Renascido como um Tonks

2 2 - Se encontrando com amigo no Caldeirão Furado


Quarta-feira, 08 de agosto de 1993, 8h23.

Caldeirão Furado.

A lareira do Caldeirão Furado se iluminou em verde.

Sirius Tonks saiu das chamas antes mesmo que elas terminassem de se apagar ao redor de seus sapatos. Havia um pouco de fuligem na barra de sua túnica, mas ele não pareceu notar. Seus olhos procuraram o salão primeiro, rápidos, atentos, avaliando as mesas, o balcão, a escada que levava aos quartos e qualquer sinal de um garoto magro de cabelos bagunçados.

Logo atrás dele, a lareira brilhou novamente.

Ninfadora Tonks surgiu em seguida, sacudindo uma pequena nuvem de cinzas da manga.

— Calma, Sirius — disse ela, rindo da pressa do irmão. — Harry não vai aparatar para longe.

— Eu sei, irmã — Sirius respondeu sem diminuir o passo. — Mas isso não quer dizer que eu queira deixá-lo esperando.

Ninfadora revirou os olhos, mas o acompanhou até o balcão.

Tom, o velho dono do Caldeirão Furado, limpava uma caneca com um pano que parecia mais antigo do que alguns clientes do pub. Quando viu os dois se aproximarem, ergueu as sobrancelhas.

— Bom dia, Tom — Sirius disse com educação. — O senhor poderia chamar Harry Potter para mim, por favor?

O nome de Harry causou alguns cochichos discretos, mas nada incomum. O menino que sobreviveu ainda era assunto, mesmo quando apenas tentava tomar café.

— Claro, claro — respondeu Tom. — A quem devo anunciar?

— Sirius Tonks, por favor.

Dessa vez, o efeito foi diferente.

A caneca de um bruxo parou a meio caminho da boca. Uma bruxa sentada perto da parede virou a cabeça depressa demais. Duas conversas morreram ao mesmo tempo. Em menos de três segundos, metade do pub olhava para o garoto como se ele tivesse acabado de anunciar que era parente direto de uma maldição.

Sirius percebeu tudo.

Não pareceu surpreso.

Ninfadora, por outro lado, fechou a expressão.

— Não ligue para as caras deles — disse ela, em voz baixa, mas carregada de irritação. — Você não tem culpa pelo nome que carrega. A culpa é do desgraçado que traiu a família e os amigos.

Sirius olhou para a irmã.

Ela tentou manter a leveza, mas havia algo amargo em sua voz. Para Ninfadora, Sirius Black não era apenas o criminoso da manchete. Era uma lembrança de infância, um primo que ela conhecera antes da prisão, alguém que sua mãe amara como família de verdade.

— Até hoje eu não entendo o que deu nele — continuou ela, mais baixo. — Você pode não ter conhecido Black, mas eu convivi seis anos com ele. Ninguém teria imaginado que ele era um espião de Você-Sabe-Quem.

Sirius sustentou o olhar da irmã por um instante.

Aquilo doeu mais do que ele queria admitir.

Não por si mesmo. Ele não se importava com as reações ao próprio nome. Mas saber que a mãe e a irmã tinham carregado aquela ferida por doze anos, acreditando numa mentira, era algo que tornava o plano daquela manhã ainda mais necessário.

— Não se preocupe, irmã — ele disse. — Eu realmente não ligo para isso.

Antes que Ninfadora respondesse, Harry apareceu no topo da escada.

O garoto parecia ter dormido pouco. As roupas estavam amarrotadas, os cabelos impossíveis como sempre, e havia uma tensão nos ombros que não combinava com o alívio em seu rosto ao ver o amigo.

— Sirius! — Harry gritou, descendo os últimos degraus depressa.

O pub inteiro pareceu congelar.

Harry percebeu tarde demais.

Ele olhou ao redor, viu os rostos tensos e fez uma careta de constrangimento.

