Reencontro
6 Fite da Escuridão - Christian
Eu estava no banheiro da casa dela. Tudo era pequeno, mas era extremamente limpo e organizado.
Eu ainda estava tentando entender como a situação toda ocorreu, me parecia coincidência até demais. Mas não que eu estivesse reclamando, eu me sinto cada vez melhor por estar ao lado dela.
Algumas vezes eu me pego observando-a procurando trejeitos de Adelina, mas ela é absolutamente diferente. Adelina tinha um sorriso doce como seus olhos, mas era imprudente e impulsiva, sempre agia sem pensar e se arrependia de seus atos, no começo eu não gostava, mas depois isso me encantou. Helena tinha um sorriso delicado, parecia bem mais responsável que Adelina, seu olhar era forte e maduro, você percebia olhando-a que ela havia passado por muitas coisas. Ainda era difícil de entender que ela era Adelina, a alma reencarnada dela, estava em Helena. Não que eu esperasse por ser semelhante fisicamente, mas ela era distinta de uma forma muito peculiar. Eu deveria levar em conta que as duas tiveram vidas muitos diferentes, entre os anos de 1500, onde Adelina Rose Annesley, vinda de família nobre, criada com todas as mordomias, e por ser infanta¹, sempre achou que poderia ser o que quisesse, fazer o que quisesse, casar com quem quisesse. Ainda mais um plebeu, como eu havia de ser. E Helena, que vinha de uma época diferente, de um país e cultura diferentes, tudo era completamente diferente, então eu acho justo.
Depois de sair do banho senti um cheiro vindo da cozinha. Ela havia arrumado um colchão na sala, com lençóis e travesseiros. Ela voltou limpando as mãos em um pano.
— Estou fazendo jantar, onde estão suas roupas? — perguntou. Eu as entreguei.
— Vou colocá-las para lavar, amanhã de manhã estarão limpas e secas.
Eu assenti.
— Muito obrigado.
— Você vai querer comer?
— Claro, e perder a a oportunidade de experimentar a sua comida?
Ela sorriu.
— Tudo bem, espero que não esteja muito desconfortável. — disse ela, em relação ao colchão.
Ah se ela soubesse as condições que um plebeu dormia no século XVI.
— Está mais do que ótimo. — falei.
— Estou fazendo fetuccine alfredo, vamos comer? — perguntou.
— Vamos lá. — respondi.
O jantar foi bem mais descontraído, e com uma conotação menos estranha. Eu elogiei a deliciosa massa dela, no qual ela disse amar porque não é preciso ter muita coisa em casa para faze-lo. Ela tirou sarro das minhas roupas, que ficaram enormes em mim a propósito. E a gente brincou sobre o fato de o vizinho dela achar que eu era um psicopata.
— Espero que não faça barulho dormindo, ou ele vai vir aqui com uma espingarda. — falou, colocando o garfo na boca.
Ah, uma espingarda não fazia nem cócegas em mim. Mesmo assim, fingir estar aterrorizado.
— Sério? — perguntei.
— É ele tem uma mas ele não vai atirar em você.
— E como você pode saber? — perguntei sorrindo, enquanto comia.
— Bom, aquela velharia só serve para enfeitar a parede. — falou.
E nós dois caímos na gargalhada. Eu não me divertia assim desde... Desde sempre. Adelina não era das mais engraçadas, lembro-me que suas traquinagens me encantavam, mas sempre deixavam irritado e preocupado.
— Sabe você não deveria ter me falado isso, e se eu fosse um psicopata mesmo? — perguntei.
Ela limpou a boca.
— Bom, ai eu pegaria a minha arma de verdade.
Eu sorri.
— Você tem uma arma?
— Claro, sou uma mulher morando sozinha, preciso de mais que uma frigideira e a espingarda velha do meu vizinho caso fique em apuros.
— É você está certa. — falei, enquanto ela pegava nossos pratos já vazios e os levava para a pia. — Mas tá ai uma coisa que eu não entendo.
— O que? — pergunta
— Porque uma mulher como você estaria sozinha? — perguntei, sabendo que a conversa tomaria um outro rumo.
— Bom, eu não sou encanada com esse tipo de coisa. Ter namorado, casar. Eu não quero ficar perdendo meu tempo em relações que eu sei que não vão dar certo, nas vezes eu me acho muito exigente, mas se eu encontrar alguém que valha a pena eu não teria problema com isso sabe...
Eu me levantei me aproximando dela. Talvez ela não encontrasse ninguém que desse certo com ela, por causa da maldita maldição. Katrina havia me deixado a par da situação, a alma de Adelina seguiria sem mim com resquícios de nosso amor, para que ela mesmo formando uma família, estivesse sempre sentindo que lhe faltava algo, que lhe faltava alguém.
