Renascido como um Tonks
14 14 - O dia depois do julgamento e a aula poções.
Notas iniciais
O Dia Seguinte: Em Hogwarts
Se a noite na Torre da Grifinória fora de festa e cerveja amanteigada contrabandeada, a manhã seguinte, no Grande Salão, era o despertar para uma nova realidade política.
Enquanto a transição de riqueza começava nos bastidores de Gringotes, Harry e Sirius Tonks entraram para o café da manhã sob um silêncio diferente. Não era medo. Era respeito estupefato.
Centenas de exemplares do Profeta Diário estavam abertos. A foto de Sirius Black abraçando Harry no tribunal, com Sirius Tonks em segundo plano e sua postura gélida, era a imagem que definia o ano.
— Olhem a cara do Malfoy — sussurrou Rony, apontando com o garfo para a mesa da Sonserina.
Draco Malfoy parecia ter engolido um Sapo de Chocolate estragado. Seu pai, Lucius, fora um dos que mais defenderam a execução de Black anos antes. Agora, a Casa Black estava de volta ao jogo, e não sob o controle das Trevas.
Ainda assim, o verdadeiro perigo não vinha da mesa dos alunos.
Na mesa dos professores, o ar parecia ter congelado ao redor de um único homem.
Severo Snape não lia o jornal. Olhava para Harry e Sirius Tonks com um ódio tão cru e visceral que Neville, sentado por perto, quase derrubou o suco de abóbora.
Para Snape, a liberdade de Sirius Black era o pior pesadelo possível. Era a prova de que o passado nunca morria, e de que seus “inimigos” de infância haviam vencido mais uma vez.
— Acho que teremos uma aula de Poções interessante hoje — comentou Sirius Tonks, mantendo a calma enquanto se servia de ovos mexidos. — Severo não parece estar lidando bem com a justiça.
— Ele parece que vai explodir a qualquer momento — murmurou Harry, sentindo uma dor de cabeça começar sob a intensidade do olhar de Snape.
— Deixe que ele olhe — disse Sirius Tonks, sustentando o olhar de Snape por um breve segundo antes de desviar. — Ele é um homem preso ao passado. Nós estamos construindo o futuro. Mas, Harry... prepare-se. Ele vai tentar descontar em você cada segundo que o meu primo passou em liberdade ontem.
Enquanto Snape exalava fúria, ao lado dele Remus Lupin parecia um homem que havia visto um fantasma. Ou vários.
Suas mãos tremiam tanto que ele precisou pousar a xícara de chá para não derramar o conteúdo sobre as vestes remendadas. Seus olhos, fundos e cansados, alternavam entre a manchete do jornal e o rosto de Harry.
Havia dor em sua expressão. Dor lancinante. Mas também uma luz de esperança que parecia assustá-lo.
Ele sabia que falhara com Sirius. Acreditara no pior. E agora, a prova da inocência do amigo estava ali, orquestrada por um garoto que carregava o nome de Sirius.
Lupin olhou para Sirius Tonks.
O menino, com sua calma sobrenatural, pareceu sentir o olhar do professor e inclinou levemente a cabeça. Foi só um gesto. Um reconhecimento breve. Ainda assim, fez Remus engolir em seco.
— Ele está em choque — sussurrou Hermione, observando a mesa dos professores. — O Professor Lupin parece... parece que vai desabar a qualquer momento.
— Ele era o melhor amigo deles, Hermione — lembrou Harry, com a voz embargada. — Imagine descobrir que o homem que você odiou por doze anos era o único que estava sendo leal o tempo todo.
Aula de Poções: O Duelo de VontadesA masmorra estava mais fria do que o normal.
Snape entrou na sala como uma sombra projetada na parede, o barulho das vestes batendo contra as botas soando como chicotadas.
— Silêncio — disse ele, embora ninguém estivesse falando. — Vejo que a fama subiu à cabeça de alguns alunos, a ponto de acreditarem que um golpe de sorte jurídico os torna imunes às regras desta sala.
Ele parou diante da mesa de Harry e Sirius Tonks.
— Dez pontos da Grifinória — sibilou Snape — pelo Sr. Potter estar com o colarinho desarrumado. E outros dez pelo Sr. Tonks parecer satisfeito demais com a própria arrogância.
Harry abriu a boca para protestar, mas Sirius Tonks pousou a mão discretamente em seu braço, por baixo da mesa. O recado era claro: não caia na armadilha.