— Desculpe — disse, já mais baixo, aproximando-se dos dois. — Eu esqueci desse louco que fugiu de Azkaban. Deve ser horrível ter o mesmo nome que ele.

Ninfadora apertou os lábios.

Sirius não corrigiu Harry. Ainda não.

Aquela não era uma verdade que pudesse ser jogada sobre ele no meio do salão, diante de bruxos curiosos e ouvidos indiscretos.

— Na verdade, Harry — Sirius disse com calma —, difícil mesmo seria ser sobrinho dele, caso eu não tivesse o dom da premonição.

Harry piscou.

Ninfadora ficou imóvel por meio segundo.

Sirius apenas apontou discretamente para uma mesa no canto do salão, longe o bastante para que ninguém pudesse ouvir sem se esforçar demais.

— Venham. Essa conversa precisa de privacidade.

Os três se sentaram. Harry ficou de frente para Sirius, ainda tentando entender a frase. Ninfadora sentou-se ao lado do irmão, mas manteve o olhar fixo nele, como se tentasse descobrir em que tipo de problema ele havia se metido antes mesmo de ouvir a explicação.

Sirius olhou para ela.

— Irmã, pode lançar um Abaffiato, por favor?

— Agora você está começando a me preocupar.

— Eu sei.

Isso não ajudou.

Ninfadora puxou a varinha e fez o movimento com precisão.

— Abaffiato.

O som do pub se distorceu ao redor deles. As vozes continuavam ali, mas perderam forma, como se a mesa tivesse sido isolada por uma camada invisível de ruído.

— Pronto — disse Ninfadora, guardando a varinha. — Agora diga o que é tão importante.

Sirius respirou fundo.

Ele havia ensaiado aquela conversa mais vezes do que conseguia contar. Ainda assim, diante de Harry e da irmã, as palavras pareciam mais pesadas.

— Antes de qualquer coisa, preciso que vocês dois me prometam que o que eu disser agora não sairá desta mesa.

Harry endireitou a postura.

Ninfadora estreitou os olhos.

— Harry, você não pode contar para Rony nem para Hermione. Não ainda. Dora, você não pode contar para mamãe, papai, seus colegas, seu chefe ou qualquer pessoa no Ministério.

— Eu parei de contar tudo para mamãe e papai faz muito tempo, irmãozinho — Ninfadora disse, tentando soar leve. — Mas você pedir segredo do Ministério é bem mais preocupante do que pedir segredo dos nossos pais.

Sirius a olhou em silêncio.

O sorriso dela morreu.

— Sirius... por favor, me diga que você não fez nada ilegal.

Ele hesitou.

Foi rápido, mas Ninfadora conhecia o irmão bem demais.

O cabelo dela, que estava rosa, começou a escurecer nas pontas até chegar a um vermelho vivo.

— Sirius Tonks.

— Eu não fiz nada errado.

— Isso não é a mesma coisa que dizer que não fez nada ilegal.

Harry olhou de um para o outro, claramente confuso, mas sem interromper. Ele confiava em Sirius. Aquilo era visível na forma como esperava, mesmo nervoso.

Sirius suspirou.

— Então, irmãzona...

— Ah, não — Ninfadora murmurou.

— Eu realmente preciso que você não fale nada para ninguém no Ministério. Principalmente no seu setor.

— Sirius, eu sou uma auror em treinamento — ela disse, baixando a voz. — Eu mal tenho credibilidade para me salvar de uma bronca. Não me faça usar o pouco que tenho para tirar você de uma enrascada.

— Eu não vou precisar ser salvo.

— Isso não está me tranquilizando.

— O que vou contar pode causar muita dor de cabeça para muita gente no Ministério — Sirius disse. — Mas ainda não é hora de envolver o Ministério.

Ninfadora ficou séria de verdade.

— Você previu algo relacionado ao louco?

A palavra fez Sirius prender a mandíbula por um instante.