— Eu entendo. — falei. — Mas você acha, que nunca vai encontrar esse alguém?
Ela me encarou por alguns segundos, então piscou rapidamente, parecendo se colocar no seu modo defensivo.
— Bom, não estou procurando esse alguém de qualquer forma. — disse ela se afastando de mim.
Ela estava tentando não se abalar por mim, eu tinha charme o suficiente para que isso não ocorresse.
— E porque não? Não acha que deveríamos correr atrás de quem amamos? — pergunto.
— Sim, mas eu não amo ninguém. — disse ela, na bancada que separava a cozinha da sala.
Então eu me aproximei encurralando-a.
— E não acha que poderia? — perguntei.
Ela não respondeu, nós estávamos muito próximos. Ela tentava se afastar mas a bancada não deixava, eu encarava seus lábios rosados e convidativos, enquanto ela fazia o mesmo, alternando entre minha boca e meus olhos. Até que em sua tentativa de se afastar derrubou a fruteira no chão.
— Merda. — falou, nós nos separamos instantaneamente, ela pegava as frutas nervosa, eu ajudava tentando conter um sorriso por seu aparente constrangimento.
— Do que você está rindo? — perguntou ela com uma laranja na mão, apertando os lábios para não sorrir também.
A fruteira estava de volta ao seu devido lugar, e as frutas também. Tudo estava bem até ouvimos um barulho alto na porta.
— Helena, abre a porta ou eu vou arrombar.
Ela foi correndo em direção a porta abrindo-a. O tal Mário, que pareceu não gostar de mim, entrou com uma espingarda na mão.
— O que aconteceu aqui? — perguntou.
— A fruteira caiu. — disse ela.
Ele me encarava desconfiado.
Eu com as mãos em sinal de redenção, mesmo sabendo que a arma era inútil.
— Desencana Mário. — falou Helena.
— Já sabe. — falou ele saindo, ela assentiu.
Assim que saiu, começou a rir.
— Eu lhe avisei para não fazer barulho.
— Não pude evitar. — respondi.
Ela me observou por alguns segundos.
— Acho melhor a gente ir dormir, amanhã tenho outro longo dia pela frente.
— Bom, eu concordo.
— Ok, então, boa noite. — falou.
— Boa noite. — respondi.
***
Eu acordei com um sobressalto, não tinha costume de dormir, ainda mais tanto assim. Olhei ao redor. Helena provavelmente já estava em pé, eu ouvia ruídos vindo da cozinha e um cheiro agradável de café.
— Bom dia. — apareceu ela.
— Bom dia, que horas são?
— Agora sete horas. — respondeu.
Eu assenti.
— Eu acho que dormi demais.
— Dormiu demais? — perguntou consternada. — Ah é, esqueci que é um homem de negócios.
— Pois bem, acho que é o costume. — falei.
— Hum... — disse ela assentindo — O sol já esta reluzindo, foi só uma tempestade de verão mesmo, vai querer ficar para o café? — perguntou.
— Não pelo cheiro bom vindo da cozinha, acho que seria muito rude de minha parte negar.
Ela sorriu, de um modo diferente, fazendo biquinho. Não sei porque, mas aquele sorriso acendeu tudo a minha cintura abaixo. Merda, agora eu estava ficando excitado, a quanto tempo isso não acontecia?
— Bom, eu vou ao banheiro primeiro.
Ela assentiu.
Eu segui ao banheiro me sentindo completamente estranho, nos meus primeiros séculos as mulheres me acendiam, não da mesma forma que Adelina sempre fez, mas mesmo assim, eu permanecia um homem e não tinha como evitar. Depois o sexo se tornou uma coisa monótona, vazia.
Molhei meu rosto com um pouco de água para me acalmar, molhei a minha nuca, que estava pelando de tão quente.
Era frustante não ter controle mais sobre as coisas, ainda mais sobre mim mesmo, mas era inegavelmente agradável.
Quando voltei Helena colocava a mesa, o café já estava feito.
— Não pense que tem tratamento especial, eu faço questão de comer assim á mesa todos os dias.
— Não pensei. — falei sorrindo.
Nós tomamos nosso café serenamente, por um momento senti um estranho calafrio, as coisas estavam realmente estranhas comigo ultimamente então acho que não era nada grave.
— E você trabalha naquele Hostel á muito tempo? — perguntei, e logo me arrependi, seu rosto assumiu uma expressão melancólica.
— Infelizmente sim, tentei fazer vestibular em São Paulo e não me sai bem de primeira, não tinha tempo para estudar, tinha que pagar as dívidas de minha mãe, então eu desisti e foquei só no trabalho tentando nos manter. Ai, bom... ela faleceu e eu decidi respirar novos ares, me mudei e agora estou estudando, não é tarde ainda.
— Nunca é — digo. — Sinto muito por sua mãe.
