Regis Um Menino do Planeta Terra
9 Sabotagem
Notas iniciais
Aproximadamente cinco horas mais tarde, Arthur e Erick estavam dormindo a meu lado, no mesmo aposento da nave. Erick em cama separada e Arthur, como sempre, junto comigo.
Acordei, me espreguiçando e percebendo que os dois dormiam profundamente, me levantei, seguindo até o corredor que leva à cabine, abri as duas portas de um grande compartimento tipo armário, onde eu sabia, estava o cérebro eletrônico daquele enorme disco voador. Sabendo o que os dois astronautas... cosmonautas... ou sei lá o que se chamavam os dois humanos alienígenas, Rud e Tony fizeram quando a nave esteve com problemas em minha penúltima viagem, sentei-me no chão e procurando com atenção, encontrei dentro daquele corpo, seu coração, pulmões, cérebro... em formas mecânicas e eletrônicas, interligados por vasta quantidade de artérias, no formato de fios, como se fossem de silicones de cores distintas, como sendo assim um grande hardware controlado por softwares avançados e alimentados por uma energia à base de gás carbônico, conhecido na Terra por CO2, ao contrário e mais fácil do que, por exemplo nossos satélites, que usam combustíveis venenosos à base de Metil Hidrazina ou misturas de gases como n2o4 (corrosivo).
Insistindo na busca, encontrei o que eu precisava e o senhor Tony me mostrara: Um pequeno cartão, de tamanho não maior do que dois centímetros de largura, por três de comprimento e não mais do que meio de espessura, auxiliar do cérebro, onde estaria gravado, baseado em mapa estelar, toda a rota de uma viagem interespacial.
Percebendo que o cartão era conectado ao cérebro eletrônico por mola e pressão, bastou pressioná-lo de leve e o mesmo se soltou, permanecendo preso a seu encaixe, porém, desconectado do cérebro.
Levantei-me rapidamente, fechei o compartimento e retornei à cabine, a tempo de perceber antes dos demais, a luzinha azul do alarme, piscando no painel.
Quase chamei a atenção de Luecy, mas resolvi me conter, para ver até onde aquilo ficaria despercebido, já que o alarme sonoro estava erroneamente desligado.
Não se passou mais do que trinta segundos e o robô deu seu próprio alarme:
— Problema! Alarme central!
Verificando o posicionamento da nave, o robô continuou:
— Estamos sem controle!
— O que significa isso? — Especulei de certa forma, apesar de ser o responsável e fingir surpresa, preocupado.
— A nave não obedece a comandos.
— Tudo bem Luecy — fingi preocupação — Ela viaja no automático. Não precisa de comandos.
— Nave não reconhece rota. Sem controle.
— Você consegue pilotar esta nave, mesmo que esteja sem controle — aleguei. — Não consegue Luecy?
— Sem controle de rota, não há como!
— Você já me levou à Terra, sem controle. Lembra-se disso?
— Sem rota criada — corrigiu o robô. — Não sem controle.
Erick acordara e com a maior cara de sono, acabara de entrar à cabine.
— Quando você me levou à Terra, a nave não tinha nem o comando eletrônico que a ligava.
— Mero opcional! O alarme agora é falha no comando central.
— O que está havendo? — Perguntou o rapazinho surpreso.
— A nave está sem controle — informei-o.
— Como sem controle? — Se espantou Erick — Isto aqui é tudo automático!
— Se o defeito é no comando central, com certeza há cópias — insinuei, me dirigindo ao robô.
— Não há cópias!
— Como não há cópias, Luecy? — Interferiu Erick.
— Componente seguro! — Confirmou o robô. — Não há cópias!
— Onde se viu o item mais importante da nave não ter nada de backup! — Riu nervoso Erick, enquanto pressionava a tecla para contatar o senhor Frene — Se fosse componente seguro, não teria apresentado problemas!
— Estou ouvindo — riu o homem, a trilhões de quilômetros de distância. — Regis já se conformou em nos visitar?
— Estamos com problemas, senhor Frene — alegou Erick. — Estamos com alarme de perda de controle.
— E o que está acontecendo com a nave?
— Aparentemente não obedece a comandos e está ficando fora da rota original.
— Luecy controla isso!
— Negativo! — Negou o robô. — Fora de comando!
— Regis resolve esse problema — alegou o senhor Frene.
— Eu não! — Neguei surpreso — Nem sei do que se trata!
— Não você! — Negou o homem. — O outro Regis. Ele tem o que vocês da Terra chamam de doutorado em mecatrônica.
— Pe-agá-de! (PhD) — concluí.
— Cadê ele? — Perguntou o senhor Frene.
— Está dormindo! Vou chamá-lo! — Se prontificou Erick, se retirando da sala.
