Renascido como um Tonks
6 6 - Companhia para pegar um traidor.
POV de Hermione Granger
Sirius Tonks era irritante.
Essa era, naquele momento, a conclusão mais racional possível.
Irritante, brilhante, cuidadoso e completamente impossível de ignorar.
Ele tinha acabado de me pedir ajuda para algo que, segundo ele, salvaria uma vida e prenderia um vilão. Depois, como se isso não fosse suficiente para destruir qualquer chance de concentração que eu ainda tivesse, decidiu que seria melhor deixar o plano para sexta-feira em vez de amanhã.
Porque minha quinta-feira já estava cheia demais.
Porque eu precisava descansar.
Porque ele percebeu, antes mesmo de eu admitir, que minha agenda com o Vira-Tempo estava começando a pesar.
E isso era injusto.
Não injusto de um jeito ruim. Injusto porque tornava muito difícil ficar brava com ele por guardar segredos quando, ao mesmo tempo, ele parecia mais preocupado com a minha saúde do que com o próprio plano.
— Agora preciso que você me prometa que tudo que eu te contar e tudo que você vir ficará em segredo até que eu peça o contrário — Sirius disse, sentado à minha frente na mesa afastada da biblioteca. — Isso é muito importante, Hermione. Mesmo Harry e Rony não podem saber ainda.
Eu respirei fundo.
Parte de mim queria perguntar tudo de uma vez. Outra parte queria lembrá-lo que esconder coisas de Harry raramente acabava bem. Mas Sirius não parecia estar brincando. Havia uma seriedade no rosto dele que eu já tinha aprendido a reconhecer.
Era o rosto que ele usava quando estava três passos à frente de todo mundo.
— Está bem — respondi. — Eu prometo.
Ele assentiu, satisfeito.
— Perfeito. Então deixa eu explicar o que faremos na sexta-feira. Assim que a aula de Defesa Contra as Artes das Trevas com o professor Lupin terminar, vamos dizer para Harry e Rony que vamos à biblioteca estudar antes do almoço.
— Eles nunca iriam conosco mesmo — murmurei.
— Exatamente. Depois vamos para uma sala vazia que você vai verificar antes da aula, usamos o Vira-Tempo e voltamos uma hora. Eu já peguei a capa de invisibilidade do Harry emprestada.
Eu o encarei.
— Você pegou a capa de invisibilidade do Harry?
— Pedi emprestada.
— Harry sabe para quê?
— Ele sabe que é importante.
— Isso não respondeu à minha pergunta.
Sirius sorriu.
Aquele sorriso era um problema.
Não porque fosse debochado. Não exatamente. Era pior. Era o tipo de sorriso de alguém que sabia que estava sendo irritante e, mesmo assim, conseguia parecer charmoso demais para o próprio bem.
Eu senti meu rosto aquecer e odiei isso com uma intensidade completamente desproporcional.
— Entendi — falei, tentando manter a voz firme. — O vilão que você mencionou é seu primo, não é? Sirius Black. Mas não é perigoso apenas nós dois irmos atrás dele?
A expressão de Sirius mudou por um instante.
Algo rápido. Quase imperceptível.
— Não é Sirius Black.
Eu pisquei.
— Não é?
— Não.
— Então quem...
— Vou deixar o suspense.
Eu o encarei em silêncio.
Ele continuou sorrindo.
— Você vai saber na sexta-feira. E, quando souber, vai ficar chocada. Até lá, foque em descansar quando puder.
Eu realmente quis bater nele.
Não com força suficiente para machucar, claro.
Talvez.
— Você vai mesmo me deixar curiosa até sexta-feira?
— Sim.
— Não pode me dizer pelo menos o que vamos fazer?
Ele não disse nada.
Apenas continuou com aquele sorriso bonito e absolutamente insuportável.
Merlin, eu queria socá-lo.
E talvez isso fosse o mais preocupante: querer socar alguém e, ao mesmo tempo, admirar o sorriso dessa pessoa não parecia uma resposta emocional muito organizada.