Ela sorriu de uma forma confortadora.
— Não tem problema, é o ciclo da vida não é? Com o tanto de álcool que consumia e cigarros, eu sabia que não terminaria bem. — disse bebericando seu café, seu olhar triste e distante.
Terminamos de comer e Helena arrumou a mesa, ela trouxe minhas roupas de sua lavadora que também as secou. Ela parecia um pouco pensativa e preocupada.
A campainha de sua casa tocou e ela foi tirada de seus devaneios, e foi em direção á porta para atende-la.
— Oi Mário. — falou ela.
A conversa se prolongou entre os dois, de onde estava eu ouvia claramente o que se passava, não porque eles falavam alto, mas porque essa era uma de minhas habilidades, á certa distância eu possuía uma audição bem aguçada. Pelo o que pude entender, o tal Mário parecia não confiar em mim e de certa forma eu apreciava isso. Helena vivia sozinha, e ao meu ver, ter alguém que se preocupa com ela era uma coisa boa.
Ela fechou a porta quando a conversa se encerrou.
Eu me levantei, prevendo que agora seria a hora em que eu deveria me despedir.
Encarei o meu relógio.
— Bom, acho que aqui é a minha deixa. — falei a contragosto.
— Ah, bom, sim... daqui a pouco eu também tenho que ir...
— Obrigado pela estadia. — indaguei querendo prolongar os últimos segundos ao seu lado.
Ela sorriu desconcertada.
— Não tem de que.
E eu fiquei lá, encarando-a como um tolo, gravando cada feição, expressão, respirando fundo e sentindo o cheiro agradável que exalava dela.
Então parti.
E lá estava o vazio de volta, mas esse vazio, ele era completamente diferente.
Não era o vazio no qual estava acostumado, o que eu sentia fisicamente, o que eu senti ser preenchido na casa de dona Rita. Nesse caso não se tratava de minha alma, se tratava de meu coração, e o vazio agora se encontrava ali, naquele lugar que jurei não existir mais, ser apenas um músculo morto e inútil dentro de mim.
Eu queria e necessitava passar mais tempo ao seu lado, ouvir sua voz e vê-la sorrir. Helena, de fato, possuía o sorriso mais bonito que eu havia visto.
Me senti um pouco mal por admitir isso á mim mesmo, a mulher por quem fui apaixonado, Adelina, supostamente deveria ostentar tal título, mas de certa forma não havia um grande problema levando-se em conta que as duas eram a mesma pessoa.
Eu cheguei a meu quarto, no Hotel em que estava hospedado quando meu celular vibrou em meu bolso alertando-me sobre uma chamada, na tela reconheci o contato por vislumbrar o nome de dona Rita.
— Alô? — perguntei em expectativa de ouvir a doce e calma voz dela, não foi o que aconteceu.
— Christian? — perguntou ela, sua voz trêmula e hesitante.
— Dona Rita? Você está bem?
— Tem alguma coisa errada. — falou, deixando todo meu corpo em alerta.
— O que? — perguntei.
— Acho que Katrina está perto, muito perto, de você Christian, posso sentir que ela está se aproximando.
— Eu sabia que estaria. — respondi seco.
— Não, Christian, tem alguma coisa diferente, você precisa vir aqui imediatamente e traga a garota.
Eu engoli a bile que pareceu se formar em minha garganta.
— Não vou coloca-la nisso, ela não tem nada a ver e não vou permitir que Katrina a machuque!
— Não! Christian! Você necessita traze-la, Katrina está em seu encalço! — falou.
A bile retornou, tão avassaladora que não pude nem ao menos respirar.
— Como assim? — eu próprio me assustei com o qual baixa e cortante minha voz saiu.
— Sem perguntas agora Christian, traga-a para cá imediatamente!
— Não estou com ela. — falei.
Dona Rita pareceu tossir do outro lado da linha.
— Christian vá encontrá-la agora! — falou ela quase gritando.
Ela não precisou perguntar duas vezes.
O motorista do táxi que me conduzia, o mesmo que me trouxe do aeroporto, coincidentemente. Agora corria, costurando entre o transito intenso da cidade para levar-me até ela.
Eu amaldiçoava em meus pensamentos, querendo que todos os carros desaparecessem e que o táxi voasse. Não conseguia entender, supostamente, Katrina não encontraria jamais a alma de Adelina, mas levando-se em consideração que eu próprio o fiz, não me surpreendia.
Como eu era estúpido! Deveria ter pensando nisso, ao invés de me perder em meus devaneios luxuriosos de adolescente ingênuo!
O táxi chegou, e eu apenas joguei a nota mais alta de minha carteira quando me encontrava agora em frente ao Hostel em que Helena trabalhava.
No meio do caminho mudei o endereço, naquela hora ela já haveria de ter saído a um tempo.
