Reencontros e Recomeços
9 08 - Recomeçar
Notas iniciais

"Amigos se separam, amigos se casam
Estranhos nascem, estranhos são enterrados
Tendências mudam, boatos voam por novos horizontes."
(Right Where You Left Me — Taylor Swift)
...
Cansaço.
Era o que Samantha sentia quando finalmente chegou em seu andar e abriu a porta do apartamento. Ao entrar, deixou as malas em um canto ao lado da porta e se abaixou para pegar as correspondências que o porteiro do prédio fez o favor de colocar no vão embaixo, a pedido dela. Em seguida, a fechou, jogando-as na mesa e então, finalmente, se deitou no sofá.
Tinham sido apenas duas horas mas a sensação era que a viagem tinha durado bem mais do que isso, se perguntava se algum dia seu corpo se habituaria a aviões e viagens.
Estava quase pegando no sono quando ouviu aquele barulho, que parecia mais do que insistente na tarefa de chamá-la. Franziu o cenho, nervosa, e foi até onde suas malas estavam afim de pegar o celular na bolsa.
A ligação era de um número desconhecido, e estava irritada e preparada o bastante para mandar aquela pessoa, seja lá quem fosse, para um lugar não muito educado.
"O QUE FOI?" -sua voz soou como uma pergunta, e quem quer que estivesse no outro lado da linha, se assustou.
"Sam? Sou eu!"
A loira arregalou os olhos, tamanha a surpresa.
Como assim, Melanie a havia ligado? E desde quando ela usava um número desconhecido?
"M-Mel?"
Ela pôde ouvir a irmã sorrindo do outro lado, um pouco mais tranquila agora.
"Oi sua bobinha."
"Por que você não me ligou no seu número normal? Eu pensei que fosse algum filho da puta me passando trote, já tava preparada pra te mandar pra puta que pariu sem saber que era você..."
Tudo o que ela conseguia ouvir era altas risadas. "Tenho cara de palhaça?", pensou.
"Ok, já percebi que alguém está de mal humor... o que aconteceu, mana?"
Sam suspirou e fechou os olhos.
"Foi mal... eu só estou muito cansada, cheguei de viagem agora e já ia dormir."
"Ah, meu Deus... agora eu fiquei mal... se você quiser eu ligo amanhã."
"Não, nem tinha como você saber... fala, vai, o que você precisa?"
"Ok, serei bem direta: estou de volta aos Estados Unidos!"
Sam arregalou os olhos e um sorriso se abriu em seus lábios.
Melanie havia se mudado para Londres há alguns anos para cursar faculdade e acabou conhecendo um britânico que estudava em sua turma. Se casaram um tempo após a formatura e desde então ela só havia retornado ao país de origem uma única vez; para levar o filho para a família conhecer. A essa altura Albert já se encontrava com quatro anos.
Sam sentia muitas saudades da irmã, desde que ela se mudou as duas se afastaram significativamente, o fuso horário era uma praga e fora isso, tinha os afazeres pessoais de cada uma. Infelizmente haviam muitas coisas que não eram a favor da proximidade das irmãs, mas elas sempre davam um jeito de voltar para perto uma da outra, mesmo que demorasse muito tempo!
"C-como assim você, mas você vem pra morar ou só pra visitar? O Albert e o William estão com você? "E aonde vocês estão?"
"Ok, maninha, uma pergunta de cada vez. Um: venho pra morar! -sem conseguir se conter, Sam deu um grito de felicidade, e ela pôde ouvir a risada da irmã- William conseguiu uma ótima oportunidade incrivel como clínico geral em um grande hospital de Burbank."
"Então, vocês estão aqui na Califórnia! Quando vamos poder nos ver? Estou morrendo de saudades de vocês e do meu sobrinho, a última vez que eu o vi ele era um bebê e agora já está tão grande..."
"Foi pra isso que eu te liguei! Queria saber se você vai estar livre amanhã."
"Vou sim! Eu volto para o trabalho só depois de amanhã."
"Ah então tá ótimo, amanhã Albert e eu estaremos fazendo um bate volta de Burbank à L.A! Já que William só chega semana que vem. Qual é o melhor horário para irmos?"
"Ah, vocês podem vir amanhã de manhã, depois das dez é certeza que eu estou acordada. Ainda lembra qual é o meu endereço?"
"É claro que sim né Sam, até parece que eu não te envio cartão de Natal todo ano..."
"É verdade, bom, estou esperando vocês."
"Ok. Até amanhã, irmã."
"Até, Mel!".
{...}
Freddie estava nervoso.
Enquanto olhava a paisagem de uma Seattle chuvosa através da janela da sala de reuniões, ele pensava em quais seriam suas palavras naquela que viria ser a última reunião convocada por si.
Chegara o dia em que ele comunicaria a todos os diretores, sócios e acionistas da Pear Store, sobre sua promoção e ida para Los Angeles. Freddie sabia que não tinha segredo, e que ninguém poderia ir contra, nada o prendia lá. No entanto, sempre teve dificuldades em ministrar reuniões, seja qual fosse, mesmo com a prática conquistada durante tantos anos, ainda assim era impossível não sentir-se minimamente tenso sempre que era ele o centro das atenções daquela mesa.
Suspirou profundamente, e então ouviu a porta ser batida.
—Entre.
—Com licença senhor Benson, mas todos já chegaram para a reunião.
O anúncio da secretária soou como um bálsamo mágico para o empresário, que automaticamente escondeu tudo o que sentia, e aprumou a postura, se virando para encarar a moça na porta.
—Tudo bem, mande-os entrar, por favor.
Freddie se sentou na cadeira da cabeceira, e aos poucos as outras cadeiras também eram ocupadas, até que não sobrasse uma única vazia. Alguns poucos minutos foram destinados ao silêncio, -devido o limite de tolerância para possíveis atrasos-, e então, ele tomou um gole de água, se preparando para colocar em prática a finalidade daquela reunião.
—Bom, como todos sabem, convoquei essa reunião para anunciar algo importante. Desde já peço a compreensão de todos, e saibam que essa decisão foi tomada após muita reflexão e cautela. -fez uma pausa para tomar fôlego- Foi realmente muito difícil decidir algo tão grande assim, considerando que a Pear Store têm sido a minha maior dedicação profissional há muito tempo. Eu comecei aqui, fazendo estágio para a faculdade, e tive o privilégio de ser contratado após o estágio se encerrar e eu conquistar meu diploma de graduação. Até que com muito esforço e apoio cheguei a gerência, o que significa muito para mim, e eu serei eternamente grato por essa oportunidade. -fez uma segunda pausa afim de reparar nos olhares que lhe estavam sendo dirigidos; alguns de confusão, outros de impaciência pelo momento que acabara de começar, e o resto eram neutros. Por fim, tomou mais um gole de água, e prosseguiu. -No entanto algumas coisas mudaram, e á alguns meses recebi uma proposta de promoção diretamente da Pear Company. A promoção em questão se refere ao cargo de presidente da sede da Pear Company da Califórnia, que será desocupado daqui há dois meses. Eu decidi aceitar, e por isso terei que me desligar da gerência da Pear Store.
