse ali. Os passos se aproximavam, ela apontou o spray e esperou.
Alguns segundos depois uma silhueta humana entrou no quarto. Rebecca apertou o pino do spray, atirando o líquido urticante nos olhos... de Chris Redfield.
— Aww! O que é isso? – gritou Chris, fechando a porta atrás de si e esfregando os olhos.
— Chris! Por favor, me desculpe... Eu não queria acertá-lo... Eu...
O soldado, ainda com dificuldades de enxergar, fitou Rebecca. O que alguém tão jovem, quase uma criança, fazia ali, em uma mansão infestada por monstros localizada no meio do nada?
— Você deve ser do Bravo Team...
— Sim... Quer dizer... Meu nome é Rebecca Chambers.
— Meu nome é Chris Redfield, e eu sou do Alpha Team, mas parece que você já sabe disso. O que aconteceu?
Rebecca começou a lembrar-se de tudo. Não deveria estar ali – estava na Rússia, em uma missão de combate ao bioterrorismo. Depois, em um trem sob uma forte chuva, com Billy Coen. Mas, ao mesmo tempo, estava ali, na mansão de Ozwell Spencer (mansão esta que deveria ter explodido quando eles a deixaram, em outro tempo, em outra vida). O fluxo temporal estava bagunçado... Ou sua mente?
— Em que ano estamos? – perguntou Rebecca.
— 1998?
— É isso! Não era para eu estar aqui, eu já vivi isso tudo... Escute, Chris, nós precisamos de um plano para fugir desta mansão.
A forma como Chris olhou para Rebecca foi muito parecida com a qual olhamos um louco ou um animal – parecida demais com comiseração.
— Rebecca, por que não se deita um pouco? – disse ele, apontando para a cama da qual ela acabou de sair. – Você parece... Confusa. Onde estão os outros membros do Bravo Team?
— Estão todos mortos, e se continuarmos aqui, morreremos também.
***
Yerik Guggenheimer desligou o telefone e bebeu mais um gole de seu Glühwein.
Rebecca estava desaparecida. Pelo menos foi isso que reportaram (mas ele sabia um pouco mais do que aqueles soldados). Também continuariam a subir a montanha, mesmo sem o médico do grupo. Todos recebiam orientações básicas de primeiros socorros durante o treinamento, mas Yerik sabia que nada daquilo seria suficiente se eles se machucassem de verdade – e, sabendo o que aquela montanha fez com o Dr. Bernstein, havia uma grande probabilidade deles se machucarem.
Rebecca estava desaparecida para eles, não para Yerik. Os óculos que os soldados ganharam de presente para aquela missão não eram apenas um apetrecho esnobe. Eram seus olhos e seus ouvidos em campo. Ele conseguia ver e ouvir tudo o que os soldados viam (mesmo se desligados). E conseguia rastreá-los também.
E, pelos óculos de Rebecca, Yerik Guggenheimer via folhas, muitas delas. E também galhos grossos e cipós parecidos com garras. Voltando um pouco o vídeo, Yerik viu o momento em que Rebecca foi agarrada pelos cipós e erguida acima de tudo – acima de todos. Foi durante a confusão com os animais hostis, por isso ninguém percebeu.
A floresta sabia que eles estavam ali, de alguma forma sinistra. Yerik observou as folhas durante muito tempo – porque Rebecca não se mexia, não se libertava?
Voltou para a câmera de Chris. Ele e Seth desciam a montanha, procurando por Rebecca. Yerik queria ajudar, mas era melhor que eles não soubessem que eram vigiados – pelo menos por enquanto.
— Pobre Rebecca, se ficar aí pode congelar e morrer – sussurrou Yerik. – Mas os cavaleiros montados em cavalos brancos estão indo salvá-la.
Yerik levantou-se e foi até a janela. Finos flocos de neve caíam do céu.
Não ficaria no sopé da montanha por muito tempo – uma tempestade se aproximava, ele não queria ser soterrado caso houvesse um deslizamento. Tudo o que precisava era coletar informações suficientes para ter certeza que os soldados conseguiram entrar na montanha. Depois, poderia voltar para Moscou e monitorar tudo de lá, pelas conexões ainda ativas da Esfera – todos nós temos segredos.
Os outros continuavam a lenta subida da montanha.
— Espero que não sejam pegos como gafanhotos – disse ele, mesmo sem ninguém para ouvir.
O piloto estava lá fora, com o helicóptero pronto para decolar a qualquer momento. Mas Yerik Guggenheimer sentia que precisava esperar até que entrassem na montanha, e só então poderia partir.
Precisava do sucesso daquela missão para que sua cabeça permanecesse sobre os ombros – não poderia errar novamente, ou então, jamais veria o nascer do dia após a noite. Por mais que ele sentisse que aquela noite estava apenas começando.
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