Remember Me
7 Capítulo 6 - To Little Bears, with love
Notas iniciais
— Hey, Nate, segura essa!
Não deu tempo de me proteger, a bola de neve me acertou em cheio na cabeça. Balancei-a limpando os resquícios e olhei para Beth que tampava a boca rindo da minha cara e se preparava para fugir, Bailey e Bella gargalhavam ajoelhadas no chão enquanto faziam um boneco.
— Você... me... paga!
— Corre, Beth! — as duas meninas gritaram.
Comecei a correr atrás dela e não parei até agarrá-la e derrubá-la no chão. Beth soltou um grito enquanto eu sentava em cima dela e enchia minhas mãos de neve.
— Agora você não escapa.
— Me salvem, meninas. Me ajudem.
— A gente te salva.
Bella e Bailey vieram pra cima de mim e começaram a fazer cócegas, tentando me tirar de cima de Beth. Elas conseguiram me derrubar na neve e vieram as três para cima de mim até que uma voz de mulher interrompeu a brincadeira.
— Quem começou a festa sem mim?
— Tia Santie!
Bella e Bailey gritaram juntas e correram para abraçá-la. Beth se levantou também e foi calmamente cumprimentá-la, eu fui logo atrás e beijei e abracei a tia Santana e depois a tia Brittany que vinha junto com ela carregando o filhinho delas, o Jayden, que tinha cinco meses.
— Ai que coisa mais fofa, ele está tão lindinho. — Beth falou se esticando para olhar o bebê.
— A gente vai levar ele pra dentro porque tá muito frio. — tia Brittany disse e elas entraram.
Hoje era domingo e mamãe e Déda estavam dando um almoço para os nossos amigos. A parte legal era que hoje teria bastante gente para brincar aqui em casa, a chata é que eu só poderia ir para o porão quando todos fossem embora ou então desconfiariam. Na verdade eu teria que começar a mudar de estratégia, eu pegaria algumas cartas e fotos e levaria para o meu quarto, depois que acabasse eu voltava ao porão e trocaria, porque passar o tempo que eu passava lá já estava ficando suspeito até para os meus pais. Eles não podiam descobrir que eu estava lendo, porque se não mostraram nem pra mim nem pra Bella até agora, é porque não queriam que a gente encontrasse. Mas eu sou curioso demais e não deixaria essa passar, não mesmo.
— Hey, acorda. — senti um tapa na cabeça.
— Ei!
— Agora ele fica assim o tempo todo, sonhando acordado. — ouvi Bella falar.
— Do que vocês estão falando?
— De você aí no mundo da lua. — Beth cruzou os braços.
— Vocês estão loucas.
— Quem está louca?
Ouvimos outra voz e dessa vez era Gavin, um dos filhos do tio Kurt e tio Blaine, que tinha acabado de chegar.
— Essas daí.
— Oi pra você também, Gavin. — Beth disse revirando os olhos.
Mason, o gêmeo dele, vinha logo atrás com os pais e nós cumprimentamos eles.
— Nem chega direito e já quer sentar na janela? — Bailey murmurou.
— O quê? — Gavin fez uma careta.
— Ai, nada. — ela revirou os olhos.
— Você é mesmo filha do seu pai, Bailey. — tio Blaine riu — Meninos, vamos lá dentro falar com seus tios, depois vocês vêm brincar.
Eles entraram e nós nos entreolhamos.
— O que a gente vai fazer agora? — Beth perguntou.
— Já sei! — Bella gritou. É, ela tinha essa mania irritante — Vamos escorregar de trenó!
— Mas pra isso a gente teria que fazer uma rampa, porque escorregar no plano não tem graça. — Bailey lembrou.
— A gente pode enterrar o Nate, não vai fazer diferença mesmo. — Beth deu de ombros.
— Rá rá rá engraçadinha você. — ironizei — Vou pegar os trenós na garagem.
Fui atrás dos benditos trenós que estavam guardados perto das bicicletas. Estava tão distraído que levei um susto com a voz atrás de mim.
— Vim ver porque tava demorando. Precisa de ajuda, super herói? — Beth debochou.
— Ih garota, você tá com alguma coisa contra mim hoje? — peguei o último trenó e pus no chão — Não preciso de ajuda nenhuma. Ainda mais de uma garotinha feito você.
Ela fez cara de indignada, o que me fez rir.
— Garotinha? Eu? Vê se cresce, garoto!
— Eu sou mais velho que você!
— Um ano, grande coisa... — ela revirou os olhos.
