Renascido como um Tonks

4 4 - Viagem de Trem e primeiro dia do 3º ano.


Assim que deixou a pequena casa onde Sirius Black ficaria escondido, Sirius Tonks não voltou direto para Londres.

Ninfadora caminhava ao lado dele em silêncio, algo raro o bastante para que o próprio Sirius soubesse que a irmã estava perturbada. Ela só falava quando precisava perguntar algo prático: onde seriam deixadas as chaves, quais feitiços protegiam a casa, com que frequência deveria visitá-lo, o que fazer se Black entrasse em pânico.

Sirius respondeu a tudo com calma.

Calma demais, talvez.

Quando estavam longe o bastante da casa, ele parou e olhou para a irmã.

— No primeiro sábado depois do início das aulas, você vai me encontrar na Casa dos Gritos.

Ninfadora virou-se para ele devagar.

— Eu vou fingir que você não acabou de dizer “Casa dos Gritos” com a naturalidade de quem marca chá da tarde.

— É o melhor ponto de transição entre Hogwarts e Hogsmeade sem envolver portões, aurores ou olhos curiosos.

— Claro. Porque isso melhora muito.

Sirius ignorou o sarcasmo.

— Até lá, preciso que você visite o primo Sirius pelo menos uma vez por semana. Leve comida, poções básicas, jornais, qualquer coisa que o ajude a se lembrar de que o mundo ainda existe fora de Azkaban.

A expressão de Ninfadora suavizou.

— Ele pareceu quebrado.

— Ele está quebrado — Sirius respondeu. — A diferença é que agora temos tempo para impedir que ele use os próprios cacos como arma contra si mesmo.

Ninfadora não respondeu.

Pouco depois, Sirius a levou até uma segunda propriedade alugada. Diferente da primeira, esta era ainda mais isolada. A casa parecia comum por fora, mas o porão havia sido reforçado com feitiços de contenção, barreiras de isolamento, travas físicas e encantamentos que impediam aparatação.

Ninfadora desceu os degraus estreitos atrás do irmão e parou ao ver as correntes presas à parede.

No centro do porão havia uma cadeira pesada, reforçada. Ao lado, sobre uma mesa, repousavam algemas alquímicas e uma coleira de metal encantado.

— Sirius — ela disse, a voz perdendo qualquer traço de brincadeira. — Isso é para Pettigrew?

— Sim.

— Você preparou uma cela.

— Preparei um lugar onde ele não possa fugir, usar magia, se transformar ou cortar outro pedaço do próprio corpo para fingir que morreu.

Ninfadora engoliu seco.

A auror em treinamento dentro dela aprovava a preparação. A irmã mais velha dentro dela odiava que um garoto de treze anos tivesse pensado em tudo aquilo.

— Ele ficará preso pelo pescoço?

— Se eu deixar apenas mãos e pés, ele ainda pode tentar alguma coisa. Pedro Pettigrew sobreviveu doze anos fingindo ser um rato. Não vou subestimá-lo por parecer patético.

Ninfadora olhou para o irmão por alguns segundos.

— Às vezes eu esqueço que você tem treze anos.

— Eu também.

A resposta saiu baixa demais para ser uma piada.

Ela não insistiu.

Nas semanas seguintes, a vida de Sirius Tonks entrou em uma rotina estranha, quase militar.

Pela manhã, depois do café, ele ia ao Caldeirão Furado encontrar Harry. O treinamento de Oclumência começou de forma simples: respiração, foco, controle de lembranças superficiais, exercícios para separar emoção de reação. Harry não aprendeu rápido de um jeito bonito. Ele se irritava, falhava, perdia a paciência e saía das sessões com dor de cabeça.

Mas voltava no dia seguinte.

Sempre voltava.

Sirius não era gentil no treino, mas também não era cruel. Quando Harry falhava, ele não zombava. Apenas apontava o erro, explicava o risco e mandava tentar outra vez. Aos poucos, a raiva do amigo deixou de explodir como fogo descontrolado e passou a se concentrar como brasas cobertas por cinza.

Ainda queimava.

Mas já não denunciava tudo.

Depois do treino, Sirius almoçava com os avós paternos no mundo trouxa. Aproveitava para pegar revistas antigas, jornais e pequenos objetos comuns — coisas que pareciam banais demais para serem importantes, mas que serviam como âncoras para Sirius Black. Notícias do mundo. Propagandas idiotas. Fotografias de carros. Qualquer coisa que não fosse pedra, grade ou Dementador.

