Renascido como um Tonks

1 1 - Dessa vez sem balão!


Terça-feira, 07 de agosto de 1993, 19h20.

Rua dos Alfeneiros, número 04.

POV de Harry Potter

Eu senti meus dedos se fecharem com tanta força ao redor do garfo que, por um instante, tive certeza de que o metal iria entortar.

Guida Dursley continuava falando.

Rindo.

Ofendendo.

Comparando minha mãe a uma cadela como se Lílian Potter fosse apenas mais um dos assuntos desagradáveis daquela mesa horrível.

O ar pareceu ficar pesado demais para respirar. Alguma coisa quente subiu pelo meu peito, passou pela garganta e quase explodiu pelas pontas dos meus dedos. A luz da sala pareceu tremer. A toalha sobre a mesa ondulou como se uma rajada de vento tivesse atravessado a casa fechada.

Eu quase perdi o controle.

Quase.

Mas então me lembrei da voz de Sirius Tonks.

Se ela falar da sua mãe, respira. Não reage de verdade. Age como se estivesse abalado, sobe para o quarto e força seu tio a assinar antes de ir embora. Não ameace por raiva, Harry. Use o medo deles como ferramenta.

Eu odiei admitir, mas meu amigo estava certo.

Se Sirius não tivesse me avisado, se não tivesse passado as últimas semanas martelando aquela possibilidade na minha cabeça, eu provavelmente teria explodido a tia Guida como um balão. Ou pior.

Então fiz o que havia prometido fazer.

Empurrei a cadeira para trás com um ruído seco, sem olhar para ninguém, e saí da sala com o rosto rígido, como se as palavras tivessem acertado fundo demais para eu continuar ali.

Na verdade, tinham acertado.

A diferença era que, dessa vez, eu sabia para onde direcionar a dor.

Subi as escadas ouvindo o som pesado dos passos do tio Valter logo atrás. Não precisei esperar muito. Assim que entrei no quarto, Valter Dursley abriu a porta com força, vermelho de raiva e satisfação ao mesmo tempo.

— Escute aqui, garoto, você não vai sair da minha mesa como se—

Eu já estava com o formulário de autorização para Hogsmeade em uma mão e a varinha na outra.

Não ergui a voz. Não precisava.

— Pronto. Eu fiz como o senhor pediu. Não gritei, não respondi, não fiz nada com ela. — Estendi o pergaminho. — Mas acabou. Eu não fico mais aqui esta noite. Assine o formulário, e eu vou embora antes que eu faça alguma coisa da qual nós dois vamos nos arrepender.

Valter olhou para a varinha. Depois para o papel. Depois para mim.

— Garoto... não tente me ameaçar.

Dei um passo à frente.

O quarto pareceu pequeno demais para o silêncio que se formou entre nós.

— Me teste.

Minha voz saiu baixa, mas firme o suficiente para fazer meu tio estremecer.

— Eu não estou brincando, tio Valter. Assine.

Valter Dursley agarrou a pena com raiva, rabiscou a assinatura no lugar indicado e praticamente jogou o formulário de volta.

Peguei o papel antes que caísse.

Guardei-o com cuidado no bolso, como se fosse algo muito mais valioso do que um simples pedaço de pergaminho.

Talvez fosse.

— Muito obrigado — eu disse.

Então olhei para o quarto pequeno onde passei tantos verões sendo tratado como um incômodo, um peso, uma vergonha escondida no armário.

— E até nunca mais.

Não dei tempo para Valter responder.

Juntei minhas coisas com uma pressa treinada. Minha mala já estava quase pronta, porque Sirius Tonks também havia previsto aquilo. Edwiges piou baixo quando abri a gaiola, como se entendesse que aquela noite era diferente.

Desci as escadas sem pedir permissão.

Ignorei os gritos do meu tio.

Ignorei o olhar assustado de Petúnia.

Ignorei Guida Dursley, que ainda não fazia ideia de quão perto estivera de sair daquela casa pela janela.

Quando cheguei à rua, o ar da noite pareceu frio e libertador.

