Reencarnação

5 Trabalhoso, mas agradável


Notas iniciais
Opa, voltei! Demorei um pouco mais, mas em compensação, fiz um capitulo beeem grandinho =3= Oh, e eu me esqueci de nas notas do capitulo anterior agradecer à Nanami por recomendar a fic ♥ Muito obrigada querida *3* Bem, boa leitura amores ♥

Levi

Eu retornava ao meu apartamento, bastante exausto. Isso era um tanto previsível, visto que eu tinha que ir e voltar do meu trabalho a pé. Mas isso logo acabaria. Estou com quase todo o valor para dar entrada num carro usado. Isso graças ao meu novo emprego num escritório. Bem, novo não... Estou nele já faz uns dois anos. Eu sou praticamente o faz-tudo de lá, cuido de papelada, organizo as finanças, atendo telefone, elaboro planilhas, arquivo documentos. Até que estava me dando bem nesse novo ramo. Era bem melhor que ser caixa do supermercado... Entretanto, se não fosse por esse primeiro emprego, eu não teria conhecido Carla nem Grisha, consequentemente, não teria conhecido o pirralho.

Finalmente, chegando ao meu apartamento, abri a porta, deixei as chaves sobre a mesa e vi totalmente largada em meu sofá a quatro-olhos, roncando alto. Aproximei-me vagarosamente dela e dei-lhe um peteleco na testa. Isto a fez despertar rapidamente.

– Oe, quatro-olhos. –Chamei sua atenção.

– Levi... Ah, Levi!! – Ela rapidamente se pôs sentada. – Bem vindo de volta! Eu não estava dormindo! – Dizia ela na empolgação típica, com um filete de saliva escorrendo do canto da boa e marcas do sofá em seu rosto.

– Ah, estou vendo... – Falei irônico, logo notando os livros de enfermagem sobre a mesinha da sala. – Estava estudando...?

– Ah relaxe, não terei prova amanhã nem nada do tipo, estava estudando por achar a matéria interessante mesmo. – Ela dizia. – Fiz muitos experimentos no Eren...

– Nem pense!! – Já logo a cortei.

– Ai, calma hehehe eu tô só brincando! Você vai ser chato até quando? – Dizia ela em meio aos risos.

– Certo... Obrigado por cuidar do pirralho, quatro-olhos. – Falei. – Você já pode ir pra casa descansar.

– Ahh... Que pena, eu queria ensinar mais umas coisinhas pra ele... – Eu arqueei uma sobrancelha, meio cismado. “O que essa quatro-olhos andou ensinando para o Eren?” – Ok, então. – Ela deu umas espreguiçadas enquanto se levantava do sofá. – Uhuu, ainda tenho um tempinho livre, acho que vou visitar o Erwin e o Mike na faculdade, quer vir também? – Convidou enquanto guardava seus livros na mochila.

– Não... vou ter que ir no mercado agora, e mais tarde ainda vou preparar o jantar. – Falei.

– Huhu, meu Deus, você cozinhando...

– Hã? Como assim?

– Você lembra quando tentou fazer aquela parmegiana? – Ela dizia rindo.

– É... só saiu daquele jeito porque você resolveu me ajudar. – Falei seco. Eu sei cozinhar bem, foi somente nesse prato que eu me enrolei.

– Claro, se eu não ajudasse ia sair muito pior, hahahaha! – Disse sarrista, já saindo do meu apartamento.

– Ah, cale a boca. – Respondi, num sorriso de canto, encostando-me à porta. – E o pirralho?

– Eu o tinha colocado pra tirar um cochilo...

– Há esta hora? Ainda são três e meia da tarde.

– Eu sei, mas ele é muito cheio de energia... Ahh... – Ela soltou um suspiro. – Tive que fazê-lo dormir um pouco para eu dar uma descansada.

– Hunf. Entendi...

– Ok, então. Vou indo! Beijos, Levi...! – Ela deu meia volta e logo apertou o botão do elevador.

– Oe... – Chamei-a novamente.

– Hum...?

– Valeu por sempre me ajudar... – Falei desviando o rosto.

– Owww, não há de quê! – Ela deu um aperto em minha bochecha antes de adentrar o elevador. O que me fez sentir aquela veia pulsando novamente em minha testa.

– Já falei pra não fazer isso, eu odeio! – Disse com um olhar nada bom, massageando a bochecha.

– É por isso que eu faço! – Ela disse antes das duas portas se fecharem em sua frente.