À tarde, visitava o primo.

Às vezes, Ninfadora o acompanhava. Na maioria das vezes, por causa do treinamento de auror, só conseguia ir uma ou duas vezes por semana. Mesmo assim, cada visita dela parecia fazer mais bem a Black do que qualquer poção.

Sirius Tonks percebeu isso cedo.

Dora era uma prova viva de que ainda havia família do outro lado da mentira.

E Sirius Black precisava de provas.

O início do ano letivo se aproximava, e, com ele, a parte mais delicada do plano. Sirius Tonks sabia que aquele ano não seria apenas sobre salvar o primo. Era sobre devolver a Harry a única família mágica que lhe restava. Era sobre curar uma ferida antiga de Andrômeda. Era sobre impedir que o homem que sua mãe amara como primo continuasse sendo lembrado como monstro.

E, acima de tudo, era sobre capturar o verdadeiro rato antes que ele pudesse fugir.

Na terça-feira, 31 de agosto de 1993, Sirius Tonks foi ao Caldeirão Furado com Ted e Andrômeda.

O reencontro com os Weasley aconteceu de forma quase comum, apesar de nada, naquele verão, ser realmente comum. Molly cumprimentou todos com seu calor habitual. Arthur parecia distraído por preocupações que tentava esconder. Rony reclamava de Percy. Fred e Jorge já estavam planejando algum tipo de travessura que provavelmente envolveria fumaça colorida.

Harry, no entanto, parecia melhor.

Não feliz exatamente. Ainda havia sombras demais ao redor dele. Mas estava mais firme, menos perdido, como se as semanas de treino tivessem lhe dado algo que os Dursley nunca puderam tirar: controle.

Hermione encontrou o grupo mais tarde, carregando uma empolgação mal disfarçada depois de comprar um gato enorme e achatado na Menagerie Mágica.

— O nome dele é Bichento — anunciou, tentando parecer digna enquanto o animal se acomodava em seus braços como um rei mal-humorado.

Rony não gostou.

Perebas gostou menos ainda.

O rato tremeu assim que o gato fixou aqueles olhos inteligentes nele. Bichento soltou um som baixo, quase um rosnado, e tentou se inclinar na direção de Rony.

— Ei! — Rony recuou, protegendo o bolso. — Hermione, essa fera quer comer o Perebas!

— Ele não é uma fera, Rony!

Sirius Tonks observou o gato por alguns segundos.

Bichento não era apenas agressivo. Estava desconfiado.

Inteligente demais para um gato comum.

Sirius se aproximou com calma.

— Posso?

Hermione hesitou, mas assentiu.

Sirius pegou Bichento no colo. O animal o encarou, tenso. Por um instante, o gato pareceu prestes a arranhar seu braço.

Então Sirius aproximou a boca de sua orelha e sussurrou algo baixo demais para os outros ouvirem.

Bichento ficou imóvel.

Sirius continuou falando, uma sequência curta de palavras calmas, enquanto acariciava entre as orelhas do animal. Aos poucos, o rosnado morreu. O gato lançou um último olhar desconfiado para o bolso de Rony, mas se acomodou melhor nos braços de Sirius.

— Pronto — disse Sirius, devolvendo-o a Hermione. — Ele só precisava entender que ainda não é hora de caçar nada.

Hermione franziu a testa.

— Como assim?

— Gatos gostam de achar que comandam o mundo. Eu apenas negociei termos temporários.

Fred, que passava perto, ergueu uma sobrancelha.

— Isso foi perturbadoramente convincente.

George assentiu.

— Devemos contratar o Sirius para negociar com a mamãe quando formos expulsos.

— Quando? — Molly repetiu ao longe.

Os gêmeos desapareceram.

No dia seguinte, as coisas seguiram de maneira parecida com os anos anteriores. Malas, pressa, gritos de Molly, Percy ajeitando o distintivo, Fred e Jorge fingindo inocência sem sucesso. Arthur, porém, puxou Harry de lado antes da partida.

Sirius Tonks observou de longe.

Dessa vez, Harry não pareceu tão confuso com as palavras do Sr. Weasley. Também não deixou a preocupação transbordar no rosto. Ouviu o aviso sobre Sirius Black com uma expressão séria, controlada, e respondeu apenas que não havia motivo para ir atrás de um fugitivo.