Chegando lá, dando meu máximo para não parecer inquieto e desesperado demais, encontrei o amigo de Helena, sabia quem ele era pois recordava-me da cena patética que ele havia feito quando falei com ela.
— Olá, você é amigo de Helena, certo? — perguntei.
Ele me encarou desconfiado.
— Cara, qual é o seu problema? Se não sair da cola dela...
— Onde ela está? — perguntei interrompendo-o, não tinha tempo para essa merda.
Ele assumiu uma posição que em sua concepção era hostil. Bom, ele não sabia com quem ele estava se metendo. Com a força de apenas um braço colei seu corpo na parede, apertando seu tórax, por sua expressão percebi que ele estava sufocando. Sabia que meu poder de persuasão era ativado com apenas um toque leve na pessoa em questão, mas minha irritação quis causar desconforto ao bastardo.
— Onde. ela. está? — perguntei separando as palavras para dar ênfase em meu interesse.
— E-ela saiu, com uma mulher...
Alguma coisa dentro de mim se quebrou, mas eu prossegui:
— Para onde?
— Ela foi levá-la ao estacionamento. — falou ele.
Me retirei e agora sem me preocupar corri até o maldito estacionamento, rezando para que a tal mulher fosse uma pessoal normal, e não Katrina.
Novamente, não poderia estar mais errado.
Depois de tanto tempo, lá se encontrava o pivô de minha angústia e sofrimento, bem do lado de Helena.
Meus pelos eriçaram por medo, mais uma coisa que eu não sentia a tanto tempo.
Meus instintos gritavam para que eu corresse em sua direção, mas minha mente trabalhou, esperei até o momento exato e apropriado, não adiantaria de nada fazer com que nós dois fossemos mortos.
Foi quando um grupo de turistas passaram, desciam de uma van postada no estacionamento e seguiam em direção ao Hostel. Era um grupo consideravelmente grande, mais pessoas foram aparecendo e era disso que eu precisava, Katrina era coerentemente esperta pra não atacar na frente de testemunhas oculares.
Foi quando o amigo de Helena chegou alarmante, puxou-a pelo braço e a levou em algum canto, essa era a minha deixa.
Segui eles indo por detrás do estacionamento ao redor do Hostel, atrás encontrava-se uma areá remota com arvores por todo canto, custei um pouco á acha-los, só o fiz porque ouvi a voz alta e assustada do garoto estúpido.
— Helena, o que está acontecendo, ele estava te procurando e parecia que passaria por cima de qualquer um para te encontrar, ele me sufocou com apenas uma mão, que merda é essa? — perguntou ele.
Eu sem pensar duas vezes os interrompi, seu olhar confuso e estupefato se direcionou a mim. O braço de seu amigo segurava o dela mas sua força não era páreo contra a minha, puxei ela praticamento arrastando-a.
— Ei, me solta, você tá maluco? — perguntou ela.
Eu não respondi, não tinha tempo pra explicar, só precisava tirá-la dali o mais rápido possível. Estava prestes a persuadi-la a ficar quieta e vir embora comigo, quando Katrina se materializou em minha frente.
Ela me encarou parecendo estar num impasse, desde a descoberta da profecia ela vem me caçando com o objetivo de me matar, e eu estaria satisfeito com a possibilidade de isto acontecer, viver nesse mundo já não mais me apetecia. Mas quando descobri a oportunidade de vingar-me por tudo o que ela fez, não pude negar, sem contar que era meu dever, para o bem de todos Katrina deveria ser exterminada como a praga que era.
Sei que seu amor doentio a fazia hesitar, mas ela era egoísta, ela não amava de verdade, não sabia o que era amor. Entre mim e ela, claro, ela se escolheria.
Ela rosnou alguma coisa, sua mão se ergueu e ela afastou Helena de mim. No chão eu presumi o que viria a seguir, entendi a preocupação de dona Rita, ela estava em busca de Helena não de mim.
Me levantei convicto correndo em direção a ela, tudo dentro de mim gritava que não conseguiria alcança-la a tempo e eu apenas ignorava, persistente em sua direção.
Com sua mão Katrina começou a invocar os seres e a magia negra que a sustentavam, o céu nublou e o vento ficou gélido e forte, sugando as forças da natureza que não lhe pertenciam ela com uma mão estendida posicionou-a em direção á Helena que jazia completamente estupefata no chão, ela gritou quando Katrina proclamou, e tudo o que eu queria era que minhas pernas fossem mais rápidas.
Tudo o que aconteceu a seguir foi incrivelmente rápido demais para se explicar.
¹ Infanta. — Feminino para ''Infante''. É um título de nobreza, que está abaixo do de príncipe e princesa, receberam esse título, mais precisamente todos os filhos legítimos do rei ou rainha de que não são herdeiros da coroa.
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