Remember When
2 Nostalgia
Notas iniciais
Violetta abriu os olhos lentamente, tentando acostumá-los aos pequenos raios de sol que invadiam o seu campo de visão.
Se espreguiçou, esfregando os olhos.
Ao virar-se, deparou-se com a pele bronzeada das costas desnudas do rapaz ao seu lado. Um sorriso discreto brotou nos seus lábios. Arrastando-se pelos lençóis, depositou um beijo delicado no seu ombro.
– Bom dia, León. – sussurrou ao pé do seu ouvido.
– O quê?
Violetta piscou os olhos diversas vezes, aturdida, ao ver as feições sedutoras e o queixo bem projetado de Diego, bem como os seus olhos de um castanho intenso.
– Do que você me chamou, Vilu? – perguntou, obviamente confuso.
– Como assim, amor?
– Não sei, é que você me chamou por um nome estranho. – falou, afastando uma mecha castanha do cabelo de Violetta do seu rosto.
– Bom... você deve ter entendido errado.
– Sim, deve ser isso. – ele disse, colando seus lábios nos dela, logo em seguida.
Ao se afastarem, ela acariciou seu rosto delicadamente, ainda um pouco desconcertada. Se observavam em silêncio, de forma terna, como qualquer casal apaixonado.
– Eu vou tomar um banho. – ela disse abruptamente, virando-se de costas.
Sentou-se na cabeceira da cama, cobrindo o corpo com um robe roxo de seda.
– Posso ir junto? – Diego perguntou, com um sorriso malicioso estampado no rosto.
– Não, não pode – censurou-o –, engraçadinho.
Sem mais nada dizer, meteu os pé em suas pantufas e deu as costas, dirigindo-se ao banheiro.
Adentrando o pequeno espaço, fechou a porta atrás de si, apoiando as costas na madeira gelada, respirou fundo. Se afastando, apoiou ambas as mãos no lavabo de mármore, encarando seu reflexo no espelho. Mordeu o lábio inferior, olhando para seus cabelos desgrenhados e olhos completamente borrados de rímel. Mas não era a sua aparência que a preocupava, mas sim, aquele nome.
Aquele bendito nome.
– León... – murmurou para si mesma, com uma expressão confusa e a mente dispersa.
Chamar seu noivo, Diego, pelo nome de um namorado de infância, foi algo completamente irracional.
Sacudiu a cabeça, como uma tentativa de se esquecer do que havia acontecido. Mas essa tentativa foi vã, já que logo em seguida, com as águas mornas do chuveiro se chocando contra o seu corpo, ela se deixava perder em devaneios.
Talvez não tivesse tanto controle sobre suas memórias quanto calculava.
***
– Hum... isto está uma delícia, senhora Castillo. – o garoto disse, recostando-se na cadeira, se permitindo por fim largar o garfo.
– Gentiliza sua, querido. – a mãe de Violetta –Angie –, respondeu educadamente.
– León tem razão, mamãe. Estava delicioso.
– Assim vocês me deixam sem-graça. – Angie sorriu cordialmente. Se levantando, retirou seu prato da mesa. – Bom, podem ficar um pouco a sós enquanto eu lavo essa louça.
– Mamãe, você já preparou o jantar, deixa que eu e León cuidamos disso.
– Mas Violetta, o León é visita e...
– Imagina senhora Castillo, eu não me importo com esse tipo de coisa, já estou acostumado. – León afirmou, com um sorriso educado.
– Você quase nunca trás seu namorado aqui, e quando trás ele precisa fazer uma tarefa doméstica?
– Eu já disse, vamos fazer isso e pronto. Vai descansar mãe! – ela insistiu.
– Meu Deus, como você é teimosa!
– Será quem eu puxei? – Violetta indagou irônica.
– Tudo bem, senhorita teimosia. Já que insistem tanto... Com licença.
Ela se retirou da cozinha sem mais nada dizer.
– Namorado? – León indagou sem perder tempo. Mantinha um sorriso enigmático nos lábios.
A garota engoliu um seco, obviamente desconcertada.
– Bom, é que... Sabe, minha mãe... Ela é meio...
– Eu gostei. – a cortou, com uma risada travessa diante do seu nervosismo evidente.
– Go-gostou?
– Foi ótimo ser chamado de ''seu namorado'' por alguém, quem saiba eu ainda possa nutrir esperanças.
Violetta corou, abrindo um sorriso meigo.
– Você seria o melhor namorado do mundo.
– Se você não estivesse indo embora, eu encararia isso como uma indireta.
O sorriso dela se desfez, ao mirar a expressão triste que ele mantinha no rosto ao proferir aquelas palavras. Ela se levantou rapidamente, se prontificando a tirar a mesa.
– Me desculpe, eu não devia ter dito isso. – León pediu, cabisbaixo, passando a mão pelas madeixas tentando ajeitá-las no lugar.
– Tudo bem, só levanta o traseiro daí e vem me ajudar.