Arthur pareceu aliviado.

Sirius, não.

Ele sabia o quanto daquela calma havia sido conquistada à força.

Na Estação King’s Cross, o Expresso de Hogwarts soltava fumaça vermelha e branca sobre a plataforma nove e três quartos. Os alunos se despediam das famílias, corujas piam em gaiolas, sapos tentavam escapar, gatos reclamavam de cestos apertados.

Sirius entrou no trem com Harry, Rony e Hermione.

Como nos anos anteriores, seguiram para uma cabine no último vagão, perto do fim do trem. Só que, dessa vez, ela já estava ocupada.

Um homem dormia encostado à janela, vestindo roupas surradas e remendadas. Parecia jovem e velho ao mesmo tempo, como alguém que envelhecera mais por cansaço do que por idade.

Hermione foi a primeira a notar a mala.

— R. J. Lupin — leu ela, baixinho. — Deve ser o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas.

Harry olhou para o homem com curiosidade, mas não disse nada sobre Sirius Black.

Não contou aos amigos que o suposto fugitivo estava atrás dele.

Não porque não confiasse neles.

Mas porque agora entendia que alguns segredos não existiam para excluir amigos. Existiam para protegê-los até a hora certa.

A conversa, inevitavelmente, acabou tomando outro rumo.

— Ainda é estranho — Rony disse, se jogando no assento. — Você se chamar Sirius com tudo isso acontecendo.

— Rony! — Hermione repreendeu.

— O quê? É verdade.

Sirius Tonks não se incomodou.

— Meu nome veio dele.

Harry olhou para o amigo, já sabendo parte da história, mas deixando que ele explicasse aos outros.

— Minha mãe era uma Black antes de se casar com meu pai — Sirius continuou. — Andrômeda Black. Ela foi queimada da tapeçaria da família por se casar com um nascido trouxa. Mesmo assim, Sirius Black continuou sendo um dos poucos parentes dela que a tratavam como família.

Hermione pareceu surpresa.

Rony arregalou os olhos.

— Então você é parente dele?

— Primo de segundo grau, algo assim. Mais importante: meus pais pretendiam pedir para ele ser meu padrinho no mundo mágico.

— No mundo mágico? — Harry perguntou, aproveitando para manter a conversa natural.

Sirius assentiu.

— A família do meu pai é anglicana. Eu fui batizado e tenho um padrinho trouxa, o irmão mais velho dele. Mas minha mãe queria que eu também tivesse um padrinho no mundo bruxo. Sirius Black teria sido esse padrinho.

Rony ficou quieto por um momento.

— Mas então ele foi preso.

— Por assassinato, traição, massacre de trouxas e por supostamente ser um Comensal da Morte — Sirius respondeu.

Hermione levou a mão à boca.

— Eu não sabia que sua família tinha sido tão diretamente afetada.

— Muita gente não sabe.

Harry olhou para a janela.

Do outro lado do vidro, a paisagem já começava a correr. Londres ficava para trás. Hogwarts se aproximava.

E, com ela, o rato.

A viagem seguiu por horas.

Rony comprou doces demais do carrinho. Hermione tentou ler. Harry fingiu que não estava pensando no que aconteceria nas próximas semanas. Sirius conversou pouco, mas permaneceu atento. De tempos em tempos, seu olhar passava pela cabine, pelo corredor e pelo professor adormecido.

Quase seis horas depois, a menos de duas horas de Hogwarts, o trem parou.

Não diminuiu.

Parou.

As luzes piscaram.

A temperatura caiu.

A conversa morreu.

Harry sentiu o frio antes de entender o que estava acontecendo. Não era apenas ar gelado. Era uma ausência. Como se toda lembrança boa tivesse sido afastada da cabine.

Rony empalideceu.

Hermione apertou o livro contra o peito.

— Por que estamos parando? — perguntou ela, olhando quase automaticamente para Sirius. — Não chegamos ainda.

Sirius já estava de pé.

— Calma. Não precisam se preocupar.

Harry começou a se levantar também, mas Sirius ergueu uma mão.

— Não precisa, Harry. Fique sentado.

— O que está acontecendo? — Rony perguntou.

Sirius puxou a varinha.

