Acordei em minha cama, sentindo o dedo frio de Luecy em minha fronte. Um tanto que preguiçoso, sentei-me sobre a cama e percebi que Arthur dormia a meu lado; o que significava, que talvez a nave continuasse com problemas.

— Hora de acordar! — Mencionou Luecy, se dirigindo à Erick e fazendo o mesmo.

— O que aconteceu? — Questionei-lhe enquanto Erick acordava.

— O socorro chegou!

— Arthur também teve que dormir?

Claro que sua presença a meu lado, me deixava intrigado.

— Quantas horas eu dormi? — Questionou Erick, enquanto Luecy acordava Arthur.

— Horas?! — Ironizou o robô.

— Foram dias? — Me surpreendi.

— Dias?! — Tornou a ironizar o robô.

— O que aconteceu Luecy? — Especulou Arthur, enquanto se sentava a meu lado.

— O socorro chegou! — Tornou alegar Luecy.

— Onde estão? — Quis saber Arthur.

— Em outra espaçonave, do lado de fora. Precisaremos aterrissar para que possam ter acesso.

Apesar de preguiçosos, corremos juntos para à cabine, onde tentamos avistá-los pelo visor frontal da nave, mas nada vimos.

— Onde estão? — Insisti.

— Atrás de vocês — nos informou pelo monitor o senhor Tony. — Precisamos atrelar as naves para que possamos adentrar à de vocês.

— Mas não encontramos nenhum planeta propício à vida! — Negou Arthur.

— Não há problemas — negou Tony. — Vamos pousar, vocês permanecerão na nave. Eu e Rud usaremos máscaras de oxigênio e iremos até vocês.

— Como procederemos? — Insistiu Arthur.

— Ligue os motores, tire a nave desta órbita e leve-a em segurança, para o planeta escuro que vemos abaixo.

Arthur acionou o botão de partida da nave, fazendo-a responder imediatamente.

Menos de um minuto depois, já estávamos deixando a órbita que nos manteve seguro até a chegada de nossos salvadores. Com auxílio de Luecy, fizeram tal nave se deslocar em um espaço neutro, sem atmosfera ou quaisquer outros elementos químicos, propício à vida de qualquer espécie. Mas também não era um vácuo, pois a velocidade da nave era limitada, ou seja: ela era pressionada por alguma coisa, a qual não lhe permitia sua velocidade real, de milhões de quilômetros por segundo.

Mesmo com esta velocidade reduzida e a nave sem obedecer a comandos dos seus “pilotos”, conseguimos pousar em segurança, em local firme, em questão de menos de uma hora.

— Ninguém deve nos receber no saguão de entrada — alertou-nos o senhor Rud. — Pois, apesar de termos certeza de que estamos em local anecúmeno, poderemos estar levando algum tipo de radiação a este ambiente.

— O que faremos? — Insistiu Arthur — A radiação contaminará toda à nave.

— Luecy nos aguarda por lá. Ele é o único imune e nos examinará, antes de adentrarmos em sua nave.

Seu motor foi desligado, sua porta foi aberta e em menos de trinta segundos, Rud e Tony, adentraram seu grande hall, vestidos como verdadeiros homens da lua, com grandes macacões de astronautas, protegidos contra qualquer tipo de radiação.

Ali eles se despiram, após Luecy confirmar que tal planeta, acinzentado escuro, apesar de não possuir qualquer tipo de atmosfera, também não era radioativo.

De posse de dois novos chips já programados, os dois amigos nos cumprimentaram, principalmente, me abraçando demoradamente.

— Achei que nunca mais veria você, meu amiguinho da Terra — ironizou rindo o senhor Tony.

— Todos estes anos não lhe causaram nenhuma mudança — riu também o senhor Rud. — Está pronto pra voltar à nosso mundo?

— Quero mais é voltar pra minha Terra! — Aleguei tristemente.

Abriram o compartimento principal de nossa nave, Tony se abaixou ao chão, vestiu tal bracelete de proteção contra a tal descarga eletrostática, enfiou sua mão por trás de tal cérebro oval, desencaixou o chip e o substituiu em questão de segundos. Fez um leve gesto e o senhor Rud, se dirigiu até a cabine, onde acionou o botão ligar, aguardou alguns segundos e com sorriso, percebeu que o alarme não mais apareceu.

— Já estão liberados pra viajarem em segurança novamente — Informou-nos ele rindo. — Esperamos que nenhuma das crianças a bordo, resolva por seus lindos dedinhos aqui novamente.

— Alguém se habilita a ir conosco na outra nave? — Perguntou o senhor Tony.

Todos nós nos entreolhamos em silêncio:

— Regis?

Acenei que não.

— Que isso amiguinho! — Insistiu o senhor Tony. — Estou com saudade de nossas brigas!

— Vou continuar nesta nave — aleguei.

O senhor Rud entregou outro chip programado para Arthur e caçoou:

— Para o caso de alguma sabotagem.

