Reescrevendo o Passado
1 Retro in tempore
Notas iniciais
Finalmente, a verdade.
Deitado com o rosto no carpete empoeirado do gabinete, onde no passado ele pensara estar aprendendo os segredos da vitória, Harry compreendeu, por fim, que não devia sobreviver.
Ele sentiu o coração bater violentamente no peito. Como era estranho, que em seu temor de morte, ele bombeasse com mais força, o mantendo vivo.
Uma voz conhecida tirou-o de seus devaneios.
– Harry! Não há muito tempo! Depressa!
– Professor Dumbledore? Mas como…
– Eu sou um quadro, meu filho. Esqueceu que todos os diretores de Hogwarts permanecem eternizados nessas paredes? – lembrou-o gentilmente.
– Certo. Não há muito tempo para que, exatamente, professor? – questionou Harry.
– Preciso lhe fazer uma proposta. Não pretendia atar-me a ela, mas não vejo outra alternativa.
– Qual é a proposta?
– Você precisa voltar no tempo.
– Voltar no tempo? Como poderia? Destruímos todos os vira-tempos no nosso quinto ano.
– Claro que destuíram! – riu o professor — Mas me diga: aceita a proposta?
– Claro! Quanto tempo eu voltaria? Algumas horas?
– Não horas, mas anos. Existe um feitiço para isso, chamado de Tunc Reverterentur, mas o mesmo é muito complicado. Você terá que pronunciar todas as palavras corretamente e se concentrar na pessoa que você mais ama no mundo. Você retornará aproximadamente 48 ciclos lunares no tempo, ou seja, para seu terceiro ano.
– Tudo bem – concordou Harry. — Qual é o feitiço?
– Só mais uma coisa. Não se esqueça que não poderá contar a ninguém que veio do futuro. Muito menos o que está para acontecer. Coisas horríveis aconteceram com bruxos que mexeram com o tempo, Harry. Tome muito cuidado. – e dizendo isso, o quadro se abriu, revelando uma passagem para uma enorme biblioteca.
Harry adentrou o estranho espaço. Um livro empoeirado repousava em um antigo pedestal.
Seu título era: VETUSTORUM, a magia de nossos ancestrais (volume único). A sala ficou branca. Páginas e mais páginas desprendiam-se do livro por causa da rapidez com que eram viradas pelo vento.
A ventania finalmente cessou: “Um feitiço para mudar o passado”, dizia o livro. Recite com atenção:
– Retro in tempore,
Et avertet illud
quae numquam fuit.
(De volta no tempo,
eu viajarei.
Para reverter aquilo
que nunca deveria ter ocorrido.)
“Estranho”. A palavra não era suficiente para descrever a sensação da viajem no tempo. Pior que aparatar, com certeza era.
De súbito, tudo voltou a ficar nítido.
Com espanto, Harry percebeu que situava-se em seu quarto na Rua dos Alfeneiros. Sem parar de se surpreender, notou ainda, que estava em seu corpo recém-completado, de 13 anos.
Devia ser mais de meia-noite, ele estava deitado de bruços na cama, com as cobertas puxadas por cima da cabeça, como uma barraca, uma lanterna nas mãos e um grande livro encadernado em couro, aberto e apoiado no travesseiro.
Recordou-se, então, de seu terceiro ano em Hogwarts e o verão que o antecedera. Lembrou das maldades dos tios e do primo. De seu padrinho, um fugitivo de Askaban. Rabicho. Tinha de impedir tudo isso.
Em um tempo relativamente curto, Harry se vestiu, arumou seu malão e arrancou o calendário da parede.
Saiu de casa batendo a porta. Na esperança de que sua “família” acordasse mal-humorada por causa do barulho.
Ele não sabia se poderia fazer mágica fora da escola, mas resolveu tentar.
Começando por uma coisa mais simples, tal como o feitiço indetectável de extenção e pena em uma mochila. Afinal, ele não queria ter de carregar seu malão.
Funcionou. Nada de cartas do ministério o convocando para audiências.
Harry aparatou nas proximidades da Toca. Esperava que a família Weasley o recebesse bem, apesar de não ter os avisado de sua vinda.
A luz da cozinha estava acesa. No aposento aconchegante, uma pequena menina ruiva de camisola cor-de-rosa tomava um copo de água, o qual se espatifou no chão quando seus olhos castanhos encontraram os verdes de Harry.
– Gina! – exclamou ele, tentando não rir. Sentia falta daqueles momentos – Que saudades! Você está bem? Estava preocupado.
Quando ele a abraçou, sentiu uma serenidade que à muito não sentia.
– O-oi Harry… — gaguejou a mais nova dos Weasley – O que faz aqui? Não que sua presença não seja bem vinda, é claro!
– Depois eu te explico, prometo. Estou com um pouco de pressa! Com licença! – falou ele e subiu as escadas em disparada.
O quarto de Ron era completamente laranja, cor de seu time de Quadribol, os Chudley Cannons.
A gaiola de “Perebas” permanecia fechada durante a noite.
Harry lançou nela um feitiço, para que o animago não pudesse escapar.
O mais prudente seria aguardar o amanhecer para contatar o professor Dumbledore e lhe contar a verdade.
Contudo, ele nunca fora muito prudente.
Harry decidiu apenas enviar ao professor um patrono, explicando a situação e pedindo que ele viesse para a Toca assim que possível.
Gina estava muito envergonhada. Harry Potter, sua paixão, tinha de repente aparecido na soleira de sua porta e lhe abraçado, dizendo ter sentido saudades.
Ela sempre gostara dele. Mesmo antes de saber que ele era Harry Potter, o-menino-que-sobreviveu. Mas nunca sequer imaginara que ele também pudesse gostar dela. Foi uma surpresa.
Harry desceu as escadas. Parecia mais tranquilo.
– Desculpe por aquilo Gi. – ele sorriu – Tive que fazer algo importante.
Ela corou e olhou para seus pés descalços.
– Tudo bem, Harry.
O rapaz se aproximou e levantou seu queixo.
– Você é linda Gina, uma rainha. Nunca abaixe a cabeça, a coroa pode cair.
As estrelas pareciam mais brilhantes para ela.
– Obrigada.
Ele não respondeu.
– Quer dar um passeio comigo? De vassoura. – a convidou.
– Nada me deixaria mais feliz.
E naquela noite Harry percebeu que deveria ter notado a mais nova dos Weasley muito antes, porque ela sempre esteve ali para ele.
E foi sob a luz do luar, que eles deram seu primeiro e apaixonado beijo.
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