Murmúrios começaram a ser ouvidos, e após poucos segundos um dos sócios se manifestou:
—Meus parabéns pela promoção senhor Benson, o senhor merece isso e muito mais. Mas, quando a mudança vai acontecer?
Freddie achou graça, o sócio em questão era um rapaz, o mais jovem naquela mesa.
—Em dois meses. Nesse meio tempo estarei treinando a pessoa que vai me substituir.
O rapaz assentiu, compreendendo.
—E já sabe quem vai lhe substituir? -um dos sócios mais velhos se pronunciou.
—Ainda não, mas indiquei alguém de minha confiança.
A pessoa em questão era Elise Takai, uma das melhores vendedoras da loja. Elise havia começado na Pear Store assim como Freddie, estagiando, e após dois anos de sua graduação ela já havia se destacado muito mais do que vários que já estavam lá antes dela.
Fredward se via nela. De alguma forma, Elise o lembrava de si mesmo há alguns anos atrás, e talvez isso tenha sido apenas mais um dos atributos que ele considerou na hora de fazer a indicação, mas com certeza não era a mais importante.
—E quem seria essa pessoa, senhor?
Freddie abriu um sorriso de lado.
—Se a pessoa em questão for contratada, todos saberão, mas acredito que muitos já tenham uma ideia. Peço para que passem a informação para os funcionários, por favor. A reunião se encerra aqui.
E então se levantou, feliz por ter, mais uma vez, conseguido a vitória de se superar.
{...}
—Então... me conta tudo! -Melanie disse antes de levar seu copo de suco à boca.
A loira havia chegado a casa da irmã há meia hora, e agora as duas se encontravam na bancada da ilha da cozinha, conversando e comendo um brunch. O pequeno Albert estava muito feliz brincando com seu carrinho no tapete da sala após ter devorado os sanduíches de dinossauro que a tia Sam havia feito especialmente para ele.
—O que, exatamente?
Melanie assumiu uma expressão levemente irônica, como quem protestava contra quem se fazia de desentendido.
—Como estão as coisas com o Freddie?
Sam sorriu.
—Maravilhosamente bem! Passamos o verão juntos... reatamos quando eu viajei para Seattle, foi tudo tão incrível! Ele me faz tão bem!
Dessa vez fora a Puckett mais nova quem demonstrava um sorriso.
—Que bom ouvir isso, irmã. É tão bom te ver feliz assim!
—Ele vai se mudar pra cá... dá pra acreditar?
A jovem arregalou os olhos, definitivamente não estava esperando por essa surpresa.
—O QUEE? COMO ASSIM? QUANDO?
Ela gritou e começou a sacudir os ombros da irmã, que só conseguia se divertir com essa situação. Melanie se parecia tanto com uma adolescente nesses momentos.
—Calma sua exagerada, vai assustar seu filho. -riu. -Ele chega daqui a dois meses, vai ficar aqui comigo.
—Isso é maravilhoso, Sam!
—É sim, principalmente porque ele não vem apenas por mim, ele vem porque foi promovido, vai ser presidente da Pear Company da Califórnia!
—Meu Deus, que coisa incrível! Manda meus parabéns pra ele, ele merece muito isso!
—Mando sim.
Albert se levantou do chão, deixando o carrinho no tapete, e foi até sua tia, levantando os bracinhos para que esta o pegasse.
—Oi meu amor, quer colinho?
Ele apenas assentiu, e Sam abriu um enorme sorriso, o levantando e o colocando sentadinho em suas pernas.
—Fico surpresa por ele ter me reconhecido, a última vez que eu o vi ele tinha apenas um aninho...
—É, mas eu sempre mostro fotos suas para ele, além de sempre falar de você.
—Obrigada por não ter deixado ele me esquecer, Mel.
—Não precisa me agradecer, Sammy, você é a minha irmã, e a melhor tia que o meu filho poderia ter!
As irmãs seguraram aos mãos uma da outra sob a bancada enquanto sorriam; a conexão que as unia se fazendo presente como nunca.
E o dia seguiu tranquilo.
Sam e Melanie assistiram um filme juntas enquanto Albert dormia o cochilo da tarde. E quando o pequeno acordou, foram até o piér de Santa Mônica, um dos lugares favoritos da Puckett mais velha em Los Angeles inteira.
Samantha soube, em uma das conversas que tivera com a irmã durante o dia, que sua mãe estava internada em uma clínica de reabilitação. Era a terceira vez que ela se internava e quem estava pagando era a própria Melanie, que se sentia na obrigação de ajudar a mãe, mesmo de longe. E agora, havia decidido fazer visitas mensais.
Talvez fosse coisa de sua cabeça, mas Samantha sentiu que a irmã não estava totalmente a vontade com essa situação. Sua teoria era que Melanie fazia tudo isso apenas por obrigação, e que na verdade o que ela sentia era pressão. Isso porque a mãe apesar de sempre tê-la tratado melhor, sempre depositou todas as suas esperanças na mais nova, e a pressionava para estar sempre se superando. Passou por sua cabeça conversar com a irmã sobre isso, sentia que Melanie tinha muita coisa engasgada para desabafar, mas preferiu deixar a conversa para outro dia, não achava prudente algo assim ser dito em um dia tão alegre.
Quando a noite começava a cair, Melanie foi embora. A despedida fora triste, no entanto elas sabiam que se veriam muito em breve. De agora em diante, as irmãs Puckett nunca ficariam afastadas!
{...}
Freddie chegou cansado em casa, porém muito, muito feliz.
Todos os compromissos que tinha no trabalho foram cumpridos com sucesso naquele dia, principalmente a reunião. Haviam fechado uma venda grande do novo PearBook que nem ao menos havia sido lançado ainda. Simplesmente todas as lojas queriam vendê-lo, até a Target!
Ele só se perguntava de onde o CEO tiraria dinheiro para um lote tão grande...
Relaxou tomando um banho quente porque apesar do verão ainda estar na ativa, havia chovido o dia inteiro. Seattle sabia ser extremamente rebelde quando o assunto era clima.
Friends lhe fez companhia enquanto jantava uma lasanha de micro-ondas e quando terminou, correu para o quarto, aonde o computador já lhe esperava ligado na cama.
E em poucos segundos... lá estava ela!
