Requiem: A Doença Dos Anjos
1 Requiem
Notas iniciais
Essa hitória terá um clima mais denso que as outras que eu já escrevi, a começar do fato de meu personagem principal ser homem.
Boa leitura! o/
Eu tremia.
Estava com frio, o vento gelado passava pelos buracos do manto esfarrapado e remendado que eu usava, começava a escurecer e eu perdia o sol nos borrões pretos e brancos daquele dia opaco, assim como todos os outros.
Dias vazios e solitários como aqueles açoitavam as almas daqueles que habitavam aquela terra árida e desolada, fossilizada no tempo e esquecida para sempre, uma cidade em ruínas, morta e abandonada, comida pela praga que não se cansava de atormentar a todos nós.
Requiem era uma terra cercada de muros, altos muros de pedra cobertos de musgo cinzento, a cidade da superfície havia padecido devagar, restavam apenas os antigos monumentos e prédios, e logo abaixo, estavam os vivos, que resistiam.
Os mortos sobre a terra, os vivos abaixo dela.
Uma cruel ironia, na minha opinião.
Mesmo que não estivéssemos mortos, estávamos todos inegavelmente doentes, gerações e gerações de pessoas com a mesma praga, nem sequer nos considerávamos mais humanos, mas vivíamos, nossos olhos de escleras negras e íris brancas, pálidas, e até um tanto foscas, as pupilas afiladas e finas, os cabelos negros e a pele pálida.
Uma terra branca, onde a fuligem descia do céu, como neve, e com certeza tão fria quanto, não havia água em nenhum estado dentro dos muros, tudo estava fossilizado, morto, seco, ou todos os três.
Nos céus, os anjos caçavam os vivos como aves de rapina, tinham longos braços cobertos de penas que serviam como asas, o corpo negro como que coberto de carvão, garras arroxeadas, olhos alaranjados e pupilas circulares, com uma enorme boca semicircular cheia de dentes desregulares e afiados.
No chão, os animais abatidos pela doença aviam se tornado bestas, animais escuros que não possuíam olhos, com dentes finos e espaçados, e pequenas orelhas atrofiadas, muito semelhantes a panteras, porém com muito mais baba.
Eu olhava desconsoladamente para o vazio, alternando meus olhos entre os céus cinzentos e pálidos, e o chão com pilhas amontoadas de foligem cinza-clara, fina e poeirenta.
O cheiro almiscarado da ferida em meu ventre repuxava aqui e ali, porém não haviam nada que eu pudesse fazer, uma grande ferida gangrenada estava fincara em três cortes diagonais profundos em meu estômago, e eu podia sentí-lo, a cada dia que passava, se aproximando de minha medula... E quando atingisse o meu cérebro... Eu me tornaria uma fera alada sedenta de carne e sangue, por nenhum outro motivo além de propagar a praga, pois seria esse o meu propósito.
Já haviam algumas semanas desde que esse corte havia sido feito, e ao invés de me matar, me mantiveram por perto, para que eu rastreasse os anjos pelo cheiro, e então me mantinham por perto para deixa-lo distraído, olhando pra mim.
Mas não hoje, hoje parei no meio da cidade, eles não tem por que me atacar, então fiquei lá, parado, olhando para o nada, como estou fazendo agora, aqui e ali alguns prédios desabavam, ou um chiado agudo podia ser ouvido ao fundo. Os anjos não tinham mais por que me atacar, eu já era um deles, as bestas se mantinham distantes, eu cheirava como um anjo, coisas mortas em nada interessavam às bestas.
A trilha dos meus passos na foligem fria e fofa começava a se apagar, me sentia confortável ali, não queria mais a proximidade dos outros caçadores, a presença deles me deixava inquieto, eufórico, frequentemente me exaltava em minhas conversas, e muito raramente desejava manter qualquer diálogo.
Estava voltando agora, devagar, a noite estava me deixando mais nervoso, e quanto mais próximo eu ficasse dos outros anjos, mais rápido eu me tornaria um deles, eu já não tinha mais certeza do que de fato me trazia satisfação.
Mas a cada dia que passava, eu sentia mais frio...
- Blanc!
Virei meus olhos vagamente, para o lado e para baixo, para Lindit, que corria na minha direção, se aproximando muito mais do que eu consideraria prudente, me ocorreu uma ou duas vezes a possibilidade de quebra-la em pedaços, mas eu rapidamente adiei a ideia... Por hora.
- Onde estão os outros?
- Dois estão mortos, os outros quatro estão vindo com o anjo acorrentado... Ele esta inquieto e faminto... – divaguei. – Cayde pediu a você que chamasse o carrasco. – me virei e recomecei meu trajeto até a sala de vidro, de onde eu não tinha a intenção de sair tão cedo.
- Mortos?!
A voz dela era estridente e irritante, e apitou em meus ouvidos de forma abrasiva, um tanto ácida.
- Eles estavam feridos... Daliant os deixou para trás.
- Essa decisão não cabe a ele! – ela se altera.
- Na verdade cabe, Lindit. E como uma subalterna, eu sugiro você a se calar e fazer como lhe é dito, pois nada mais lhe cabe além da obediência, e eu sinceramente prefiro assim.