Soltei Edwiges primeiro. Amarrei a pequena carta à pata dela e acariciei suas penas brancas.

— Entregue para Sirius. Ele vai saber o que fazer.

A coruja bicou meu dedo de leve, como se prometesse, e desapareceu na escuridão.

Só então ergui a varinha e acenei para a rua vazia, exatamente como Sirius havia me ensinado.

Por um segundo, nada aconteceu.

Então veio o estrondo.

O Nôitibus Andante surgiu do nada, freando tão violentamente que dei um passo para trás. As portas se abriram com um chiado, e o condutor apareceu com um sorriso largo demais para alguém completamente normal.

Olhei uma última vez para a Rua dos Alfeneiros número 04.

Não senti saudade.

Entrei no ônibus.

— Caldeirão Furado — eu disse.

E, enquanto o Nôitibus disparava pela noite, segurei o formulário assinado dentro do bolso como se fosse a primeira prova concreta de que, talvez, aquele ano pudesse ser diferente.

Fim do POV de Harry Potter

Algumas horas depois, em uma casa no campo ao sul da Inglaterra, uma coruja das neves pousou no parapeito de uma janela no segundo andar.

Edwiges bicou o vidro duas vezes.

Do lado de dentro, um garoto ergueu os olhos do livro aberto sobre a cama. A capa dizia algo sobre o Feitiço Patrono, assunto que sua irmã mais velha lhe entregara com a clara intenção de fazê-lo estudar “algo útil e menos perigoso”.

Sirius Tonks fechou o livro com cuidado.

Aos treze anos, tinha pouco mais de um metro e setenta, corpo esguio, mas forte de um modo que não combinava com alguém que passava tantas horas na biblioteca. O cabelo escuro estava levemente bagunçado, e os olhos mudaram de tom por um segundo quando ele reconheceu a visitante.

Ele abriu a janela.

— Boa noite, Edwiges.

A coruja entrou com dignidade, pousando na escrivaninha.

Sirius desamarrou o bilhete, leu rapidamente e soltou um suspiro que parecia carregar semanas de tensão.

— Então ele conseguiu chegar ao Caldeirão Furado.

Edwiges inclinou a cabeça.

Sirius sorriu.

— Ótimo. Espere só um minuto. Vou escrever a resposta e trazer alguma coisa para você comer. Você merece.

Saiu do quarto e voltou pouco depois com um prato de bacon em uma mão e um pergaminho enrolado na outra. Colocou o prato diante da coruja, que começou a comer com a satisfação de quem sabia exatamente o valor de seu serviço.

Enquanto Edwiges se alimentava, Sirius prendeu a resposta na pata dela.

— Entregue ao Harry. Diga a ele para ficar no Caldeirão Furado, não provocar ninguém e me esperar até o amanhecer. — Ele fez uma pausa, depois acrescentou em voz mais baixa: — E obrigado.

Edwiges piou, satisfeita com o bacon e talvez com o agradecimento, antes de saltar pela janela e desaparecer na noite.

Sirius ficou parado por alguns segundos, olhando para o céu escuro.

O primeiro passo havia dado certo.

O pensamento deveria tê-lo deixado aliviado. Em vez disso, apenas tornou o peso sobre seus ombros mais real.

Até aquele verão, ele havia feito o possível para tocar o mínimo possível na linha dos acontecimentos. Pequenas interferências. Pequenos avisos. O suficiente para proteger os amigos sem quebrar tudo antes da hora.

Mas agora o terceiro ano começava.

E o terceiro ano era o ponto onde fingir ignorância deixava de ser prudência e passava a ser covardia.

Sirius fechou a janela devagar.

Sirius Black estava vivo. Inocente. Caçado.

Pedro Pettigrew também estava vivo. Culpado. Escondido.

E Harry Potter, o melhor amigo que aquele mundo lhe dera, ainda não tinha a família que deveria ter.

Sirius Tonks não nascera naquele mundo.

Ou melhor, nascera. Mas não começara ali.