Sam apareceu em sua tela toda linda, com o cabelo molhado e um pijama de alcinhas finas. Um largo sorriso estampava seu rosto e seus olhos estavam ainda mais brilhantes do que costumavam ser.
E Céus... como ele queria beijá-la!
No entanto se limitou a sorrir, enquanto contemplava aquela imagem artística.
—Oi meu amor. -ele disse.
"Oi baby!" -ela respondeu, seu sorriso se alargando ainda mais.
—Como você está, linda? Por esse sorriso maravilhoso suponho que muito bem, né?
"E como! Ai Freddie o meu dia foi tão incrível... passei o dia inteiro com a Mel e o Albert! Ele está tão crescido e tão lindinho... a Mel também, ela cortou o cabelo e deixou a franja crescer, está ainda mais linda do que é!"
—Que bom saber disso, amor. E como eles estão?
"Estão bem. A Mel está realmente muito empolgada com essa mudança pra cá, o marido dela chega na próxima semana, ela disse que ele ainda está organizando algumas coisas no antigo trabalho dele, essa burocracia toda."
—Sei bem como é. -deu uma risadinha.
"Quando você chegar a gente pode marcar um encontro de casais. Tenho certeza de que você vai amar rever a Mel e conhecer o meu cunhado! William também é um nerd, apesar de fazer parte de um tipo diferente..."
A voz de Freddie saltou aos risos, e Sam se viu contagiada pela maravilhosa risada também.
"Eu também quero que você conheça o meu sobrinho! Ele é ainda mais fofo pessoalmente, e é muito carinhoso, me pediu colo umas três vezes."
—Ele parece ser uma criança muito especial mesmo, cuteness, quero muito conhecer ele também.
"Outra coisa boa, é que podemos treinar para quando tivermos os nossos."
—É verdade.
"Bom, mas agora me fala... como foi a reunião? Você estava tão nervoso com ela."
—Foi um sucesso! Não sei como, mas quando a hora chegou, eu consegui me acalmar e tomar a frente.
Sam bateu palmas.
"Que bom saber disso, meu amor! Eu torci tanto pra dar certo! Meus parabéns. Ah, e a propósito, a Mel me mandou te dar os parabéns pela promoção."
—Muito obrigado, amor, agradece ela por mim também. Mas e quanto a você? Ansiosa pra voltar ao trabalho amanhã?
"Ansiosa é uma palavra muito forte, Benson... mas estou feliz sim, eu amo o que eu faço! A única coisa que me preocupa um pouco é que eu tenho uma audiência daqui há três dias, de um caso que eu já venho trabalhando há alguns meses..."
—É aquele sobre a mulher que está sendo impedida de ver os filhos pelo pai das crianças?
"Esse mesmo! Estou tão preocupada, Freddie, ela está depositando tanta fé em mim... e apesar de eu saber que é causa ganha porque no final das contas ele só está fazendo isso por ela ter arrumado outra pessoa, ainda assim me preocupa porque, bem... vara de família não é muito a minha especialidade."
—Fica calma, amor, vai dar tudo certo! É normal se sentir assim, mas quando você pisar naquela sala, toda essa preocupação vai sumir!
"Acha mesmo, amor?"
—Eu tenho certeza!
Ela sorriu.
"Você sempre sabe como me acalmar e me agradar... te amo muito!"
—Eu também te amo muito, mais do que é considerado normal!
Ela suspirou.
"Estou com tanta saudade..."
Passou os dedos delicadamente sob a tela e Freddie fez o mesmo, como se por um instante fosse a pele macia de Sam sob os seus dedos.
—Eu também, meu amor... não vejo a hora desses dois meses passarem!
"Nem me fala... tenho sonhado com isso todos os dias e noites!"
—Vai passar logo.
Ela assentiu, sorrindo.
"Bom, preciso ir dormir agora... infelizmente."
—Tudo bem, tenha bons sonhos meu amor.
"Obrigada, você também baby. Te amo!"
—Te amo mais!
{...}
Samantha encarou a fachada do escritório. Sentindo o coração pulsar, deu o primeiro passo, subindo a escada em apenas segundos, os saltos em seus pés fazendo barulho.
Ao entrar, foi cumprimentada por todos os colegas e funcionários que ali se encontravam. Sentiu-se feliz quando finalmente chegou a sua sala, e olhou em volta... tudo exatamente como tinha deixado. Sorrindo, se afundou na cadeira e fechou os olhos, se sentia pronta para o que viesse pela frente, e estar ali, naquele ambiente, só confirmava essa certeza.
Quando abriu os olhos, abriu a gaveta e tirou de lá o processo afim de estudá-lo mais a fundo, precisava se certificar de que sua defesa levaria a vitória á cliente. A causa era ganha, a parte acusatória não tinha nenhuma prova contra a parte acusada, mas mesmo assim... Sam não confiava muito em juízes, eles podem ser facilmente manipulaveis por suas opiniões pessoais. Precisava fazer com que o juiz do caso não se deixasse levar por nada que não fosse o bem estar das crianças e a inocência de sua cliente!
Uma batida na porta a desconcentrou, e ela revirou os olhos.
—Entra.
Uma moça de no máximo vinte anos abriu a porta enquanto segurava uma prancheta na mão, era Claire; a secretária geral do escritório.
—Com licença senhorita Puckett, soube que voltou hoje, bem vinda de volta. Precisa de alguma coisa?
"Sim, que você me deixe em paz." -pensou.
—Um café e cookies de chocolate. -respondeu, por fim, ainda lendo (ou tentando ler) o processo.
—Tudo bem. -anotou o pedido na prancheta- Como gostaria o café?
—Com leite, gelo e caramelo.
—Tudo bem, vou buscar.
Anotou as especialidades e saiu.
Assim que Claire fechou a porta, Sam permitiu-se suspirar alto. Não tinha nada contra a moça pessoalmente, mas devido sua falta de experiência muitas vezes acabava sendo inconveniente. Ela poderia ter perguntado isso assim que a viu chegando, mas preferiu bater em sua porta sabendo da audiência que teria em dois dias...
Apertou as têmporas, teria que adverti-la mais tarde.
Mas por ora, a mãe e as crianças representadas naquele processo em suas mãos tinham mais importância!
{...}
Freddie saiu de casa bem humorado naquela manhã. Parte disso se dava devido a curta agenda do dia; reunião às oito para conhecer a pessoa que o sucederia e combinar as regras do treinamento. E um almoço de negócios ao meio dia.
Quando finalmente chegou a empresa, cumprimentou os funcionários e foi em direção a sua sala. Ainda teria alguns minutos antes da reunião então aproveitou para sentar na cadeira enquanto observava em volta.