Levantei os três trenós com facilidade e saí sem realmente olhá-la, ela estava parada na porta da garagem de braços cruzados me observando e revirou os olhos quando passei direto.
— Metido!
— Até que enfim! — Bella gritou.
Ela e Bailey já haviam começado a juntar neve formando uma rampa. Escorregar de trenó era um dos poucos passatempos que fazíamos nessa época do ano, devido a quantidade de neve que enchia o nosso quintal. Depois de tudo pronto, e Gavin e Mason terem se juntado à nós, pudemos finalmente escorregar pela rampa. Era divertido, mas começava a ficar monótono com a quantidade de vezes que a gente fazia aquilo. Até que, acho que por algum erro de movimentação, na vez da Bella escorregar, seu trenó virou antes da hora e eu só vi minha irmã cair e logo após seu grito de dor.
— O que houve? — perguntei quando me aproximei dela e a vi sentada na neve segurando o tornozelo. Todos se aproximaram também.
— Eu torci. Tá doendo muito, Nate. — ela chorava.
— Calma, Bella. Já vai passar. Consegue levantar? — me agachei ao seu lado e segurei seu tronco para ajudá-la a ficar de pé.
Assim que o fez e apoiou o pé torcido no chão, outro grito veio com mais lágrimas e seu corpo ficou mole nos meus braços.
— É melhor não forçar, Nate. — Beth avisou preocupada.
— Não dá, tá doendo. Chama alguém lá dentro, por favor. — Bella pediu se sentando no chão de novo.
— Eu vou lá. — Bailey se prontificou levantando e correndo até em casa.
Fiquei ao lado da minha irmã enquanto alguém vinha. Levantei um pouco suas duas calças e abaixei a meia para tentar ver, estava avermelhado e levemente roxo perto do osso. Vi Déda caminhar até nós e mamãe na entrada com a feição preocupada.
— O que aconteceu? — perguntou se abaixando ao nosso lado.
— A gente tava escorregando de trenó e o da Bella virou, ela torceu o tornozelo. — expliquei.
— Tá doendo muito, Déda. — ela choramingou.
— Calma, Bella. Deixa o Déda ver. — ele fez o mesmo que eu devagar e minha irmã resmungou — Tá inchando. Vamos colocar gelo nisso aí e a senhorita terá que ficar de repouso. Chega de trenó por hoje.
Déda a pegou no colo e a levou para dentro de casa, explicando para mamãe o que havia acontecido. Não havia nem mais clima para nós ficarmos ali, e também era quase hora do almoço, então resolvemos entrar e esperar perto da lareira. Eu havia ficado muito preocupado com Bella, esperava que ela ficasse bem logo.
...
Mais tarde naquele dia, depois que todos já haviam ido embora, verifiquei que mamãe e Déda estavam ocupados no andar de baixo e corri até o quarto da Bella que estava de repouso com o pé apoiado sobre alguns travesseiros. Eu ia fazer uma coisa que não sabia se ia me arrepender mais tarde, mas eu precisava mostrar aquilo pra ela, eu sentia que ela precisava saber tanto quanto eu.
— O que tá fazendo? — perguntei entrando e fechando a porta atrás de mim.
— Nada. Eu não aguento mais ficar nessa cama, é um tédio sem fim. — ela revirou os olhos.
— Então eu posso resolver o seu problema, mas você tem que me prometer que vai guardar segredo.
— Nossa, o que é? — ela se animou.
— Não pode contar à ninguém, Bella. Nem à Bailey. Me prometa!
— Tá, eu prometo. Mas o que é?
Coloquei a mão no bolso de trás da calça e puxei o papel dobrado meio amarelado de dentro. O levantei e balancei no ar.
— Isso, Bella, é um tesouro!
— Hã?
— É uma carta que Déda escreveu há muito tempo, quando a gente era bebê ainda. — Bella arregalou os olhos.
— E você a leu, Nate? Que horror, sabe se foi para você?
— Foi para nós, na verdade...
— Para nós? E por que nós nunca recebemos?
— Não sei, mas podemos resolver isso agora mesmo. — sorri.
— Se a gente ainda não recebeu, é porque não era para recebermos. — revirei os olhos, ela era tão irritante com essas coisas.
— Mas é nossa, Bella. Temos que ler, é n-o-s-s-a!
— Nate... Se Déda pega a gente com isso...
— Ele não vai saber, tá legal? Para de ser tão certinha. — ela cruzou os braços — Então, vai querer ou não? Se não quiser, tudo bem, continue aí no tédio...