Antes de ser Sirius Tonks, filho de Ted e Andrômeda, irmão mais novo de Ninfadora, ele havia sido Jonathan. Um homem de outra realidade, outro tempo, outra vida. Veterinário, zootecnista, especialista em biotecnologia, doutor em engenharia genética. Um homem que envelhecera, treinara artes marciais por décadas, lera mais livros do que conseguiria contar e morrera aos oitenta e dois anos atropelado por um caminhão desgovernado a caminho da academia.

Não houve sistema.

Não houve entidade divina explicando regras.

Não houve tela azul, missão, recompensa ou dedo de ouro.

Ele simplesmente acordou novamente como um bebê, em um mundo que deveria ser ficção, nos braços de Andrômeda Tonks.

Durante muito tempo, Sirius achou que fosse enlouquecer.

Depois percebeu que loucura era perder tempo tentando negar a realidade.

Aos poucos, aceitou o corpo novo. A família nova. O nome novo.

Sirius.

Sua mãe lhe dera aquele nome em homenagem ao primo que, antes da tragédia, fora uma das poucas pessoas da família Black que ainda a tratava como alguém digno de amor. Para Andrômeda, Sirius Black havia sido mais do que um primo. Havia sido uma ponte com a parte da família que ela ainda se permitia lembrar com carinho.

Então veio a notícia da traição.

A prisão.

A vergonha.

A dor silenciosa que Sirius Tonks via no rosto da mãe quando o nome Black surgia em alguma conversa.

E, desde cedo demais, ele soube a verdade.

Sirius Black não havia traído os Potter.

O verdadeiro rato dormia na cama de Ronald Weasley havia anos.

Sirius passou a mão pelo rosto e se afastou da janela.

O quarto era simples, mas organizado demais para alguém de sua idade. Livros de magia, cadernos de anotações, esquemas alquímicos, estudos de anatomia animal, rascunhos de feitiços e pequenos objetos encantados ocupavam a escrivaninha. Nada ali era decoração. Tudo tinha propósito.

Desde pequeno, ele aprendera rápido demais.

No começo, Ted e Andrômeda chamavam aquilo de inteligência. Depois, de talento. Mais tarde, de genialidade.

Sirius preferia chamar de necessidade.

Sua memória era absurda. Não apenas boa. Fotográfica, sensorial, quase cruel. Ele não esquecia o que via, ouvia, cheirava, tocava ou provava. Uma única leitura bastava para gravar páginas inteiras. Um único erro em um feitiço bastava para que ele soubesse exatamente onde havia falhado.

A facilidade para aprender completava o problema.

Cálculo avançado, que encontrara nos livros do avô paterno trouxa, veio como um exercício divertido. Magia, por outro lado, veio como uma obsessão.

Porque ele sabia o que estava por vir.

Sabia que Voldemort voltaria.

Sabia que a guerra engoliria pessoas que ele amava.

Sabia que, se não fosse forte o bastante, poderia perder o pai, a mãe, Dora, Harry, Hermione, Rony e muitos outros antes de chegar ao fim.

Saber o futuro não era poder.

Era uma sentença.

Sirius puxou a cadeira e se sentou diante da escrivaninha. Seus olhos, por reflexo, mudaram de castanho para um tom âmbar felino antes de voltarem ao normal.

A metamorfomagia havia sido a primeira prova de que aquele corpo não era apenas humano no sentido comum da palavra.

Ninfadora também era metamorfomaga, claro. Mas Sirius descobrira cedo que sua relação com a habilidade era diferente. Ele conseguia sentir a magia correndo pelo corpo como se cada músculo, nervo e osso tivesse uma assinatura própria. Mudanças simples de cabelo e rosto eram apenas a superfície.

Com anos de tentativa e erro, aprendeu a alterar partes específicas do corpo.

Olhos de gato para enxergar melhor no escuro.

Nariz de cachorro para captar cheiros com mais precisão.

Pequenas mudanças musculares para aumentar força, velocidade e resistência dentro de limites seguros.

Nada invencível. Nada gratuito.