— Algum problema, Sr. Tonks? — Snape se inclinou, o rosto a centímetros do dele. Falou baixo, para que só Sirius pudesse ouvir. Sabia que aquele tipo de veneno não devia ser exposto diante de todos. — Ou sua capacidade de prever as ações dos outros não previu que você perderia pontos hoje?
Sirius Tonks finalmente ergueu os olhos.
Não havia raiva neles. Apenas uma indiferença profunda e uma ponta de... piedade.
— Pontos são apenas números em uma ampulheta, Professor — respondeu Sirius, com uma voz tão calma que fez a turma inteira prender a respiração. — Eles podem ser perdidos e ganhos. Mas a verdade... a verdade é algo que, uma vez revelado, não pode ser alterado por nenhum desconto de pontos. Nem mesmo o senhor pode apagar o que aconteceu ontem no Ministério.
O rosto de Snape ficou lívido.
Ele parecia prestes a expulsar Sirius da sala com um único feitiço, mas o garoto continuou, baixando o tom até que apenas Snape e Harry pudessem ouvi-lo:
— O senhor perdeu um inimigo ontem, Professor. Mas ganhou a chance de parar de lutar uma guerra que já acabou. Meu primo está livre. Pedro está preso. O passado se resolveu, quer o senhor aceite ou não.
Snape recuou como se tivesse levado um tapa.
O silêncio na masmorra era tão denso que se podia ouvir o borbulhar dos caldeirões ao redor.
Snape abriu a boca para berrar, para dar uma detenção perpétua, mas algo no olhar de Sirius Tonks, uma mistura de sabedoria antiga e autoridade Black, o fez hesitar.
— Cinquenta pontos da Grifinória — rosnou Snape por fim, a voz tremendo de ódio contido. — Por sua insolência sem precedentes. E detenção comigo hoje à noite, Sr. Tonks. Vamos ver se sua “verdade” o protegerá enquanto limpa caldeirões sem magia.
Sirius Tonks apenas assentiu e voltou a picar os ingredientes com precisão cirúrgica.
— Sim, senhor, Professor.
Quando saíram da masmorra, depois da aula tumultuada, Harry olhou para Sirius com preocupação.
— Você não devia ter falado assim com ele, Sirius. Ele vai acabar com você nessa detenção.
— Alguém precisava dizer a ele que o mundo mudou, Harry — respondeu Sirius.
Então parou.
O Professor Lupin estava no fim do corredor, esperando por eles. Parecia ainda mais pálido do que no café da manhã.
— Harry... Sirius — chamou Lupin, com a voz rouca. — Eu... eu gostaria de falar com vocês. No meu escritório. Se tiverem um momento.
Harry e Sirius Tonks o seguiram em silêncio pelos corredores de pedra.
Ao entrarem no escritório, o cheiro de chá e pergaminhos velhos pareceu mais pesado do que o normal. Lupin fechou a porta com um clique suave e lançou um feitiço de abafamento, garantindo que ninguém do lado de fora pudesse ouvir a conversa.
Depois se virou para os dois, apoiando-se na mesa. As mãos ainda tremiam levemente.
— Como? — perguntou, com a voz falhando. — Como vocês sabiam sobre Pedro? Eu vivi doze anos acreditando na mentira... Dumbledore acreditou na mentira. Como dois alunos conseguiram encontrar a verdade que todos nós ignoramos?
Harry olhou para Sirius Tonks, esperando que ele assumisse a frente.
Sabia que aquele era o momento de decidir o quanto Lupin deveria saber.
Sirius Tonks deu um passo à frente. Seus olhos encontraram os de Lupin com uma seriedade que não pertencia a uma criança.
— Professor, o que vou lhe dizer precisa permanecer em segredo absoluto. Nem mesmo os outros professores podem saber.
Lupin assentiu de imediato, subitamente muito mais alerta.
— Você tem minha palavra, Sirius.
Sirius Tonks sustentou o olhar dele por um instante.
— Eu sei sobre Pedro porque conheço o futuro, Professor. Carrego o fardo de saber o pior que esta linha temporal poderia oferecer. Vi tragédias, mortes e doze anos de sofrimento injusto para o meu primo. Usei esse conhecimento para intervir antes que fosse tarde demais. Meu objetivo é transformar esse futuro em algo menos traumático para todos nós.
Lupin ficou imóvel.
Abriu a boca para falar, mas nenhuma palavra saiu. Olhou para Harry, que apenas confirmou com um aceno de cabeça, e então voltou os olhos para o garoto à sua frente.
— Um vidente... — sussurrou Lupin, atônito. — Sirius, isso é... o peso disso é inimaginável. Almofadinhas sabe? Ele sabe que você...