Harry percebeu. Não entendeu, mas percebeu.

— Se você sabe onde Sirius Black está — Ninfadora continuou, a voz ficando mais urgente —, eu não entendo por que esconder isso. Você sabe o que ele fez. Sabe o quanto ele estava comprometido com Você-Sabe-Quem.

No fim da frase, ela olhou rapidamente para Harry.

O garoto ficou rígido.

Sirius colocou as mãos sobre a mesa.

— Primeiro, preciso da promessa de vocês. Não apenas de que não contarão a ninguém. Preciso que prometam que não farão nada impulsivo com as informações que eu vou dar.

Harry abriu a boca, mas Sirius ergueu uma mão.

— Principalmente você, Harry.

Harry se calou.

Ninfadora respirou fundo. O vermelho de seu cabelo começou a ceder, voltando lentamente ao rosa, embora ainda houvesse mechas avermelhadas nas pontas.

— Eu confio em você, irmãozinho — ela disse por fim. — Prometo não contar a ninguém e não agir sem falar com você antes.

Harry olhou diretamente para Sirius.

— Eu também prometo. — Sua voz saiu mais firme. — E eu sei que estão escondendo alguma coisa de mim. Sobre ele. Sobre Black.

Sirius assentiu.

— Sim. Estão.

Harry empalideceu um pouco.

— Tem a ver com meus pais?

Sirius não desviou o olhar.

— Tem.

O silêncio que se seguiu pareceu esmagar a mesa.

Ninfadora olhou para Harry com pena. Harry, por sua vez, manteve os olhos fixos em Sirius, como se qualquer movimento errado pudesse fazer a verdade escapar.

— Primeiro — Sirius começou, escolhendo as palavras com cuidado —, preciso que entendam uma coisa: eu tenho certeza do que vou contar. Não é palpite. Não é boato. Não é uma visão confusa. E eu tenho um plano, mas preciso da ajuda de vocês.

Ninfadora se inclinou levemente para frente.

Harry não piscava.

— Sirius Black não é responsável pela morte de Pedro Pettigrew — disse Sirius. — E ele também não era o Guardião do Segredo de James e Lílian Potter.

Harry se mexeu como se tivesse levado um choque.

— Espera. Guardião do Segredo? O que isso significa?

Sirius viu a agitação surgindo no rosto dele e suavizou a voz.

— Calma, Harry. Vou explicar. O Feitiço Fidelius é uma magia muito poderosa usada para esconder um segredo dentro de uma pessoa. No caso dos seus pais, foi usado para esconder o local onde eles estavam vivendo com você.

Harry engoliu em seco.

— E todo mundo acha que Sirius Black era essa pessoa?

— Sim. Todos acreditam que Sirius Black era o Guardião do Segredo dos Potter. A versão oficial é que ele entregou seus pais para Voldemort e depois matou Pedro Pettigrew quando foi confrontado.

A mão de Harry fechou em punho sobre a mesa.

Sirius continuou antes que a raiva do amigo crescesse demais.

— Mas essa versão está errada. Sirius Black convenceu seus pais a trocar o Guardião no último momento. Ele achou que Voldemort esperaria que ele fosse o escolhido, então sugeriu outra pessoa. Alguém aparentemente fraco demais para ser suspeito.

Ninfadora ficou pálida.

— Não.

Sirius olhou para ela.

— Pedro Pettigrew.

— Impossível — ela disse de imediato. — Pedro Pettigrew foi morto. Black o explodiu numa rua cheia de trouxas. Doze pessoas morreram. Só encontraram um dedo para colocar no caixão.

— Essa é a história oficial.

— Sirius...

— E é mentira.

Ninfadora recuou como se a palavra tivesse força física.

Harry parecia não saber se devia sentir raiva, esperança ou horror. Os olhos dele estavam úmidos, mas duros.