Cada alteração exigia compreensão, controle e cuidado. Uma mudança mal feita poderia rasgar tecido, deformar articulações ou causar dores que duravam horas. Mas funcionava.

E funcionar era o suficiente.

Em Hogwarts, ele passara os dois primeiros anos acumulando tudo o que podia. Biblioteca, aulas, observação, treino físico antes do amanhecer, experimentos discretos quando ninguém estava olhando.

No primeiro ano, aproximou-se de Hermione Granger quase naturalmente. Era difícil não se aproximar de alguém que também tratava livros como abrigo e arma. Por ela, acabou entrando de vez no círculo de Harry e Rony.

Na noite do trasgo, estava com eles.

Foi Sirius quem lançou o Wingardium Leviosa que derrubou a criatura.

No resto daquele ano, interferiu pouco. Seguiu o grupo até onde era seguro. Deixou Harry enfrentar o final sozinho, como a história exigia. Mas antes das férias, plantou dois avisos.

Para Harry: cuidado com bolos suspeitos.

Para Rony: cuidado com carros voadores e salgueiros violentos.

Chamaram aquilo de premonição.

Sirius deixou que chamassem.

Era uma mentira útil.

No segundo ano, manteve a mesma estratégia até não ser mais possível. Quando a Câmara Secreta se abriu e o Basilisco se tornou uma ameaça real, Sirius preparou galos transfigurados em pequenas bolinhas de gude, mantendo a magia estável com revisões periódicas. No momento certo, ajudou Harry a transformar uma luta quase suicida em uma vitória menos dependente do acaso.

Ainda assim, não mudou demais.

Não salvou todo mundo de tudo.

Não porque não quisesse.

Mas porque aprendera cedo que mudar o futuro sem entender as consequências era como mexer em uma poção instável com uma vela acesa na mão.

Agora, porém, não havia mais espaço para omissão.

Sirius Black precisava ser salvo.

Pedro Pettigrew precisava ser capturado.

Harry precisava de um padrinho.

E Dumbledore precisava ser forçado a olhar para uma verdade que o Ministério havia enterrado por doze anos.

Sirius abriu uma gaveta e tirou uma pequena lista escrita em letra firme.

Harry no Caldeirão Furado.

Encontrá-lo ao amanhecer.

Levar Dora.

Explicar apenas o necessário.

Capturar Sirius Black antes que ele alcance Hogwarts.

Conter, acalmar, juramento.

Pettigrew depois.

Memórias. Julgamento. Pressão política.

Ele leu tudo uma vez.

Depois dobrou o papel e guardou novamente.

Por alguns segundos, permitiu-se apenas ficar em silêncio.

Jonathan, em sua vida anterior, acreditava que cada pessoa era responsável pelas próprias escolhas. Ajudar alguém não significava carregar o mundo nas costas. Salvar quem não queria ser salvo podia virar arrogância disfarçada de bondade.

Sirius Tonks ainda acreditava nisso.

Mas Harry era uma criança.

Sirius Black fora preso sem julgamento.

Andrômeda perdera um primo por uma mentira.

E Pedro Pettigrew escolhera se esconder atrás de inocentes.

Aquilo não era “tirar pessoas de problemas que elas mesmas escolheram”.

Aquilo era corrigir uma injustiça.

Sirius voltou para a cama, mas não abriu o livro do Patrono.

Não conseguiria se concentrar.

Na manhã seguinte, encontraria Harry no Caldeirão Furado. Depois disso, envolveria Dora. Depois, começaria a parte realmente perigosa.

Ele olhou para o teto e soltou uma risada baixa, sem humor.

— Espero que esse ano ocorra como o planejado.

A frase soou absurda no quarto silencioso.

Porque, pela primeira vez desde que chegara àquele mundo, Sirius Tonks não estava apenas tentando sobreviver ao cânone.

Ele estava prestes a quebrá-lo.




"Harry Potter e Stargate são propriedades de seus respectivos donos. Esta é uma obra de ficção feita por fã, sem fins lucrativos."


Notas finais
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