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Alguns minutos depois, já estávamos cortando o vácuo, do espaço sideral novamente, seguindo a nave de nossos salvadores. Porém, Arthur, em breve sorriso, disse a Luecy:

— Altere a rota desta nave em direção à Terra!

— Se tá ficando doido moleque!? — Reclamou Erick.

— Sei muito bem o que estou fazendo — riu Arthur, retirando a parte frontal de comando, do monitor da nave.

Para mim foi grande surpresa.

— O senhor Frene vai nos matar! — Insistiu Erick.

— Não a mim! — Riu Arthur — Matará você Regis?

— Só se ele resolver nos buscar na Terra! — Insinuei ainda surpreso, mas com certo alívio no peito.

Luecy, como máquina que era e então, programado para receber ordens de meu querido sósia, alterou o comando de rota de nossa nave e com isto, sabíamos que em menos de quatro dias terráqueos de viagem, estaríamos pousando em terra firme, para se Deus permitir, nunca mais sair.

Com certeza, Erick e Luecy retornariam e se entenderiam com o poderoso senhor Frene. Eu e Arthur, estaríamos juntos, para podermos desfrutar da vida de todos meus familiares e amigos, que ainda permaneciam em meu mundo nativo.

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Noventa e uma horas de viagem depois, que para nós dentro da nave, devido a alta velocidade, que parecia fazer o relógio quase parar, não parecendo ter passado nem cinco, parecia ser quase final de tarde, quando a nave, em estado invisível para os terráqueos, se ajustava para pousar no fundo do quintal de minha casa; mas tivemos uma pequena surpresa: no grande espaço vago do fundo do quintal, neste período em que estivemos ausentes, papai teria construído um telhado, que parecia ser uma área para festas.

— Estranho — insinuei. — Papai nunca falou que construiria algo aqui.

O jeito foi direcionarmos a nave, até mais abaixo, próximo ao córrego Maria Chica, onde há um grande campo de futebol; local propício para aterrissarmos. Nova surpresa: um grupo de crianças, de lá seus dez a doze anos de idade, todos uniformizados em camisetas vermelhas, com listras na vertical em azul e calções azuis, jogavam um futebol aula, com outro grupinho, de camisetas amarelas e calções azuis, parecendo até serem nossos famosos canarinhos, da seleção brasileira.

A nave foi novamente direcionada para outro ponto, um pouco acima do então ginásio de esportes, pertencente àquele mesmo ambiente, do grupinho de crianças, onde encontramos outro campo de futebol, embora em tamanho não oficial, suficiente para que colocássemos nosso veículo espacial em solo firme.

A porta se abriu e ao descermos, disse à Erick:

— Eu e Arthur ficaremos por aqui! Você e Luecy, que façam uma boa viagem!

— Será que seus pais não nos arranjariam alguns alimentos? — Questionou-me ele — A nave está à zero.

— Tudo bem! Então você vai conosco até minha casa e Luecy aguarda na nave.

Descemos os três humanos e tivemos outra surpresa: A nave de Tony e Rud acabava de pousar a nosso lado.

Poucos segundos depois, sua porta oval inferior se abriu, surgindo os dois cosmonautas:

— O que vieram fazer aqui? — Especulou o senhor Rud, com voz autoritária.

— Nós ficaremos por aqui! — Informou-lhe Arthur — Luecy e Erick irão com vocês.

— Mas não ficarão mesmo! — Negou o mesmo homem — O Regis da Terra pode até ficar, mas não você!

— Ninguém me fará entrar nesta nave nunca mais — negou o menino, com jeito decidido.

— O senhor Frene quer você em nosso mundo.

— Fala pro senhor Frene, brincar com os outros vinte mil bonecos que ele criou — insistiu o menino.

— Você não é um boneco, Regis! Todos te amam como sendo um ser único e especial! — Alegou o senhor Tony.

— Regis, hora de entrar... — insinuou o menino, fazendo gestos, micagens e imitações adultas — Regis, vá tomar banho... Não mexa nisso aí... Hora de comer... Menino estúpido... Retardado...

— Chega! — Gritou o senhor Rud — Tudo isso é gesto de amor para com você.

— Amooor! — Fez careta o menino — Me poupe de amor assim! Quero mais é ser eu mesmo... Ter vontade própria! Vou ficar aqui mesmo! Diga ao senhor Frene, que se quiser que venha me buscar.

— Por que o monitor da nave de vocês não funciona? — Questionou o senhor Tony.

— Eu desliguei justamente pra evitar contato com o senhor Frene.

— Evitou contato conosco também! Por isso precisamos seguir vocês. Poderia ter nos evitado esta viagem desnecessária.

— Vieram por que quiseram vir! São inteligentes o bastante, pra terem entendidos que estaríamos vindo pra Terra.

— Será que esta é a forma que conseguem para agradecer-nos, pelo longo tempo que passamos para os encontrarem?

