Renascido como um Tonks
3 3 - Capturando um animago e primo!
Depois de sair do Caldeirão Furado com Ninfadora, Sirius Tonks não voltou imediatamente para casa.
Ele apenas pediu que a irmã o acompanhasse.
— Sem perguntas por enquanto — disse, antes mesmo que ela abrisse a boca. — Só continue conversando comigo. Quando chegar a hora, você vai entender.
Ninfadora estreitou os olhos.
— Você sabe que essa frase nunca antecede algo normal, certo?
— Sei.
— Ótimo. Só queria confirmar que você também sabia.
Sirius sorriu de leve, mas não respondeu.
Os dois caminharam pelas ruas próximas ao Caldeirão Furado, atravessando vielas estreitas e calçadas úmidas enquanto conversavam sobre assuntos aparentemente comuns. Ted. Andrômeda. Os avós paternos. O modo como Ninfadora ainda tropeçava em objetos trouxas quando tentava fingir que entendia completamente aquele mundo.
Por fora, Sirius parecia apenas um garoto passeando com a irmã mais velha.
Por dentro, cada passo era calculado.
Ele sabia que Sirius Black estaria por perto. A fuga de Azkaban não era o ato racional de um homem procurando defesa legal. Era a corrida desesperada de alguém que passara doze anos alimentado apenas por culpa, ódio e uma única ideia: encontrar Pedro Pettigrew.
E, naquela manhã, Sirius Tonks o encontrou.
No fundo de um beco estreito, escondido entre caixas velhas e sacos de lixo, havia um enorme cão preto deitado como se dormisse.
Para qualquer pessoa, seria apenas um animal de rua.
Para Sirius, era o homem mais procurado da Grã-Bretanha.
Ele não mudou o passo.
Não olhou por tempo demais.
Não deu nenhum sinal a Ninfadora.
Apenas continuou falando sobre os avós como se nada estivesse acontecendo, até chegar a menos de um metro do cão. Então, em um movimento rápido demais para parecer casual, virou-se e lançou um feitiço do sono sem varinha.
O cão preto mal teve tempo de erguer a cabeça.
Caiu de lado, inconsciente.
Ninfadora puxou a varinha no mesmo instante.
— Sirius! O que foi isso?
— Calma, irmã.
— Você acabou de atacar um cachorro no meio de um beco!
— Não é um cachorro.
Ela congelou.
O olhar de Sirius permaneceu sério.
— E nós precisamos tirá-lo daqui antes que alguém veja. Chame um táxi.
— Sirius—
— Eu explico quando estivermos em segurança. Por favor.
Ninfadora o encarou por alguns segundos, claramente dividida entre o instinto de auror em treinamento e a irritante confiança que tinha no irmão. No fim, resmungou algo sobre “garotos geniais com tendências criminosas” e saiu para a rua principal.
Minutos depois, os dois estavam dentro de um táxi trouxa, com o enorme cão preto estendido no banco de trás entre eles.
O motorista olhou pelo retrovisor mais de uma vez.
— Cachorro grande esse aí.
— Ele é dócil — Sirius disse.
Ninfadora lançou ao irmão um olhar que prometia vingança futura.
— Muito dócil — acrescentou ela, seca.
Sirius passou ao motorista um endereço fora de Londres, próximo a Woking. Uma pequena casa alugada com dinheiro obtido dos avós paternos. Não era luxuosa, mas era discreta, afastada e, mais importante, preparada.
Ninfadora só esperou o táxi se afastar depois de deixá-los diante da casa para explodir em perguntas.
— Como você preparou esse lugar?
Sirius já estava puxando o cão inconsciente para fora do carro, usando uma combinação de força física e levitação discreta.
— Pedi dinheiro ao vovô durante alguns meses. Disse que era para um projeto pessoal.
— E ele simplesmente deu?
— Sim.
— Claro que deu — Ninfadora resmungou, ajudando-o apesar da expressão irritada. — Você é o queridinho do vovô e da vovó.
— Talvez se você se interessasse um pouco mais pelo mundo deles, eles também te mimassem.
— Eu sei usar uma torradeira.
— Depois que o papai colocou etiquetas nos botões.
— Isso foi uma vez!
— Foram quatro.
Ninfadora abriu a boca para responder, mas desistiu quando percebeu que Sirius estava usando a provocação para mantê-la calma. Aquilo era irritante. Ainda mais irritante porque funcionava.
