Reencarnação
10 Roupa lavada e Twister
Notas iniciais
Eren
Abri um pouco os olhos e mordi o lábio inferior. Olhei de canto ao redor, mas não pude ver muita coisa. Estava meio embaçado, mas consegui identificar a madeira polida da cabeceira da cama bem à minha frente. Eu sentia muito calor... tanto que eu até ofegava. Não entendia muito bem o que acontecia, mas era estranho... Eu me mantive deitado de bruços o tempo todo, com as mãos embaixo do travesseiro. Só tinha uma parte lá atrás que estava mais “empinada”... De repente senti mãos quentes deslizarem pelo meu peito. Até um peso maior inclinar-se sobre mim, dando uma leve aquecida em minhas costas. Por algum motivo, não conseguia virar pra trás e ver o que estava acontecendo... Só sei que, seja o que for... era muito bom... Muito mesmo. Tão bom que dava vontade de me entregar inteiro e gemer descontroladamente...
– Tudo bem aí...? – Uma voz rouca cochichava em meu ouvido.
– Aham... – Eu soltava uma voz manhosa... – Mais... eu quero mais... heichou...!
...
Levei um baita susto com aquele som estridente do despertador. Por ato reflexo já fui apalpando o criado-mudo à procura do celular pra desliga-lo logo. Depois de feito, dei um profundo suspiro. Senti meu coração um pouco mais acelerado. Abri levemente os olhos, verificando que já era de dia. Fachos de luz do sol adentravam meu quarto pelas frestas da janela.
Me coloquei sentado, dando boas espreguiçadas enquanto encarava o chão. Eu me sentia um pouco envergonhado... Meu coração parecia não querer retomar o ritmo normal tão rápido assim. Como...? Eu acabei de ter... um sonho erótico? Não vi seu rosto, mas tenho certeza de quem era a pessoa, só pela forma de sussurrar bastante familiar para mim. E pior, eu não queria que o maldito despertador tivesse interrompido. Acho que agora subi mais um nível para o caminho da depravação.
O que me impressiona é como esse sonho foi real... Parece que já aconteceu de verdade e isso me deixava mais envergonhado ainda. Imaginar que eu realmente já tenha feito essas coisas com o Levi... Aliás, essa não é a primeira vez que tenho sonhos tão realistas assim. Já sonhei com ele muitas vezes... Desde pequeno até. Claro, não sonhos ‘picantes’ como esse de agora. Eram situações do tipo estarmos jantando juntos, fazendo faxina e até treinando lutas. E sempre que acordava, tinha que parar um pouco para refletir se o sonho havia acontecido mesmo ou não. Era bem estranho e ao mesmo tempo normal. Mas nunca, juro, nunca tive um sonho erótico realista assim com ele... E acho que isso era muito errado. Pois lembro de Hanji me falar, quando eu era pequeno, que a gente sonha intensamente algo assim quando quer muito. Novamente senti meu rosto esquentar.
Definitivamente era errado. Levi já tem seus trinta anos e eu nem de maior era ainda. Tudo bem, sou gay, mas eu devia procurar gente da minha idade... talvez... Mas é o Levi que mexe mais comigo do que qualquer outro. Sei que só sinto arrepios quando estou com ele. Tanto é que eu nem senti nada quando beijei o Jean a não ser o medo de ser zombado. Talvez eu não seja homossexual e sim Levissexual.
Pior mesmo foi eu me dar conta que quase revelei isso pra ele ontem. Mas ele é esperto, tenho certeza que já sacou tudo sem precisar completar. Eu não tinha cara pra encará-lo depois daquilo. Fiquei com tanto medo da rejeição que corri para o meu quarto e não falei mais com ele desde então. Bem, eu não posso ficar trancado aqui pra sempre, não é? Tenho que encará-lo cedo ou tarde. Seja o que for que eu tiver que ouvir, ouvirei.