Por um instante, o rosto dele ficou estranhamente sereno. Não feliz, mas firme. Como se tivesse escolhido uma memória e se prendido a ela com as duas mãos.

— Expecto Patronum.

A luz prateada explodiu da ponta da varinha e tomou forma diante deles.

Não era uma névoa.

Era uma criatura corpórea, elegante, de movimentos felinos, pelagem luminosa e olhos brilhantes. Parecia um gato, mas havia algo mágico demais em sua postura, algo mais antigo e mais feroz.

Rony abriu a boca.

— Que gato branco é esse?

— Não é um gato — Sirius respondeu, sem tirar os olhos da porta. — É um Amasso. Uma espécie mágica aparentada aos felinos. E é o meu Patrono.

Hermione encarou a criatura, maravilhada apesar do medo.

— Um Patrono corpóreo...

A porta da cabine começou a abrir.

Uma mão apodrecida, coberta por pele fina e cinzenta, surgiu primeiro. O frio se tornou quase insuportável. Harry ouviu um som úmido, uma respiração que parecia sugar a vida do ar.

Antes que o Dementador entrasse, o Amasso prateado atravessou a porta como uma flecha.

O grito da criatura das trevas ecoou pelo vagão.

Rony deu um pulo.

Hermione levou a mão à boca.

Harry sentiu o frio recuar um pouco.

— Eu vou mandá-lo passar pelos outros vagões — Sirius disse, os olhos levemente desfocados pela concentração. — Alguns Dementadores devem ter entrado em outras partes do trem.

O Patrono desapareceu pelo corredor.

Segundos depois, outro grito.

Depois outro.

E outro.

Como se uma onda de luz estivesse atravessando o Expresso de Hogwarts de trás para frente, expulsando sombras uma por uma.

— Pelo que eu li — Hermione disse, ainda pálida —, o Feitiço Patrono é extremamente avançado. Mas um Patrono corpóreo... isso é ainda mais difícil. Como você conseguiu?

Antes que Sirius respondesse, uma voz cansada veio do assento junto à janela.

— Sim, jovem. Sua demonstração foi perfeita.

Todos se viraram.

Remo J. Lupin estava acordado, de pé, segurando a varinha. Seus olhos estavam fixos em Sirius Tonks com uma atenção estranha, intensa demais para um simples professor impressionado.

Ele acenou com a varinha, abriu a porta e olhou para o corredor.

— Fiquem na cabine. Vou verificar como essas criaturas entraram no trem.

Lupin saiu antes que alguém fizesse outra pergunta.

O silêncio que ficou para trás era pesado.

Harry foi o primeiro a falar.

— O que vocês acham que aconteceu?

— Não faço ideia — Rony respondeu, ainda olhando para a porta. — O que era aquela coisa que gritou?

Hermione não respondeu.

Ela continuava olhando para Sirius, como se esperasse que ele explicasse o mundo inteiro.

Sirius guardou a varinha, mas não relaxou completamente.

— Dementadores. Criaturas das trevas. Alimentam-se de felicidade e esperança. O Ministério os usa como guardas de Azkaban.

Harry estremeceu.

Azkaban.

Sirius Black.

— Eles estão procurando Black — disse Hermione.

— Provavelmente — Sirius respondeu. — O Ministério deve ter decidido revistar o trem.

Rony soltou um riso nervoso.

— Então eles vieram atrás de um Sirius e deram de cara com outro.

Hermione virou-se para ele, indignada.

— Isso não é engraçado, Rony! Se Sirius não estivesse aqui, poderíamos ter sido atacados!

— Mas ele estava — Rony respondeu, defensivo. — E o professor Lupin também estava. Deu tudo certo.

— Não exatamente — Sirius disse.

A voz dele cortou a discussão.

Rony olhou para ele.

— Dementadores entrando em um trem cheio de crianças voltando das férias não é algo que “deu certo”. Eles não distinguem bem culpa, inocência ou idade. Para eles, um vagão cheio de alunos assustados é um banquete.

Harry sentiu um arrepio que nada tinha a ver com o frio.

— Você acha que alguém foi atacado?

— Meu Patrono saiu do último vagão e foi avançando até o primeiro. Ele pode ter demorado alguns segundos para alcançar os vagões da frente. Alguns segundos com um Dementador são mais do que suficientes.

Ninguém respondeu.

Pouco depois, Lupin voltou.

Ele parecia mais cansado do que antes.