— Certo — eu disse, juntando meus livros com mais força do que o necessário. — Não vou insistir. Vou fazer meus deveres, porque, ao contrário de vocês, eu tenho muito mais matérias.
— Hermione...
— E encontro você daqui a uma hora para a aula de Oclumência.
Ele pareceu prestes a rir, mas teve o bom senso de não fazer isso.
— Descanse um pouco antes.
— Vou considerar.
Era mentira.
Nós dois sabíamos.
Mesmo assim, ele não discutiu. Apenas me observou por um instante com aquela preocupação calma que me deixava desconfortável demais para continuar olhando diretamente para ele.
Levantei-me.
— Até mais tarde, Sirius.
— Até mais tarde, Hermione.
Saí da biblioteca tentando organizar meus pensamentos.
Falhei completamente.
Porque, aparentemente, ódio e admiração eram sentimentos muito mais próximos do que os livros costumavam admitir.
E Sirius Tonks era a pessoa mais irritante, brilhante e impossível que eu já conheci.
Fim do POV de Hermione Granger
Assim que Hermione desapareceu entre as estantes, Sirius permaneceu sentado por alguns segundos.
Ela estava brava.
Curiosa, cansada, corada e brava.
Sirius apoiou o cotovelo na mesa e massageou a testa.
— Você precisa descansar, Hermione — murmurou para si mesmo.
Ela já parecia exausta no primeiro dia de aula. Não apenas cansada. Havia um brilho febril em seu rosto, uma tensão constante nos ombros, um esforço permanente para parecer no controle. Sirius sabia que o Vira-Tempo era uma ferramenta poderosa, mas também sabia que poder raramente vinha sem custo.
Hermione estava tentando viver mais horas do que o corpo dela podia suportar.
E, se ninguém a puxasse de volta, ela tentaria vencer a própria biologia por pura teimosia acadêmica.
Sirius suspirou, levantou-se e deixou a biblioteca.
Ainda havia outro preparativo a fazer.
Do bolso interno das vestes, tirou uma pequena bússola alquímica. À primeira vista, parecia comum, feita de metal escuro e vidro polido. Mas, no lugar dos pontos cardeais, havia pequenos círculos gravados na borda, cada um com uma runa minúscula.
Ele havia criado cinco daquelas no segundo ano.
A ideia surgira por pura irritação.
Desde o primeiro ano, Sirius tinha um acordo com Fred e Jorge Weasley: um galeão por empréstimo do Mapa do Maroto. O problema nunca fora pagar. O problema era encontrar os dois quando precisava deles. Os gêmeos tinham uma capacidade quase sobrenatural de estar exatamente onde não deveriam estar.
Então Sirius criou uma solução.
Com um fio de cabelo, a bússola registrava uma pessoa. Depois disso, a agulha sempre apontava para o alvo escolhido, desde que ele estivesse dentro de um raio razoável e não protegido por barreiras específicas.
Uma bússola para Harry.
Uma para Hermione.
Uma para Rony.
Uma para Fred.
Uma para Jorge.
Os gêmeos, naturalmente, ficaram encantados ao descobrir que tinham sido transformados em alvos rastreáveis. Depois tentaram cobrar direitos autorais.
Sirius ainda ria disso às vezes.
Naquele dia, a agulha o guiou por corredores, escadas móveis e passagens laterais até uma área menos movimentada do castelo. Quinze minutos depois, encontrou Fred e Jorge tentando armar algum tipo de peça para veteranos da Sonserina.
Pelo cheiro acre, pela fumaça roxa e pela expressão concentrada dos dois, Sirius preferiu não perguntar detalhes.
— Fred — chamou ele.
Um dos ruivos virou-se imediatamente.
— Eu sou o George.
Sirius jogou um galeão em sua direção.
O garoto pegou a moeda no ar com um sorriso.
— Mas é sempre um prazer fazer negócios com você, meu caro Sirius.
— Claro, Fred. Na sua cabeça, você pode ser o George. Mas eu sei quem você é.
