Regis Um Menino do Planeta Terra
11 Meu primeiro amor
Voltei quase correndo para a rua e assim, praticamente correndo, acompanhado por todos, inclusive meu sobrinho, subi a outra metade da quadra e virei à direita, onde continuei por mais trezentos metros, até chegar a uma casa, que, salva a corrosão do tempo, idêntica a que já conhecia. Abri o portão e ao perceber que eu entraria sem chamar, meu sobrinho bateu palmas.
Quando eu já forçava a maçaneta da porta, ela se abriu e eu fui recebido por uma mulher, também de seus cinquenta anos, que abriu um sorriso assustado, dizendo:
— Regis!
— Você é a filha da Beth? — Especulei emocionado.
— Sou eu Regis! Dessa vez você sumiu mesmo! Não?
— Onde está sua mãe?
— Venha comigo! — Puxou-me pelo braço, sendo acompanhado pelos demais — Ela ficará muito feliz com sua vinda.
Seguimos juntos para um quarto muito limpo e arejado, embora com as janelas fechadas. Uma mulher de seus quase setenta anos, estava deitada em uma cama hospitalar alta. Moribunda, com seus cabelos longos, grisalhos, rosto enrugado e sofrido, mãos magras trêmulas...
— Meu querido Regis! — Abriu um sorriso sofrido — Eu sabia que você voltaria!
Abracei-a em silêncio, emocionado.
— Como você continua lindo! — Elogiou-me ela — Meu primeiro amorzinho de minha infância! Por que eu não fui passear contigo, por aquele campo cheio de mato?
— Pra quê? — Fiz careta, deixando-a.
— Eu teria ido com você, pra este seu mundo distante e hoje estaria bonita como você.
— Se você tivesse ido com ele mamãe, eu não teria nascido! — Riu sua filha Leticia.
— Você continua muito bonita, Beth!
Ela segurou em minha mão direita, com suas duas mãos, me forçando a sentar-se a seu lado.
— Não precisa mentir pra me agradar! Pareço sua bisavózinha! Meu tempo passou. O seu tempo continua.
— Não tenho mais ninguém por mim, Beth! — Estava chorando — Só você.
— Você continua um menininho muito lindo! É privilegiado por ter uma infância eterna.
— Meus amigos de infância, seguiram seu destino junto com você. Só eu perdi o ônibus da vida!
— Seja sempre um menininho feliz.
— Como? O que aconteceu com você? Saia dessa cama! Brinque comigo! —As lágrimas caiam de meus olhos tristes, molhando todo meu rosto, como jamais caíra antes.
Ela esboçou leve sorriso amargo.
— De quê?
— Só não me deixe sozinho!
— Nunca me esqueci do dia em que você me disse, que se eu não namorasse você, que arrancaria seu coração.
— Por favor, fique comigo!
— Desculpe meu menininho. Já não posso mais ficar aqui! Só estava esperando por você. Agora já posso ir em paz.
— Não Beth! Não me deixe mais sozinho!
— Você sempre foi um menino carismático. Sempre conquistou muitos amigos. Continue com esse seu jeito e amigos não lhe faltará.
— Por favor, Beth! — Pedi chorando muito — Faça-me acordar desse pesadelo!
— Tio: — Interrompeu-nos meu sobrinho — Você vai morar comigo. Poderá brincar com meus filhos. Eles não te conhecem, mas sabe tudo sobre você.
— Não me deixe Beth! — Insisti chorando — Eu ainda amo você!
— Você ficará muito bem, meu amorzinho.
Ainda segurando minha mão, com muito carinho, usando suas duas mãos, acariciou cautelosamente meu rosto molhado de lágrimas.
De repente, suas mãos diminuíram a força com que segurava a minha e seu rosto cansado, pareceu um tanto confortável... Seu rosto sofrido pareceu ameno. Meu sobrinho segurou em minha cintura, me fazendo levantar daquele leito cruel.
— Me deixe! — Gritei chorando.