— Ele sabe — respondeu Sirius Tonks. — Para salvá-lo, eu tive que expor a verdade a ele. Além da minha família imediata, do Diretor Dumbledore e da Professora McGonagall, os únicos que sabem são Harry, Hermione e Rony. E agora, o senhor.
Lupin sentou-se pesadamente na cadeira, processando a magnitude da revelação.
Pensou em todas as vezes em que Sirius Tonks parecera saber exatamente o que fazer. Na precisão dos movimentos no Ministério. Na calma diante de Snape.
Tudo fazia sentido agora.
— Então você viu o que aconteceria se Pedro não fosse pego? — perguntou Lupin, com um brilho de pavor nos olhos.
— Eu vi o retorno das trevas de uma forma muito mais dolorosa — respondeu Sirius Tonks, olhando para a janela. — Mas hoje o meu primo está livre. E isso já mudou o tabuleiro de um jeito que o inimigo não esperava.
Ele fitou a paisagem do lado de fora por um segundo, depois voltou-se para Lupin.
— Mas isso não significa que o retorno foi impedido. — Seus olhos passaram por Harry e voltaram ao professor. — Voldemort não morreu, Professor, e ele vai voltar. Pode demorar um pouco mais agora, mas definitivamente vai voltar.
Lupin pareceu envelhecer dez anos em um único segundo.
Inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e entrelaçando as mãos com força. O nome de Voldemort, dito sem hesitação por Sirius Tonks, fez as sombras do escritório parecerem mais longas.
— Eu sempre soube, no fundo, que ele não havia partido para sempre — admitiu Lupin, a voz pouco mais que um sussurro áspero. — Alvo sempre nos avisou. Mas ouvir isso de você, Sirius... com essa clareza... faz a ameaça parecer estar batendo à nossa porta agora mesmo.
Ele olhou para Harry, que permanecia ao lado de Sirius Tonks com uma expressão de determinação que lembrava, de forma quase dolorosa, Tiago Potter nos dias da Ordem da Fênix.
— Se ele vai voltar — continuou Lupin, voltando os olhos cansados para Sirius Tonks — então o que fizemos ontem foi apenas o primeiro movimento de uma guerra muito maior. Você salvou Sirius Black, mas Pedro Pettigrew agora está em Azkaban. Na sua... “outra visão”, era Pedro quem ajudava no retorno dele?
Sirius Tonks assentiu devagar.
— Sim. Sem Pedro, o plano original foi fragmentado. Mas o destino tem uma maneira de tentar se corrigir, Professor. Voldemort encontrará outra forma. Outro servo. Por isso, não podemos descansar. E Harry precisa estar pronto. Nós todos precisamos.
Lupin se levantou e foi até o armário. De lá, retirou um baú antigo que Harry reconheceu das aulas sobre o Bicho-Papão. Desta vez, porém, ele não buscava uma criatura para treinar.
Retirou um mapa e alguns livros de capa de couro gasta.
— Se você carrega esse fardo, Sirius, eu não vou permitir que o carregue sozinho — declarou Lupin, com uma nova firmeza na voz. — Se a tempestade está vindo, eu vou garantir que vocês dois sejam os bruxos mais bem preparados que Hogwarts já viu. Harry, começaremos suas aulas de Patrono imediatamente. E, para você, Sirius... se você já conhece o futuro, precisamos treinar seus reflexos e sua magia para que seja capaz de alterá-lo no calor do momento.
Harry sentiu um arrepio.
A proteção de seu padrinho era uma vitória, mas as palavras de Sirius Tonks deixavam claro que a paz era apenas um intervalo.
— O que você viu depois, Sirius? — perguntou Harry, em voz baixa. — No seu “pior cenário”... o que acontece conosco?
Sirius Tonks olhou para o amigo e, por um breve instante, a máscara de frieza fraquejou. Sob ela havia dor. A dor de alguém que já vira o luto vezes demais.
— Não adianta pensar nesse cenário agora, Harry. Ele já mudou. — Sirius lançou um olhar ao professor antes de voltar ao amigo. — Agora, temos que nos preparar, treinar e ficar mais fortes. Mas isso não basta. Professor, não se preocupe. Sua ajuda no treinamento é para este ano, mas espero que, quando o senhor sair de Hogwarts, ajude minha irmã em algumas missões que ela vem fazendo para mim. Ela é uma das poucas pessoas em quem eu realmente confio.
"Harry Potter e Stargate são propriedades de seus respectivos donos. Esta é uma obra de ficção feita por fã, sem fins lucrativos."
Fale com o autor