Eu adentrei meu apartamento de novo e fui para o único quarto dali. Abri a porta bem devagar, entrando sem acender as luzes e sem fazer muito barulho, para não acordar o garoto. Hanji havia fechado as janelas, então o cômodo estava escuro, mesmo ainda sendo de tarde.

Assim que me aproximei da cama ao lado da janela, que é a do garoto, já notei algo estranho... Retirei os lençóis e vi apenas travesseiros amontoados ali debaixo das cobertas. Mesmo sob eles não havia nada. Ajoelhei-me e olhei embaixo da cama, nada também. Resolvi abrir as janelas, para dar uma ventilada no local e clareada com a própria luz do dia. Foi aí que vi que o quarto estava meio bagunçado. Algumas roupas estavam jogadas pra lá, uns brinquedos pra cá... Fico imaginando do que Hanji fica brincando com o garoto enquanto não estou. Acha que confio totalmente nela? Hunf. Em parte sim. Mas sei bem que aquela cabecinha de sonsa ainda vai ensinar ao menino um monte de coisa que não deve. E mesmo sabendo disso, eu ainda a chamo pra dar uma de babá.

– Eren...! – Chamei-o, aleatoriamente vendo se teria alguma resposta, mas nada. – Eren, cadê você?

Dei outra olhada pelo quarto todo, com a minha cara de indiferença de sempre. Fui dando voltinhas.

– Ereeen... Pode ir saindo de onde estiver! – Abri os armários, afastava as roupas penduradas, olhei no banheiro, olhei em baixo da minha cama... e foi ali que encontrei jogado de qualquer jeito o meu travesseiro... sem a fronha? Levantei-me novamente olhando minha cama e percebi um outro “travesseiro” estranho ali no colchão, e que estava um pouco deformado. Assim que aproximei-me dele, pude ouvir um risinho baixo. Já logo dei um sorriso de canto.

– Hm... Que pena. O Eren não aparece... – Falei num tom de voz meio teatral. – Então, acho que vou tirar um cochilo aqui na minha cama até ele aparecer... – Disse, enquanto deitava-me no colchão e apoiava a cabeça em meu “travesseiro”. Pude ouvir na hora um riso mais alto e sentir umas contorcidas. – Oh... O que é isso? Meu travesseiro está rindo? – Na hora, virei-me e levei minha mão até ele. – Será que sente cócegas também? – Mexendo meus dedos, fui de encontro com sua barriga, o lugarzinho que ele é mais sensível pra cócegas.

– Ahh! N-não...!! – Sua vozinha saía em meio aos risos, aliás, gargalhadas. – Não, Levi, aí não!! – Ele se remexia todo, não se aguentando de rir. Logo levei a mão até a abertura da fronha e abaixei-a expondo seu rostinho sapeca.

– E o que pensa que está fazendo aí? Anda, garoto, saia daí. Você vai se sufocar desse jeito.

– Ahhh... eu queria te dar um susto. – Disse ele fazendo um bico, agora saindo de dentro da fronha e pondo-se sentado no colchão.

– Vai precisar parar de rir primeiro enquanto está escondido, dá pra te ouvir, sabia?

– Ahhh... – Ele soou desapontado.

– A Hanji que te deu essa ideia?

– Aham! – Ele balançou a cabeça positivamente.

– Hunf, sabia. Você vai ter que treinar mais se quer me pegar de surpresa. – Falei apertando seu nariz. Ele deu uma murmurada.

– Eu ainda vou pegar o Levi! Eu vou! – Falava determinado apertando as mãozinhas com força. Eu apenas dei um riso de canto.

– Oh, gosto da sua determinação, garoto. – Falei num tom surpreso. – E então? Vamos ao supermercado? – Chamei-o, levantando da cama.

– Oba!! Podemos comprar sorvete? – Ele pedia com os olhinhos brilhando.

– Sorvete? Não está meio frio pra tomar sorvete, Eren? – Disse olhando pela janela as folhas de outono que caiam das árvores.

– Ah, mas eu quero sorvete!

– Você vai pegar um resfriado.

– Eu tomo devagar... Eu juro. – Ele juntou as mãozinhas enquanto pedia.

Apenas cruzei os braços diante de sua fala e continuei fitando-o.

– Como é que se diz?

– Hm... Por favor? – Seus olhos verdes pareciam ficar bem maiores quando fazia sua cara de pidão.

– Hunf. Tá bem então... – Concordei revirando os olhos. – Mas só se você se comportar, ok? Lembra da última vez que fomos ao mercado?