A lembrança do primeiro dia em que entrou naquele lugar e ocupou a cadeira que estava sentado agora, ainda era viva em sua memória. Parecia ter sido há tanto tempo e ao mesmo tempo era como se tivesse sido ontem. Ainda era um jovem de vinte e dois anos quando ocupou a gerência e agora... aos vinte e nove, estava prestes a sair para receber uma promoção.
Era louco pensar em como as coisas aconteceram, mas não mudaria nada, -nem um pouco-, dos acontecimentos.
Sentiu o celular vibrar no bolso de sua calça, e um inevitável sorriso subiu aos seus lábios.
"Bom dia, amor."
"Já estou aqui no fórum... me deseje sorte!"
Respondeu a mensagem dizendo que daria tudo certo e que ele estaria em pensamento com ela durante a audiência.
Sam estava nervosa, havia desabafado bastante com ele no dia anterior e ele sentia por não poder estar presente para dar a ela um abraço, como ele sempre fazia quando ela se encontrava nesse estado.
Após receber uma mensagem de agradecimento, ele sorriu e colocou o celular de volta ao bolso. Estava prestes a fechar os olhos por alguns instantes até que ouviu a porta ser batida.
—Entra.
Era a secretária.
—Com licença senhor Benson, a reunião já vai começar.
—Obrigado, Stacey.
A moça assentiu e saiu.
Freddie então se levantou e caminhou até a porta, a fechando ao sair.
Ele só esperava que as notícias fossem boas! Seu cargo era bom demais para ficar nas mãos de quem não o soubesse valorizar!
No entanto essa não foi uma preocupação duradoura, assim que entrou na sala o alívio subiu ao seu rosto quando viu Elise sentada em uma das cadeiras.
—Bom dia, senhor Benson. -Robert, o CEO, o cumprimentou e ergueu a mão.
—Bom dia, senhor Valens. -apertou a mão do mais velho.
—Queira se sentar, por favor.
Freddie escolheu uma cadeira em frente á Elise, enquanto Robert tomou seu lugar na cabeceira.
—Serão apenas nós? -ele perguntou.
—Sim, não há necessidade de ser uma reunião formal. Só queria que soubesse que levamos sua indicação em conta.
O moreno sorriu.
—E eu fico muito feliz por isso, Elise é a melhor estagiária que já tivemos em anos. A propósito, meus parabéns senhorita Takai.
—Obrigada, senhor Benson. Eu me senti extremamente lisonjeada quando soube que fui indicada pelo senhor, eu realmente não esperava. Muito obrigada mesmo!
—Não precisa me agradecer, o mérito é todo seu, eu apenas o reconheci.
Ela sorriu.
—Bom, vamos combinar o treinamento? Pode ser três dias por semana a partir de semana que vem?
—Pode sim. Mas como funcionaria? Eu tenho as minhas tarefas...
—Não se preocupe, senhorita, você cumprirá suas tarefas de seu atual cargo dois dias na semana, e nos outros três acompanhará o senhor Benson em suas ocupações; reuniões, leituras de relatórios, visitas técnicas e etc, e ele deverá te orientar em tudo o que ele for fazer. Está claro?
—Está sim, obrigada.
—E quanto ao senhor, senhor Benson, poderá ser assim? Tem algo que queira dizer?
—Não, eu concordo com a sugestão do senhor, pode ser assim.
—Ótimo! E esses dois dias deverão ser dias em que os dois estão menos ocupados, quais são?
—Bom, nas quintas e nas sextas geralmente não tem muito movimento na loja. -disse Freddie, e Elise assentiu, concordando.
—Certo, pode ser quinta e sexta então senhorita?
—Pode sim. -disse Elise.
—Então estamos combinados. Meus parabéns aos dois pela promoção!
—Obrigado.
—Obrigada.
{...}
—Meretíssimo, com tudo o que foi mostrado nos autos, concluo que a minha cliente é inocente de todas as acusações do réu, e precisa urgentemente voltar ao convívio dos filhos! Eu peço que a guarda dos três menores fique com ela, com o réu tendo direito a visitas agendadas, e uma indenização de dez mil dólares por danos morais!
Sam terminava sua defesa sob os olhares atentos naquela sala; alguns de admiração, outros de receio. Sua cliente havia parado de roer as unhas mas a preocupação e o nervosismo ainda eram nítidos em seu olhar.
Após alguns bons minutos de silêncio, o juiz enfim se pronunciou, quebrando o gelo e aumentando a tensão que reinava o ambiente.
—Muito bem... vamos fazer uma pausa de meia hora para melhor análise das propostas.
Todos se levantaram e deixaram a sala. Sam não saía de perto de sua cliente em nenhum momento, que evitava a todo o custo contato visual com o ex-marido.
—Vai ficar tudo bem, eu garanto! -a advogada disse, ao entregá-la um copo com água.
—Eu espero mesmo, doutora... você foi brilhante lá dentro, confio em você!
Ela sorriu.
Quando o intervalo enfim acabou e todos voltaram para a sala, o juiz passou o que pareceu dez minutos lendo o processo inteiro junto com as defesas e as propostas de ambos os advogados.
Todos os olhares se voltaram para ele quando finalmente voltou os papéis para a mesa e tomou um gole d'água.
—Quero que saibam que a decisão já está tomada, e deixo claro que foi levado em consideração principalmente o bem estar dos menores, bem como manda as legislações de protecão á criança. Decreto que a partir de hoje a guarda unilateral dos menores Emma, Jacob e Taylor Stewart será designada a mãe, senhora Helen Brown. O pai, senhor Adam Stewart terá direitos a visitas marcadas com a mãe e a assistente social responsável, além de pagar uma indenização de dez mil dólares para a senhora Brown por danos morais. O prazo para recurso é de trinta dias. Declaro essa audiência encerrada!
A primeira reação que Sam teve quando o martelo foi batido, foi respirar profundamente de alívio, olhar para o lado, onde sua cliente se encontrava com lágrimas nos olhos ao seu lado, e sorrir.
—Muito obrigada, senhorita Puckett. -ela disse, quando deixaram a sala. -Eu não sei o que eu teria feito se não fosse sua ajuda!
—Não precisa me agradecer por fazer o meu trabalho. Mande um abraço para as crianças por mim.
Helen assentiu e puxou a advogada para um abraço, gesto que fez Sam sorrir de canto.
{...}
Ao final do expediente, Freddie se despediu dos funcionários e entrou no carro. Havia sido um longo dia, tudo o que ele mais queria era chegar em casa e descansar, antes de conversar com Sam no FaceTime.
Quando enfim chegou ao Bushwell, estacionou o carro em sua vaga e seu caminho até a portaria estava tranquilo.
Tranquilidade essa que se desvaneceria em questão de segundos.