— Isso está me parecendo sabotagem! — Alegou o senhor Frene.
— Sabotagem?! — Me surpreendi — Como assim?
— Um de vocês três, estão sabotando a nave.
— Quem faria isso?
— Mark Três não faria! Ele pertence à Suster e só aceita ordens minha.
— Ninguém sabotaria esta nave, senhor Frene! — Neguei receoso — Se ela ficar fora de rota, não nos levará nem até aí e nem à Terra!
— Mas alguém pode tentar pressionar-me a mudar de ideia. O Erick não faria isso, porque ele gosta de meu mundo. Regis Primeiro está dormindo! Só resta uma pessoa, meu querido filhinho da Terra!
— Eu!? — Esbocei a cara de mais inocente do mundo — Não entendo patavina desta nave, pra mexer nela!
— Este defeito já aconteceu em outra viagem, com você à bordo. É melhor confessar e juntos resolvermos este problema, o mais rápido possível.
Erick entrou de volta à cabine, acompanhado por Arthur, com a maior cara de preguiça do Universo.
— Regis de Suster: — anunciou o senhor Frene — Está na hora de fazer jus à sua especialização. Esta nave foi provavelmente sabotada e você precisa descobrir tal traição. Você tem duas maneiras pra fazer isso: ou procura o defeito no chip de memória, localizado na parte inferior do processador da nave; ou investiga o responsável pela pane e peça para reparar o problema.
— Por que o senhor acha que foi sabotagem? — Questionou-lhe Arthur, surpreso.
— Dois dos tripulantes desta viagem, não querem vir para meu planeta imortal. Estou certo de que um deles está tentando me pressionar a devolvê-lo a seu mundo atrasado. Qualquer dúvida é só me perguntar.
Desligou sua comunicação com a nave.
Arthur me olhou surpreso, como a perguntar: “O que você fez”?
— Não fiz nada! — Neguei, com jeitinho de anjo da cara suja.
— Vou tornar a me deitar — se prontificou Arthur. — Daqui a algumas horas, volto a me comunicar com o senhor Frene e digo que não encontrei a falha. Quem sabe assim ele ceda a nossa pressão.
— Você não vai verificar a falha? — Questionou Erick, surpreso.
— Não! — Negou o menino, se espreguiçando e saindo — Também quero voltar pra Terra!
— Mas Arthur... — fingi novamente. — Eu não sabotei à nave!
— Te conheço maninho! — Riu o menino. — Temos a mesma índole!
Acompanhei-o até o aposento, enquanto Luecy e Erick permaneceram na cabine, tentando em vão, acionar piloto manual.
Deitamos na mesma cama.
— Este defeito da nave, poderá nos fazer ficarmos perdidos no Universo pra sempre, sem chegarmos a qualquer de nossos dois destinos desejados — ironizou Arthur. Acho que para me fazer confessar.
— E aí? O que pode acontecer?
— Vagarmos sem destino, até morrermos de fome ou... Por muita sorte, encontrarmos um mundo ideal, pra vivermos longe do senhor Frene.
— Éh... — Me preocupei.
— Longe da Terra também!
— O que faremos? — Insisti, acho que assustado.
— Pra mim tudo bem! — Ironizou meu suposto maninho — Estarei com minha família!
Mudamos de assunto e permanecemos conversando por longo período, assuntos variados, evitando, os dois, a falar detalhes sobre o incidente na nave.
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Uma hora depois, voltamos à cabine, onde Arthur acionou uma tecla do monitor, fazendo o mesmo acionar um alarme de chamada, na grande mansão do senhor Frene.
Quinze segundos depois, ele elogiou:
— Parabéns querido Regis! Eu sabia que seus longos dias de estudo não foram em vão!
— Não consegui localizar o defeito da nave! — Negou o menino.
— Por que não procurou? Você não é o sabotador! É?
— Não sou sabotador coisa nenhuma! — Negou o menino, bravo — Só não consegui localizar o defeito!
— Então jogue seu título de doutor fora! Podem ir dormir que Erick resolverá esta pequena falha!
— Como assim, Erick? — Insistiu o menino.
— Se você não quer ajudar, preciso de outro que ajude! Podem voltar para seus quartos e dormir como anjinhos inocentes!
— Mas senhor Frene! — Se surpreendeu Erick — Não entendo pissirica destas coisas!
— Qualquer menininho, com menos de nove anos de idade entende dessas coisas! — Ironizou o homem — Vá até o corredor da nave, abra o compartimento de processamento central, deite no chão e encontrará uma caixa, parecendo àquelas bolas de futebol americano de sua Terra. Atrás dela, encontrará um pequeno cartão chip. A não ser que o sabotador tenha o arrancado. Acredito que esteja apenas desconectado, já que ele é de pressão. Sua missão é de apenas pressioná-lo devagar, para que torne a se encaixar no compartimento, depois voltar à cabine e resetar o alarme, voltar à nave em piloto automático e voltarem pra casa rapidinho, para que os sabotadores sejam punidos decentemente.
