Reencontro
2 Profecia - Christian
Eu acabará de chegar na cidade do Rio de Janeiro.
Todos vislumbravam a espetacular cidade pela janela do avião, eu não preocupava com paisagens, meu mundo havia se tornando uma nuvem cinza persistente.
Durante o vôo pelo menos três mulheres se atiraram em mim, as outras permaneceram com seus olhares condescendentes. Mas eu não sentia nada por elas, nem um resquício de desejo se quer, tudo dentro de mim estava desligado.
Depois de pegar minhas malas fui levado por um taxista ao meu hotel, ele conversava comigo como se nos conhecêssemos á muito tempo, mesmo que eu não gostasse de bate-papo, eu achei agradável.
— O senhor fala muito bem português para alguém que não é daqui sabe, normalmente todos os estrangeiros ficam balbuciando em espanhol e a gente tem que se virar.
— Obrigado. — digo.
É o que sempre ouço quando vou a qualquer lugar e falo a língua nacional, eu conseguia falar evitando o sotaque praticamente todas.
Chego ao meu hotel, não escolhi em um lugar remoto, seria muito óbvio. Se Katrina quisesse me encontrar passaria reto por essa construção chamativa.
Já no meu quarto abro as malas e vou a varanda, vislumbro a cidade que estava a todo vapor, com pessoas caminhando pela orla, e praticando todos os tipos de esportes e atividades.
Eu gostaria de permanecer dentro de meu quarto, e evitar todo aquele furor insuportável de lá de fora, mas agora precisava ir ao que realmente importava. Meu objetivo maior.
Peguei o endereço e em mais um táxi me dirigi á ele, era um canto mais longe da cidade, casas silenciosas, chão de pedra.
A casa não possuía campainha então bati palma, depois de alguns segundos uma mulher abriu a porta.
Mesmo que eu já soubesse sua idade, ela aparentava ser muito mais nova, definitivamente não como a idosa que supostamente deveria set.
— Sim? — ela perguntou.
— Você é a dona Rita?
Então ela se aproximou, abriu o pequeno portão que nos separava e tocou meu rosto.
— Então é verdade. — diz ela impressionada.
— Sim.
— Entre menino, entre...
Pediu ela apreensiva. Assim que entrei em sua casa senti uma coisa diferente, senti uma ligeira paz, alguma coisa aqui ia em uma completa sintonia.
— É a natureza. — diz ela como se tivesse ouvido meus pensamentos.
— Nunca me senti assim na mais remota floresta. — expliquei.
— É que o que representa a natureza na verdade, dentro de minha casa, é a convivência saudável, a coexistência com o humano, somos parte da natureza. Aceita um pedaço de bolo?
— Sim, por favor. — não me interessava comer, eu raramente comia, mas achei rude negar.
— Minha avó falou de você para minha mãe, que falou pra mim, esperávamos por gerações, eu cheguei a acreditar que não viria. — disse ela me servindo o bolo. — Porque demorou tanto?
— Ah gerações antes da sua avó, eu descobri essa profecia, ela me disse a hora certa de fazer todas as coisas.
— Você é muito importante para nosso clã e nosso tipo, você sabe, Katrina representa grande perigo, ninguém deveria possuir tanto poder.
— Eu sei.
— Mas e você, faz isso por vingança? Nas histórias que líamos dizia que na profecia, o grande salvador e o único no mundo com força semelhante á bruxa proibida, buscava vingança pela morte da amada.
— Não busco vingança, não mais, mas o único caminho para que eu possa encontrar uma saída para tudo isso, é matando-a. — falei melancólico.
As centenas de anos não foram suficientes, as lembranças permaneciam vividas em minha mente, foi quando Katrina nos amaldiçoou, quando ela matou Adelina, e como prometido, destruiu minha alma.
Desde então eu veio procurando por ela, mas não consigo achá-la, e ela não me encontra porque não possuo alma, Katrina deixou resquícios de nosso amor na alma de Adelina, para que em cada encarnação ela sinta que em algum lugar do mundo algo espera por ela, alguém espera por ela, mas ela nunca o alcança. Tudo com o intuito de torturar a nós dois.
— Katrina virá lhe procurar? — pergunta ela despreocupada.
— Virá provavelmente, ele tenta me encontrar á séculos, sou a única pessoa imune aos feitiços de localização dela, mas ela possui outros meios... — respondo.
— Sim, sim... — diz ela, se servindo de café. Não somente a casa, mas ela transmitia calmaria, seu tom de voz era leve, não parecia a voz de uma idosa. — Sabe meu querido, minha mãe me disse a vida inteira que eu era especial, eu era a septuagésima primeira bruxa da nossa linhagem, e que eu possuía poderes peculiares e diferentes.