– Aham... – Ele abaixou a cabeça, envergonhado.

– O que você fez? – Cruzei os braços esperando sua resposta.

– Eu... derrubei a pilha de amaciante... – Falava bem baixinho agora.

– E quem teve que pagar?

– O Levi... – Ele esfregava as mãos uma na outra, mostrando bem o seu constrangimento. Apenas gostava de relembrar isso porque ele ficava adorável quando estava sem graça. – Não faço mais. Eu tomo cuidado!

– Hm... Muito bem, então. – Logo ajoelhei-me a sua frente, ajeitando sua franja. Eu sempre tentava mantê-la separada no meio, no estilo “cortina”. A mesma franja que Carla e mesmo Grisha usavam. Essa franja junto ao seu rosto, com seus olhos grandes e sobrancelhas agora levemente mais grossas sempre me faziam exclamar mentalmente... “Ele é a Carla versão masculina!”. – Mas ao menos, você não se machucou, não é pirralho? Tente ser mais cuidadoso por aí. E se não tiver mais a mim para ficar de olho em você...? Como vai fazer?

– Não! – Ele rapidamente pulou em meu pescoço, abraçando-me com seus curtos braços. – Não quero ficar sem o Levi... – Eu apenas olhei-o depois de seu abraço repentino, mas logo o abracei de volta, o levantando em meu colo. Sempre que eu mencionava algo sobre ir embora ou ele ficar sem mim, mesmo que não fosse sério, ele grudava em mim até ter a certeza que não vou sair de perto dele.

– Pirralho... Eu não vou embora. – Falei serenamente e ele afastou um pouco seu rosto para me olhar. – Vou ficar aqui com você pra sempre, ok?

– Você promete? – Falava com aqueles grandes e manipuladores olhos verdes fitando os meus. – Tem que ser pra sempre...!

– Prometo.

Ele deu outro sorriso para mim e voltou a me abraçar, tentando entrelaçar suas perninhas ao redor do meu quadril para se manter firme em meu colo. Bem, não podia culpa-lo. Ele é apenas uma criança de quatro anos, claro que sente maior dependência e certo medo de ser deixado. Mas eu, obviamente nunca faria isso. Era minha criança.

– Bem, vamos indo então. – Disse enquanto deixava o apartamento, fechando tudo e manuseando chaves e carteira com apenas uma das mãos.

~*~

Eu e Eren já enchíamos a cesta de compra. Não era muita coisa que precisava, apenas uns mantimentos para o jantar e o almoço. Fui lembrando tudo de cabeça. Tal como arroz, feijão, carne, verduras, suco... Eren insistia no refrigerante, mas eu sempre falava “não”. Queria preservar sua boa alimentação, sem essas besteiras. Pelo menos até os seus sete anos ou mais...

A cestinha já pesava, e eu ainda estava à procura do leite em pó. Eren adorava, por ser bem docinho. Ele comia de colher, mesmo estando em pó. Notei que hoje o mercado estava bem mais cheio que o normal, por isso Eren segurava minha mão para que não se perdesse.

Depois de umas andadas, ele avistou bem no alto de uma prateleira...

– Levi, Levi!! Podemos comprar cereal? – Ele pedia apontando, para o mais alto da prateleira, mas bem alto mesmo... Olhei para aquilo e depois para o Eren, que fazia novamente seu olhar pidão. Dei um suspiro.

– Você quer justo aquele? – Apontei pro alto.

– Aham, é o colorido. O que eu vi na tv. – “Hunf... maldita mídia.”

– Hum... certo, mas... – Olhei para aquela prateleira alta já pensando que não alcançaria sem pedir ajuda. – Bem...

– Levi alcança, né? Você é bem alto! – Disse o garoto, e meus olhos logo brilharam em sua direção.

– Eu sou alto, é...? – Internamente dei um largo sorriso. Não era sempre que ouvia essas palavras serem ditas a meu respeito. “Tinha que ser o meu garoto!” Pensava orgulhoso.

– Aham, muito aaalto. – Ele esticava os bracinhos pra se expressar melhor. Depois dessa não tinha como negar o cereal a ele.

– Muito bem então. – Coloquei a cesta de compra no chão e dei uma olhada ao redor par ver se ninguém me olharia agora... Mas todos pareciam prestar atenção nos próprios afazeres. Então, fiquei na ponta dos pés e estiquei bem o braço. Mas isso não era o suficiente para alcançar... – Eren, olha ali! – Apontei para o lado atrás dele. Assim que ele virou o rosto, dei um pulo alto e consegui pegar a caixa. – Ah, não era nada, deixe pra lá. Olha, aqui...! – Mostrei a caixa a ele.