— Pedro Pettigrew está vivo — Sirius disse. — Presente, não passado. Ele era o verdadeiro Guardião do Segredo. Menos de uma semana depois de receber esse segredo, entregou a localização dos seus pais para Voldemort.

Harry parou de respirar por um instante.

Ninfadora levou a mão à boca.

Sirius odiou continuar, mas não havia gentileza possível em uma verdade daquele tamanho.

— Depois da morte de seus pais, Sirius Black foi atrás dele. Pettigrew o acusou em voz alta diante de testemunhas, cortou o próprio dedo, causou a explosão que matou os trouxas e fugiu transformado.

— Transformado? — Harry perguntou, a voz baixa demais.

— Animago — Sirius respondeu. — Um rato.

A expressão de Harry mudou.

Não completamente. Não de uma vez. Mas algo se quebrou ali.

— Ele deixou Black ser levado.

— Sim.

— Deixou todo mundo acreditar que ele era um herói morto.

— Sim.

— E deixou o verdadeiro inocente apodrecer em Azkaban.

Sirius não respondeu.

Não precisava.

Harry bateu a mão na mesa. Não forte o bastante para chamar atenção fora do Abaffiato, mas forte o suficiente para fazer as xícaras tremerem.

— Aquele traidor.

A voz dele saiu baixa, carregada de uma raiva que parecia grande demais para um garoto de treze anos.

— Harry — Sirius chamou.

Harry ergueu os olhos. Eles estavam vermelhos.

— Pode contar comigo. Eu ajudo. Eu faço qualquer coisa para pegar esse—

— Harry.

Dessa vez, a voz de Sirius foi firme o bastante para interrompê-lo.

Ninfadora observava os dois em silêncio, ainda processando a possibilidade de tudo que acreditava saber sobre Sirius Black ser falso.

— Eu entendo sua raiva — Sirius disse. — E concordo que Pedro Pettigrew precisa pagar pelo que fez. Mas enquanto você reagir assim, o plano não vai funcionar.

Harry respirava pesado.

— Como você espera que eu reaja?

— Eu não espero que você não sinta raiva. Isso seria absurdo. — Sirius apoiou os cotovelos na mesa e baixou a voz. — Eu espero que você aprenda a guardar essa raiva no lugar certo até a hora certa.

Harry engoliu a resposta.

— A partir de agora, vou te treinar em Oclumência.

— Oclumência? — Harry perguntou, a raiva vacilando diante da confusão.

— Impossível — Ninfadora disse antes que Sirius pudesse explicar. — Oclumência é avançada demais. Adultos têm dificuldade com isso.

— Ele não precisa dominar tudo no começo — Sirius respondeu. — Não precisa criar uma fortaleza mental perfeita. Precisa aprender a controlar emoções, esconder pensamentos superficiais e não deixar qualquer pessoa perceber o que está sentindo assim que olhar para ele.

— Sirius, isso ainda é—

— Necessário.

A palavra encerrou a objeção por um momento.

Sirius voltou-se para Harry.

— Oclumência é a arte de proteger a mente contra Legilimência. Legilimens são bruxos capazes de invadir pensamentos, memórias ou emoções. Mas antes de proteger memórias profundas, você precisa aprender controle emocional. Se alguém importante olhar para você enquanto estiver pensando em Pedro Pettigrew, o plano pode acabar antes de começar.

Harry franziu a testa.

— Alguém importante tipo quem?

Sirius hesitou por uma fração de segundo.

— Tipo Dumbledore. Tipo Snape. Tipo qualquer um mais experiente do que nós.

Ninfadora suspirou.

— Tecnicamente, você está simplificando demais.

— Eu sei.

— Para Oclumência ser eficaz, o bruxo aprende primeiro a controlar as emoções, depois a organizar pensamentos, criar barreiras, falsas camadas, memórias de distração...

— Eu sei, irmã.

— Então por que está falando como se fosse só “não ficar bravo”?

— Porque se eu começar explicando tudo, Harry vai achar que é impossível antes mesmo de tentar.