Agora, sábado, aqui estava eu, à caminho do banheiro pra fazer minha higiene matinal. Dei uma puxada atrás na minha boxer, pois sempre que eu acordava ela estava meio enfiada... Dei uma boa olhada ao redor. Ao que notei Levi não parecia estar em casa. Depois de lavar o rosto, escovar os dentes e arrumar meu cabelo, senti meu corpo voltando à normalidade. Respirei fundo, tentando livrar de qualquer pensamento paranoico que eu poderia ter. Deixaria pra ter conversas do tipo com a Hanji. Sempre que eu me sentia meio confuso com coisas embaraçosas ou sentimentais, até o próprio Levi me mandava ir falar com ela a respeito. Bem, deixaria pra mais tarde, pois sei que Hanji fica de plantão esse horário no sábado.
Dando umas bocejadas e coçadinhas no pescoço, fui caminhando preguiçosamente até a cozinha. Foi quando dei de cara um bilhete enorme colocado na porta da geladeira. A caligrafia típica do Levi.
“Eren, hoje tive que resolver um contrato no hospital. Coloque a roupa pra lavar. Quando eu voltar quero tudo já no varal! Vou trazer nosso almoço na volta.” Era o que o bilhete dizia.
Já dei um breve suspiro. Parece que eu não o encararia tão cedo assim. Nossa conversa tensa ficaria pra mais tarde então... Ou talvez nem esteja tensa. Ainda tem a chance do Levi ter aceitado numa boa minha suposta revelação de ontem. Ele só não podia saber que eu sentia atração por ele. Pois bem, era só eu não dar pistas. Simples!
Agora com o pensamento meio positivo, resolvi preparar meu café da manhã tranquilamente. Mas ao mesmo tempo, meu desânimo aumentava só de lembrar que tenho que pôr a roupa pra lavar... Toda a roupa... E pode ter certeza. Eu e Levi juntos temos pilhas enormes, eu ia ter que fazer umas seis sessões na máquina de lavar... Isso ia levar o dia todo.
Levi
Eu acabara de conversar com a senhora Kirschtein. Apresentei-lhe a proposta de se juntar à equipe de funcionários na área de maternidade do hospital Santa Rose. Ela demorou um pouco, verificando suas condições de horário e seus afazeres em casa, já que vive apenas ela com seu filho rebelde. Mas depois de uma boa negociação e acordos, ela aceitou o trabalho, o que me deu um grande alívio e satisfação. Lembro de Petra me relatar alguns problemas na maternidade por falta de gente para monitorar os recém-nascidos. Claro, ainda precisava de mais funcionários, mas só com a ajuda da senhora Kirschtein já faria uma boa diferença.
Agora eu caminhava um tanto distraído pelos corredores do hospital. Olhava os enfermeiros andando pra lá e pra cá. Uns davam ‘bom dia’ para mim, outros, normalmente mocinhas mais novas que ainda faziam estágio, apenas davam uma acenada tímida. Vendo essas coisas é que me faz relembrar o quão pouco envelheci na aparência nesses anos. Ainda atraio olhares de meninas jovens... e pelas minhas suspeitas de ontem, de meninos jovens também.
Ah... Era isso que estava me deixando meio distraído hoje. Olhares sobre mim que me incomodavam... de quem eu nem esperava. Aquele pirralhozinho... Vive me dando dor de cabeça. E agora ele vem com essa... Chega em mim com sua onda de hormônios, pronto para me derrubar da prancha. Como lidar com esse tipo de situação? Eu vagava pelo hospital provavelmente à procura de respostas?
Talvez eu quisesse apenas conversar... Foi quando automaticamente fui à porta da sala a qual supus que estaria alguém com quem falar. Olhei discretamente pelo vidro fosco da porta, tentando ver sua silhueta. Estava ali e andava de um lado para o outro, aparentemente não estava muito ocupado. Resolvi entrar.
Abri a porta vagarosamente encarando-o. Ele logo se virou para mim, surpreso.
– Levi? O que faz aqui ainda? Achei que já tinha ido embora. Hoje é sábado. – Comentou enquanto guardava algumas radiografias no enorme envelope.