– Waaa... Posso carregar? – Ele pedia já todo contente.

– Tudo bem, só cuidado pra não perder o equilíbrio. – Disse entregando-lhe o cereal notando como a caixa era meio grande em proporção ao seu corpo pequeno. Ele, sem demonstrar dificuldade, segurou-a firme com as duas mãos. – Vamos indo até o outro lado, lembrei que a pasta de dente acabou. – Disse chamando-o e ele veio vindo atrás de mim.

Mas passamos por um corredor perto do caixa rápido que tinha um amontoado de gente, quase colados um com o outro, resolvi sair ali daquele meio. Inconscientemente agarrei a mão do garoto e vim o puxando comigo para que não se perdesse.

Assim que saímos daquela multidão, olhei para o baixinho e notei que trouxe a criança errada comigo! Arregalei os olhos. Era uma garotinha, que devorava um enorme cachorro-quente. Tinha cabelos castanhos como os de Eren, mas presos num rabo de cavalo.

– Oh, não... – Murmurei olhando-a. Ela não parecia nem um pouco assustada. Apenas olhava-me interrogativa. Olhei para o meio da multidão, de longe, tentando avistar o Eren. Mas não dava pra ver nada, era muita gente. Fui começando a ficar desesperado. Droga, eu devia ter segurado sua mão antes adentrarmos a multidão...

– Moço, por que está assustado...? – A pequena à minha frente perguntava com bastante calma, provavelmente notando que fiquei mais inquieto depois de olhar para seu rosto.

– Você viu um garotinho da sua altura ali no meio? – Perguntei, inclinando-me para perto dela. – De cabelo castanho, olhos verdes...

– Não vi, moço... – Ela respondia, não parando de devorar seu lanche.

– Ah, Sasha, aí está você! – Uma mulher de cabelos também castanhos aproximou-se de mim e da menina. – Ora, não saia de perto de mim assim, mocinha! Deixou-me preocupada!

– Desculpe, mamãe... – Ela falava de boca cheia.

– Francamente... – Ela logo me olhou de forma agradecida. – Obrigada por ficar de olho na minha filha, jovem. – Bem, eu nem respondi, pois afinal fui eu quem a tirou de perto da mãe. A pequena gulosa, enquanto era puxada de volta para a fila do caixa, deu um tchauzinho para mim.

Eu dei umas piscadas. Não podia ficar parado. Meu menino se perdeu no meio do mercado. Estava sozinho e indefeso... Ninguém o sequestraria, não é? Ou será que sim...? Meu desespero foi aumentando e logo corri de volta para o corredor dos cereais, pelo outro lado, sem deixar as compras caírem do cesto. Assim que dobrei o corredor, trombei com um cara enorme e dei uma cambaleada pra trás. Até perceber que esse grandalhão era...

– Mike! – Exclamei.

– Oi, Levi, você aqui! Por que está com tanta pressa...? – Ele perguntou. Eu dei uma olhada no corredor e vi que Eren não estava mais ali.

– Rápido, levante-me! – Pedi, colocando o cesto no chão, não querendo perder muito tempo com explicações por hora.

– O que?

– Me deixe subir em seus ombros.

Com um pouco de dificuldade e ansiedade, Mike conseguiu me levantar e me manter de joelhos em seus ombros. Ele ainda mostrava-se desentendido do que estava acontecendo.

– O que houve? – Perguntou.

– Mike, você viu o Eren em algum lugar?

– Não... Você o perdeu?

– É... – Mordi o lábio inferior. – Vai andando aí em frente, pra eu ver aquele canto. – O grandalhão loiro logo deu seus passos até que, felizmente, eu pude ver o Eren! Só que... o que é aquilo...? Quem é aquele ali conversando com ele? Parece um coroa... Parecia encurralar o Eren mais para o canto vazio do mercado... O que ele pretende?! – Mike, valeu, pode me pôr no chão! Depois eu te explico o que houve!

E assim ele fez, e eu apenas corri na direção do Eren e daquele... pedófilo?

O cara não estava nem prestando atenção ao redor, olhava apenas para o Eren. Parecia fazer uns gestos convidativos enquanto falava com o menino e lhe oferecia alguma coisa... parecia um doce. Fui diminuindo o ritmo e me aproximando de fininho.