Harry olhou para ele.

Sirius sustentou o olhar.

— Não é impossível. Difícil, sim. Doloroso, provavelmente. Mas não impossível.

Ninfadora passou a mão pelo cabelo, agora voltando aos poucos para o rosa.

— E quem exatamente vai ensinar isso a ele? Você?

Sirius não respondeu.

Ninfadora estreitou os olhos.

— Sirius.

Ele continuou em silêncio.

— Você sabe Oclumência?

— Sei.

A resposta foi simples demais.

Harry olhou para o amigo com surpresa.

Ninfadora ficou imóvel.

— Desde quando?

— Desde os dez.

— Dez?

— Eu comecei a pedir ao papai com nove.

Ninfadora abriu a boca, fechou, abriu de novo.

— Ted ensinou Oclumência para uma criança de dez anos?

— Eu insisti bastante.

— Isso é bárbaro!

— Foi eficiente.

— Se a mamãe souber disso—

— Ela não vai saber — Sirius interrompeu imediatamente. — Porque você acabou de prometer que essa conversa não sairia daqui.

Ninfadora apontou um dedo para ele.

— Não use minha promessa contra mim, irmãozinho.

— Estou usando sua promessa a favor da paz familiar.

— Você é impossível.

Harry, apesar da tensão, pareceu quase sorrir.

Quase.

Sirius aproveitou aquele pequeno alívio antes de continuar.

— O método que papai usou foi rústico. Ele atacava minha mente com Legilimência, e eu tinha que expulsá-lo. No começo foi horrível. Depois ficou suportável. E então funcionou.

Harry se inclinou para frente.

— Eu posso fazer isso.

Ninfadora olhou para ele.

— Harry, você não precisa provar nada agora.

— Preciso sim. — Ele apertou os punhos sobre o colo. — Se esse rato está vivo, se ele traiu meus pais e se Black é inocente, então eu preciso conseguir me controlar. Não vou ser o motivo de ele escapar.

Sirius observou o amigo em silêncio.

Aquela era uma das razões pelas quais ele confiava em Harry. A raiva vinha rápido, mas a coragem também. E, quando alguém lhe dava um motivo claro, Harry era capaz de se agarrar a ele com uma força assustadora.

— Tudo bem — Ninfadora disse por fim, rendida pela determinação do garoto. — Se você está disposto, quem sou eu para te impedir? Mas ainda tem um problema.

Sirius ergueu uma sobrancelha.

— Qual?

— Quem vai atacar a mente dele? A menos que você também seja um Legilimens.

Sirius apenas olhou para ela.

Ninfadora o encarou por dois segundos.

Depois por mais dois.

Então sua expressão mudou.

— Não.

Sirius inclinou a cabeça.

— Irmã, você realmente achou que eu aprenderia Oclumência e não tentaria aprender Legilimência?

— Você tem treze anos!

— Quase quatorze.

— Isso não melhora!

Harry olhava os dois como se tivesse descoberto que a conversa ainda tinha mais absurdos guardados.

Sirius se virou para Ninfadora.

— Posso?

— Nem pense em—

Antes que ela terminasse, Sirius encontrou os olhos da irmã e tocou apenas a superfície das proteções mentais dela.

Não invadiu.

Não procurou memórias.

Não forçou nada.

Foi o equivalente mágico a bater de leve em uma porta trancada.

Ninfadora sentiu.

O cabelo dela ficou branco por um segundo inteiro.

Depois voltou ao rosa com uma rapidez agressiva.

— Você... — Ela respirou fundo, claramente lutando entre orgulho, irritação e espanto. — Você é irritante demais.

— Esse é o seu jeito de dizer que ficou impressionada?

— Esse é o meu jeito de dizer que, se você fizer isso comigo de novo sem avisar, eu te penduro pelo tornozelo na sala da mamãe.

Sirius sorriu.

— Justo.