Ainda melancólico, deixou uma pequena risada escapar, diante da capacidade que Violetta tinha tornar sempre todo tipo de situação mais agradável.
– Espera, eu tenho a leve impressão de ter ouvido sua mãe dizer que sou visita. – ele disse sapeca, levantando-se.
– Folgado. – Violetta exclamou, acertando-lhe um pano de prato no rosto.
– Por que essa violência toda?
– Bobão.
Violetta deu as costas, tirando com um garfo as sobras dos pratos, destinando-as a um cesto de lixo.
Uma maravilhosa sensação começou a se irradiar pelo seu corpo, quando pôde sentir um certo calor humano, além da sensação de suas costas sendo comprimidas contra abdômen dele; isso junto o fato de seus braços fortes rodearem sua cintura e principalmente o toque macio e delicado daquelas mãos por sobre as suas, fizeram com que ela cerrasse as pálpebras e soltasse um prolongado suspiro.
Permaneceram assim, em silêncio, apenas se resignando a sentir a presença um do outro.
– Você sabia a área territorial da Inglaterra equivale a aproximadamente um pouco mais de cento e trinta mil quilômetros quadrados? – perguntou León num sussurro próximo ao seu ouvido.
A garota não pôde deixar de sorrir diante daquela atitude tão típica dele.
– Verdade?
– Sim. E sua temperatura média é de treze graus célsius. – murmurou, com seus lábios pressionados contra o couro cabeludo dela, procurando sentir seu aroma doce, algo do qual seria privado pela distância e sentiria falta.
Ela entrelaçou seus dedos nos deles, inspirando profundamente procurando captar o menor que fosse vestígio do seu aroma inebriante no ar, da mesma forma que ele, tentando cravar aquilo na memória a todo custo.
– Isso não é um adeus – ela disse, virando-se e pousando suas mãos sobre seu peitoral, de maneira que ficassem de frente um para o outro –, talvez seja apenas um ''até logo''.
Fitou-o sem conseguir desviar o foco da sua atenção de seus belos olhos, que exalavam certa melancolia.
– Nós dois sabemos que é. – ele falou, segurando as laterais da sua cintura.
A garota olhou para baixo alguns instantes, talvez procurando encontrar um maneira de amenizar o esmorecimento da situação.
– Engraçado, drama nunca foi o seu forte. – disse.
Ela se pôs a fazer movimentos circulares com as pontas dos dedos na sua têmpora, tentando reprimir as malditas lágrimas que se forçavam a sua saída de seus olhos, algo que para ela demonstraria fraqueza.
– Muito menos despedidas. – Segurando seu rosto com as palmas das mãos, fitou-a dentro dos olhos dentro de maneira intensa. – Vou sentir sua falta. – disse num murmúrio, e logo antes que terminasse a frase, algo quente atingiu a bochecha de Violetta, um pequeno som escapou de seus lábios reverberando pelo ambiente de forma dolorosa e cortante, algo similar a um soluço. León se prontificou em secar aquela pequena lágrima ternamente.
– Seria tão mais fácil me esquecer. – Violetta afirmou com a voz chorosa.
– Te esquecer não é uma opção. – ele assegurou, aproximando seus rostos de tal maneira com que seus narizes se tocassem.
Não houve uma resposta resposta tradicional da parte dela, naquele momento, não foi dito nenhum ''te amo'', nem um simples ''também vou sentir sua falta''. Se uma pessoa se fizesse presente naquela ocasião, poderia apenas observar um singelo chocar de lábios de dois jovens. Algo nada intenso, sem nada extraordinário e sobrenatural. Um ato apenas puro e doce. Pelo qual procuravam expressar de forma clara o amor que florescia dentro de dois inexperientes corações, e esse amor se resignava a esses meros adjetivos, puro e doce.
***
Era estranho para ela perceber o quanto as coisas haviam mudado de doze anos até lá.
Muito tempo antes, ainda garota, ao desembarcar no seu destino tão temido – Inglaterra –, permanecia desolada com a aquela despedida tão melancólica, e ao mesmo tempo, tão tocante. Era apenas uma menina de dezesseis anos, não entendia nada da vida; nunca havia sentido algo tão doloroso.
Depois de tantos anos, muitas coisas haviam mudado, e sempre que se recordava dos sentimentos tão intensos que nutria por León, considerava-se uma adolescente ridícula. Mas estranhamente, naquele dia, aquelas recordações mexeram com ela.
Assombrava-se com o fato de que a lembrança dele viesse à tona, tão de repente, depois de mais de anos sem que afluísse. Nunca saberemos exatamente o que desencadeou a lembrança tão vívida dele, coincidentemente, nas vésperas do reencontro. Quem sabe, fosse obra do deuses; ou talvez, do destino, o verdadeiro culpado por tudo.
A única coisa da qual podemos estar certos, é de que ela sequer imaginava a maneira descomunal como perderia o controle, quando aqueles sentimentos oprimidos pelo o tempo e circunstâncias viessem à tona.
Violetta não fazia ideia do que estava por vir.
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