Ao terminar de subir a rampa que ligava o estacionamento á portaria, se deparou com Carly, que por sua vez fazia o caminho contrário a ele. Os jovens se encararam por alguns segundos; Freddie mantendo o semblante sério e Carly visivelmente assustada.
—Quer sair da minha frente, Carly? Preciso passar!
A maneira ríspida como o moreno falou atingiu a jovem em cheio, e em seus olhos eram perceptíveis algumas lágrimas. Ela se afastou um pouco, mas quando o rapaz estava prestes a retomar seu caminho, ela recuou.
—Freddie... -mesmo sua voz saindo baixa como um sussurro, ele parou e voltou a olhar para ela- por favor, vamos conversar... sei que está magoado mas francamente, você já sabia do que eu e o Gibby fizemos, eu te contei!
—Pois é, mas você esqueceu alguns detalhes importantes... eu passei esse tempo inteiro acreditando que vocês tinham sido manipulados pela minha mãe, quando na verdade vocês entraram no plano porque quiseram!
A morena abaixou a cabeça, suas palavras morrendo na garganta.
Ele fechou os olhos por milissegundos e passou a mão direita no rosto, definitivamente não estava precisando de um contratempo desses.
—Olha eu, realmente não quero discutir, só me deixa em paz, ok?
Ela assentiu, devagar, e observou aquele que ela ainda considerava seu melhor amigo de infância, se afastar cada vez mais.
{...}
Sam estava radiante de felicidade!
Mesmo sabendo que a causa já era ganha desde o início, foi inevitável não sentir-se eufórica como todas as vezes em que ganhava um caso.
Comprou um milk-shake de morango para comemorar e em seguida foi pra casa, estava ansiosa para contar tudo à Freddie.
Enquanto estava perdida em seus pensamentos, ainda dentro do elevador e bebericando o resto do milk-shake, sentiu o celular vibrar dentro da bolsa transversal que usava.
Pegou o dispositivo e sorriu ao ver a mensagem;
"Como assim vc já voltou pra L.A e não me disse nada????"
"Vamos já marcar de nos ver, tenho muitas fofocas pra te contar!"
Era Cat.
Sam estava com muitas saudades da ruivinha, mas com toda a correria dos últimos dias havia se esquecido completamente que elas tinham planos para quando ela retornasse.
"Foi mal, Cat"
"A minha vida tá uma loucura, ainda hoje tive uma audiência, acabei esquecendo de você... :/"
"Mas olha, que tal sábado? Você vem pra cá e a gente passa o dia maratonando série"
"O que acha?"
O elevador abriu e ela saiu, destrancando a porta de seu apartamento e entrando no mesmo. Tirou os sapatos, jogou a bolsa no sofá junto com o copo -já vazio- e sentou na poltrona.
"Pode ser! Chego na sua casa ás oito!"
A loira fez uma careta, "por que tão cedo?", pensou.
"Ok, te espero"
Se levantou e foi para o quarto, precisava urgentemente de um banho.
Lavou os cabelos com calma, deixando a água morna acalmar seus músculos tensos e então desligou o chuveiro, se enrolando na toalha. Escolheu vestir um conjunto confortável de blusa e short e preparou uma macarronada para jantar.
Após terminar de comer, foi para o quarto e ligou o computador. E quando viu o rosto que mais amava naquela tela... não resistiu em sorrir largamente.
—Oi meu amor. -disse ela.
"Hey, cuteness." -dessa vez foi ele quem sorriu- "Como foi seu dia?"
—Foi bom... deu tudo certo na audiência! A Helen conseguiu a guarda dos filhos e eu consegui mais uma vitória para o meu currículo!
Freddie bateu palmas e sorriu.
"Parabéns meu amor. Eu sabia que você ia conseguir!"
—Obrigada baby. Mas foi bem tenso, sabe? O ex dela tem uma cara ruim... não senti uma boa energia vindo dele, sei lá...
"Entendo. Fala pra Cat te dar um dos insensos dela."
—Haha, engraçadinho... e o seu dia, como foi?
"Foi bem também, adivinha quem vai me substituir?"
—Sei lá... aquela estagiária que você indicou?
"Ela mesma! Elise ficou muito feliz, hoje tivemos reunião para combinar o treinamento."
—Ah que bom amor, fico muito feliz! Pelo o que você falou ela é muito dedicada.
"É sim, e me lembra um pouco de mim há alguns anos atrás."
—Hum, então ela também é nerd...
Freddie riu.
"Sim, muito nerd!"
Eles se olharam por alguns segundos; um admirando o outro.
—Tô com saudades... -ela suspirou, enquanto tirava a franja do olho.
"Eu também estou amor..."
—Parece que só porque você vem pra cá o tempo tá demorando a passar... que saco!
"É porque estamos nós dois ansiosos, baby. A ansiedade atrapalha, e muito."
—Eu sei, mas como eu não vou ficar ansiosa se você me aparece na tela gostoso desse jeito? Podia ter colocado uma outra blusa, regata destaca muito os seus músculos que eu infelizmente não posso tocar daqui... isso foi crueldade, ouviu nerd?
E então ela bufou e a reação que Freddie teve foi rir porque, era a única opção que ele tinha. Sam era tão espontânea, mas havia momentos onde essa espontaneidade atingia um ponto que ainda o surpreendia. Apesar de não ser surpresa nenhuma ela o elogiar, ele ainda se sentia assim sempre quando ela usava palavras como "gostoso" ou outra de cunho libidinoso.
"Desculpa amor, prometo que na próxima chamada eu vou usar outra... mas olha, não é só você que passa por essas frustrações. Eu tô quase salivando aqui com esse decote, precisava ser tão aberto, Samantha?"
Dessa vez foi a loira quem riu. Era sempre engraçado quando Freddie tentava falar de uma forma safada porque, no final das contas, a fala acabava saindo muito fofa de sua boca. Ele era tão adorável e certinho, que eram poucas as vezes em que ele conseguia cumprir o objetivo de ser safado.
E Sam tinha de admitir, aquilo a encantava e excitava mais do que tudo!
—É claro que precisava, tá calor aqui... mas se te incomoda eu posso tirar...
Ela levou um dos dedos até a barra da blusa e Freddie engoliu em seco, de repente um nervosismo descomunal tomou conta de si.
Ele definitivamente não estava preparado para um strip-tease virtual.
"Não precisa, amor."
Ela largou a barra da blusa e sua voz desatou em risadas.
—Awn, ficou nervoso, amor?
"Não é isso, é que eu acho que presencialmente é mais especial, sabe?"
—Sei sim, gatinho... é, muitas coisas são melhores presencialmente mesmo.
Eles se calaram por alguns segundos, conversaram mais um pouco, e quando o relógio bateu dez e meia, precisaram desligar. Freddie trabalhava meio período no sábado e Sam tinha compromisso com Cat.