Ele não me deixou, me arrastando para a sala e me colocando no sofá. Erick e Arthur, também com lágrimas, sentaram-se a meu lado, que continuava chorando muito. A filha de Beth, até que conformada, permaneceu ao lado da mãe, sem saber direito o que teria que fazer.
— Não vá Beth! — Gritei desesperado — Por favor, fique comigo! Não me deixe aqui!
Arthur me abraçou, tentando me consolar. Acho que foi só naquele momento mesmo, que percebi o quanto meu irmão de mundo distante, era assim, um menino meigo e carente ao mesmo tempo. Só não conseguiria entender o porquê; já que uma criança pra lhes dar amor e carisma, era tudo o que o povo susteriano mais queria. E tendo Arthur e milhares de outros idênticos, não conseguiam compartilhar este amor.
— Arthur! — Pedi chorando — Eu também quero morrer.
— Cada um de nós, tem sua hora exata — tentou confortar-me ele. — A nossa ainda não chegou. Vou ficar com você pra sempre. Seremos felizes juntos.
— Quero ir embora!
— Quer ir... agora?
— Não quero ficar aqui!
Levantamos juntos daquele sofá, retornei ao quarto, abracei forte e beijei o rosto inerte de Beth, abracei sua filha Letícia e acompanhado pelos demais, me retirei de sua casa, caminhando lentamente de volta até a casa, a qual já fôra minha, mas que agora não parecia mais assim.
Meu sobrinho Regis, abriu o portão e fez sinal para que entrássemos.
— Não vamos ficar, Regis — neguei com lágrimas. — Vamos embora e não voltaremos nunca mais.
— Como assim? — Admirou-se ele — Aqui é seu lugar. Esta ainda é a sua casa!
Olhei muito, para todos os cantos externos daquela casa, completamente modificada, franzi os lábios e negando com a cabeça, insinuei:
— Não tenho mais ninguém aqui. Vou tentar conseguir felicidade em outro mundo.
— Você tem alguém aqui sim! — Insistiu o homem — Eu e minha família somos a sua família! Eles não te conhecem ainda, mas sabe tudo sobre você. Sempre falei a eles sobre você, como um herói. Eles vão te adorar!
— Herói!? Eu?! Que nunca fiz nada na vida!
— Um herói que é muito querido por todos. Até por outro mundo!
— Obrigado! Não quero mais ficar aqui.
— A gente liga pros seus irmãos e eles virão te ver.
— Não dá mais! Eu morreria, permanecendo em um mundo diferente do que deveria ser.
— Meus filhos vão te adorar. Eles foram viajar com a mãe e a avó, mas estarão de volta em dois dias. Fique conosco. Há lugar pra vocês três em minha casa.
— Não! — Neguei convicto — Faça só um favor pra gente: Faremos uma viagem que vai durar setenta dias; nossa nave está sem alimentos. Dinheiro a gente não tem. Arranje algum alimento pra nossa viagem.
— Claro! — Concordou ele. — Entrem!
Entramos na sala da casa, em que morei por trinta anos. Assim como o lado externo, estava muito diferente daquela em que deixei há outros trinta anos no passado. Mobília totalmente nova e rica. Um quadro em moldura de mogno, com mais de sessenta polegadas, mostrava em imagens tridimensionais a foto de três meninos, com muita semelhança à minha família: o mais velho, aparentando uns quinze anos, o do meio, uns doze e o caçula, uns dez anos de idade, forrando quase toda uma parede. A imagem era tão perfeita que dava a impressão de que aquelas crianças estavam mesmo presentes ali naquela sala, ao vivo. Para completar a mobília, um sofá branco, em tecido de talvez veludo; uma pequena estante de vidro, com alguns objetos de minha época, como livros e garrafas de bebidas diversas e mais nada.
— Que tipo de alimentos vocês precisam? — Perguntou-me o homem.
— Qualquer alimento. Desde que seja pronto, pois lá não há como prepará-los.
— Eu também não tenho alimentos aqui em casa.
— Tudo bem! — Dei de ombros, enquanto admirava o quadro na parede — A foto do quadro são seus filhos?
— Sim! Mas a foto é um pouco antiga.
— É um quadro diferente.