Ninfadora cruzou os braços.

— O gênio dos Tonks. Claro. Como se a família já não tivesse problemas suficientes.

Harry soltou uma risada curta.

Era pequena, tensa, quase deslocada diante de tudo que tinham acabado de discutir. Mas era uma risada. E, por um instante, Sirius viu o amigo parecer um pouco menos esmagado pela verdade.

O momento passou rápido.

— Então qual é o plano? — Harry perguntou.

Sirius ficou sério novamente.

— Por enquanto, nada impulsivo. Você vai fazer suas compras escolares antes dos Weasleys voltarem das férias. Vai continuar no Caldeirão Furado, onde é mais seguro do que na Rua dos Alfeneiros. Eu vou vir sempre que puder nas próximas semanas para treinarmos Oclumência e preparar você para o que virá depois.

— E Black? — Harry perguntou.

Ninfadora também olhou para Sirius.

Sirius não respondeu de imediato.

Havia partes do plano que ainda não podia abrir completamente. Não porque não confiasse neles, mas porque quanto menos soubessem naquele momento, menos poderiam entregar por acidente.

— Sirius Black está tentando chegar até Pettigrew — disse ele. — Se o fizer sem ajuda, pode ser morto, capturado ou beijado por um Dementador antes que consiga provar a verdade. Então vamos encontrá-lo antes.

Ninfadora ficou rígida.

— “Vamos”?

Sirius olhou para ela.

— Eu vou precisar da sua ajuda, irmã.

— Para capturar o criminoso mais procurado da Grã-Bretanha.

— Para salvar um homem inocente antes que o verdadeiro criminoso escape.

Ninfadora fechou os olhos por um instante.

Quando os abriu, a auror em treinamento ainda estava ali. Mas a irmã também estava.

E, por trás das duas, havia a menina que um dia conhecera Sirius Black antes de o mundo chamá-lo de traidor.

— Você tem certeza? — ela perguntou, mais baixo.

Sirius respondeu sem hesitar.

— Absoluta.

Ninfadora sustentou o olhar dele por alguns segundos.

Então assentiu.

— Tudo bem. Eu vou te ajudar. Mas, Sirius, se isso der errado—

— Não vai.

— Se der errado — ela repetiu, mais firme —, eu vou dizer para mamãe que Ted ensinou Oclumência para você aos dez anos.

Sirius levou a mão ao peito, fingindo horror.

— Cruel.

— Aprendi com você.

Harry olhou para os dois, e parte da tensão em seus ombros diminuiu. Não muito. Não o bastante para apagar a raiva, a dor ou a confusão. Mas o suficiente para ele respirar.

Sirius percebeu.

Era um começo.

Não uma vitória.

Apenas um começo.

Depois disso, a conversa se tornou mais prática. Sirius explicou a Harry que ele deveria comprar os materiais escolares cedo, evitar os Weasleys por enquanto e não fazer perguntas perigosas em público. Também combinou visitas regulares ao Caldeirão Furado para passar tempo com o amigo e iniciar os exercícios mentais.

Ninfadora fez perguntas demais, como era esperado, mas aceitou respostas parciais quando percebeu que Sirius não estava sendo evasivo por brincadeira.

Ele estava tentando manter o plano inteiro de pé.

Quando finalmente se levantaram da mesa, o Abaffiato ainda protegia os últimos ecos da conversa.

Harry parecia diferente de quando descera as escadas.

Não mais leve.

Não mais feliz.

Mas com um objetivo.

E Sirius sabia que aquilo era perigoso.

Um Harry Potter sem direção podia explodir uma tia como um balão.

Um Harry Potter com direção podia mudar o mundo.

A questão era garantir que, dessa vez, ele mudasse o mundo antes que o mundo o quebrasse.


"Harry Potter e Stargate são propriedades de seus respectivos donos. Esta é uma obra de ficção feita por fã, sem fins lucrativos."


Notas finais
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