A casa era simples, mas havia sinais claros de preparo. Feitiços de privacidade nas janelas. Um quarto vazio. Correntes e algemas sobre uma mesa. Comida guardada. Cobertores limpos. Um pequeno estoque de poções básicas.
Ninfadora parou no corredor.
— Sirius... o que você está fazendo?
Ele colocou o cão no centro do quarto.
Então olhou para a irmã.
— Preciso que você use o Feitiço de Reversão de Animago nele.
O rosto dela perdeu a cor.
— Animago?
— Sim.
— Você tem certeza?
— Absoluta.
Ninfadora encarou o cão preto como se, pela primeira vez, realmente o estivesse vendo.
Sua mão apertou a varinha com força.
— Sirius...
— Faça, Dora.
Ela odiava quando ele usava aquele tom. Não era ordem. Não era pedido. Era certeza. A certeza irritante de alguém que já sabia o resultado.
Ninfadora respirou fundo, ergueu a varinha e lançou o feitiço.
A transformação começou como uma ondulação sob a pele do animal. Patas se alongaram. Pelo recuou. Ossos estalaram em uma sequência desconfortável. O focinho encurtou, as costas se arquearam, e o enorme cão preto deu lugar a um homem magro demais, pálido demais, com cabelos escuros desgrenhados e rosto cavado pela fome, pelo tempo e por Azkaban.
Ninfadora levou a mão à boca.
— Merlin...
Sirius Tonks não se permitiu hesitar.
Pegou as algemas e prendeu primeiro os pulsos do homem. Depois os tornozelos.
Ninfadora virou-se para ele, horrorizada.
— Você disse que ele era inocente.
— Ele é.
— Então por que está prendendo ele?
Sirius apertou a última trava e se levantou.
— Porque inocência não cura doze anos em Azkaban.
A resposta calou Ninfadora.
Sirius olhou para o homem caído no chão. Para os ossos marcados sob a pele. Para a respiração irregular. Para o rosto de alguém que sobrevivera tempo demais dentro do inferno e saíra dele com apenas uma ideia na cabeça.
— Ele não está pensando como um homem livre, Dora. Está pensando como alguém que só quer matar Pedro Pettigrew e depois talvez morrer. Se acordar solto, pode tentar fugir antes que consigamos explicar qualquer coisa.
Ninfadora engoliu em seco.
A varinha dela continuava apontada para Sirius Black, mas agora tremia um pouco.
Sirius Tonks puxou uma cadeira e sentou-se a dois metros do primo. Então ergueu a varinha.
— Fique de olho nele. Se ele tentar qualquer coisa, estupore. Mas só se for necessário.
— Sirius...
— Eu sei.
Ele lançou um Feitiço Revigorante.
O corpo magro no chão se contraiu.
E Sirius Black acordou.
POV de Sirius Black
A primeira coisa que sinto é o peso.
Não o peso de Azkaban.
Esse era frio, úmido, sem forma. Um peso que entrava pelos ossos e ficava lá, mesmo quando os Dementadores se afastavam.
Esse é diferente.
Metal.
Algemas.
Minhas mãos estão presas. Meus tornozelos também.
Por um segundo, meu corpo tenta se transformar antes mesmo da minha mente entender onde estou. O instinto grita para fugir. Correr. Morder. Rasgar. Encontrar o rato.
Mas o movimento falha.
Estou em forma humana.
Preso.
Meus olhos se abrem de uma vez.
O quarto é pequeno. Limpo demais para ser Azkaban. Claro demais. Não há pedra molhada, não há grades enferrujadas, não há o som dos Dementadores respirando do lado de fora.
Há um garoto sentado em uma cadeira a alguns passos de mim.
Treze? Quatorze anos, talvez. Magro, mas não fraco. Calmo demais.
Atrás dele, perto da porta, há uma jovem com a varinha apontada para mim. Cabelos rosa. Rosto familiar. Familiar de um jeito que dói.
Minha última lembrança é de um beco perto do Caldeirão Furado. Eu estava cansado. Cansado demais. Dormi por alguns minutos, só alguns minutos, porque o rato estava perto, eu sentia que estava perto, e eu precisava encontrá-lo antes que—
— Primo Sirius — o garoto diz, com uma calma absurda. — Eu sei que você está se perguntando como chegou aqui.