– Eu sei. Deixei o contrato e uns documentos da senhora Kisrchtein em minha mesa. Você pode assinar mais tarde? – Pedi enquanto adentrava parcialmente à sala. Na verdade encostei-me à entrada da porta e cruzei os braços, observando-o terminar de guardas suas fichas e envelopes no arquivo.
– Claro. – Erwin era calmo. Falava sempre num tom tranquilo com todos. Por isso muitos pacientes gostavam de ser atendidos por ele. O loiro passava uma enorme segurança e confiança a eles. Por isso creio que ele seria uma boa pessoa pra falar do assunto que estava me incomodando. – Hum, mas não foi só pra me avisar disso que você veio até aqui, não é? – Erwin logo me deu aquele olhar de quem tá sabendo de alguma coisa.
– É... Quis conversar... com alguém. Com um homem. – Comentei indiferente, fitando o chão. Normalmente eu não era muito de puxar conversa com ninguém. Por esse motivo, Erwin logo me olhou de forma curiosa.
– Wow, você querendo pedir conselhos? Isso é novidade.
– Que conselho?! Eu disse que queria conversar.
– Só conversar? Levi, eu te conheço. – Ele falava de modo esperto enquanto sentava-se diante do computador. – Você não é de vir atrás de alguém pra conversar a menos que tenha algo que não consiga resolver sozinho e precisa de conselho.
Desta vez eu mordi o lábio inferior. Erwin me conhece muito bem mesmo. Na verdade tanto ele quanto Hanji...
– Tá, Erwin... – Dei um suspiro. – Você me pegou...
Dei mais uma encarada no chão. Eu ainda estava um pouco nervoso de falar minhas suspeitas sobre o garoto em voz alta.
– Eu acho... que o Eren está a fim de mim. – Falei.
Nesse momento, Erwin voltou seu olhar para mim. Mostrava um pouco de surpresa, mas não tanto quanto eu esperava.
– Como é que é? – Ele agora me olhou fixamente.
– Hum... Acho que o Eren está a fim de mim... – Repeti desviando o olhar.
– Oh... É mesmo? – Ele deu um sorrisinho que de certo modo me irritou. – E como você chegou nessa conclusão? – Erwin começava a se divertir com a conversa, pois estava me vendo numa situação embaraçosa. Apenas queria ver que reações eu teria.
– Ah... Sei lá. Ele... ele está me olhando de um jeito muito diferente agora. – Eu coçava o pescoço enquanto falava.
– Diferente como? – Erwin lançava olhares espertinhos sobre mim.
– Ué. Diferente, oras! – Respondi meio seco. – Quando ele era criança me via de uma forma... quase como se eu fosse o seu herói. Agora... ele olha pra mim... do jeito que as garotas com quem saí me olhavam...
– Hum... Acho que entendi. – Erwin parecia bastante tranquilo com o assunto. – E isso te incomoda?
– Hã... – Nesse momento fiquei sem resposta. Na verdade eu não sabia direito o que pensar. Eren foi o garotinho que eu adotei como cria. Na minha visão, ele ainda é esse garotinho. Ia ser meio estranho vê-lo como um suposto pretendente. Foi aí que minha cabeça ficou mais embaralhada. – Ah, não sei Erwin... Na verdade ele nem falou nada que era de mim que gostava...
– Mas você acabou de falar que ele estava te olhando de forma...
– É! Mas ele... Aquele garoto...
– Hm, algum outro sinal fora essas olhadas?
– Ele também fica mais nervoso do que o normal perto de mim... E senti ontem que ele estava olhando meu traseiro enquanto eu lavava a louça. – Comentei e Erwin logo riu.
– Haha, mas até aí é normal. Sua bunda chama atenção. – Erwin deu um tapa em uma de minhas nádegas ao passar por mim.
– Erwin!!! O que é isso?! – Eu de momento fiquei pasmo. – Seu loiro abusado!
– Ora, é bem redondo não tem como não dar um tapinha. – Erwin falava na maior naturalidade. Na verdade, sempre tivemos essa intimidade, porém eu não gostava. Logo ele continuou seu caminho até a porta, abrindo-a. – Oi Hanji, você chegou.