– Aqui garotinho... Só estou sendo bonzinho com você, até seu papai chegar...

– M-mas... – Eren se encolhia, sem muitas ações na hora, mas não largava sua caixa de cereal.

– Pegue um doce do tio... – Ele estendia uma bala... suspeita (!) para ele, dando uma acariciada em sua cabeça. Tentava mostrar-se o mais bacana possível para o menino.

O velho tomou um baita susto ao me ver inclinar-me na frente do Eren, de braços cruzados, com a testa franzida e um olhar nada bom.

– Com licença... – Falei num tom mais intimidador e irônico. – O que pensa que está fazendo, senhor? – Tentei ser educado. Eren logo sorriu ao me ver.

– Levi! – Ele abraçou uma de minhas pernas, voltando seu olhar para o velho.

– Você é o pai deste garoto? – Perguntou o velho, provavelmente surpreso pela minha aparência jovem.

– O senhor não respondeu minha pergunta. – Apertei os olhos, fitando-o. – O que pretendia fazer com este garoto?

– Nada! Er... apenas estava de olho nele até o responsável aparecer, e... ofereci-lhe este doce... – Ele estendeu para mim.

– O caramba! – Afastei sua mão com rudeza. – Oferecendo doces... Aposto que você oferece outras coisas também, não é?

– O-o que?!

– Como se atreve a empurrar uma criança pro canto mais vazio do mercado?! Vê se toma teu rumo, velho!

– ... – O homem mordeu o lábio, provavelmente sem resposta.

– Levi! Por favor, não brigue! – Eren, ainda abraçado à minha perna, escondia seu rosto no tecido de minha calça enquanto falava. – Não gosto de te ver zangado...

Olhei para o pequeno, aos poucos amenizei minha ira por aquele velho e acariciei seus cabelos castanhos. Dei uma última encarada feia para aquele homem antes de me agachar e pegar o Eren no colo, que rapidamente abraçou meu pescoço e cruzou as perninhas em meu corpo, sem largar sua caixa de cereal.

– Posso estar errado, mas por hora acho bom o senhor manter distância deste menino, estamos entendidos? – Lancei um outro olhar ameaçador. Sei que é meio imprudente, mas tenho a segurança total de que encaro qualquer briga imprevista mesmo com pessoas maiores do que eu, caso seja necessário. Mas aquele velho não demonstrava intenções de briga.

O homem apenas olhava desanimadamente para nós enquanto afastávamos dele. Mas Eren, assim como a garotinha comilona, deu um tchauzinho para o velho de longe, mantendo sua pura inocência infantil.

Reencontrei com Mike, que segurava a cesta com minhas compras. Agradecido, fui até ele e conversei com um pouco mais de calma, explicando ao loiro o que houve. Ele logo assentiu rindo, achando que eu estava sendo como um pai super protetor. E que isso não era muito a minha cara. Bem, não posso discordar dele. Eren, assim que viu Mike, já logo quis subir em seus ombros...

Bem, por experiência própria... posso até dizer que entendo porque ele gosta tanto de subir nos ombros de Mike... É legal se sentir mais alto que todo mundo de vez em quando.

~*~

No caminho de volta pra casa, comprei um sorvete de casquinha de creme com uma calda de chocolate para o Eren. Ele ficou bastante contente, e tomava tudo com certa ansiedade. Eu tinha que ficar relembrando-o toda hora pra tomar mais devagar, mas ele sempre voltava à sua pressa.

Agora, já estávamos em casa e Eren estava tomando banho. Ele havia se lambuzado todo de sorvete. Bem, todo não. Apenas as mãos e o rosto, mas isso, para mim, já era motivo suficiente para tomar um bom banho. E eu sempre lembrava-o de deixar a porta do banheiro aberta, pois o pirralho era muito desastrado, então era bom já deixar no jeito para qualquer imprevisto que eu tenha que ir socorrê-lo.

Ouvi algumas pessoas dizendo que o melhor seria dar banho na criança até seus cinco ou seis anos de idade. Mas... não. Pra mim o garoto já tinha que ir aprendendo a se virar sem minha ajuda o quanto antes. Tomar banho, escovar os dentes, arrumar seu (nosso) quarto, fazer as refeições, preparar lanches simples, isso tudo ele já fazia por conta. Mas coisas como, sair de casa ou ficar nela sozinho, mexer com fogão ou facas, óbvio que eu não deixaria ele fazer por conta.