Primo?
A palavra atravessa minha cabeça como uma faca.
Primo?
Impossível.
Meus primos vivos são monstros, covardes ou fantasmas de uma vida que perdi. Bellatrix, aquela maldita. Narcisa, casada com Lucius como se tivesse nascido para virar parte da mobília envenenada dos Malfoy. E Andrômeda.
Andy.
A única que realmente importava.
Olho melhor para o garoto.
O formato do rosto. Algo nos olhos. Um pouco de Ted. Um pouco de Andy.
Então olho para a garota com a varinha.
A menina pequena de cabelos coloridos que corria pelos corredores quando ainda havia algum calor no mundo.
— Você é Sirius Tonks? — minha voz sai áspera, quase irreconhecível. — Filho da Andy?
O garoto inclina a cabeça.
Meu olhar volta para a jovem.
— Dora? É você? Como você cresceu...
O rosto dela se quebra.
Não completamente. A varinha continua apontada para mim, firme o bastante para lembrar que ela foi treinada. Mas os olhos... os olhos são de uma criança que acabou de encontrar uma lembrança que não sabe se deve abraçar ou odiar.
— Por quê? — ela pergunta.
Eu não entendo.
Ou talvez entenda e não queira.
— Dora...
— Por que você não falou a verdade? — A voz dela falha, mas a varinha não abaixa. — Por que não explicou aos aurores o que aconteceu naquele dia? Por que deixou todo mundo acreditar que você tinha traído eles?
Eu fecho os olhos.
Porque eu merecia.
Porque James estava morto.
Porque Lily estava morta.
Porque Harry estava órfão.
Porque eu fui arrogante, estúpido, confiei no rato errado e, quando tudo acabou, a culpa era tão grande que Azkaban pareceu quase justo.
Antes que eu consiga responder, o garoto fala:
— Irmã, calma.
Irmã.
Então ele é mesmo filho de Andy.
Sirius Tonks se volta para mim.
— Sim, primo. Você está certo sobre quem somos. E antes que pergunte por que está preso, vou responder: eu sei que você é inocente dos crimes pelos quais foi condenado.
O mundo para.
Por um segundo, não há quarto. Não há algemas. Não há Dora. Não há garoto.
Só a palavra.
Inocente.
Alguém disse.
Alguém sabe.
— Mas também sei — ele continua — que, agora, você não pensa em mais nada além de matar Pedro Pettigrew.
O nome rasga tudo.
A raiva volta como fogo.
— SE VOCÊ SABE DISSO, POR QUE NÃO ME DEIXA RASGAR AQUELE RATO EM DOIS? — Tento avançar, mas as algemas me prendem. — EU TENHO QUE MATÁ-LO! É A ÚNICA MANEIRA DE ME REDIMIR COM TIAGO E LILY!
O garoto ergue a mão.
Minha voz desaparece.
Não minha raiva. Não a dor. Só a voz.
Tento gritar de novo.
Nada sai.
Sirius Tonks não se levanta. Não se assusta. Apenas me observa com uma calma que me irrita quase tanto quanto as algemas.
— Eu sei que você quer se redimir — ele diz. — Mas você está errado sobre como fazer isso.
Eu tento xingá-lo.
O silêncio me humilha.
— Se quer se redimir com Tiago e Lílian, sua prioridade não deveria ser matar Pettigrew. Deveria ser provar sua inocência, colocar o verdadeiro traidor em Azkaban e cuidar do seu afilhado.
Harry.
O nome não é dito, mas entra no quarto como se alguém tivesse aberto uma janela.
Harry.
Meu afilhado.
Meu último pedaço de James.
— Harry Potter está vivo — o garoto continua, e a voz dele fica um pouco mais dura. — E vive com a família da mãe, que não gosta dele e não o trata bem. Ele precisa de você vivo, livre e são. Não de mais um cadáver na história dos Potter.
A frase me atinge com mais força do que qualquer feitiço.
Harry precisa de você.
Eu tinha pensado em Harry. Claro que tinha. Em Hogwarts. No rato. No perigo. Em impedir que Pettigrew chegasse até ele.
Mas livre?
Cuidar dele?
Ser algo além de uma sombra faminta escondida em becos?
Eu não me permiti pensar nisso.
Pensar nisso doía demais.