– Hanji? – Nem ouvi baterem na porta.
– Oi Erwin!! Eu vim pedir uma lista de remédios pra encomendar que estão em falta lá pro Mike... Oh, Levi? – A quatro-olhos sorriu ao me ver. – O que está fazendo aqui?
– Hm... Nada. Eu já estava de saída... – Quando eu estava pra ir à porta, Erwin abriu o bico.
– Ele está tendo uns probleminhas com o Eren.
– Ah, é? E o que te incomoda, mocinho? – Hanji também fez a cara de curiosa.
– Já disse que não é nada...
– Ele suspeita que o Eren esteja gostando dele. – O loiro não parava de falar, eu estava quase passando uma fita em sua boca.
– Erwin, não precisava contar...
– Ué, é a Hanji. Sempre contamos tudo pra ela. Aliás, um ponto de vista feminino será bom também.
– Oww, meu Deus que coisa mais meiga. – Hanji pareceu se transformar. Como se uma aura cor de rosa surgisse ao seu redor. – Erenzinho finalmente mostrou os sentimentos a você! E o que você respondeu, Levi? – Ela perguntou curiosa.
Eu achei que estavam começando a distorcer as coisas. Quando eu disse “estar a fim” não quis dizer que haviam sentimentos aí e sim uma atração... Creio eu que seja apenas isso...
– Quatro-olhos... eu nem ao menos confirmei se é mesmo comigo. Eu disse que suspeitava! – Deixei claro à ela, que é campeã em intensificar as coisas que lhe são ditas.
– Ora, então confirme! Ele deixa alguns sinais?
– Eu já falei pro Erwin isso...
– Ele pegou o Eren olhando para o traseiro dele. – Erwin falou de canto para Hanji que logo deu uma gargalhada.
– Ahh, mas aí normal, não tem como resistir à essa bundinha. – Hanji em dois tempos chegou em mim e deu um apertão na minha outra nádega, o que me fez dar uma recuada, puto da vida. Erwin apenas segurou seu riso, certeza que achou graça da cara perplexa que eu fiz de novo.
– Que é isso?!! Até você, sua quatro-olhos depravada...?! – Pois é, esse tipo de intimidade eu também tinha com a Hanji. Mas, de novo, isso não quer dizer que eu gostava. Sei bem que os dois achavam legal me deixar irritado.
– Ué, por que você se irrita tanto? O Eren não fica assim quando aperto a dele... – Comentou a quatro-olhos, o que fez uma veiazinha começar a pulsar bem no lado esquerdo da testa.
– Como é que é...? – Minha voz saiu mais intimidadora. – Você fica passando a mão nele quando não estou olhando? Toma teu rumo, moça.
– Uhh, Por quê? Isso te incomoda? – Hanji deu aquele sorrisinho malicioso para mim.
– Er... Hã? – Fiquei meio sem resposta de novo. Por isso que eu não conversava com Hanji sobre esses tipos de problemas. Ela sempre conseguia me deixar sem fala.
– Viu só como é fácil fazê-lo revelar as coisas, Erwin? – Hanji olhava vitoriosa para o loiro que apenas fez aquela cara impressionada em respeito à ela. Eu por outro lado estava mais puto ainda com aqueles dois.
– Hum, se me desse um pouco mais de tempo eu também teria arrancado essa reação dele. – Erwin falou, irritantemente confiante.
– Ei!! Parem de falar como se eu nem estivesse presente. – Dei minha olhada intimidadora pra eles, embora isso não os afetasse.
– Oww, Levi, é que ver você tendo seus ataques de ciúme é impagável. A gente nunca via esse seu lado nos tempos de escola. – Hanji comentou apoiando as mãos em meus ombros. Erwin apenas concordou com a cabeça.
– Hunf. Tanto faz, eu resolvo esse problema sozinho... Não venho mais conversar com pervertidos como vocês. – Bufei, já querendo sair dali e me encontrar logo com o Eren.
– Opa, espere aí, baixinho! – Erwin me chamou a atenção.
– Que foi agora?