— Os Dementadores foram contidos pelos aurores — explicou. — Um aluno no primeiro vagão chegou a ser atacado, mas um monitor conseguiu repelir a criatura antes que ele perdesse a consciência. Ele está assustado, mas vai se recuperar. Chocolate ajudou.

Hermione fechou os olhos, aliviada e horrorizada ao mesmo tempo.

— A busca por Sirius Black continuará em Hogsmeade, quando todos descerem do trem — Lupin continuou. — Até lá, permaneçam nas cabines.

O resto da viagem foi mais silencioso.

Quando finalmente chegaram a Hogwarts, a rotina conhecida pareceu quase irreal depois do frio dos Dementadores. Carruagens, chuva fina, alunos nervosos, o brilho do castelo ao longe. No Salão Principal, a cerimônia de Seleção ocorreu como nos anos anteriores. Depois, Dumbledore anunciou os novos professores: Remo João Lupin em Defesa Contra as Artes das Trevas e Rúbeo Hagrid em Trato das Criaturas Mágicas, substituindo o Professor Kettleburn.

Por fim, vieram os avisos.

Aurores.

Dementadores.

Patrulhas ao redor da escola.

Busca por Sirius Black.

Dumbledore falou com sua calma habitual, enigmática e grandiosa, como se pudesse transformar até uma ameaça em discurso de boas-vindas. Sirius Tonks ouviu em silêncio, observando não apenas o diretor, mas também Harry, Lupin e a mesa dos professores.

O tabuleiro estava montado.

Na manhã seguinte, quinta-feira, 02 de setembro de 1993, o Salão Principal já estava cheio quando Hermione e Sirius tomavam café juntos.

Hermione tinha um livro aberto ao lado do prato, embora Sirius suspeitasse que ela já havia lido aquela página três vezes sem absorver uma única palavra. O ataque no trem ainda pairava sobre ela.

Harry e Rony chegaram pouco depois.

Rony se sentou com um bocejo exagerado e começou a servir-se de salsichas, bacon e suco de abóbora.

— Cara, você ainda continua com essa mania de acordar antes do sol nascer e correr em volta do castelo? — perguntou, olhando para Sirius. — Por Merlin, nós bruxos já somos fisicamente melhores que trouxas. Para que esse tipo de exercício?

Hermione fechou o livro com força.

— Se você e Harry tivessem mantido o ritmo dos treinos, entenderiam.

Rony piscou.

— Bom dia para você também.

— Eu estou falando sério — Hermione continuou. — Eu era a mais fraca de nós dois anos atrás, pelo menos fisicamente. Hoje, duvido que qualquer um de vocês consiga me vencer em um duelo se depender de reação e resistência.

— Você já era melhor conjuradora antes — Rony resmungou. — Isso não conta.

— Conta muito — Sirius disse, pegando uma fatia de torrada. — Saber conjurar não ajuda se você congela quando algo te ataca. Hermione melhorou porque treinou o corpo junto com a magia. Reflexo, equilíbrio, fôlego, capacidade de responder sob pressão. Isso é o que decide um confronto real.

Harry ficou quieto durante a discussão.

Quieto demais.

Sirius percebeu.

Também percebeu outra coisa.

— Rony, você deixou Perebas no dormitório?

Rony olhou para ele, surpreso pela mudança de assunto.

— Deixei. Desde que Hermione comprou aquela fera, o pobre Perebas vive tremendo. Achei melhor deixar ele descansando.

Hermione franziu a testa.

— Bichento não é uma fera.

— Ele tentou comer meu rato!

— Ele tentou investigar seu rato.

— Hermione, isso não melhora!

Sirius tomou um gole de chá para esconder o quase sorriso.

Perebas estava no dormitório.

Ótimo.

— Harry — disse ele, voltando ao assunto que realmente importava. — Continuaremos as aulas de Oclumência como nas férias. Só vamos mudar o horário. Das quatro às seis, depois das aulas da tarde e antes do jantar.

Harry assentiu.

— Tudo bem.

Hermione olhou de um para o outro.

— Você está ensinando Oclumência ao Harry?

Rony parou com um pedaço de bacon a meio caminho da boca.

— Está?

Sirius apoiou a xícara no pires.

— Sim. É importante.

Hermione se inclinou para frente, interessada.

— Por causa de... Tom Riddle?

Rony fez uma careta.