Meio receoso, Erick obedeceu a ordem suprema. Observado por nós três seguiu até o corredor, abriu o compartimento, ajoelhou no chão da nave...
— Erick: — interferiu Arthur. — Antes de pôr as mãos aí, use a luva que está à direita.
— Bem lembrado! — Confirmou o senhor Frene — Vejo que pelo menos alguma coisinha, você aprendeu em seu doutorado.
Erick enfiou a mão direita na luva, que continha um fio, tipo aterramento, preso em seu punho, enfiou a mão por trás do tal cérebro eletrônico, esboçou leve sorriso, ao se deparar com o pequeno cartão e perceber que estava realmente desencaixado; pressionou-o devagar, sentindo que se conectou normalmente; se levantou, fechou o compartimento, retornou à cabine, pressionou o botão da luzinha azul, que se apagou imediatamente; esboçou novo sorriso e pressionou o botão de piloto automático, se sentando na poltrona próxima à porta.
Cinco segundos depois, o alarme voltou a piscar compassadamente.
— Senhor Frene, o defeito continua — informou Erick.
— Certeza?... O chip estava desconectado?
— Estava! Eu pressionei e ele se encaixou normalmente!
— O chip não estava desconectado coisa nenhuma! — Negou Arthur, bravo — Ninguém aqui seria infantil o suficiente, pra sabotar viagem tão complicada!
— Das duas uma: — alegou o senhor Frene. — Ou realmente o chip não estava desconectado e a nave tem um defeito real, ou, quando o sabotador colocou a mão no chip, ele se danificou devido sua descarga eletrostática, presente na mão humana.
— Não houve nenhuma descarga eletrostática! — Negou Arthur.
— Ao contrário de Erick, que protegeu o chip com a luva, como foi que o sabotador eliminou sua energia, antes de colocar as mãos sobre ele? Como Regis Primeiro, nos mostrou que aprendeu em sua tese avançada, sabe-se que há necessidade de usar um ponto de isolamento, pra que esta corrente, não seja transferida pra tal componente sensível ao calor.
— Não houve sabotagem! — Negou convicto Arthur.
— Muito bem! Regis... Os dois... Vocês não queriam voltar à meu mundo! A boa notícia é que vocês conseguiram! A má notícia, é que vocês também não retornarão à Terra! Ficarão vagando perdido pelo cosmos, até que seus alimentos, que é pouco, se acabem e vocês morrerão.
— Pare de falar asneiras! — Gritei assustado.
— Não é asneira! — Negou o senhor Frene, irônico — Apesar da traição de um de vocês, eu ainda os amo e já estou providenciando que Rud e Tony, saia pela galáxia, em resgate de vocês. Enquanto isso, recomendo que se não encontrarem um planeta ideal para aterrissagem, nas próximas horas, que encontrem uma órbita estelar qualquer, desligue a nave e deixe ela girar sobre tal órbita, evitando assim que ela se desgaste desnecessariamente e vague ainda, para espaço perdido, mais longe do que já estão.
— O que devemos fazer enquanto isso? — Insistiu Erick.
— Como a gente deve perder o contato em poucas horas, já vou reprogramar Mark Três, para que siga ordens de Regis... O de Suster. Aconselho a Erick e Regis da Terra, a procurarem dormir muito, para poupar energia do corpo e procurem se alimentar o menos possível, para que seu estoque não se esgote logo. Regis daqui e Mark Três: se não acharem um planeta ideal e desligarem a nave em alguma órbita, vão trabalhar juntos, em busca de solução para tal defeito, enquanto aguardam a chegada do resgate, que não sei quanto tempo vai demorar. No mínimo, não menos do que mil horas, já que vocês estarão em rota perdida.
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Dois engenheiros especializados nesta nave entraram em contato com Luecy e Arthur, diretamente de Merlin e juntos, buscavam alternativas para que se conseguisse guiar tal nave por uma rota manual.
O principal problema, era que, alem de uma rota totalmente manual ser muito perigosa, devido constantes perigos de colisão com grandes asteroides pelo espaço, a nave não estava mesmo aceitando a este comando e seguia por um caminho cada vez mais complexo e por isto mesmo, segundo os próprios engenheiros, seria difícil, como o senhor Frene ordenou, pousar ou colocar a nave em alguma órbita estelar.