O outro gêmeo riu, encostado na parede.
— Eu disse que não funcionava mais. Desde o ano passado perdeu a graça tentar essa com ele.
Fred fez uma careta.
— Um dia ele vai errar.
— Não vou — Sirius disse.
George tirou um pergaminho dobrado de dentro das vestes e o entregou.
— Aqui está, caro cliente. Entrega até sábado?
— Sábado — Sirius confirmou. — E obrigado.
Fred olhou para a bússola na mão dele.
— Ainda acho ofensivo você nos rastrear como criaturas mágicas.
— Eu pago bem.
— Ofensa perdoada.
— Continuem com sua... tarefa — Sirius disse, olhando para o pequeno pacote fumegante nas mãos de George.
— Diversão educativa — George corrigiu.
— Claro. Até amanhã.
Sirius guardou o Mapa do Maroto e saiu antes que qualquer sonserino aparecesse coberto de penas, tinta ou algo pior.
No fim da tarde, às cinco e quinze, ele se encontrou novamente com Harry, Rony e Hermione. Os quatro ocuparam uma sala vazia antes do jantar para a primeira aula de Oclumência em grupo.
Harry já conhecia os exercícios básicos, mas ainda tinha dificuldade em manter a raiva separada da memória. Hermione absorvia a teoria com rapidez, como esperado, mas se frustrava quando percebia que a prática exigia menos raciocínio e mais controle emocional. Rony reclamou nos primeiros dez minutos, depois ficou quieto ao descobrir que “não pensar em nada” era muito mais difícil do que imaginava.
Sirius não empurrou demais.
Aquela primeira aula era só para plantar a base.
Respiração.
Foco.
Organização mental.
Escolher uma lembrança simples e mantê-la intacta.
Reconhecer emoções sem ser arrastado por elas.
Quando terminaram, todos estavam cansados de um jeito diferente. Harry parecia pensativo. Hermione, irritada consigo mesma por não dominar imediatamente algo novo. Rony, surpreso por ter suado sentado em uma cadeira.
Depois se lavaram, trocaram de roupa e foram jantar.
Assim terminou o primeiro dia de aulas.
A manhã de sexta-feira começou com Transfiguração.
A professora McGonagall conduziu a aula com a mesma precisão severa de sempre, e Sirius percebeu que Hermione, apesar de ter descansado um pouco mais, ainda parecia dividida entre prestar atenção, anotar tudo e antecipar o plano que viria depois.
A aula seguinte seria Defesa Contra as Artes das Trevas com o novo professor, Remo Lupin.
No caminho até a sala, Hermione parou de repente.
Harry quase esbarrou nela.
— Hermione?
Ela olhou para uma das muitas salas abandonadas do corredor, abriu a porta, espiou por dois segundos, fechou novamente e voltou para o grupo como se nada tivesse acontecido.
Rony franziu a testa.
— O que foi isso?
— Nada — respondeu Hermione. — Achei que tinha ouvido alguma coisa.
Sirius encontrou os olhos dela por um instante.
E entendeu.
Ela estava verificando se a sala estaria vazia quando voltassem no tempo.
Um cuidado simples.
Óbvio, depois que se pensava nele.
Mas Sirius não havia pensado.
Hermione, sim.
Ele sentiu uma pontada de admiração silenciosa. Ela não era apenas inteligente. Era meticulosa sob pressão. O tipo de pessoa que, diante de uma ferramenta capaz de quebrar o tempo, lembrava primeiro de evitar o erro mais banal: voltar para um lugar onde alguém pudesse ver dois deles.
— Vocês ouviram algo? — Rony perguntou, olhando para Harry e Sirius.
Harry balançou a cabeça.
Sirius também.
— Acho que você anda estudando demais, Hermione — Rony disse. — Já está começando a ouvir coisas.
Hermione lançou a ele um olhar que teria feito um aluno mais sábio se calar.
Rony, infelizmente, não era esse aluno.
A aula de Defesa começou logo depois.