Harry ficou tenso.

Sirius manteve a voz baixa o bastante para não chamar atenção da mesa inteira.

— Como eu expliquei a vocês, Tom Riddle era Voldemort. Ele criou Horcruxes dividindo a própria alma. E Harry carrega um fragmento da alma dele, mesmo que Riddle não tenha planejado isso.

Rony deixou o bacon cair no prato.

— Ainda odeio quando você fala disso durante o café da manhã.

— Eu também — Harry murmurou.

Hermione ignorou os dois.

— Então a Oclumência impediria que esse fragmento o influenciasse?

— Pode ajudar. Também pode impedir que Legilimens experientes percebam o que Harry sente ou pensa com facilidade. E isso será importante quando Voldemort voltar.

O silêncio caiu por um instante.

Rony olhou ao redor, nervoso.

— Você fala isso como se fosse certeza.

— É certeza.

Harry não desviou o olhar.

Hermione respirou fundo.

— Posso participar?

Sirius não pareceu surpreso.

— Na verdade, seria ideal que todos vocês participassem.

Rony arregalou os olhos.

— Todos?

— Inclusive você.

— Por quê eu?

— Porque quando Tom Riddle voltar, ele não vai mirar apenas no Harry. Ele vai mirar em todos ao redor dele. Voldemort é um mestre em Legilimência. Ter a mente minimamente protegida pode ser a diferença entre perceber uma manipulação e obedecer a ela.

Rony empalideceu.

— Certo. Eu participo.

— Relutância aceita — Sirius disse.

Hermione, apesar da tensão, pareceu satisfeita.

— Então começamos hoje?

— Hoje Harry continua. Vocês dois podem observar a primeira parte e começar com exercícios básicos amanhã.

Rony suspirou.

— Lá se vai meu tempo livre.

— Você não usava para nada produtivo.

— Eu usava para xadrez!

— Como eu disse.

Harry soltou uma risada baixa, e aquilo aliviou um pouco o peso da conversa.

Sirius aproveitou para mudar o foco.

— Agora, qual aula vocês têm esta manhã?

— Adivinhação — Harry respondeu.

Hermione fez uma careta tão intensa que Rony quase riu.

— Todos vocês?

— Sim — Rony disse. — Por quê?

— Porque eu vou para Runas Antigas.

Hermione virou-se para ele tão rápido que quase derrubou o suco.

— Como assim?

— Como assim o quê?

— Você possui o dom da premonição! — ela sussurrou, indignada. — Deveria aproveitar Adivinhação!

Sirius levou a xícara aos lábios para ganhar um segundo.

Ele não tinha dom nenhum.

Tinha memória de outra vida, conhecimento de livros que aquele mundo ainda não sabia que eram livros, e uma quantidade absurda de cuidado para não chamar isso pelo nome errado.

— Eu não tenho interesse em fortalecer minhas habilidades de Adivinhação — disse ele por fim. — Elas são... pouco convencionais.

Harry olhou para ele, entendendo o bastante para não comentar.

— Runas Antigas, por outro lado, é algo que eu venho estudando sozinho há algum tempo. Quero saber se estou no caminho certo.

Hermione ainda parecia dividida entre a indignação e a aprovação.

— Runas são uma escolha excelente.

— Eu sei.

— Mas abandonar Adivinhação tendo premonições ainda parece um desperdício.

— Então você faz as duas por mim.

Ela abriu a boca.

Fechou.

Rony apontou para Sirius com o garfo.

— Ele te pegou nessa.

Hermione lançou um olhar mortal para os dois.

Pouco depois, o grupo se levantou para seguir às primeiras aulas do ano. Harry, Rony e Hermione foram em direção à torre de Adivinhação, enquanto Sirius tomou o caminho para Runas Antigas.

Antes de se separarem, Harry olhou para ele.

Não disse nada.

Não precisava.

Sirius apenas assentiu.

O ano havia começado.

Pettigrew estava em Hogwarts.

Sirius Black aguardava escondido.

Os Dementadores rondavam o castelo.

E, enquanto todos acreditavam estar apenas retomando as aulas, Sirius Tonks sabia que a verdadeira guerra daquele ano já estava em andamento.


"Harry Potter e Stargate são propriedades de seus respectivos donos. Esta é uma obra de ficção feita por fã, sem fins lucrativos"


Notas finais
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