Rei Thranduil (Em reconstrução)

2 Capítulo 1: Um novo alvorecer (Novo!)


Notas iniciais

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"Vinte e três anos após a Guerra dos Cinco Exércitos..."

Alegrias momentâneas tem fins incertos, falecendo no triunfo, como fogo e pólvora que com um beijo se consomem.

Naquele dia sentia-me realmente em paz e feliz.

Havia pouco que o alvorecer preguiçosamente despontou no céu cinzento de inverno. Meus joelhos tremiam dentro das calças de couro. Minhas mãos rígidas segurando o arco e a flecha eram forçadas à mira em um alvo de feno distante. Segurei o arco estiquei o braço quase dormente e me obriguei a aguçar a visão entre a névoa cinzenta, puxei ainda mais a corda. A flecha cortou o ar em linha reta e o centro do alvo foi ferido.

— Perfeito!

Enxuguei as gotas de chuva que se agarraram aos meus cílios e me voltei em direção a voz grave do meu instrutor, meu amigo.

Tahile era um homem dotado de um sorriso torto que o tornava atraente. Por vezes este sorriso se espalhava pelo rosto, seus dentes brancos eram o contraste incrível com sua pele levemente bronzeada e seus olhos de um azul safira. Ele era arrebatador. Todos, todas caiam aos seus pés. Mas eu o amava como se fosse meu irmão.

— Agora que fui aprovada no teste de autocontrole — Ponderei esfregando as palmas das mãos — podemos ir até uma lareira? Por tudo que você considera sagrado, vamos até uma lareira.

Tahile gargalhou com a minha expressão de súplica.

— Pena que você não é fogo vivo — ele disse após passar o braço pelo meu ombro — pois eu obrigaria você buscar uma pedra brilhante no fundo do rio corrente.

Dei-lhe um soco leve em sua cintura me esforçando para não deixar meu queixo tremer.

Conforme ele me arrastava pelo caminho tagarelando, eu me permiti observá-lo com lembranças agradáveis e as ruins.

Eu era apenas um bebê quando o pai de Tahile nos acolheu em sua cidade, a pequena e tranquila Barahir.

Lembro-me de Tahile ensinando-me coisas desde os tempos que descobri que tinha memória. Por ser mais velho nunca deixou de me proteger. Ele sempre estava lá quando meu pai e eu precisávamos, mesmo quando seu pai o senhor Denny era contra. Mesmo quando tive medo quando eu era criança.

Tahile surgia do nada e afugentava quem quer que fosse com seu olhar frenético e ameaçador. Sua fama na cidade era "senhor das feras", mas mesmo assim não negavam que o amavam por seu senso de justiça, benevolência e beleza.

Ele não dava ouvidos aos elogios ou ameaças, era filho do Senhor da cidade, tinha poder e ninguém ousaria passar por cima de sua autoridade, e se ousasse eu tinha certeza que Tahile os faria pagar com sofrimento.

Chutei as botas contra o sopé da porta do velho chalé onde eu morava. Papai mantinha viva as chamas do fogo crepitando na lareira. Quase corri em direção a ela estendendo as mãos em uma distância segura. Fechei os olhos com a sensação quente que percorria meu corpo.

— Pegou pesado com ela mais um dia, Tahile?

Brincou meu pai surgindo da cozinha, ele equilibrava pelos cabos três xícaras entre os dedos.

Agarrei-me a uma e beberiquei o líquido quente quase com gosto de chá de erva cidreira.

Tahile esboçou um belo sorriso branco após aceitar uma:

— Descobri que ela aguenta frio, ou pelo menos tenta.

Mostrei a língua e a gargalhada grave dele preencheu a casa.

Papai, sorrindo com os lábios à borda da xícara, convidou Tahile a sentar-se enquanto ele se esparramou em sua poltrona em ruínas. Ambos conversaram coisas que eu não me dei ao trabalho de prestar atenção.

As chamas ondulantes da lareira estavam mais quentes naquele dia, como se meu pai as tivessem deixado a tempos alimentadas, forçando-as a vida própria com uma mistura hipnotizante de azul, amarelo e vermelho.

Meu pai tinha, certa vez, me contado que chamas parecidas consumiram Esgaroth, chamas tão quentes cuspidas por um dragão impiedoso, Smaug como ele era chamado. Dias depois, aquelas chamas tingiram o chão das ruínas de Vale, as chamas que ele mesmo viu no sangue dos elfos, homens, anões e orcs na batalha por território, riquezas, poder. A guerra dos cinco exércitos.

Segundo o velho Alíon, meu pai, que contava sem qualquer orgulho e com lágrimas nos olhos que o único ato de heroísmo que ele ousou no dia infame da guerra foi proteger a minha mãe em trabalho de parto escondidos no alto de uma torre nas ruínas de Vale.

Ele sentiu um medo apavorante ao pensar que a qualquer momento um orc apareceria e antes que o matasse o fizesse presenciar e ouvir o som da lança adentrando o ventre da minha mãe matando-a e a mim.

Ele obrigou-se a encontrar coragem e muita força para pelo menos segurar a espada com mais firmeza enquanto a minha mãe gemia deitada no chão frio e coberto de foligens.