Se despediram e a chamada foi encerrada, com os dois corações felizes e ao mesmo tempo, ainda mais ansiosos.
Mal podiam esperar para aquele tempo passar logo!
{...}
Freddie estava pensativo.
Parado no meio da sala de seu apartamento, ele se lembrava de todos os momentos que passara ali, ao mesmo tempo em que se perguntava o que faria com o imóvel quando se mudasse para Los Angeles.
Aquele lugar vinha sendo seu lar desde sempre, mesmo quando estava na faculdade, ele sabia que seu lar era aquele apartamento no Bushwell, em Seattle. E não era para menos, havia crescido ali! Seus pais o compraram juntos antes de se casarem, foi lá que ele construiu boa parte de suas recordações.
Havia adiado esse momento durante todo o tempo em que passou organizando a mudança, mas agora, faltava apenas um mês para se mudar, precisava resolver essa questão de forma urgente.
Balançou a cabeça, expulsando os pensamentos que habitavam sua mente no momento, e se sentou no sofá, deixando que a cabeça se apoiasse no encosto... deveria ser uma decisão fácil, não é? E prática também. Se iria se mudar para outro estado, então não fazia sentido manter um apartamento em Seattle.
Mas por outro lado... iria voltar à Seattle algumas vezes para visitar, e em como todas as cidades turisticas, a maioria dos hotéis eram caros. Fora que, se tratando da cidade que passou todos os anos da sua vida até o momento, não parecia nada prático pagar por uma hospedagem ou ficar em casa de amigos, quando podia ter sua própria base na cidade.
Levantou a cabeça do encosto, parecia ter finalmente chegado a uma conclusão, afinal.
Não iria vender nem alugar o apartamento.
{...}
Sam olhava orgulhosa para a mesa de cabeceira que havia acabado de montar.
Naquela semana havia começado a mudar algumas coisas em seu apartamento, para que ele pudesse estar adaptado a chegada de Freddie. A próxima providência seria liberar um espaço no closet, que por sorte era enorme, e tirar uma cópia da chave.
A loira deitou na cama, enquanto pensava no namorado, estava ansiosa por sua chegada e a cada vez que os dias se encurtavam, a ansiedade apenas crescia, ainda mais.
Era tão estranho e louco quando lembrava de como as coisas aconteceram entre eles... foi tudo tão intenso e ao mesmo tempo tudo tão calmo. Era como se estivessem destinados a ficarem juntos, não importa quanto tempo tivesse se passado, ou em quais circunstâncias a reconciliação aconteceu.
A única certeza que tinham, é que era para estarem juntos, independentemente de tudo!
{...}
Freddie sorriu ao pegar o celular.
Sam havia mandado uma foto, sorrindo, toda linda, dizendo que estava pensando nele. Ele respondeu dizendo que também estava pensando nela, e bloqueou o celular novamente.
Voltou a atenção ao caixa, a funcionária que o atendia estava terminando de embalar os lençóis que comprara, para cobrir os móveis do apartamento quando se mudasse, assim evitaria de juntar poeira. Daria trabalho, mas valeria a pena.
—Com licença, sabe se a Tasha está aí?
Uma voz muito familiar chamou a atenção de Freddie, que mesmo relutante virou o olhar para o lado, encontrando Gibby. Ele havia feito a pergunta para a moça que estava lhe atendendo, mas olhou de relance para ele e se assustou, arregalando os olhos.
—Oi Freddie.
—Está sim, daqui a pouco ela encerra o turno dela. -a moça respondeu e em seguida se dirigiu novamente a Freddie, lhe entregando as sacolas- Aqui está, senhor, como vai ser a forma de pagamento?
—Débito.
O moreno pagou e saiu da loja, ainda se perguntando como havia encontrado Gibby. Seattle era um ovo mesmo!
—Freddie, espera!
Ele ouviu o pedido de Gibby, mas continuou andando até que o Gibson ficasse para trás, não estava mesmo a fim de se estressar hoje, principalmente porque tinha coisas bem mais importantes para fazer e queria gastar suas energias de forma positiva.
E ao finalmente chegar em casa, guardou os lençóis em uma gaveta da rack da sala, e foi em direção ao seu quarto. Decidiu tomar um banho rápido enquanto o notebook ligava; havia chovido um pouco e ele estava sem guarda chuva. Uma das coisas positivas que havia aprendido com a mãe na infância, era que após tomar chuva, nem se for só um pouco, corria sérios riscos de pegar um resfriado e para isso não acontecer, o mais indicado é tomar um banho quente.
Quando terminou o banho, se vestiu e passou um café, voltando para o quarto em seguida, o notebook já havia sido ligado e ostentava um papel de parede que era simplesmente uma foto sua e de Sam se beijando no Seward Park.
E em poucos segundos... lá estava ela, e ele sorriu.
"Oi meu amorrr."
Ela cantarolou o cumprimento e Freddie não pôde deixar de reparar o quanto ela estava linda com o cabelo preso em um rabo de cavalo e alguns fios soltos.
—Oi princesa, como você está?
"Eu estou bem. Sabe o que eu fiz hoje? Montei uma mesa de cabeceira!"
—Sério? Que legal!
"Sim! E adivinha pra quem eu comprei?"
—Hum, não faço ideia...
Ela riu.
"Seu bobo! É pra você! Pra quem mais seria? E eu separei um espaço no closet também, pra você guardar suas roupas e sapatos."
Ele sorriu.
—Obrigado amor, mal posso esperar pra ver pessoalmente!
"E você, decidiu se vai manter o apartamento aí?"
—Vou sim, vai ser bom ter a minha própria base em Seattle, ao invés de pagar ou depender dos amigos. Hoje já comprei os lençóis dos móveis...
"Que legal! É melhor mesmo você manter o apartamento, não só pelos motivos que você mencionou mas porque ele tem história... lembra daquela vez que a sua mãe quase pegou a gente dormindo junto? Por sorte estávamos vestidos!"
Ela começou a rir, e foi inevitável para Freddie não rir também. Sam tinha esse poder sobre ele; o contagiava de todas as maneiras possíveis!
—Lembro, lembro sim... eu coloquei o edredom em cima de você e disse pra ela que eu estava com dor de cabeça.
"É verdade. -a risada aumentou- Não sei como ela acreditou..."
Aos poucos as risadas foram cessando e um breve silencio tomou conta da chamada.
"Eu estou te achando um pouco preocupado, bebê... aconteceu alguma coisa?"
Freddie respirou fundo ao ouvir a pergunta da namorada. Valeria a pena contar a ela que viu Gibby essa tarde e dias atrás encontrou Carly no estacionamento?
