Reencontro
5 Tempestade - Helena
Eu estava completamente ferrada, decidi voltar os últimos quilômetros para casa a pé, porque o trânsito estava realmente infernal, quase nenhum carro conseguia se mover mais que três metros por minuto.
Desci do ônibus com uma blusa de malha, que rapidamente se encharcou, andava com os braços cruzados e a cabeça um pouco baixa para evitar as gotas de chuvas caindo em meu rosto, mesmo que fosse inútil.Depois de um tempo eu já estava em Santa Teresa, só mais uns dois quarteirões para chegar em minha casa. A chuva ficou mais forte e os trovões começaram a me assustar, além de altura, meu maior medo é relâmpagos, toda vez eu tenho a sensação que vou ser atingida por algum, mesmo dentro de casa.Comecei a caminhar por debaixo das marquises dos estabelecimentos rapidamente com a minha mania de perseguição de raios. Me virei a esquerda, a rua de minha casa, graças a Deus. Quando cheguei em frente ao pequeno portão enferrujado de minha casa, fiquei procurando como uma maluca minha chave, que para variar estava lá no fundo da minha mochila.Enquanto procurava me assustei com um movimento, alguém estava virando a esquina. O bairro estava deserto com todos se protegendo em casa e estava de noite, então eu me assustei. Consegui colocar minha mão na chave, mas havia muitas coisas á cima, quando puxei derrubei tudo que estava na minha mochila.A pessoa que andava na chuva se dirigiu até mim, me ajudando. — Obrigado moço não precisa. — falei.— Não tem problema. — disse ele. Espera, essa voz me soava familiar.Quando eu o encarei o reconheci, ele tinha um sorriso de lado em sua face, também havia me reconhecido. — Você está me seguindo? — perguntei assustada, colocando as coisas rapidamente na bolsa.O sorriso dele se alargou, aquele sorriso deveria ganhar um prêmio, de tão espetacular.— Na verdade estava na casa de uma amiga. — falou.Nossa que gafe, no mínimo ele visitou alguma peguete e eu me achando stalkeada. Eu me levantei e ele prosseguiu:— A dona Rita. — falou.Eu sorri por minha bobeira, conhecia dona Rita. Quando tinha tempo sempre ia comer um pedaço do delicioso bolo de laranja dela. — Você não parece um tipo de pessoas que visita senhoras. — falei. — Ela é sua parente? — perguntei consternada.— Bom ela é uma amiga mesmo. — respondeu.Eu sorri, amigo de dona Rita, ele definitivamente era misterioso, e diferente. Nós nos encaramos pelo o que pareceu ser os três segundos mais longos da minha vida, só depois de um trovão rugit alto que eu sai de meus devaneios, percebendo que estavamos conversando na rua em meio a uma tempestade.— Você não quer entrar? — perguntei. — A chuva está muito forte. Ele assentiu, eu abri o portão e depois a porta. Eu poderia estar sendo um pouco descuidada por deixar alguém que eu não conhecia direito entrar em minha casa, mas Mário morava na casa atrás da minha, se eu ficasse em apuros ele ouviria. De certa forma o tal homem não me parecia má pessoa, ele me ajudou sem saber quem eu era, mas nunca se sabe. Ultimamente não conhecemos realmente ninguém.Eu acendi as luzes, e ele entrou em seguida. Parecia estar desconcertado. — Estou molhando sua casa inteira. — falou.— Não tem problema, é só água. — falei pegando uma das minhas cadeiras de madeira, ele estava encharcado e definitivamente não sentaria no sofá de pano.Liguei a televisão para algum ruído preencher o silêncio esquisito. E peguei umas toalhas para que ele pudesse se secar. — Obrigado. — Eu vou passar um café, aceita? — perguntei.— Ah, sim vou aceitar.Coloquei a água no fogo, me sequei e troquei de roupa. Quando voltei ele ainda estava lá, sentando na cadeira de madeira, vestido tão formalmente e parecendo tão deslocado.— Bom acho que não nos apresentamos formalmente e não sei como te chamar, meu nome é Christian. — falou.— Sou Helena. — falei, sentando no sofá.Ele assentiu.— Me desculpe o incômodo.— Que nada, não iria deixa-lo na chuva, seria muita falta de educação da minha parte — respondi.Ele sorriu, aquele mesmo sorriso de canto de lábio, eu desviei o olhar rapidamente.— Você não é daqui então né? — perguntei.— Não. — É de onde? — Inglaterra. — respondeu.Eu fiquei consternada.— Nossa. — falei.— O que? — Você fala português muito bem, para alguém que tem a língua materna como inglês, você nem tem sotaque.— Pois é eu ouço isso algumas vezes.Eu assenti.— E você também é muito bronzeado para um inglês. — falei.— Bom vamos se dizer que eu passo uma quantidade de tempo considerável fora da Inglaterra. — E você. — ele perguntou, me pegando de surpresa. — É daqui? Agora eu sorri. — Na verdade não, como percebeu, foi o sotaque? — Você fala diferente da maioria das pessoas aqui, mas também parece não pertencer a cidade, é fácil se reconhecer um não conterrâneo aqui.— Bom, minha forma diferente de falar é originada da minha cidade natal, eu nasci em São Paulo, já esteve lá? — perguntei. — Quer dizer, você é um homem de negócios e tudo mais...