Papai não era um guerreiro, escrevia sobre guerras, mas nunca participou de uma.

Contando a história, Alíon revela que agarrou o primeiro soldado élfico que apareceu, e o implorou por ajuda. O elfo se comoveu e fez o parto.

O elfo desconhecido foi o primeiro a me segurar nos braços e a minha mãe morreu logo após me nomear com lágrimas rolando pelo olhos:

"Você é meu presente... um presente vindo das estrelas. Será chamada de Annael."

Papai jamais esqueceu daquele dia. Por vezes repetia a história e nunca ousou ir além dela, nem mesmo como conheceu a mamãe.

Antes e após a guerra papai era um renomado escritor nas ruínas de Esgaroth e na nova cidade de Vale, mas quando chegou em Barahir esta fama caiu.

Fomos assistidos pelo pai de Tahile, o senhor Denny que cobrava sempre um valor que meu pai jamais conseguiu pagar.

Depois que cresci ofereci os meus serviços na casa dos Valle em troca do pagamento das dívidas do meu pai. Me tornei serva, escrava.

Era obrigada a odiar Dália a irmã de Tahile por méritos dela mesma, ela não me deixava respirar em paz.

Dália era uma praga odiosa, interesseira, mimada, atrevida igualzinha a mãe, a senhora Leona. Fazia de tudo para me ver carregada de trabalho e para me humilhar.

— O que fará hoje à tarde, senhorita Di Milenia?

Abandonei os pensamentos, desviei o olhar das chamas da lareira para Tahile e fui obrigada a tomar um pouco mais de distância por ele esta bem ao meu lado sentado no velho carpete vermelho.

— Onde está o papai? — Ponderei sem me importar em responder a pergunta.

— Acho que foi escrever alguma coisa que pareça com contos élficos — Ele franziu a testa — acredito que será um trabalho árduo.

— Por quê acha isto? — Beberiquei o faz e conta que era chá gelado enquanto encarava as chamas.

— Elfos são criaturas incapazes de se permitirem amar. São amaldiçoados...

— Porquê os odeia tanto? — interrompi.

— Por quê faz tantas perguntas?

Virei o rosto para confronta-lo, mas o rosto de Tahile à centímetro do meu me fez recuar. Tão próximo que fiquei sem reação, paralisada ou hipnotizada diante da beleza surreal para um humano.

Pisquei algumas vezes a fim de recobrar a sanidade, mas minhas palavras falharam:

— E-eu só...Curiosidade. — Gaguejei e levantei do carpete, Tahile fez o mesmo. — Você nunca simpatizou com os elfos. Eles lhe fizeram algum mal?

O moreno de olhos azuis moldou um sorriso nos lábios:

— E lá vai mais uma pergunta.

Revirei os olhos e segui para a mesa no outro lado dos sofás, apoiei nela a minha xícara e tomei das mãos de Tahile a sua.

— Bom, já que você não irá me responder como das outras vezes. Acho melhor você ir, a senhora Leona vai empalar seus dotes masculinos em uma estaca e colocá-lo no meio da praça para servir de exemplo para os que ousarem pisar na minha casa.

Em um instante Tahile gargalhou com escárnio e com um piscar de olhos ele ficou sério, segurou a minha mão apoiada na mesa e mudou totalmente seu humor:

— Acredito que em breve ela terá que engolir você goste ou não.

Ele desviou-se e caminhou até o cabideiro ao lado da porta retirando dele a túnica marrom escuro e vestiu:

— Passarei amanhã para lhe ver.

— Ah! Muito obri...

Iria agradecer a aula infernal do dia, mas o vento frio vindo da porta aberta soprou em meu rosto e Tahile a fechou.

Por instantes refleti sobre as ultimas palavras dele. A senhora Leona não me suportaria nem por ameaças de morte. Ela me odiava até mais do que eu a odiava. Mas deixei o assunto de lado, Tahile estava claramente louco.

Passei o resto do meu dia livre na pequena biblioteca do meu pai ajudando-o com o seu livro qual contava a história de uma plebeia cujo os inconsequentes atos a levaram a se apaixonar por um elfo. Um sentimento tão fácil como respirar e tão perigoso, como um ovelha em um covil de lobos.

Á noite, sentada em minha cama, eu lia os rascunhos e refletia sobre a plebeia e seu amor imortal. Suspirava em algumas passagens românticas e meus olhos ardiam nas tristes.

No entanto, no fim da leitura, ponderei se alguém poderia ter um sentimento tão sincero por mim como aquela plebeia nutria pelo elfo. Alguém seria capaz de amar um plebeia sem um dote, sem escolhas, sem esperanças, sem futuro, sem nada?

Afastei o pensamento e jurei que jamais me permitiria amar, evitaria o sofrimento de ser rejeitada.

Deixei os rascunhos no criado mudo ao lado da minha cama e soprei o fogo da vela sobre o pires. A escuridão dominou o quarto e aos poucos foi dominando a minha mente cansada e os meus pensamentos até eu adormecer.

Para mim foi mais um dia como os outros, no entanto, eu não sabia que o próximo alvorecer tecia um começo de dias quais nunca mais seriam iguais.

Notas finais
Até o próximo! ♥