— É um televisor — riu meu sobrinho. — Quando em stand-by, mostra fotos, como se fosse proteção de telas.
— Interessante — me inibi. — Nem em Suster, a tevê está assim tão avançada!
— Vocês aguardam aqui, enquanto eu vou ao supermercado buscar alguma coisa.
— Podemos tomar um banho enquanto isso?
— Claro! Venham comigo!
Levou-nos até o mesmo quarto em que já foi meu. Agora totalmente modificado, com duas camas de madeira grossa na cor mogno, preparada por lindas colchas de seda e um guarda roupas, também na cor mogno, que ocupava toda a parede esquerda, para quem adentra ao quarto.
Abriu a parte superior do mesmo, retirou uma grande caixa de papel dourado, colocou-a sobre a cama e a abriu, se deparando com uma sacola plástica, abalroada com roupas de criança.
— Conhece estas roupas? — Perguntou-me ele.
Balancei os ombros, alegando:
— São minhas?
— Isso mesmo! A vovó nunca deixou que desfizéssemos de suas roupas. Ela dizia, que algum dia você voltaria, com seu mesmo jeitinho de menininho triste e tornaria a usá-las.
Abriu uma das portas inferior do guarda roupas, apanhou uma bermuda de algodão e uma camiseta azul clara, que deveria ser de seu filho adolescente e entregou para Erick dizendo:
— Você poderá usar estas. Acho que servem.
Apanhou três toalhas e jogou uma para cada um de nós, dizendo:
— Enquanto vocês tomam banho, vou ao supermercado.
Ele se retirou e Erick se prontificou:
— Vou ao banho primeiro!
Seguiu rapidamente ao banheiro social.
Embora a casa possuísse outros dois banheiros, ao contrário de antes, que só existia mesmo o qual Erick resolveu usar, nós decidimos que só usaríamos o mesmo, para evitar assim que sujássemos os demais.
Enquanto Erick tomava seu demorado banho, depois de trinta anos, eu e Arthur permanecemos sentados no sofá da sala, praticamente calados.
Em minha mente, milhões de lembranças, passavam como retrospectiva em tela de um cinema, reproduzindo coisas perdidas no tempo, desde a época em que eu realmente contava meus nove anos de idade: Elizabeth criança, juntos no caminho para a escola, pulando e brincando, ou mesmo no recreio e em sala de aula... Paulinho pequenino, que nunca desgrudava de meu pé, muitas vezes, nem mesmo na hora do banho ou de dormir, demonstrando assim ser muito frágil e eu seu fiel protetor, atrapalhando muitas vezes, minhas brincadeiras com outras crianças, me denunciando inocentemente no esconde-esconde... O senhor Luciano e sua esposa Sara, que me amavam como se eu fosse seu primeiro filho, que ainda estava por chegar e que também foi ele, o homem que nunca desistiu de me procurar incansavelmente, quando eu fôra levado da Terra pela primeira vez, sem aqui deixar nenhuma pista. Minha cirurgia de fimose, promessa idiota de papai, sem meu consentimento, em busca de ter o direito de entrar no reino dos Céus, como fazem os judeus, no plano de circuncisão à seus filhos pequenos. Mamãe me abraçando, com a maior de todas as felicidades, ao me rever, quando voltei de Suster pela primeira vez. Minha fobia, ao dormir sozinho, após ter voltado de Suster pela segunda vez, passando a dormir todos os dias com mamãe, provocando ciúmes em papai... e milhões de outras recordações, as quais, as vezes faziam mudar meu semblante de sofrimento, para alguma alegria e até um sorriso bobo e solitário, sendo observado por Arthur, que eu nem sabia o que ele estava pensando.
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Vinte minutos de banho e Erick apareceu na sala, enrolado na toalha.
— Quem vai agora? — Perguntou-nos.
— Eu! — Gritou Arthur.
— Eu também! — Me prontifiquei.
E daí? Irmãos! Mesma idade! Mesmo corpo! Peque-nos! Crianças...