Sirius Tonks desfaz o feitiço de silêncio.
Minha primeira respiração vem pesada.
— Você fala como se fosse simples.
— Não é.
— Eu passei doze anos em Azkaban.
— Eu sei.
— Não. — Minha voz falha. — Você não sabe.
Pela primeira vez, algo muda no rosto dele. Não é pena. Graças a Merlin, não é pena. É compreensão de limites. Como se ele soubesse que há dores que não se presumem.
— Tem razão — ele diz. — Eu não sei. Mas sei que deixar você correr atrás de Pettigrew agora só daria ao Ministério uma desculpa para te matar ou te entregar aos Dementadores. E eu não vou permitir isso.
Dora respira fundo atrás dele.
— Ele está falando a verdade — ela diz.
Olho para ela.
— Sobre o Ministério?
— Sobre tudo. — Ela hesita. — E sobre ele ser mais perigoso do que parece.
O garoto lança um olhar de leve para ela.
Dora dá de ombros.
— Desde o começo do ano, minha mãe e meu pai já não conseguem vencer ele em duelo. Eu também perco, e estou treinando para ser auror.
Olho para o garoto.
— Você tem o quê? Quatorze anos?
— Treze. Faço quatorze em cinco de setembro.
Eu rio.
Não porque seja engraçado.
Porque o mundo enlouqueceu.
— Claro. Um garoto de treze anos me sequestrou, sabe que sou inocente, conhece Pettigrew e aparentemente vence aurores em treinamento.
— Auror em treinamento — Dora corrige, irritada.
— Isso não melhora, Dora.
Sirius Tonks ignora a troca.
— O rato que você está caçando será capturado em menos de duas semanas após o início das aulas.
Meu corpo fica rígido.
— Você sabe onde ele está.
— Sei onde ele estará. E ele acha que estará seguro em Hogwarts. A vantagem dele é acreditar que você é o único caçando-o.
— Hogwarts... — murmuro.
O rato voltaria para Hogwarts.
Perto de Harry.
Minha visão fica vermelha por um instante.
— Ele não sabe que eu tenho acesso ao Mapa do Maroto — Sirius Tonks acrescenta.
Eu paro.
— O quê?
Dora olha de mim para ele.
— O que é o Mapa do Maroto?
O garoto faz um gesto para mim, como se dissesse que aquela explicação é minha.
E, por um momento estranho, quase absurdo, não estou mais algemado em uma casa desconhecida. Estou em Hogwarts outra vez. Estou com James, Remus e...
Não.
Não vou pensar nele como amigo.
— O Mapa do Maroto — digo devagar — é um mapa que Tiago, eu, Remus e o traidor criamos em Hogwarts. Um produto alquímico capaz de mapear as pessoas e as passagens do castelo. Mas um pouco antes do fim do nosso último ano, ele foi confiscado pelo zelador, Argus Filch.
Dora pisca, tentando acompanhar.
— Um mapa? Como assim mapear pessoas e passagens?
— Exatamente o que ele disse, irmã — Sirius Tonks responde antes que eu continue. — É um pedaço de pergaminho que mostra Hogwarts inteira. Nele aparecem, em tempo real, os nomes das pessoas e onde elas estão. Também mostra várias passagens secretas conhecidas pelos criadores.
— Sim — confirmo, ainda sentindo a estranheza de ouvir outra pessoa explicar uma das nossas maiores travessuras como se estivesse lendo uma ficha técnica. — Exatamente como seu irmão mais novo está dizendo.
Dora olha de mim para ele, depois de volta para mim.
— E como Argus Filch deixou isso ser recuperado? Um objeto desses deveria ter ido direto para Dumbledore.
Quase sorrio.
Por um instante, é uma pergunta tão normal, tão Dora, que dói.
— Porque, para Filch, era só um pergaminho em branco — respondo. — Sem saber a senha, ele nunca conseguiria desvendar os segredos do mapa. Na verdade, quase ninguém conseguiria. Era preciso ter... o espírito certo.
Dora arqueia uma sobrancelha.
— Espírito certo?
— Espírito de encrenqueiro — Sirius Tonks traduz.
Olho para ele.
— Como você conseguiu?
— Eu não consegui. Os gêmeos Weasley encontraram o mapa. Eles são, basicamente, a próxima geração dos Marotos. Se eu contasse a eles quem vocês eram, provavelmente pediriam autógrafos.