Ouvi o som do chuveiro ser desligado e do box se abrindo. Seu banho foi rápido desta vez, espero que ele tenha lavado tudinho e corretamente.

Bem, não me preocuparei com isto por hora. Eu estava de boa, deitado sobre o tapete da sala de estar e fazendo algumas séries de abdominais. Sempre que encontrava tempo, eu gostava de me exercitar. Fazia alongamentos, flexões, mesmo um pouco de musculação com uns pesos que tinha guardado. Se tem algo que aprendi quando fazia aulas de muay thai, e com aquele velho, é que se pode adquirir uma ótima forma e condicionamento físico sem precisar ir à academia. Por esse motivo eu tinha disposição e força para encarar qualquer tipo de imprevisto que exija o corpo.

Já havia feito uma série de cinquenta abdominais, agora já estava na trigésima nona flexão da segunda série, quando Eren veio correndo, bastante desajeitado, até mim.

– Levi! Levi! Socorro!

Olhei-o ainda na posição, com as mãos na cabeça. O garoto havia se entalado na camisa enquanto a vestia.

– De novo, Eren? – Me coloquei sentado de pernas cruzadas e vim puxando-o pelo braço. – Que coisa... essas roupas já estão ficando pequenas... – Comentei. Uma das coisas que me impressionava naquele garoto era o seu crescimento rápido. Parece que num piscar de olhos ele estava um pouco mais alto. Fui puxando sua camiseta até que se encaixasse certinho em seu corpo. – Acho que amanhã vamos ter que sair pra comprar umas camisetas maiores pra você.

– Obaa! Vamos pro shopping então? – Ele abria um largo sorriso. – Posso ir no playland?

– Não. Vamos só comprar roupas.

– Ahh... – Ele murmurou desapontado. – Eu queria ir nos brinquedos...

– Vamos no mês que vem, ok? Porque agora não tenho dinheiro pra isso, só pra suas roupas.

– Hum... eu posso ficar sem essa, tenho mais na gaveta! – Ele argumentava. Eu apenas encarava-o no meu olhar indiferente, porém cheio de ironia.

– Hunf. Aquelas camisetas e calças são do tamanho desta que está usando. A maioria já deve estar justa em você.

– Eu não ligo... – Ele cruzava os braços, confiante que seu argumento me faria mudar de ideia.

– Ah, é? Saiba que essas roupas, estando apertadas como estão, vão prender todo seu sangue, você vai ficar com o corpo todo vermelho até desmaiar. A pressão também fará você perder o ar e não conseguir mais respirar e morrer... Quer que isso aconteça?

Exagerei no argumento, mas até que foi bem cômico. O garoto ficou branco da ponta dos pés até seu fio de cabelo. Logo fez que “não” com a cabeça rapidamente e num certo desespero.

– N-não... Eu não quero morrer, Levi! – Ele apressadamente começou a tirar sua camiseta e atirá-la para longe. Quando foi tirar seu short, eu o impedi.

– Calma, não precisa ficar assim. – Tentei acalmá-lo, mas segurando um baixo riso que estava para escapar. Crianças são mesmo bem ingênuas. – Você não vai morrer. Nunca vou deixar isso acontecer. – Acariciei seus cabelos. – Por isso que vou comprar roupas maiores pra você.

– Ahh, obrigado, Levi! Você vai salvar minha vida! – Ele falava empolgado e com um ar de alívio. Outra coisa que era incrível em crianças é a mudança repentina de humor. Num minuto estava quase chorando, no outro já está com um enorme sorriso no rosto.

– É... eu sei. – Respondi, enquanto esticava os braços dando uma última alongada. – Ouça, já estou preparando arroz, feijão e batata. Vista a maior camisa que tiver lá e vem jantar, porque sem roupa você não vai ficar. – Falei enquanto ia até a cozinha ver as panelas que deixei no fogo.

– Ah, por quê? Sou homem, posso ficar sem camisa! – Ele fazia pose, tentando mostrar o quão crescido estava pra fazer esse tipo de coisa, típico de garotinhos na idade dele.

– Ah é? Fique sem camisa então. Aí se a comida, pelando do jeito que está, cair na sua pele, vai deixar uma marca de queimado que vai ficar pro resto da sua vida, viu? – Eu sempre falava no mesmo tom, quando eu estava bravo, quando estava feliz, quando estava sendo irônico, então era bem difícil saber quando estou falando a verdade ou não. Mas de qualquer forma, Eren acreditava em tudo. – Sem falar que vai ficar ardendo por muitos dias.