Seguimos juntos ao mesmo banheiro, ao qual eu já conhecia, embora estivesse totalmente reformulado, com suas paredes revestidas por azulejos vitrificados, nas cores verdes cintilantes, lavatório nas mesmas proporções, vaso sanitário dourado cintilante, parecendo objeto de enfeite... E depois do box de vidro cinza claro, no alto, um grande chuveiro, também cinza claro, que ficava junto à parede e de tal potência desnecessária, para uma cidade tão quente, como sempre fôra minha querida Penápolis.
Depois de trinta anos, nos despimos daqueles pijamas: o meu curto e de Arthur, comprido, os quais vestimos ali mesmo naquela casa e em segundos, nós dois juntos, estávamos nos cotovelando dentro daquele pequeno box, nos deliciando com aquele, talvez último e confortante banho da Terra.
Vinte minutos depois, bateu na porta e Erick gritou:
— Chega desse banho, meu! Querem gastar toda a água do mundo?
Desliguei a água e ali mesmo no box, nos enxugamos. Enrolamos nas toalhas, abrimos a porta do banheiro e seguimos acompanhados por Erick ao quarto, onde minhas roupas estavam sobre uma das camas.
Apanhei uma bermuda de moletom azul escuro e a vesti imediatamente:
— Não vai colocar cueca? — Questionou-me Erick.
Simplesmente balancei os ombros, como a dizer: “Pra quê?”.
Mais de trinta anos sem usar este acessório, se o fizesse agora, talvez me sentisse desconfortável. Deixe isso para quando chegarmos a Suster.
Arthur apanhou uma bermuda em Lycra preta e também sem cueca, a vestiu. Apanhou e vestiu uma camiseta de algodão polo, azul clara, com um pequeno jacaré, bordado no peito esquerdo. Eu vesti uma camiseta de algodão, branca, sem cavas.
— O que é isto em meu peito? — Perguntou-me Arthur.
— É um jacaré — ri. — Esta camiseta é famosa.
— Como você tem uma camiseta dessas, Regis? — Especulou-me Erick.
— Tendo, ué! — Dei de ombros. — Não posso?
— Sei lá! — Deu de ombros também — Era uma camiseta cara, pra seu padrão de menino pobre!
— Não poderia ganhar de presente?
— Sem ofensa — gesticulou ele.
Realmente, a tal camiseta, símbolo do jacaré, não seria assim para um menino de meu padrão de vida, sendo pobre. Porém, eu a ganhara do senhor Luciano, quando retornei à Terra, a quase cinquenta anos no passado.
Dez minutos depois, meu sobrinho Regis, retornou, deixando o carro estacionado na rua e entrando à sua sala, onde estávamos sentados em silêncio.
— Gostaram do banho? — Questionou ele com sorriso.
— Fazia tempo que não tínhamos esta regalia — concordou Erick.
Levantei-me perguntando:
— O senhor arrumou alguma coisa pra gente levar?
— Sim! Deixei no carro. Quando vocês pretendem ir?
— Agora! — Insinuei convicto.
— Não vai ao velório?
— Não!
— Onde deixaram o veículo de vocês?
— A algumas quadras.
— Vou com vocês até ela.
Voltei sozinho ao quarto, guardei a sacola plástica com as roupas na caixa de papelão, apanhei as roupas usadas e as coloquei por cima, fechando a caixa e levando-a comigo para a sala, onde perguntei a meu sobrinho Regis:
— Posso levar esta caixa de roupas comigo?
— Claro! São suas!
Já íamos nos retirando, quando ele ainda pediu:
— Esperem que eu já volto!
Seguiu ao mesmo quarto aonde nos vestimos e voltou em poucos segundos, com outra caixa tipo maleta, me entregando.
— Acho que gostará de levar isto — disse-me ele.
Abri a caixa e bradei surpreso:
— Meu álbum da Disney!
Realmente era o álbum de fotos, que retratava nossa viagem há muito tempo para Orlando, na Flórida. Alem de, sobre ele, em sua correntinha azulada, meu aparelhinho tradutor, o qual iria mesmo ser essencial na minha volta à Suster. Somente com ele, eu seria capaz de decifrar linguagem tão complexa.