Por um segundo, algo quente e doloroso atravessa meu peito.
Próxima geração dos Marotos.
James teria rido.
Eu quase consigo ouvir.
Dora, por outro lado, parece fascinada.
— Sério? Então era assim que eles escapavam de Filch? Eu sabia que aqueles dois eram suspeitos demais para serem só sortudos. Mas como eles conseguiram manter isso em segredo? Eles são tão boca aberta!
— Estamos desviando do assunto — Sirius Tonks corta.
A voz dele muda. A sala volta a ficar pequena.
O garoto se inclina um pouco para frente.
— O importante é que você entenda nossas vantagens. Eu sei onde Pettigrew estará. Tenho como provar que ele está vivo. Tenho como ligar a confissão dele à sua inocência. Mas, para tudo dar certo, você precisa ficar aqui até o momento certo.
— Escondido.
— Vivo.
— Preso.
— Protegido de si mesmo, principalmente.
Sinto vontade de odiá-lo por isso.
Talvez odeie um pouco.
Mas não posso negar que ele está certo.
E isso é insuportável.
— Depois — ele continua —, você será entregue formalmente para testemunhar no seu julgamento.
Eu encaro o garoto.
— Julgamento?
A palavra sai amarga.
— Criança, você não entende nada de política. Eles nunca me deram julgamento antes. Por que dariam agora?
Sirius Tonks sorri.
Não é um sorriso infantil.
É o sorriso de alguém que já viu a armadilha fechando.
— Você é que não entende política, primo. Ou, pelo menos, entende apenas a política do mundo bruxo. E o mundo bruxo é pateticamente ruim nisso.
Dora olha para ele com uma mistura de orgulho e irritação.
— Sirius...
— Se o Ministério não conseguir encontrar você por semanas e, de repente, jornais dentro e fora da Grã-Bretanha receberem informações sobre o último Lorde de uma das Sagradas Vinte e Oito ter sido enviado a Azkaban sem julgamento, enquanto novas evidências sugerem que ele pode ser inocente... o que você acha que acontece?
Eu franzo a testa.
— O Profeta Diário está no bolso do Ministério.
— Sim. Mas o mundo não começa nem termina no Profeta Diário.
Ele enumera com naturalidade assustadora:
— França. Estados Unidos. O Pasquim. Witch Weekly. Qualquer jornal que goste mais de escândalo do que de obedecer Fudge. E eles não receberão apenas boatos. Receberão memórias.
Meu sangue gela.
— Memórias de quem?
— De um certo rato.
Pettigrew.
Vivo.
Preso.
Confessando.
A ideia é tão absurda que, por um segundo, esqueço de respirar.
— Você realmente acha que consegue espalhar isso?
— Eu não preciso espalhar tudo sozinho. Preciso colocar a pessoa certa sob pressão.
— Quem?
— Dumbledore.
O nome pesa no quarto.
Sinto raiva antes mesmo de pensar. Dumbledore. A Ordem. Todos eles. Todos acreditaram. Todos me deixaram apodrecer.
— Ele não vai querer envolver o nome dele nisso.
— Vai, se Harry Potter aparecer diante dele com memórias provando que Pedro Pettigrew está vivo e que seu padrinho foi preso sem julgamento. — Sirius Tonks fala com precisão, como se cada palavra já estivesse posicionada no tabuleiro. — Harry não vai pedir um favor. Vai cobrar justiça do Bruxo Chefe do Wizengamot e do Cacique Supremo da Confederação Internacional de Bruxos.
Dora solta um assobio baixo.
— Irmãozinho... isso é cruel.
— É eficiente.
— E genial.
— Também.
Eu olho para o garoto.
Treze anos.
Treze malditos anos.
E ele acaba de me dar mais esperança em dez minutos do que tive em doze anos.
— Você acha que Dumbledore não negaria isso ao Harry.
— Não publicamente. Não moralmente. Talvez nem pessoalmente. Dumbledore tem falhas, mas não é Fudge. Se Harry colocar a verdade nas mãos dele, ele vai agir. Talvez não do jeito mais rápido. Talvez tentando controlar tudo. Mas vai agir.
Eu fecho os olhos.
Harry.
James.
Lily.
Um julgamento.
Meu nome limpo.