— Sim, sim, já estive. — falou.Então fiquei sem assunto, ele parecia estar sem também então voltei a cozinha para terminar de fazer o café. Coloquei em duas xícaras e me dirigi a sala. Lhe entreguei seu café e me sentei na poltrona, colocando cruzando as pernas no estofado como sempre fazia . Fiquei observando ele, e só percebi que estava o fazendo quando ele sorriu. — O que foi? — perguntou.Eu voltei ao planeta terra novamente, era muito fácil se perder naqueles olhos azuis.— Não sei, pra ser sincera não engoli muito essa historia de homem de negócios vindo da Inglaterra. Ele se levantou, ele era bem alto, se aproximou um pouco e se sentou na cadeira do lado da minha. Eu fiquei apreenssiva, a proximidade dele me deixava inquieta.— Não sou bem um homem de negócios. — falou.— Ah não? — perguntei me fingindo incrédula.— Não, eu falei que que estava aqui por negócios. — É mas disse que saiu do seu escritório para espairecer. — rebati.— É, mas você sabe que um escritório pode ser muitos lugares.Eu lhe deu um olhar condescendente.— Com o que você trabalha afinal? — perguntei. — Bom, eu estou hospedado em um hotel, e lá é o meu escritório, cheguei hoje ao Brasil, e tenho uns negócios para resolver, em relação a vamos se dizer, um concorrente. Eu fiquei pensando um pouco, porque ele não ia direto ao assunto?— Ta bom, você não quer me falar, não serei evasiva. — dei de ombros. Ele me encarou.— Bom eu acho que já atrapalhei demais, já é tarde é melhor eu ir. — falou.Eu olhei para a janela, a tempestade não havia cessado. — Você tem certeza? — perguntei e logo depois me arrependi. — É, quer dizer, está chovendo demais, e o trânsito está um caos, o seu Hotel é aonde? — perguntei.— Em Ipanema. — Acho que não vai conseguir chegar lá de táxi, em dias assim a cidade vira uma bagunça. — falei, o que eu estava fazendo afinal? — Se quiser você pode ficar aqui.Eu não sabia o que tinha de errado comigo, normalmente eu não sou tão direta em relação a homens, mas primeiro, tudo o que eu disse era verdade, estava chovendo e o trânsito estava um caos, e segundo, as palavras simplesmente saíram da minha boca e eu não pude evitarEle me encarava meio surpreso. Eu estava me sentindo uma completa idiota, e não sabia onde enfiar minha cara.— Nossa, na verdade seria muito bom. Eu soltei o ar que não sabia que estava segurando.— Tudo bem, eu vou arrumar umas coisas pra você. — disse.Então me dirigi á casa de Mário.— Que está fazendo aqui essa hora menina?— Mário preciso de roupas de homens, e se você ouvir qualquer coisa esquisita vindo da minha casa pode ir lá com a espingarda. — falei, acho que estava exagerando, mas não era porque o cara era boa pinta que ele poderia não ser perigoso.Quando expliquei a história para Mário ele ficou irritado, ele era como um pai para mim, mesmo sendo somente doze anos mais velho. — Não quero esse cara dormindo lá Helena, e se ele te matar ou te estuprar, você tá maluca menina? — Não, ele não vai fazer isso. — respondi, pelo menos eu acho.— Então é o seguinte, bota o marmanjo para dormir aqui.— Mário, para, por favor só faz o que eu te pedir, amanhã eu vou estar vivinha da silva pode acreditar. Depois de muito insistir, e inventar uma historia sobre eu já conhecer Christian de outros carnavais, ele aceitou. Ele até fez um belo teatro indo até minha casa para ver Christian, ainda não foi embora sem dizer:— Qualquer coisa é só gritar Lena, meu sono é leve. Eu sorri, e Christian também. Depois de arrumar as coisas dele ele foi ao meu banheiro tomar um banho. Eu estava me sentido esquisita, e estava achando a situação toda esquisita.Mas de uma forma também muito esquisita, eu estava gostando.
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