Professor Lupin parecia frágil, mas sua voz tinha uma calma que segurava a atenção da sala. Quando explicou sobre o Bicho-papão, muitos alunos ficaram excitados com a ideia de enfrentar uma criatura que assumia a forma de seus maiores medos.
Sirius ficou atento.
No cânone, Harry teria visto um Dementador.
Dessa vez, não.
Quando chegou a vez dele, o armário sacudiu, a porta se abriu, e um enorme Basilisco deslizou para fora. O corpo da serpente ocupou boa parte da sala, as escamas brilhando em um verde doentio. Alguns alunos gritaram e recuaram.
Harry ficou pálido.
Mas não travou.
Ergueu a varinha.
— Riddikulus!
O Basilisco se encolheu de repente. Suas escamas ficaram rosa-choque, o corpo se enrolou em espiral como uma mola ridícula, e a língua bifurcada começou a apitar como uma chaleira.
A sala explodiu em risadas.
Lupin observou Harry com atenção.
Sirius também.
Aquilo era progresso.
Quando chegou a vez de Sirius Tonks, o Bicho-papão se transformou em algo disforme.
Não era uma criatura clara.
Não tinha rosto fixo.
Era uma massa de possibilidades erradas: sombras, sangue, corpos que podiam ser sua família ou seus amigos, futuros quebrados demais para terem uma única forma.
A sala ficou estranhamente silenciosa.
Sirius olhou para Lupin.
Por um segundo, os dois sustentaram o olhar um do outro.
Então Sirius ergueu a varinha.
— Riddikulus.
A massa escura se contraiu, perdeu textura e virou um ovo gigante, mole, rachado e escorrendo pelo chão como se tivesse sido cozido errado por um trasgo.
As risadas voltaram, embora um pouco hesitantes.
Sirius simplesmente foi para o fim da fila.
Lupin pareceu querer chamá-lo. Abriu a boca, fechou novamente e continuou a aula. Havia perguntas ali, mas não naquele momento. Não diante de Harry, Rony e Hermione.
Quando a aula terminou, Sirius não deu tempo para a conversa se formar.
— Hermione e eu vamos à biblioteca estudar um pouco antes do almoço.
Rony imediatamente levantou as mãos.
— Divirtam-se. Tenho... coisas muito importantes para fazer.
— Que coisas? — Hermione perguntou.
— Coisas.
Harry olhou para Sirius, depois para Hermione.
— Eu vou com Rony.
Era uma mentira gentil. Harry sabia que havia algo acontecendo. Mas também sabia, depois das últimas semanas, que Sirius contaria quando pudesse.
Sirius agradeceu com um leve aceno.
Ele e Hermione seguiram pelo corredor e entraram na sala abandonada que ela havia verificado antes da aula.
Assim que a porta se fechou, Sirius lançou um feitiço simples de tranca e um abafador leve.
— Se eu não estou enganado — disse ele —, mais cedo você verificou se esta sala estaria vazia quando voltássemos no tempo.
Hermione pareceu surpresa por um instante.
Depois ergueu o queixo.
— Sim. Precisávamos garantir que ninguém estaria aqui. Se voltássemos para uma sala ocupada, poderíamos causar um paradoxo ou, no mínimo, sermos vistos.
— Foi bem pensado.
Ela corou.
— É normal. Eu já usei o Vira-Tempo antes.
— Não deixa de ser admirável.
O rubor dela aumentou.
— Obrigada.
Sirius decidiu não prolongar o elogio. Hermione já estava nervosa o bastante.
Ela puxou o Vira-Tempo de dentro das vestes. A pequena ampulheta dourada brilhava discretamente, presa à corrente fina em seu pescoço.
— Aproxime-se.
Sirius obedeceu.
Hermione passou a corrente ao redor dos dois, respirou fundo e girou a ampulheta.
O mundo se retorceu.
Por um instante, tudo virou movimento, luz e pressão. O chão pareceu desaparecer sob os pés deles. Sons se inverteram, sombras se arrastaram pelas paredes, e então, tão rápido quanto começara, o puxão terminou.