– Ahh... Vou achar uma camisa! – E logo correu para o quarto. – “Hunf, garotinho ingênuo...” Murmurei a mim mesmo antes de provar do arroz da panela verificando se já estava no ponto.

~*~

Jantamos numa boa. Por enquanto eu deixava o Eren comer de colher, obviamente. Do jeito que era desastrado, fincaria o garfo no próprio olho.

Depois da refeição, ele sempre me chamava para brincar, era muito cheio de energia. Eu tentava sempre arrumar brincadeiras em que pudesse fazer sentado. Pois ao fim do dia, ainda mais depois da janta, me sentia mais exausto. Tentei mostrar um baralho a ele, mas ele achou sem graça. Bem, claro. Uma criança de quase cinco anos ia preferir algo mais ativo. Então, brincamos de enconde-esconde pelo apartamento. E claro, revezávamos quem procuraria. Eren conseguia se enfiar nos lugares mais inusitados, mas eu sempre o encontrava rapidamente, afinal ele ainda não sabia segurar o riso.

Brincamos disso um tempinho, até ele se cansar. Mas não cansar fisicamente, e sim apenas desanimar disso e querer fazer outra coisa. E ele logo foi buscar no armário a caixa de um jogo. Um jogo que Hanji deu de aniversário ao garoto. Twister. Bem a cara dela um jogo desses. Eu até que aceitava jogar, pois ainda era bem jovem, com vinte e dois anos, e tinha um bom alongamento e disposição.

Eren também mostrava-se com bom alongamento. Na verdade quase toda a criança tem o corpo mais flexível do que os mais velhos, mesmo sem precisar treinar. Estendi o tapete de plástico na sala e jogamos esse Twister por um bom tempo. Sempre começava bem tranquilo, mas depois, nos encontrávamos nas posições mais incômodas possíveis. Tentava não esmagar o garoto, pois por ser pequenino ainda, sempre acabava ficando em baixo de mim. Era um braço pra lá, outro pra cá, uma perna ali, uma contorção que só. E Eren adorava esse jogo justamente pra rir das posições estranhas. Até que foi um bom presente da quatro-olhos, me fazia até perder a preguiça, não sei porquê, mas fazia. Hanji já jogou conosco também. O tapete ficava mais apertado, mas saía umas posições ridículas e até... constrangedoras. Ainda jogaria aquilo com Mike e Erwin também, mas... eu ficaria de fora, girando a roleta, só pra rir deles.

Bem, depois de jogarmos isso, olhei para o relógio da prateleira. Era nove horas da noite. Bem, tarde para um garotinho ainda estar acordado.

– Hora de ir pra cama, Eren.

– Ahh, não! Só mais um pouquinho!

– Não. Já jogamos bastante, não está cansado?

– Quero ver TV! Posso? Por favor, diz que sim! – Ele pedia novamente com aqueles manipuladores olhos verdes brilhando.

– Hunf... – Dei outro suspiro. – Certo então...

– Oba! – Ele logo correu para o sofá.

– Um minuto aí, rapaz. – Chamei sua atenção, aproximando-me. – Deixe-me ver suas mãos.

Ele, meio interrogativo, logo estendeu as pequenas palmas para mim. Peguei-as, virei, dei uma boa olhada em tudo ali.

– Vá lavar as mãos agora, depois venha aqui de novo. Suas unhas já cresceram. – Disse enquanto abria a gaveta da mesinha ao lado do sofá, pegando o cortador.

– Ahh, não. Você já cortou faz poucos dias... – Ele fazia bico, ele não gostava muito de cortar as unhas, eu não sei exatamente o porquê. Talvez ele ache um saco, mas sei lá. Acho que é só manha dele mesmo.

– Vá logo lavar as mãos, pirralho. Ou vou ter pegar a toalha?

– Já to indo! – Ele rapidamente foi até a pia do banheiro. Sempre dava certo quando eu ameaçava pegar a toalha. Isso porque já levou uma chicotada minha com aquilo sem querer, num dia que estava tentando matar uma vespa que entrou no apartamento. Então ele viu o quanto dói, por isso eu ameaçava com uma toalhada. É meio cruel, mas não achei outra ameaça que funcionasse.

Liguei a tv e sentei-me no sofá com as pernas cruzadas, ou melhor, pernas de índio. Logo, Eren retornou mostrando suas mãos já bem limpinhas.

