Remember When
1 Prólogo
Notas iniciais
Admirando a vista panorâmica que tinha da minúscula janela do avião, Violetta tentava em vão espantar todos os pensamentos inconvenientes que lhe vinham à mente por tentar se distrair com a visão daquele cenário tão belo. Nuvens puras e límpidas adornavam o céu por formar aquele maravilhoso contraste do tom alaranjado que o pôr-do-sol assumia naquele horário. Tal tentativa durou pouquíssimos segundos, quando a garota se pegou pensando em quanto queria que os pais estivessem ao seu lado para apreciar algo tão belo, não adiantava ter a oportunidade de mirar algo tão extraordinário se na realidade não havia com quem compartilhar um momento de teor tão especial.
Ela virou a cabeça para o lado, tentando afastar qualquer vestígio de melancolia naquele momento. Mas ela tinha plena consciência de que aquela sensação de vazio a acompanharia por um bom tempo até que se adaptasse a vida nova na Inglaterra, um lugar tão diferente do que estava habituada. No seu jovem e inexperiente coração preenchido com as preocupações de um futuro tão incerto, o que prevalecia na verdade era a dor. A dor de abandonar pessoas tão importantes na sua vida, que antes costumava ser tão pacata e tranquila.
Era muito estranho alguém na situação dela se sentir assim, a garota havia conseguido o que parecia impossível para uma reles mortal: uma bolsa de estudos integral num dos colégios internos mais conceituados do mundo todo. Uma oportunidade que há poucos meses era inimaginável para ela. Deveria estar mais do que nunca estar focada no seu futuro acadêmico, porém, mesmo com perspectivas tão elevadas, a despedida tão dolorosa não lhe saía à cabeça, bem como a lembrança daquele par de olhos verdes que se assimilavam a duas esmeraldas a fitando de uma forma quase que suplicante que ficava evidente mesmo que León tentasse disfarçar o quanto sentiria falta dela com todos aquele otimismo e animação por Violetta ter aquele tamanho privilégio. Seu primeiro amor. Tudo que uma garota poderia querer, um verdadeiro conto de fadas. Simplesmente foi deixado de lado. As recordações de tudo que haviam passado juntos eram esmiuçadas e destruídas com a série de acontecimentos que se sucederam nas últimas semanas, quando ela havia recebido a notícia inusitada de que havia sido admitida no imponente e inacessível Colégio Westminster. Ter de terminar com tudo que os dois tinham foi a coisa mais difícil que a pobre garota já teve de fazer.
Reclinou-se na poltrona do avião. Cerrou as pálpebras permitindo que aquele turbilhão de memórias tomasse conta dos seus pensamentos. Mas de súbito abriu os olhos lembrando-se atordoada de algo muito importante. Tateou nos bolsos da jaqueta e segundos tirava com um afobamento aparente aquele pequeno e delicado envelope do bolso. Antes de reunir coragem para abri-lo, ela encarou-o por alguns segundos, segundos infindáveis. Respirou fundo e com uma delicadeza descomunal, tirou o pedaço de papel de dentro do envelope que estava dobrado em várias partes. Bem devagar e com um cuidado descomunal abriu-o, afinal, queria preservar uma das últimas coisas que a ligava à León. Depois de tentar em vão controlar a tremedeira que percorria o seu corpo por causa de toda a ansiedade, sem pestanejar saciou a necessidade de saber o que de tão importante León tinha para dizer à ela:
Querida Violetta,
Jeito clichê de iniciar uma carta não é mesmo?
Bom, você deve estar se perguntando o que eu pretendo. ''Tudo que era necessário já não foi dito?'', te conheço o suficiente pra saber que é isso que se passa pela sua cabeça. Pra ser sincero, nem eu sei explicar ao certo o porquê de estar escrevendo isso. Talvez seja uma última e desesperada tentativa patética de atrair sua atenção por míseros segundos antes que me esqueça pra sempre de maneira definitiva; pode ser também apenas uma singela despedida; quem sabe eu não queira tornar tão vívido na sua memória tudo o que vivemos com o objetivo de que tudo isso não se torne apenas meros borrões de dias onde pensávamos que éramos felizes? Tudo bem, admito que esse meu ato meio impulsivo seja simplesmente algo desprovido de segundas intenções, faço por fazer, escrevo por escrever.
Por mais que não tenha objetivos ou metas a atingir por meio desse amontoado de palavras que estou prestes a despejar sobre você, em contrapartida, tenho muito a dizer.