Como previsto por senhor Frene, menos de dez horas susterianas, de viagem perdida no espaço, acabamos por perder contato com Malderran e Merlin, ficando agora, mais complexa e perigosa nossa viagem. Nesta altura, eu estava arrependido de ter provocado tal “sabotagem”. Eu, não entendendo patavina de eletrônica, nunca pensei que o simples toque de minha mão, poderia queimar ou danificar tal chips, por uma tal descarga eletrostática. Aprendi depois, assistindo a atitude de Erick, que para isto, seria necessário o uso de um bracelete ligado diretamente a um ponto de proteção, que descarregaria tal energia, provocada em meu corpo, para este ponto. Aprendi também, que mesmo com tal proteção, só seria recomendado tocar em tal chips, com a nave desligada.
Encontrar um planeta propício à vida, em questão de poucas horas, estava praticamente fora de cogitação, então Luecy e Arthur decidiram pela segunda hipótese: Reduzir drasticamente a velocidade da nave, para a velocidade da luz, e colocá-la em órbita elíptica, sobre a estrela, que eles juravam ser a que na Terra chamamos Próxima Centauri, que fica na constelação do Centauro, muito próxima a outras duas: Alpha Centauri A e B, o equivalente a dois trilhões de quilômetros de distância, entre elas e um raio de dezesseis vezes e meia ao da Terra, ou uma vez e meia ao de Júpiter, o maior planeta do sistema solar.
Esta batalha de homem (menino), robô, máquina (a nave) e órbita interestelar, perdurou com fracasso total por várias horas, reduzindo sempre a tal velocidade, até que finalmente Luecy confirmou:
— Operação realizada com sucesso.
Desligou a nave e percebeu que ela continuava se movimentando estável, porém praticamente à determinada velocidade, bem inferior: quarenta e oito quilômetros por segundo.
— É certeza de que a nave ficou presa à órbita? — Questionou Erick, duvidoso.
— Está! — Confirmou Arthur. — Agora o melhor a fazermos, é seguirmos as orientações do senhor Frene. Acho melhor você e Erick irem dormir bastante, enquanto eu e Luecy vamos tentar encontrar a falha.
— Tem como achar tal defeito? — Perguntei assustado.
— Se for o cartão da rota que se danificou, estamos condenados a ficar aqui pra sempre. Ou, até que o resgate nos encontre. Se não for isso, temos grande chance de descobrir o que ocorreu.
— Eu mexi no chip — Confessei.
— Eu sei! — Deu leve sorriso o outro menino.
— Idiota! — Gritou Erick, me segurando pela garganta — Você nos condenou a ficar longe de casa pra sempre.
— Idiota é você —Insinuei, me livrando dele. — Você me condenou a ficar longe de casa. Eu deveria estar dormindo em minha cama.
— Você nos condenou a morrer no espaço — gritou chorando com raiva, o rapazinho.
— Você nos condenou — insisti com sorriso assustado. — Eu apenas lhe dei uma ajudinha.
— Basta! — gritou Arthur — Todos somos culpados iguais! Ficar discutindo, só nos fará queimarmos mais energia e reduzir nosso tempo de vida. Acho melhor vocês dois irem pra suas camas. Luecy lhes induzirá a um coma e eu permanecerei acordado por algum tempo. Caso consiga recuperar a nave, acordarei vocês; caso não consiga, irei dormir também. Apenas Luecy permanecerá acordado, até que o socorro nos encontre.
— Vai nos colocar em coma? — Estranhou Erick.
— É o melhor jeito de dormir, sem acordar — alegou Arthur, com leve sorriso. — Regis é médico e sabe que não há perigo pra saúde de vocês.
— Na verdade, há riscos sim senhor! — Insinuei desconfiado — Um coma poderá trazer sequelas graves ao cérebro.
— O corpo de vocês vai dormir. O cérebro ficará ativo — insistiu Arthur.
— Não confio nesta hipótese — negou Erick
— Não haverá riscos pra saúde — negou Luecy.
— Mesmo que haja riscos, temos que fazer isso! — Concordei — É a única solução, enquanto aguardamos.
Acompanhado pelo robô, eu e Erick seguimos ao aposento e deitamos em duas camas distintas.
— Boa noite Regis! — Ironizou Erick, com raiva — Tenha lindos sonhos.
— Assim espero. Amigo susteriano — dei leve sorriso, como a chamá-lo de amigo da onça.
Luecy, apenas encostou seu dedo metálico na fronte de Erick e ele desacordou imediatamente, depois se aproximou de meu leito e antes que fizesse o mesmo, pedi:
— Nunca me deixe morrer, sem que eu saiba por quê. Em caso desta fatalidade ter que acontecer, por favor, me acorde antes.
Sem nada mencionar, apenas encostou o dedo em minha fronte e...
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