—Não é nada demais amor, é que... alguns dias atrás quando eu estava saindo do estacionamento eu acabei encontrando a Carly. Ela tentou conversar comigo, disse que não entendia porque eu estou agindo assim com ela sendo que eu já sabia de tudo... aí eu respondi que ela deixou de me contar que ela e o Gibby tiveram sim motivações pra fazer o que fizeram... por fim eu pedi pra ela me deixar em paz e fui embora. -fez uma pausa para suspirar- E como se não bastasse, hoje quando eu estava prestes a sair da loja, encontrei o Gibby, ele foi pedir uma informação pra moça que estava me atendendo e me cumprimentou. Mas eu não respondi e fui embora, depois ele tentou de novo falar comigo mas eu ignorei e segui meu caminho.
Silêncio.
Mais uma vez ele se fez presente.
Freddie observava as expressões de Sam se alterarem a cada segundo; definitivamente ela não estava esperando ouvir isso.
"Eu entendo, amor... é realmente tenso essas situações."
—Sim... e não sei... as vezes eu me pergunto se eu estou sendo muito radical com eles...
"É normal se sentir assim... mas olha, não faça nada que você não se sinta bem fazendo. Meu conselho é: pense bem, não se pressione só porque acha que é o certo a se fazer, se você quiser perdoar eles, tem que ser cem por cento pelo sentimento, pelo coração, e não pelo cérebro. E se lembre que eu vou apoiar você em qualquer decisão que você tomar!
Freddie sorriu, o que seria de si sem a presença dessa mulher maravilhosa em sua vida?
—Obrigado, amor.
{...}
Ao lado do produtor, Samantha sorria ao observar a amiga dentro do estúdio, gravando a nova música de seu novo álbum.
Cat a havia convidado para assistir a gravação e depois irem tomar um suco na cantina da gravadora. Como o dia estava tranquilo e o convite correspondia a parte da tarde, a loira aceitou, e a ruiva enviou um áudio gritando de felicidade.
Quando a música enfim estava gravada e Cat foi liberada, Sam bateu palmas após a amiga abrir a porta.
—Uhuuuul! -comemorou, arrancando uma risada da ruiva.
—Você gostou mesmo, Sam?
—Eu amei! Sério, Cat, tenho certeza que essa vai ser uma das mais famosas, -se não a mais famosa-, do seu novo álbum! Parabéns, amiga.
A abraçou rapidamente.
—Tomara! Eu estou um pouco insegura com esse álbum, é muito diferente de tudo que eu já fiz tem uma pegada mais adulta, mais madura... e eu nunca fiz nada disso!
—Eu sei, mas você estava mesmo precisando sair dessa zona de conforto. E se seus fãs e a crítica não gostarem, problema deles. Você, eu, o seu produtor e o seu agente, sabemos que seu trabalho foi impecável!
—Ah, Sam...
Dessa vez fora Cat quem a abraçou, se sentindo profundamente agradecida por ter Sam como sua melhor amiga.
E minutos depois elas riam como duas adolescentes na lanchonete, atraindo alguns olhares, -apesar de esse detalhe ter passado despercebido pelas duas amigas-, tão absortas na conversa.
—Lembra daquela vez que a gente cuidou de um menino que não podia fazer praticamente nada? -Cat perguntou entre risos.
—Sim! Ele só comia macarrão frio e úmido e caiu na privada... -a risada aumentou- na verdade é um pouco triste se a gente for pensar bem, mas é uma situação tão incomum que chega a ser cômica em primeiro lugar!
—Sim! E também teve aquela menina que nos enganou pra conseguir a boneca.
—Nossa, nem me fale dessa! Ela quase nos faliu! Imagina gastar quase quinhentas pratas em uma mísera boneca?
—Pois é... -tomou um gole do suco de morango, finalmente conseguindo se recuperar das risadas- Sinto falta dessa época... apesar dos problemas que algumas crianças nos metiam, era bom.
—É, eu também sinto. -deu uma mordida no sanduíche.
—E como vão as coisas lá no AP?
—Já está tudo organizado, agora só falta ele chegar.
Sam disse em um tom sonhador. Cat sorriu.
—Você não vê a hora, né?
Ela assentiu, confirmando.
—Estou contando os dias igual uma louca desde que voltei! E agora falta apenas um mês... -deu um gole no suco de laranja.
—Quando ele chegar, a gente pode fazer um encontro de casais! O que acha? Robbie, eu, você e o Freddie.
—É uma ótima ideia, tenho certeza que o Freddie vai adorar! E falando nisso, como estão as coisas com o Robbie?
Um sorriso enorme surgiu nos lábios rosados de Cat, que por sua vez tinha os olhos brilhando pela simples menção ao nome do namorado.
—Eu acho que ele está planejando me pedir em casamento...
Sam quase se engasgou com o suco.
—Como assim?
—Eu não sei! Só sei que ele está um pouco estranho. Eu vi uma sacolinha da Tiffany&Co no fundo do guarda roupa e quando eu o questionei, ele se enrolou todo pra falar e deu a desculpa mais esfarrapada que eu já ouvi!
—Qual foi?
Sam perguntou já sentindo uma vontade incontrolável de rir, Robbie não era nem um pouco bom em mentir.
—Ele disse que não sabia, que estava tão surpreso quanto eu!
As duas explodiram em gargalhadas. Havia duas coisas em que Robbie Shapiro precisava melhorar; a primeira era em dar desculpas, e a segunda era em esconder melhor suas surpresas!
Horas mais tarde Samantha estava em casa. A tarde com Cat havia sido incrível! E ela sentia que era o que estava precisando. Apesar de amar seu trabalho, as vezes a rotina dele lhe desgastava, e momentos assim, onde podia dar uma escapada, eram raros, por isso precisavam ser valorizados.
Agora ela se ocupava em terminar de pentear os fios dourados enquanto esperava Freddie aparecer na chamada, ele havia avisado que iria demorar um pouco por causa de um atraso no trânsito; estava chovendo muito em Seattle e era normal o trânsito engarrafar nessas ocasiões.
E tamanha foi sua surpresa e felicidade quando o rosto que mais amava apareceu em sua tela.
"Oi meu amor!"
Sam sorriu ao ouvir a voz de Freddie e automaticamente largou a escova em qualquer canto de sua cama.
—Oi bebê. Como você está? Como foi seu dia? Parece que sobreviveu ao engarrafamento.
Ele riu.
"Pois é, baby, dessa vez eu levei guarda-chuva e o estacionamento do Bushwell é coberto. Tomei um banho quente por via das dúvidas, até porque o dia foi cansativo... três reuniões e treinamento no mesmo dia é dose! -revirou os olhos- Mas pelo menos deu tudo certo no final... tô aqui, conversando com você!"