Pettigrew preso.
Parece perigoso demais acreditar.
Mas eu quero acreditar.
Merlin, eu quero.
— Está bem — digo, abrindo os olhos. — Você me convenceu. Eu dou minha palavra. Ficarei aqui até você dizer o contrário.
Sirius Tonks não parece satisfeito.
Isso me irrita de novo.
— Desculpe, primo. Sua palavra não basta.
Dora olha para ele.
— Sirius...
Ele não desvia os olhos de mim.
— O que está em jogo é maior do que sua liberdade. É a segurança de Harry, a captura de Pettigrew e a possibilidade de impedir que o verdadeiro traidor fuja para ajudar Voldemort a voltar. Eu preciso de um Juramento Inquebrável.
A palavra cai no quarto como uma lâmina.
Eu encaro o garoto.
Cruel, penso.
Depois corrijo.
Não.
Não cruel.
Assustado demais para confiar apenas na esperança.
E, depois de Azkaban, eu entendo isso melhor do que gostaria.
— O que você promete? — pergunto.
— Fazer tudo que eu disse: capturar Pettigrew, entregar as provas, garantir que Harry leve isso a Dumbledore e trabalhar para que você tenha um julgamento público.
— E eu?
— Você promete não sair desta casa a menos que sua vida esteja em risco. Se precisar fugir, irá para outro esconderijo seguro e aguardará ser convocado para depor. Não tentará caçar Pettigrew sozinho. Não tentará entrar em Hogwarts. Não colocará Harry em risco por impulso.
Cada frase acerta exatamente onde deve.
O garoto sabe.
Sabe o que eu faria.
Sabe o que ainda quero fazer.
— Adicione uma coisa — digo.
Ele ergue a sobrancelha.
— Se eu tiver que sair daqui, irei para o Largo Grimmauld, número doze. E concederei a você, Sirius Tonks, acesso indefinido à casa.
Dora fica imóvel.
O garoto me observa com atenção renovada.
— Você entende o que está oferecendo?
— Entendo. É uma casa protegida por magias antigas da Família Black. Praticamente impossível de encontrar sem permissão de um Black. Se tudo der errado, você e Harry podem precisar dela.
Ele não sorri.
Apenas assente.
— Aceito.
Dora se aproxima com a varinha, ainda claramente desconfortável com a ideia.
— Vocês têm certeza?
— Não — respondo.
Sirius Tonks diz ao mesmo tempo:
— Sim.
Quase rio.
Quase.
Estendemos as mãos o máximo que as algemas permitem. O garoto segura a minha com firmeza.
Dora ergue a varinha.
As promessas são ditas uma a uma.
A cada resposta, uma corrente de fogo envolve nossas mãos.
Quente.
Viva.
Diferente do frio de Azkaban.
Quando termina, estou exausto.
Mas não vazio.
Sirius Tonks solta minha mão e se levanta.
— Eu virei com Dora pelo menos uma vez por semana até o início das aulas. Depois disso, ela continuará trazendo mantimentos e notícias. Quando chegar a hora do julgamento, eu aviso.
Olho para Dora.
Ela ainda parece dividida entre me abraçar e me estuporar.
Não a culpo.
— Andy sabe? — pergunto.
Dora balança a cabeça.
— Ainda não.
A resposta dói, mas faz sentido.
Eu não saberia olhar para Andrômeda agora.
Não ainda.
Sirius Tonks caminha até a porta, mas para antes de sair.
— Primo.
Olho para ele.
— Harry precisa de você vivo.
Não é ameaça.
Não é pedido.
É âncora.
Fecho os olhos por um instante.
Vejo James sorrindo.
Vejo Lily segurando Harry.
Vejo o rato desaparecendo no esgoto.
Quando abro os olhos, minha voz sai rouca.
— Então me deixe vivo tempo bastante para merecer encontrá-lo.
Sirius Tonks apenas assente.
Depois ele e Dora saem do quarto, fechando a porta atrás de si.
Fico sozinho.
Preso.
Mas, pela primeira vez em doze anos, não estou em uma cela esperando a morte.
Estou em um esconderijo esperando justiça.
E isso faz toda a diferença.
Fim do POV de Sirius Black
"Harry Potter e Stargate são propriedades de seus respectivos donos. Esta é uma obra de ficção feita por fã, sem fins lucrativos."
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