Requiem: A Doença Dos Anjos
2 Capítulo 2
Sentado na sala comum, eu via as crianças correndo para os túneis, e um apito agudo que permanecia insistente em meus ouvidos começava a me incomodar, olhei ao redor, em silêncio, agora era noite alta, e poucas pessoas continuavam despertar, alguns guardas, três ou quatro homens e mulheres indo na direção do túnel que levava a sala onde todos dormiam.
Em Requiem, havia muito pouca privacidade, não haviam portas e os objetos eram coletivos, mas as pessoas tinham coisas mais importantes a se preocupar, um parente ou amigo perdido para a praga, que agora voava sobre sua cabeça, muitos e muitos metros acima, no céu sem lua.
Coisas como espaço pessoal, eram conceitos que só conhecíamos pelas histórias que nos contavam sobre a vida antes da praga.
Eu observava Lindit e Daliant conversando, ambos pareciam exaltados. Eu supunha que fosse por conta das mortes que tivemos hoje, Lindit tinha a mania idealista de acreditar que tudo devia ser feito da forma mais correta possível, acima de qualquer consequência, e Daliant acreditava que devia manter a maioria a salvo, trocando a saúde de um, pela da maioria.
Meus olhos vagaram impassíveis por entre os dois, para a parede ao fundo, Daliant desferiu um tapa no rosto dela, e os olhos dela marejaram de lágrimas escuras, azuladas, ela saiu sem dizer mais nada.
Eu o vi dar algumas voltas, irritadiço, até olhar na minha direção, nossos olhares não se cruzaram, pois não era para ele que eu olhava, era atrás dele, a parede de raízes e pedra, ele me olhou com certa decepção, e então sumiu pelos túneis.
Acredito que eu fosse realmente o retrato de um futuro trágico.
Sai pelos túneis e fui encontrar Nina, pedir a ela, que, como de costume, limpasse minhas feridas, untasse-as com cera vermelha, que doía como.... Como nada que este mundo estava pronto para descrever.
- Deite-se, Blanc.
A sala médica de Requiem, encontrava-se no mesmo salão onde se faziam os tecidos, quando eu fui atado à maca, me perguntei se já não era hora de fazer um manto novo.
Nina espalhava a cera vermelha pela ferida aberta em meu peito, um grito atormentado rasgou minha garganta, nunca entendemos exatamente o motivo que tornava a cera vermelha tão tóxica para os anjos, mas fazíamos uso dela o máximo que podíamos, derretíamos e mergulhávamos as armas, amuletos, e algumas paredes, além do portão que interligava o subsolo com a superfície.
Não que o primeiro anjo tivesse tentado invadir de qualquer maneira, mas prevenções nunca eram demais.
Quando eu era criança, muitos séculos atrás, eu me perguntava por que não colocávamos as paredes abaixo, simplesmente. Só depois eu entendi que as paredes eram muito altas, se as colocássemos no chão, poderíamos nos machucar, ou até mesmo derrubar os prédios e soterrar a cidade subterrânea.
Acho que meus gritos ecoaram pelos túneis, pois em pouco tempo, algumas pessoas observavam pelas portas do salão... Devia estar muito mal, pois me olhavam numa mistura de piedade e medo.
Lindit e Daliant estavam parados entre os meus espectadores, Lindit não pode olhar por muito tempo, sumiu por um dos túneis, parecia estar chorando, Daliant continuava lá, e parecia estar repleto de algum tipo de culpa.
Quando Nina terminou, e parou, por consequência, de despejar cera vermelha quente nos meus cortes, eu me sentia gelado, meu rosto estava molhado com lágrimas mornas, e meus pulsos e pernas pareciam estar esfolados, acredito que eu tenha tentado me soltar.
Ela não me soltou de imeditado.
- Blanc? Ainda está comigo?
- Dor... Dor em cada nervo do meu corpo...
- Ainda está vivo, muito bom.
Ela me soltou, eu permaneci deitado, podia dizer que “vivo” não era a melhor palavra para definir o meu estado. Somente quando ela saiu eu me sentei, minhas mãos tremiam, meus olhos já haviam secado eu me sentia atordoado, algo quente escorreu entre os meus olhos.
Com os dedos detive a gota morna, afastando os dedos para olhá-la melhor, a cicatriz em meu rosto estava sangrando novamente.
Quando era criança, eu sai sozinho, e fui atacado por uma besta, que arranhou o meu rosto, três talhos paralelos, sobre a minha pálpebra, mas sem me cegar, tive que levar uma série de pontos, só não morri por que um anjo passou sobre nós, e a besta fugiu, o anjo não tinha interesse em mim, eles não tem interesse em crianças, não seriam úteis como guerreiros.
Ainda tenho as cicatrizes... E as lembranças.
De certa forma, o anjo salvou a minha vida, mas talvez eu só pense isso por que logo serei um deles... Quem sabe, não preste atenção.
Meu sangue ficava mais a mais opaco, me via refletido nele, o meu sangue e o de todos os outros caçadores é prateado, reflexivo como um espelho, eu quase não conseguia mais me enxergar, conforme eu ia morrendo, meu sangue ia perdendo a cor original, para se tornar preto, escuro e opaco, tão sem vida quando o restante de mim...
Uma piada irônica da biologia da minha maldição.
Mas aqui estou eu divagando de novo... É chato, eu sei, me desculpem por isso.
Sai pelo corredor, e então pelo portão, me deparando com o mundo gelado e cheio de fuligem cinza que era Requiem.
Os anjos voavam entre o topo dos prédios em ruínas, as bestas se afastavam de mim, e eu caminhava aleatoriamente, tudo era empoeirado e vazio, um pedaço ou outro das construções desabava, tudo parecia muito corroído pelo tempo.
Me sentei numa pedra, as nuances de preto e branco me incomodavam, assim como o cheiro constante de queimado, foi quando vários anjos pousaram ao meu redor,
Um deles parecia mais jovem, aparentava uns 17 anos humanos, eu acho... Perdi parte da minha capacidade de conversão com a doença, mas eu sabia quem era...
- Primeiro anjo...
- Lavesh. – Caçador.
Depois disso... Eu não me lembro, parece tão longe de onde estou agora... Creio que começamos a conversar.
- Você é Nero, o primeiro anjo?
- Hef. Saith'er na. – Sim. Sou eu.
Estava febril, o frio começava a abater o meu corpo fragilizado... E a figura que resumia Requiem nesses tempos de epidemia me olhava com calma, a poucos metroos de mim.
Cheirando a morte e inverno...
Notas finais
Então, eu sei que essa história toda é muito confusa e bla blá blá, mas vocês vão gostar :D (ou n... sei lá)
Me digam o que acharam C:
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