Ela sorriu.
—Sinto muito gatinho, a vida de adulto não é fácil.
"Não mesmo. Mas quero saber de você, como foi seu dia, Sammy?"
—Foi bom, hoje eu dei sorte de conseguir uma brecha pra escapar da rotina e passei a tarde com a Cat. Ela me convidou pra assistir a gravação de uma das novas músicas do novo álbum dela, e depois fomos lanchar na lanchonete da gravadora.
"Que bom amor. E como a Cat está?"
—Está bem, ainda mais rosa e doidinha. -deu uma risadinha- Inclusive, ela sugeriu um encontro de casais entre você, eu, ela e o Robbie, quando você chegar.
Foi inevitável pra ela não rir da expressão de tédio que se manifestou no rosto do namorado.
"O Robbie? É sério, amor?"
—Ué baby, ele é o namorado dela!
"Eu sei, e eu não tenho nada contra ele pessoalmente, é só que dá última vez que a gente se viu ele me torturou por dias com uma música estranha! Eu sei lá... peguei trauma."
—Amor mas isso já foi há muito tempo, éramos adolescentes! Agora ele está mais maduro, está até mesmo ensaiando pra pedir a Cat em casamento, ela me contou hoje das suspeitas dela.
"Que bom. Só espero que ele tenha melhorado na chatice também."
—Pode confiar! Garanto que você vai mudar de opinião assim que reencontrar ele, e tenho certeza que vão se tornar amigos!
"Seria bom mesmo, cuteness. -ele sorriu e passou o dedo indicador sob a tela- Você está linda hoje! Fez escova?"
—Não, só não lavei o cabelo e estava penteando ele antes da chamada, daí os cachos se soltaram.
"Entendi."
—Você também está tão lindo, bebê... já te disse que você fica fofo com essa carinha de cansado?
Freddie riu novamente, ele se perguntava se algum dia se acostumaria com a imprevisibilidade de Sam.
"É sério?"
—Sim! Fica parecendo um garotinho, tão meigo! Os olhinhos pequenininhos querendo se fechar, a expressão caidinha, o cabelo desarrumado... -deu uma risadinha- Dá até pra ter uma ideia de como será nosso futuro bebê, se for um menino.
"Oh meu amor, eu te amo! E amo quando você fala assim, tão meiga. Sabe que as vezes quando eu te vejo eu imagino como seria uma menininha nossa? Tenho certeza que seria parecida com você!"
O sorriso da loira se alargou ainda mais, e dessa vez fora ela quem passara os dedos sob a tela.
—Imagina só; um mini Freddie e uma mini Sam... -deu uma risadinha. Adoro quando falamos da nossa futura família!
"Eu também, amor... ah, não vejo a hora de te pegar nos meus braços e te rodopiar no ar!"
—Também estou com saudades de sentir seus braços em volta de mim! Você me acostumou mal, nerd...
"Foi mal Sammy... mentira, não foi não."
—Bobo!
Risadas ecoaram de ambos os lábios, e a conversa seguiu descontraída. Era maravilhoso como os assuntos entre eles nunca terminavam e nunca se tornavam cansativas.
Era sobretudo algo... leve.
Exatamente como o amor deve ser!
{...}
Os ventos aumentaram naquele outono que crescia ainda mais pelo emisfério norte. As folhas caíam das árvores como gotas secas de chuva, e a cor amareladamente amarronzada desenhava os acontecimentos daqueles dois meses em que se passaram. Ao mesmo tempo em que escrevia nas linhas da vida a sequência do que se passou.
Freddie chegou em Los Angeles por volta das seis horas da tarde de uma sexta-feira. O rapaz levara consigo quatro malas; o resto poderia pegar quando voltasse á Seattle, não precisaria de mais do que carregava por pelo menos bons seis meses. Se juntasse todos os itens dentro daquelas malas poderia abrir uma loja de roupas, sapatos, equipamentos eletrônicos, ternos e sapatos sociais, cintos, e produtos de cabelo, -que ajudavam seu clássico topete a se manter em ordem-.
Pegou um táxi e entregou ao motorista um papel com o endereço de Sam escrito.
A jovem havia tido alguns imprevistos no trabalho, e por isso não pôde buscá-lo no aeroporto, como estavam planejando. O combinado entre eles então seria que ele iria sozinho ao apartamento dela e pegaria a chave que Sam havia deixado embaixo do tapete, especialmente para ele. Quando ela chegasse, ele já estaria lá. E os dois mal podiam esperar por esse momento!
Quando enfim chegou ao prédio onde Sam morava, se identificou na portaria e quando já estava tudo acertado, pegou o elevador, do qual parou no quarto andar.
O rapaz se sentia cansado, mas se abaixou e pegou a chave, abrindo a porta em seguida. Ao entrar, deixou as malas perto de uma mesinha ao lado da porta, e ao finalmente levantar o olhar, para acender a luz, reparou no lugar.
A sala estava inteira escura, no entanto haviam muitas velas acesas em diferentes partes; na mesa, no que parecia ser a rack da televisão, na ilha da cozinha... e ele tinha a impressão de que elas se faziam presentes na cozinha também.
Ele franziu o cenho, um pouco desconfiado.
—Mas o que... —se ouviu sussurar, o volume em sua voz tão baixo.
Pensou em chamar por Sam, mas quando estava prestes a abrir a boca novamente, nada saiu; se viu hipnotizado por uma silhueta feminina que surgiu há alguns metros de distância e que dera alguns poucos passos para que pudesse ser vista melhor.
Sam parecia uma figura quase celestial sendo iluminada apenas pela luz da lua e das velas. Trajava um vestido roxo, cujo cumprimento se elevava até os joelhos. Os cachos dourados caiam pelos ombros e mesmo de longe, Freddie pôde perceber que haviam crescido, e estavam ainda mais brilhantes e encantadores.
A moça respirou fundo, enquanto sentia os olhos lacrimejarem devido a emoção. E então, após todos aqueles minutos em silêncio, apenas encarando-se a distância e a meia luz, Samantha sorriu.
—Bem vindo ao primeiro dia da nossa vida juntos, meu amor!
Ela disse, o sorriso crescendo ainda mais. As lágrimas, por sua vez, começaram a escorrer por suas bochechas.
Quanto a Freddie... esse se encontrava em completo êxtase! Mal podia acreditar no que seus olhos estavam vendo e seus ouvidos escutado. O rapaz sorria tanto, manifestando fisicamente a alegria que não cabia dentro de si. E as lágrimas... essas escorriam com uma facilidade admirável.
E a unica coisa que ele conseguia pensar no momento, era em como seu amor por Sam havia crescido em um ponto, que já podia ser chamado de infinito!
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