Eles estavam na mesma sala.
Uma hora antes.
Sirius se moveu imediatamente.
Puxou a capa de invisibilidade de Harry e cobriu os dois.
— Agora esperamos seu sinal.
Hermione assentiu, muito séria.
Alguns minutos depois, a porta se abriu.
A Hermione do passado apareceu, olhou para dentro por dois segundos, verificando a sala vazia, e então fechou a porta.
A Hermione sob a capa soltou o ar devagar.
— Podemos ir.
— Bom trabalho — Sirius sussurrou.
Eles saíram com cuidado.
O caminho até a Torre da Grifinória exigiu paciência. Sirius conhecia bem os horários dos corredores, mas Hogwarts sempre tinha um aluno atrasado, um fantasma entediado ou uma armadura inconveniente pronta para complicar as coisas.
Mesmo assim, chegaram sem serem vistos.
A Mulher Gorda ainda estava no retrato, cantarolando baixinho.
Sirius deu a senha.
A passagem se abriu.
Assim que entraram na sala comunal, Sirius fez sinal para Hermione permanecer sob a capa.
— Espere aqui alguns minutos. Preciso ir ao dormitório masculino pegar uma coisa.
Hermione estreitou os olhos.
— Que coisa?
— O vilão.
Ela ficou imóvel.
— Sirius...
— Confie em mim.
Ele lançou um Feitiço da Desilusão sobre si mesmo e subiu as escadas. No corredor do dormitório, abriu discretamente o Mapa do Maroto.
Seu olhar percorreu os nomes.
Ronald Weasley não estava ali.
Harry Potter não estava ali.
Pedro Pettigrew estava.
No dormitório.
Exatamente onde deveria estar.
Sirius fechou o mapa.
Poderia entrar invisível. Seria mais seguro contra olhos humanos. Mas não contra um rato paranoico que vivia há doze anos fugindo da morte. Se a porta abrisse sozinha, Pettigrew poderia se desesperar. Poderia tentar correr. Poderia fazer algo imprevisível.
Então Sirius desfez o Feitiço da Desilusão antes de abrir a porta.
Entrou normalmente.
O rato velho, gordo e cinzento sobre a cama de Rony ergueu a cabeça.
Por um instante, seus olhos pequenos fixaram-se em Sirius.
Depois, ao reconhecer apenas um colega de dormitório de seu “dono”, relaxou.
Erro fatal.
Sirius fingiu procurar algo em seu próprio malão.
— Rony disse que me devolveu meu conjunto de Snap Explosivo — murmurou, baixo o bastante para parecer falando consigo mesmo. — Mas eu não estou achando.
Ele abriu uma gaveta.
Mexeu em alguns livros.
Deu a Pettigrew tempo suficiente para acreditar na cena.
Então caminhou casualmente até a cama de Rony.
— Talvez ele tenha deixado por aqui...
Quando chegou a menos de um metro do rato, lançou o mesmo feitiço de sono que havia usado em Sirius Black.
Perebas desabou imediatamente.
Sirius não perdeu tempo.
Pegou o rato adormecido com cuidado e colocou uma pequena coleira de ferro ao redor de seu pescoço. Não havia magia nela. Esse era justamente o ponto. Uma contenção física, simples, brutalmente eficiente.
Se Pettigrew tentasse voltar à forma humana, a coleira o decapitaria antes que a transformação se completasse.
Sirius não sentiu pena.
Pedro Pettigrew havia usado a aparência de algo inofensivo por doze anos. Sirius não lhe daria uma única chance de transformar fragilidade em fuga.
Do bolso, tirou uma bolinha de gude.
Colocou-a sobre a cama de Rony.
Com um movimento preciso da varinha, desfez a transfiguração.
A bolinha voltou à forma original: um rato velho, gordo, cinzento, com pelos irregulares e um dedo faltando. Uma cópia preparada com cuidado para ocupar o lugar de Perebas até que ninguém mais precisasse fingir.
Sirius observou a substituição por um segundo.
