Reencontro

4 Regresso da Alma - Christian


Ela era incrivelmente bonita. Uma beleza simples, mas peculiar. Seus cabelos castanhos estavam amarrados, nas pontas eram levemente ondulados, sua pele bronze parecia reluzir. Suas feições eram menos delicadas que de Adelina, ela tinha um rosto bem moldado, que contrastava brilhantemente com seu pequeno nariz, lábios e olhos castanhos claro.

Em meio a beleza exorbitante dela me perdi nas palavras.Depois das besteiras que eu havia falado, ela foi embora sem olhar para trás. Percebi que parecia um pouco afetada, eu podia ouvir sua respiração entre-cortada. Suas bochechas coraram quando seu amigo invasivo a constrangeu, mas as bochechas dela estavam coradas muito antes dele chegar.

Eu deveria estar realmente enferrujado não tinha ideia do que lhe falar, e agi como um estúpido.

Também ainda não tinha certeza porque a sensação de se estar perto dela era tão forte, não entendia como me sentia, a sensação era familiar, mas nunca havia sentido. Alguma coisa me dizia que ela era uma das encarnações de Adelina, só poderia ser.

Mas não era possível, a maldição.

Supostamente a alma de Adelina nunca iria conseguir encontrar a minha.

Eu me sentia confuso e precisava de orientação. Por isso tornei-me a visitar dona Rita. Peguei um táxi de volta a sua casa, já estava anoitecendo, não queria incomodá-la, mas a dúvida me era mais importante.

Cheguei em sua casa e fui recebido com outro sorriso, ela era uma pessoa muito boa. Ela fazia o chá, sua casa era pequena, sua cozinha estreita muito próximo a sala, no sofá de onde estava sentado conseguíamos nos comunicar. Não sabia como começar essa conversa, tudo parecia muito louco para ser cogitado. Até que ela falou primeiro:

— Como foi o passeio? — perguntou, parecendo logo depois arrependido de ter o feito.

— Preciso lhe perguntar uma co — parei por um momento desconfiado. — Como sabe que eu fui mesmo ao corcovado?

Ela retornou a sala colocando a bandeja de chá, servindo as xícaras e pegando o seu.

— Palpite. — respondeu.

Eu ainda estava desconfiado.

— Isso não foi um palpite, você sabia que eu estaria lá não sabia?

— E como poderia saber? — perguntou ela bebericando o chá.

— Alguma coisa aconteceu lá e eu estou confuso. Lembro-me que falou que se eu visitasse o corcovado não iria me arrepender, dona Rita, do que você sabe?

Ela colocou o chá na mesa de centro.

— De nada meu querido.

Era mentira, eu via claramente que estava mentido, teria que apelar para outro método.

Fui em sua direção e coloquei minha mão em seu rosto.

— Rita, me diga o que sabe. — perguntei, essa era uma das vantagens de ser semelhante a Katrina, o poder de persuasão com apenas um toque.

— Ela é alguém especial — falou.

— Ela é Adelina? — perguntei.

— A profecia, minha avó me instruiu, falou que no momento que sentisse sua alma conseguiria encontrá-la, a premeditada, ela te ajudaria a salvar o clã, ela te guiaria na luta para derrotar Katrina.

Eu não entendi nada, Maria nunca falou isso para mim. Eu iria perguntar mais coisas mas ela rapidamente se afastou de minha mão.

— Não poderia ter feito isso! — disse ela, tentando ao seu máximo parecer irritada. — Não pode persuadir bruxas, isso é extremamente proibido.

— Porque não me falou sobre isso? — perguntei.

— Porque minha avó quis assim, você não deveria ter feito isso Christian, não deveria mesmo! — disse ela irritada.

Eu me senti mal por ter tirado ela do sério, ela era um poço de calmaria. Mas não entendia porque Maria nunca tinha me avisado.

— Porque Maria não me avisou? — perguntei.

Ela respirou fundo, parecendo recuperar a razão.

— Christian meu querido, existe uma razão para todas as coisas, e o mais importante, um tempo certo também. Para a profecia ser realizada é necessário a septuagésima primeira bruxa que sou eu, meus descendentes esperaram séculos! Katrina fez com que nosso clã e nosso tipo fosse dizimado, você mais do que ninguém sabe o que ela fez, ela foi uma das principais causas da Igreja Católica ter iniciado á caças as bruxas na Idade Média, e quando os séculos se passaram e a caça a bruxas foi extinta ela lançou feitiços poderosos para que bruxas nascessem sem magia, tentando impedir meu nascimento. Mas a ordem natural não foi interferida, Christian, a ordem natural das coisas nunca pode ser interferida. — falou ela.

— Me desculpe Rita, mas eu precisava saber.

— Não precisava não, sem saber você subiu no corcovado e o que aconteceu acabou simplesmente acontecendo, as coisas podem tomar um rumo diferente a partir de agora.

Por um segundo me houve um lampejo de memória. Eu havia lido alguma coisa na profecia, Maria me disse que não deveria lê-lo, alguma coisa dizia que haveria um reencontro. Um reencontro! Só poderia ser isso.

— Mas e a maldição? — perguntei confuso. — Como?

— Bom agora seus poderes de persuasão não terão mais efeito em mim, eu confiei em você e você agora perdeu um ponto comigo.

— Você não esta respondendo minhas perguntas. — rebati.

— E não vou mais, você já sabe de coisa até demais, não era para isso ter ocorrido. Agora você precisa ir agora, por favor.

Eu me sentia mal por ter invadido Rita, mas me sentia empolgado demais para me preocupar com isso. Sim, eu havia encontrado ela, eu poderia me desculpar por ter falhado com ela. Eu nunca entendi porque Maria nunca quis que eu visse a profecia, ela me dizia a mesma coisa que Rita. ''A ordem natural das coisas não devem ser interferidas''.

De alguma forma ela acreditava que a profecia foi escrita por um bruxa vidente, o que era raro, pois bruxas não possuíam poder de prever o futuro, ela acreditava em alguma espécie de efeito borboleta, se eu soubesse qualquer coisa todos os outros eventos poderiam mudar.

Não entendi o que Rita quis dizer em relação a ela me ajudar a derrotar Katrina, mas se aquela garota fosse mesmo Adelina, não a queria envolvida em tudo isso. Não queria corrompe-la com uma historia tão terrível. Ela não merecia isso

Pingos de chuvas começaram a cair do céu escuro, refrescando o ar abafado e úmido da cidade.Andei desnorteado pelas ruas com um sorriso que insistia em minha face, eu sentia as batidas do meu coração pulsando vigorosamente.

Pela primeira vez em cinco décadas, eu me senti vivo novamente.