Ela mordeu o lábio inferior, pensativa. Eu sabia o que aquilo significava, ela estava doida de curiosidade, mas era muito orgulhosa e medrosa também. Por fim ela sorriu maldosamente e me encarou.
— Tô dentro.
Queridos Baby Bear e Baby Boo,
esses dias eu estava pensando... Eu nunca havia me imaginado um dia, pai. Essa palavrinha ainda é forte, imperativa, tem um valor imenso e causa certo medo. A verdade é que ser pai é uma responsabilidade sem tamanho, um compromisso que firmamos com o nosso eu. É necessário entender toda a magia que ser pai tem para ser de fato um, é algo único que o homem foi presenteado.
Estou escrevendo essa carta à vocês pelo simples fato do que penso disso tudo e para mostrar que o que sinto pelos dois é algo puro, sincero e incontestável. Vocês são dois dos meus maiores acertos na vida, meu orgulho, meu motivo de seguir em frente. Eu sempre tive uma relação ótima com o vô Christopher, é nele que me inspiro para cuidar de vocês, eu presenciei o amor paterno, mas sabem daquilo que dizem que a gente só sente de verdade quando acontece com a gente? Quando é o nosso? Então... É só quando a gente é pai que a gente descobre o valor dessa figura na nossa vida e de quem nos cerca, tanto é que passei a dar mais valor ao meu pai depois que virei um.
O tempo passa e com ele a distância entre nós aumenta. Não que seja algo proposital, meus filhos, é a lei da vida. A gente vê os filhos crescerem e abrirem suas asas para o mundo, um dia eles são totalmente dependentes de nós e no outro já são passarinhos livres, é um crescimento saudável, o ciclo natural da vida. Vocês crescem e o que resta para nós, pais, são as lembranças. Ah, as lembranças. Vocês ainda são pequenos, mas já tenho boas memórias para guardar e também sonhos para vocês. Quando lerem isso, provavelmente já estarão bem crescidos e eu já terei bastante lembranças, mas por enquanto eu tenho as especiais, como o dia que cada um de vocês nasceu. Esse eu nunca vou esquecer, minhas lembranças preferidas. Ver vocês pela primeira vez foi algo indescritível, eu estou com os olhos marejados nesse momento só de lembrar. A gente acha que já realizou tudo na vida até ser pai. Não, na verdade a gente não realizou até ter esse pedacinho de nós no mundo. Os choros da madrugada, que ainda acontecem, e mesmo morrendo de sono eu vou lá acalmar meus pequenos. Os primeiros passos, que foram descoordenados, mas ao ver o sorriso banguela no rostinho de vocês pela conquista já me fazia ganhar o dia. As primeiras falas, o primeiro "Déda" de cada um, inesquecível. As primeiras travessuras, castigos, birras e manhas, as pequenas declarações, os desenhos, as brincadeiras, os sorrisos. Ah, boas lembranças.
E eu já sonho por vocês. Tenho sonhos altos, imagino cada um de vocês conquistando tudo o que quiserem na vida, alcançando o céu não só com a pontinha dos dedos, mas com a palma da mão. Imagino você, Nate, sendo um astronauta, um médico, um cientista, uma estrela do rock. E você, princesa Bella, minha menininha, uma bailarina, advogada, professora, uma artista, ou quem sabe até mesmo uma princesa. Não importa o que escolherem, eu estarei ao lado de vocês apoiando e torcendo para dar certo, porque acima de tudo, acima do que vocês estiverem tendo para a carreira, para mim tem uma função mais importante, vocês são os meus filhos. Eu olho para vocês, vejo que estão crescendo, crescendo, crescendo... E me dou conta que vou sonhar por vocês para sempre.
O pai é o alicerce. Suas atitudes, modo de agir e exemplos são fundamentais na formação de seus filhos. Eu me esforço a cada dia para tornar vocês pessoas de bem, assim como fui criado pelo meu pai. Ainda há a insegurança, o medo de errar, de não ser bom o suficiente, mas a gente vai aprendendo a cada dia, a cada sorriso que vocês nos dão, a cada palavra, a cada gesto, isso tudo nos ensina como melhorar. Obrigado por serem meus filhos, obrigado por a cada dia me tornarem alguém melhor, obrigado por me mostrarem que a cada dia eu posso mais, é por vocês e somente vocês que eu tento ser só o melhor pai do mundo.
Com amor, Déda.

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