— Posso levá-lo também?
— É seu!
— Obrigado por tê-lo guardado por todos estes anos.
Coloquei a correntinha sobre meu pescoço, escondendo o aparelhinho por baixo da camiseta.
Saímos juntos para a rua, onde percebi que já se fazia noite, por volta das dezenove horas; entramos em seu belíssimo carro prateado de cinco lugares, que não era nada diferente de um Volkswagen Voyage, dos que conhecíamos no passado e em poucos segundos já estávamos no mesmo campo de futebol, onde havíamos deixado nossa espaçonave.
Por um comando, no relógio de pulso de Arthur, em poucos segundos, ela, com poucas luzes externas, que ascendiam em baixa potência, em azul e vermelho, pousava diante de nossos olhos.
Apanhei as caixas de roupas e de fotos no carro, enquanto meu sobrinho apanhou outra caixa grande, cheia de alimentos prontos: Queijo, pão, leite, iogurte, salgados, bolachas, salame, azeitonas, salsichas, maçã, pera, entre outros... Entregando para Erick, enquanto eu coloquei as outras caixas no chão e abracei-o agradecendo:
— Obrigado por tudo. Não espere que eu volte.
— Você deveria ficar comigo!
— Não! Você sabe que aqui não é mais o meu lugar.
— Acha que neste local distante para onde você vai, será o seu lugar?
— Não! — Neguei ainda triste — Pra falar a verdade, acho que perdi meu lugar no mundo.
— Se você ficar aqui prometo fazer de tudo pra lhe fazer feliz! Você é meu sangue!
— Aqui só terei lembranças, de um passado que deveria ter sido muito feliz.
Abraçou a Arthur e depois Erick, lhe dizendo:
— Se o Regis resolver voltar traga-o, por favor.
— Deixe com a gente! Mas ele será feliz em Suster! Pode acreditar!
— Com o que vocês irão viajar? — Perguntou o homem, estranhando.
— Nossa nave! — Insinuou Arthur, lhe apontando a nave.
— Onde? — Estranhou o homem.
Surpreso, me aproximei dele, apontando para a nave e lhe perguntando:
— Você não a vê?
— Não há nada ali!
Não saberia explicar como ou por que, mas a nave estava invisível aos olhos de meu sobrinho, porém, visível para nós três, seus tripulantes.
— Não se preocupe Regis — lhe informei. — A gente precisa preservar a integridade da Terra.
— Não posso vê-la? Nenhuma vez?
— Será melhor assim. Confie em mim.
Erick foi o primeiro que, fazendo gestos de despedida, adentrou à nave. Meu sobrinho se espantou:
— O que aconteceu com ele?
— Entrou na nave! É como se estivesse desaparecido pra você?
— Sim! Ele sumiu de repente!
— Não se preocupe — insinuei com leve sorriso. — Ele ainda está aqui! Só que dentro de nossa nave.
— Como é a nave? — Perguntou curioso o homem.
— Quer mesmo vê-la? — Perguntou-lhe Arthur — Vou entrar lá e lhe mostrarei, por apenas dez segundos.
O menino, praticamente correndo, entrou na nave e pouco depois, meu sobrinho fez cara de maravilhado, dizendo:
— Ela é muito linda!
E permaneceu estarrecido, pelos dez segundos seguintes.
— Sumiu! — Disse ele, fazendo pequena careta.
— Ela continua ali.
Tornei a lhe abraçar rapidamente, dizendo:
— Já vou! Fique com Deus.
— Que Deus acompanhe vocês...
Apanhei as caixas no chão e quando já entrava na nave, meu sobrinho ainda me disse:
— Se quiser voltar algum dia, lembre-se que eu te amo!
Assim que entrei no grande hall da nave, sua porta com escadas subiu, se fechando e lacrando o local, como se ali não houvesse nenhuma emenda. Segui em passos lentos para o tal aposento, guardei as duas caixas no armário e me deitei de bruços, sobre a cama, preparada em roupagens de talvez cetim, onde novamente chorando comecei a meditar, sobre todo o tempo perdido, na órbita de uma estrela distante.
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