Por onde começar? Pelo começo talvez. Sinceramente, sempre que ficávamos próximos um do outro eu me pegava envolto pelas recordações de como nos conhecemos, foi de uma maneira extraordinariamente simples, quem diria que um simples esbarrarão traria consequências tão inimagináveis? Já cheguei a citar pra mim mesmo a palavra a qual se resumia a explicação de toda a série de acontecimentos que nos atingiram, essa palavra seria destino. Você bem sabe que nunca fui de acreditar nesse tipo de coisa, mas depois de te conhecer muitas coisas mudaram, o errado pareceu certo, e o irracional por um passe de mágica tornou-se lógico. E apesar de ser uma das pessoas mais céticas que pode ter pisado na face da terra, hoje posso afirmar com toda certeza algo sobre o que aconteceu entre nós: estava escrito. O universo conspirava a nosso favor.
Eu nasci pra você, você nasceu pra mim.
Quando estamos juntos eu me encontro em um estado onde acho que tudo a nossa volta sumisse ou perdesse seu significado, como se por limitados segundos nós fôssemos as únicas pessoas que existem. Ao seu lado me sinto vivo, posso voar, meus pés não tocam o chão, eu posso tocar o céu, simplesmente porque você é meu céu baby.
Pode parecer meio brega ou exagerado, mas a verdade é que eu não me importo mais Violetta, não ligo pro que vão pensar, a partir do momento que percebi o que sentia por você só quero gritar pro mundo que te amo, como nunca amei ninguém.
Confesso que ainda não entendo o que te levou a querer terminar tudo assim, tão abruptamente, seja o que for, quero que saiba que se tivesse optado por prosseguir com as nossas relações, eu estaria aqui Vilu, pronto pra te receber de braços de braços abertos quando voltasse e quisesse dar uma nova chance pra nós dois. Por você eu esperaria mil anos se fosse preciso.
Mesmo que esteja do outro lado do mundo, sempre vou pensar em tudo que vivemos como uma bela fase pela qual tive o privilégio de atravessar.
Não sei se as coisas vão mudar daqui pra frente, não faço a mínima ideia do que vai acontecer, pode ser que você me elimine de todas as suas memórias, talvez um dia eu mude (afinal, as pessoas mudam), mas tenha certeza de que os dias dourados e gloriosos que desfrutamos juntos nunca vão me fugir à memória.
Posso dizer com toda a certeza que sentirei sua falta, vou me sentir desolado, como se perdesse o chão, porque além de ser o meu céu você é meu chão, minha estrutura, meu refúgio e porto seguro. De qualquer forma, vou ser obrigado a levantar a cabeça e superar, a vida é cheia de coisas do tipo não é mesmo?
Talvez nos encontremos daqui a vários anos, velhinhos, casados, adultos, banguelas, com filhos, não faço a menor idéia, só sei que mesmo sofrendo por estar longe de você, eu nunca vou olhar pra trás e me arrepender de ter passado do seu lado os melhores dias da minha vida. Dias onde eu realmente fui feliz.
Com amor,
León
Violetta sentiu como se o ar lhe houvesse fugido, como se o coração tivesse parado de bater por alguns instantes.
Os olhos começaram a arder quando várias lágrimas se reuniram naquela região. Sem conseguir controlar todo aquele misto de emoções que lhe acometiam, ela deixou que as lágrimas saíssem livremente.
Era como se o mundo desabasse diante de seus olhos. Já não bastava o quanto estava sofrendo León ainda tinha que fazer aquilo? Só pra a deixar mais confusa e aturdida com as decisões que havia tomado e com o rumo que as coisas haviam assumido? Uma dor mais intensa e dilacerante se alastrou pelo seu peito.
O pior de tudo é que ela sabia muito bem que não havia como voltar atrás, já estava feito. Nada mudaria a situação das coisas a partir de agora.
Achou muita inocência da parte dele dizer que jamais a esqueceria, o que tiveram foi especial, sim, mas, a vida iria continuar seu ritmo normal, ignorando completamente os corações partidos e os romances tão longínquos deixados pra trás. Ele acabaria por fim a esquecê-la, tudo era passado agora, era hora de seguir em frente.
Depois de tanto refletir nas palavras do seu amado que assumiam um tom tão doce e amargo ao mesmo tempo, deixou que as mãos pendessem sobre seu colo, como se tivesse perdido o controle sobre o seu corpo.
Foi nesse momento que nossa heroína comprovou por si só que a pior dor já sentida pelo homem é a do adeus, a dor de perceber que nunca nada vai ser como antes, afinal, as malditas recordações sempre vão estar lá, bailando pela sua mente e te dominando o fazendo sentir mais vazio ainda.
Realmente, dizer adeus dói.
Pra ela nada mais importava naquela ocasião, apenas o fato de estar deixando o amor de sua vida pra trás.
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