— Não senhor Tony! — Suavizou a voz, Arthur — Estamos realmente muito grato a vocês dois, por terem nos encontrado. Mas nem por isto, poderemos desperdiçar a chance de sermos felizes.

— Não vamos insistir mais — alegou o senhor Rud. — Faça como queiram.

Os dois homens retornaram para suas nave.

Quando adentravam ao grande hall, chamei-os:

— Senhor Tony e senhor Rud!

Eles pararam me olhando e eu pedi:

— Desculpem a gente. Só queremos mesmo ser felizes. Quem sabe se ficarmos juntos, a gente consiga.

Eles apenas acenaram que entendiam, a porta se fechou imediatamente e em menos de um minuto, já estavam levantando decolagem, para uma longa viagem, de mais de setenta dias, de volta a seu planeta de origem.

Enquanto Luecy camuflava a outra nave, também no espaço, em posição segura, longe de atrito com aviões e satélites terrestres, eu e os outros dois amigos seguimos caminhando, pelos quinhentos metros que nos separava da casa de meus pais.

Enquanto caminhávamos, eu estranhava certa metamorfose, sofrida nos prédios daquela região de minha cidade. Parecia que cada casa, que cada prédio comercial e até que as ruas estavam diferentes do que quando saímos dali a algum tempo.

— Será que nós pousamos mesmo em Penápolis? — Especulei, estranhando tudo.

— Claro que sim! — Riu Erick, sem estranhar diferenças, pois havia dezenas de anos, que ele não passava por ali — Onde mais? Em Malderran?

Ainda estranhando o local, acabamos nos deparando com a entrada de minha casa, totalmente diferente, com muros altos na frente e mesmo a casa, parecendo ter sofrido reforma completa e aumentada de tamanho, com a frente enfeitada por lindas pedras ornamentais, envernizada em verde.

— Acho que minha família ganhou um bom prêmio na loteria, enquanto estive fora — aleguei com o coração apertado.

Tirei o aparelho tradutor de meu pescoço e o devolvi a Arthur, que era seu verdadeiro dono, dizendo:

— Use-o, você vai precisar.

Forcei o portão e entrei, sendo acompanhado pelos outros dois.

Forcei a linda maçaneta dourada da porta de entrada e percebendo que estava trancada, bati levemente sobre a madeira.

Dez segundos depois ela se abriu e um homem alto, cabelos escuros, aparentando seus quase cinquenta anos de idade, com fisionomia conhecida, insinuou surpreso:

— Regis! Quanto tempo!

— Quem é você? — Especulei surpreso, conhecendo seu jeito.

— Sou Regis, tio! Filho de Paulinho! Não me conhece mais?

— Não é possível! — Me assustei— Meu sobrinho Regis tem quinze anos! Onde estão meus pais?

— Tio! Faz trinta anos que você se foi!

Me arrepiei inteirinho.

— O vovô morreu, já faz mais de vinte anos!

— Não é possível! Eu saí daqui faz poucos dias! Nem estive tão longe assim! Onde está minha mãe?

— A vovó também já foi com Deus. Faz oito anos!

— Não é verdade! — Já estava chorando. — E seu pai?

— Desculpe tio — meu sobrinho também estava emocionado — Papai teve um enfarto fulminante, faz quase um ano. Foi socorrido, mas morreu ao dar entrada no hospital. Eu casei e a mamãe mora aqui comigo. Tenho três filhos. O mais velho já vai fazer dezoito anos e o caçula está com treze.

— Tudo isso é mentira! — Neguei chorando muito — Estou tendo um pesadelo!

— Não é tio. A vovó sofreu muito com a sua ausência demorada. Quando estava já muito ruim, ela pedia o dia todo por você — meu sobrinho chorava mais do que eu. — Mas nós não podíamos fazer nada! Como você sempre falava, que aquele tal homem, do planeta que você visitava, conseguia te ouvir, a gente vivia falando sozinho, como se fosse com ele. Pedíamos que te devolvesse pelo amor de Deus. Mas infelizmente... a vovó morreu clamando por sua vinda.

— O que aconteceu comigo, Arthur? Não pode ser que dormi por trinta anos! — os arrepios por todo meu corpo eram constantes — Você sabia disso?

— Não! — Negou ele, tão surpreso quanto eu — Só Luecy poderia saber disso.

— Quer dizer que o senhor Tony e Rud, nos procuraram no espaço por trinta anos! — Se espantou Erick — Como pode ser?

— Alem de você, somente os tios Leandro e Leticia estão vivos — emendou meu sobrinho Regis. — Mas eles continuam morando em Florianópolis e Recife.

— O que mais? Quem me sobrou desta vida ingrata? O senhor Luciano?

Regis, adulto, acenou negativamente como a dizer: “já se foi”. Claro! Sendo ele dezessete anos mais velho do que eu, já teria então, oitenta e cinco anos de idade.

— Dona Sara? — Questionei duvidoso.

Nova negativa.

— Elizabeth! — Insinuei temeroso.

Meu sobrinho acenou que sim.