- Somos muito poucos, Blanc! Não podemos nos abandonar assim!
- Agradeça por seu irmão ser tão ágil sob pressão, ou estariam todos mortos. Além do que, aqueles homens já estavam mortos, a doença já os invadiu e em breve eles serão feras aladas também, assim como eu serei, muito em breve.
- Blanc!
A cada dia que passava, meu corpo e minha cabeça reagiam menos ao estimulo externo, a expressão atormentada dela mal chegou em meu subconsciente, mas eu não conseguia me fazer prestar atenção em nada do que ela dizia, simplesmente era insípido, como toda aquela existência.
Por um momento ansiei em ser tragado de uma vez pela epidemia, mas logo essa sensação foi superada, por um rápido fulgor consciência, que logo se dissipou também, e eu voltei a oscilar entre o meus próprios pensamentos e os sons externos na sala, estímulos pequenos que prendiam muito mais minha atenção como coletivo do que como esferas pontuais de assunto, e quando a voz de Lindit se tornou apenas mais uma delas, eu sai sem dizer mais nada, o estardalhaço de Daliant e os outros logo se espalhou pela sala, o anjo estava inquieto e parecia estar a poucos passos de morder ou arranhar alguém.
- BLANC! VOLTE AQUI!
A voz de Daliant atravessou os túneis até mim, eu estaquei meus passos no corredor, sendo puxado de volta até o salão comum, eu não poderia contradizer as ordens diretas do meu Harin, ainda que a escala de hierárquica começasse a se bagunçar um pouco em minha cabeça.
Nizz estava com um dos pés nas vértebras do anjo, puxando os braços cobertos de penas para trás, amarrados em correntes, que chiavam enquanto a cera vermelha entrava em contato com a pele, o anjo se torcia e tentava mordê-lo, mas Nizz impedia que seus dentes alcançassem sua perna torcendo mais as asas negras para trás.
Cayde e Daliant puxavam o pacote representado Nizz e o anjo pelo pescoço, e pelas pernas. O carrasco passou por mim, arrastando o enorme machado sujo pelo chão de cascalhos.
Eu e o anjo trocamos olhares, ele parou vagamente de se mexer para olhar na minha direção, ele havia visto o meu rosto e agora todos os anjos sabiam, eu era o próximo a se juntar a eles, ficamos ambos em silêncio.
Aqueles ao meu redor se afastaram um pouco, eu e anjo nos encarávamos, Nizz o mantinha no lugar, uma urna era depositava no fim de uma calha presa a uma pedra.
Sussurros ao redor falavam de mim, o machado subia... As pessoas se perguntavam se estávamos conversando, se eu era perigoso, o machado descia... Silêncio.
Um choro reprimido na multidão, um marido morto...
Eu gostaria muito...
De sentir alguma coisa...
A respeito disso...
Mas...
Não consigo...
O sangue escuro escorria pela calha, até a urna desenhada logo à frente... Era deprimente, a vida em Requiem... A vida daquelas pessoas... E eu só conseguia me focar o bastante...
Para imaginar...
A vida fora daqui...
Sai da sala, me dirigindo a sala de vidro, arfando, o cheiro de morte estava me enjoando profundamente... Morte de alguém que logo eu chamaria de semelhante...
Os olhos de Daliant me seguiram para fora da sala.
- Hish na darten guirdkai... – Logo eu estarei com vocês...
Eu pensava de forma confusa as palavras se atrapalhavam a caminho da minha boca. O ar pesava tanto, os sons estavam abafados, perdi, por um momento, a noção do que estava dizendo, como estava dizendo... Para quem estava dizendo.
Por mais que eu soubesse que primeiro anjo estivesse me observando, naquele momento e em todos os outros que se seguiam, sempre, apenas me esperando enlouquecer... Mas ele não faria mais do que observar, do alto de seu pedestal.
Sentei no chão de vidro, encostando na parede e olhando o grande queimado negro por dentro da blusa, ao redor das marcas de arranhão, eles não me doíam, na verdade, amorteciam minhas noções de realidade.
- Já fala a língua dos anjos, Blanc?
- Na... – Eu...
O que eu estava fazendo...?
- Eu não sei mais Daliant.
Silêncio.
- Vá ver essa infecção, Nina deve conseguir evitar que ela se alastre rápido.
- Mas eu não sinto dor.
- Você não serve de nada morto, Blanc.
- ...Certo... Irei visita-la assim que esse torpor pós-caça passar. Ela deve estar ocupada agora.
- Não se esqueça, Blanc. Viva o máximo que puder, você não me serve de nada do lado do inimigo.
- Lembrarei disso, Daliant, pode deixar.
- Não importa. Eu estarei aqui para lembra-lo. E pare de falar na língua deles, se você ficar falando assim vai acabar se envenenando mais rápido.
Uma peça agora... Talvez mais no futuro... Talvez...
Um anjo...
Notas finais
Bem, primeiramente a história tem um começo trágico, aos que conseguirem chegar aonde eu espero.
Boa leitura! :3
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