Eu esperei para que prosseguisse.
— Quando era criança eu formava opiniões sobre as pessoas, apenas olhando em seus olhos, todos achavam normal, algum tipo de sexto sentido, mas depois que me aperfeiçoei eu percebi que era um dom! Minha mãe acreditava que a razão era por ser a septuagésima primeira bruxa. Os olhos são realmente o espelho da alma, e eu enxergava as almas das pessoas, cada detalhe delas.
Eu suspirei, esperando pelo o que viria.
— O que me surpreende é que em nosso clã aprendemos coisas como, uma bruxa não pode e não precisa ter muito poder, nós não praticamos o mal ou salvamos o mundo, somos absortas não interferindo na ordem natural, convivemos com a natureza como parte de nós mesmos, entre outras coisas... Um dia eu li em um livro de minha bisa, conta a história da Bruxa proibida, que ela era um ser imortal, e por isso não possuía alma, mas agora olhando para você, um ser imortal, eu te enxergo.
— Não se deixe enganar. — digo seco.
— Katrina tem grande poder psicológico meu querido, ela pode ter feito acreditar que não possui alma, que é um ser repugnante por ser semelhante á ela, mas eu enxergo a sua dor, sua agonia, enxergo o seu amor, enxergo seu cansaço.
Eu me senti ansioso, não queria ser desrespeitoso, mas precisava ir logo ao ponto.
— Rita preciso de sua ajuda para quando Katrina chegar, você vai se arriscar fazendo-o como já presume. — digo me levantando.
— É meu destino. — disse ela.
— Tudo bem, então. Eu... preciso ir agora. — digo.
— Tudo bem querido, não me precisa ficar inquieto. — disse ela me acompanhando a saída. — Vou lhe dar um conselho, suba no corcovado, a sensação de se estar lá é muito próximo de se estar aqui em casa, vai dar uma volta para espairecer, acredite, não irá se arrepender. — disse ela com um sorriso.
Eu assenti, indo embora.
Assim que saí de sua casa senti o vazio de volta ao seu lugar. Mas quando eu acabasse com Katrina, quando o poder dela sumisse junto com seu feitiço, eu voltaria a ser mortal, e poderia morrer, e estar em paz, a dor sumiria também.
Me sentindo irritado demais para voltar ao Hotel decidi seguir o conselho de Rita, e ela estava certa, embora a sensação não fosse igual, era muito próxima á de sua casa, era aparente coexistência entre homem e natureza na cidade.
Eu subi no Cristo que se encontrava com uma quantidade considerável de turistas, todos tentando tirar a melhor foto com os braços abertos. Eu admirei a cidade lá de cima, esse era um dos poucos lugares que haviam me impressionado no mundo, a cidade parecia ter sido construída em torno da natureza, das montanhas, praias.
Por uma fração de segundos, enquanto ainda admirava a paisagem, eu me senti bem, como a muito tempo não sentia, me senti mais um, um ser humano normal vivendo uma vida normal, senti que dentro de mim ainda poderia existir uma alma. Por
Foi quando ouvi uma voz. Não era familiar, mas havia alguma coisa nela, alguma coisa que fez meu coração bater como a muito tempo não batia.
Aquela voz me acendeu, eu que estava desligado á tanto tempo, meus pelos eriçaram. Era ela, tinha que ser ela. Mais como?
Eu procurei feito um desorientado pela voz, ela continuava falando, ela falava em inglês. Eu esbarrava nos turistas, e desci rapidamente as escadas até alcança-la.-
Terminando meu percurso, eu a encontrei. Ela usava uma camisa branca, um boné, estava do lado de uma van, não se parecia nada com Adelina, diferentemente de seus cabelos ruivos e pele branca, ela tinha longos cabelos castanhos, sua pele era bronzeada, tipicamente latina, eu ainda não tinha certeza, nem mesmo sua voz era parecida com de Adelina, mas bastou ouvi-la para que tudo em mim aflorasse.
— Vamos todos voltar para a van, agora? — pediu ela novamente, eu sorri, ela tinha uma voz suave e doce.
Os turistas adentraram a van, ela fazia o mesmo e eu tomei iniciativa, não poderia deixa-la simplesmente ir. A maldição de Katrina não havia me permitido me encontrar com a alma de Adelina, sempre quando me sentia tão perto, estava um passo atrás. Alguma coisa diferente estava acontecendo.
Eu fui em sua direção temeroso e desconfiado, mais decidido, eu me encontraria com minha amada novamente, nem que fosse por meros segundos.
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