Boa o bastante.
Então transfigurou parte de sua própria roupa de cama em uma pequena gaiola de aço, colocou Pettigrew dentro e lançou Feitiços de Desilusão sobre si e sobre a gaiola.
Saiu do dormitório sem pressa.
Hermione ainda o esperava na sala comunal, invisível sob a capa. Quando Sirius se aproximou, sussurrou:
— Encontre-me perto do Salgueiro Lutador em quinze minutos.
— O quê? Por que...
— Quinze minutos.
Ele não esperou a resposta.
Saiu pelo buraco do retrato carregando a gaiola invisível.
Hermione o seguiu.
Ele podia ouvir os passos leves dela de tempos em tempos, cuidadosos sobre a pedra. Ela era boa, mas não tanto quanto pensava. Ainda assim, para alguém que nunca fora treinada em furtividade, estava indo muito bem.
Quando chegou às proximidades do Salgueiro Lutador, Sirius desfez o Feitiço da Desilusão sobre si mesmo.
Pouco depois, Hermione apareceu, puxando a capa de invisibilidade para fora do rosto. Estava ofegante e claramente irritada.
— Por que você fez a gente vir para cá? E por que você estava carregando...
Sirius se aproximou rapidamente e os cobriu novamente com a capa.
— Agora não.
— Sirius...
Ele ergueu a varinha na direção do Salgueiro Lutador.
— Immobulus.
O feitiço atingiu a árvore.
Os galhos violentos, que balançavam de forma ameaçadora, ficaram imóveis no ar como se o tempo tivesse parado apenas para eles.
Hermione arregalou os olhos.
— Você sabe imobilizar o Salgueiro Lutador?
— Sei o suficiente.
Antes que ela pudesse exigir uma explicação melhor, Sirius pegou sua mão e a guiou até a abertura escondida entre as raízes.
Hermione ficou tensa ao sentir os dedos dele envolvendo os seus, mas não resistiu. Não havia tempo para constrangimento. Pelo menos era isso que ela parecia dizer a si mesma.
Entraram na passagem.
Assim que estavam protegidos pela escuridão do túnel, Sirius removeu a capa de invisibilidade e soltou a mão dela.
— Desculpa por não explicar antes — disse, já seguindo pelo caminho estreito. — Precisávamos ser rápidos. Quanto menos tempo perto do Salgueiro, menor a chance de alguém ver a passagem.
Hermione estava vermelha.
Talvez pela pressa.
Talvez não.
Ela olhou para a gaiola em sua mão, parcialmente visível agora que o feitiço fora desfeito.
— Tudo bem. Mas por que você está com Perebas?
Sirius levantou a gaiola.
O rato dormia profundamente, a coleira de ferro firme ao redor do pescoço minúsculo.
— Ele vai nos ajudar a salvar um inocente e levar um traidor à justiça.
Hermione olhou para o rato.
Depois para Sirius.
A compreensão ainda não veio.
Mas o desconforto, sim.
— Sirius... o que Perebas tem a ver com isso?
— Eu explico quando chegarmos à Casa dos Gritos.
— Casa dos Gritos?
— Sim.
Ela parou por um instante.
— Você percebe que cada resposta sua piora a situação?
— Percebo.
— E ainda assim continua.
— Também percebo.
Hermione respirou fundo, como se estivesse contando até dez mentalmente.
— Certo. Continue.
Sirius começou a andar pelo túnel.
— Cuidado onde pisa. Essa trilha é bem acidentada.
Hermione o seguiu, segurando a varinha com força.
Atrás deles, Hogwarts continuava vivendo uma hora que eles já haviam abandonado.
À frente, na escuridão da passagem, Pedro Pettigrew dormia dentro de uma gaiola.
E, pela primeira vez em doze anos, o rato estava sendo levado não para mais um esconderijo, mas para o começo do próprio julgamento.
"Harry Potter e Stargate são propriedades de seus respectivos donos. Esta é uma obra de ficção feita por fã, sem fins lucrativos."
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