– Hum, muito bom... – Disse, já pegando-o por debaixo de seus braços e trazendo para se sentar em meu colo, com as costas apoiadas em meu abdômen. Segurei uma de suas mãozinhas e fui cortando unha por unha, enquanto ele olhava para a televisão. Deixei em um programa infantil, com fantoches para que ele se distraísse.

Depois de um tempo, mesmo depois de eu ter acabado de cortar as unhas de suas mãos e até de seus pés, o garoto quis continuar em meu colo, no sofá. Mas não durou muito tempo, logo Eren começou a dar umas pendidas pro lado, como se fosse cair. Seu sono já estava bastante aparente.

– Bem, agora sim, vamos indo pra cama, Eren? Já são onze horas. – Falei.

– N-não... Eu não tô... com sono... – Dizia de forma totalmente contraditória à suas palavras.

– É, estou vendo. – Respondi ironicamente.

Desliguei a TV e peguei o garoto nos braços, levando-o primeiro até o banheiro. Nem a pau que eu o deixaria dormir sem escovar os dentes. Como ele já estava bem sonolento, coloquei-o sentado sobre o vaso sanitário, coloquei um pouco de pasta em sua pequena escova e eu mesmo escovei seus dentes. Eren ficou com os olhos fechados praticamente o tempo todo, mas ainda estava meio acordado.

Depois disso, carreguei-o até nosso quarto e deitei-o em sua cama, perto da janela. Quando ia cobri-lo com a coberta, Eren logo ergueu os bracinhos em minha direção, como se estivesse pedindo colo, e ainda sem abrir os olhos.

– Que foi, Eren?

– Quero dormir com Levi...

– Hum, por que isso agora? Já está aí na sua caminha...

– O Levi é quentinho... – Ele falava quase numa murmurada e meio sonâmbulo. Sem muitas escolhas, peguei-o novamente nos braços e o levei até minha cama, que era um pouco maior que a dele. Só nela cabíamos os dois juntos, e ainda assim bem apertados.

Se tivesse mais espaço no quarto, eu compraria uma cama de casal. Pois não é a primeira vez que Eren pede pra dormir comigo. Muitas vezes acordava no meio da noite e vinha correndo pra minha cama, assustado, dizendo que teve pesadelo com uns monstros que pareciam gente, mas eram enormes e mais feios, segundo ele. Na maioria das vezes ele contava que eram os mesmos monstros. Achei meio estranho ele sonhar com a mesma coisa tantas vezes. Mas deve ser o medo ao imaginá-los que de repente possam aparecer para pegá-lo. Mas aí eu sempre chegava bem pertinho dele e dizia num sussurro “Não precisa ter medo de nada. Eu tô aqui pra te proteger.” Depois disso, ele se acalmava na hora e voltava a ter um sono tranquilo.

Coloquei Eren no colchão e em seguida deitei-me ao seu lado, pegando o edredom, cobrindo a nós dois. O garoto virou para o meu lado, encostando-se no meu peito, dava uma encolhida nas pernas. Inconscientemente começava a chupar o polegar enquanto dormia. Eu imediatamente tirava sua mão dali, ele tinha que parar com essa mania de chupar o dedo. Fiquei olhando-o até ele se entregar aos braços de Morfeu.

E bem, agora, ele não teve pesadelo nem nada do gênero, mas mesmo assim ele quis dormir em minha cama comigo. Talvez esteja com frio e, como tenho mais calor no corpo do que ele, sente-se mais aconchegante perto de mim. Hanji falava que Eren fazia isso muitas vezes apenas pra ficar pertinho de mim. Simplesmente isso, que ele parece gostar de sentir minha presença e meu calor. Hunf, garoto estranho...

Dei uma última bocejada, antes de me acomodar melhor e ficar olhando para aquele inocente rosto à minha frente até eu mesmo pegar no sono. Me dava tanto trabalho esse menino... É, eu ainda não entendia bem, mas... eu também gostava de sentir o calor daquela pequena criatura enquanto dormia.

Notas finais
Oiee, chegaram todos vivos? Pq esse capitulo foi praticamente uma one-shot. Bem, só digo que Eren aparecerá mais velho ainda no próximo capitulo. Só estou indecisa se o mostro com 9/10 anos ou já pulo pros seus 15/16 anos logo =w= Huehueeh outra coisa...estou pensando em colocar esse twister novamente na fic, quando o Eren já for adolescente... ¬w¬ *tá parei!* Até o próximo, gente! Beijinhos da Nikki ♥