– Tente confirmar hoje mesmo se o Eren está mesmo gostando de você. – Sugeriu.
– Hã...? – Arqueei uma sobrancelha. – Como...?
Erwin e Hanji logo mostraram suas expressões cheias de ideias para mim.
– Faça assim... – Foi Hanji quem começou a falar.
Eren
Finalmente eu terminava de pendurar as roupas brancas na área de serviços. E pode crer que eram muitas. Ocupou os três varais, o do teto e dois de bancada. Como ventava bastante, até que secava rápido. Talvez hoje à noite mesmo já estaria seco. Deixei então as roupas coloridas empilhadas na bacia ao lado da lavadora. Pra já ficar no jeito pra bater mais tarde. Teria que deixar as roupas pretas para amanhã, ou seria obrigado a pendurá-los nos móveis da casa.
Fui levar os cestos vazios para os quartos. Primeiramente o meu, que sempre deixava encostado perto da janela. Aproveitei pra já dar uma geral no meu quarto, ainda não havia arrumado minha cama e nem organizado as coisas da cômoda há dias. Também abri os armários e dobrei uma a uma das peças de roupas, pra já dar um espaço às roupas limpas que logo ali guardaria.
Feito isso, fui ao quarto do Levi, deixar seu cesto vazio bem no canto ao lado do armário. Dei uma enxugada na testa com as costas da mão. Lavar a roupa nem tanto, mas pendurá-las no alto e arrumar o quarto já era mais cansativo. Ainda mais pra mim que era um pouco preguiçoso pra essas tarefas domésticas. Pior quando Levi me obrigava a ajudá-lo com a faxina pesada, meus braços, pernas e costas ficavam muito doloridos.
Mas agora que já estava tudo acabado, eu poderia realmente dar uma relaxada e esperar o Levi voltar com o nosso almoço. E tentarei agir o mais discreto e normal possível com ele hoje, já que ontem eu estava bastante nervoso perto dele. Tenho que mostrar naturalidade pra passar a ideia de que está tudo bem comigo.
Antes de sair do quarto dele, notei uma peça de roupa jogada no chão. “Droga, será que derrubei esta no caminho para a lavanderia?” Dei uma suspirada, achando que perdi a chance de lavá-la. Mas para minha sorte, era uma blusa azul marinho. Ainda poderia bater junto com as roupas coloridas mais tarde.
Assim que a peguei em mãos, fiquei sentindo seu tecido. Não era muito grosso, sem qualquer estampa e bastante macia. Pelo que observei, não parecia estar suja. Talvez nem precisasse ser lavada... Só para confirmar, aproximei o tecido de meu nariz, sentindo seu cheiro... Não estava mesmo nem um pouco suja. Pelo contrário, deve ter sido usado uma única vez. Mas um cheiro nela estava mais forte. Um cheiro muito bom... Era o perfume do Levi... Aquele que eu pedia emprestado e ele nunca me deixava usar. Eu sempre gostei desse perfume. Quando Levi passava por mim de manhã e eu sentia, ficava quase hipnotizado. Era tão bom... Até desisti de pedi-lo emprestado, pois para mim se tornou o aroma característico dele.
Misturado ao perfume, estava o próprio cheiro do Levi. Um cheiro que eu conheço muito bem. Todas as vezes que ele me carregava em seu colo, quando eu era criança, eu o sentia... bem próximo de seu pescoço e peito. Era um cheiro confortante... e nostálgico... Um dos meus cheiros favoritos.
Quando dei por mim, já estava saindo do quarto do Levi e entrando no meu sem parar um único momento de sentir sua blusa. Creio que eu acabara em transe... Apenas seu cheiro já bastou para despertar minha imaginação. Era como se ele estivesse perto de mim o bastante a ponto de eu poder cafungar no seu pescoço. Sentir sua pele se arrepiar com isso... Então ele vem passando suas mãos em mim... Sussurrando coisas em meu ouvido... E me beijando... em todos os lugares onde sua boca pudesse alcançar.
Senti um grande arrepio relembrando o sonho que tive esta noite... que pareceu tão real... agora sentindo o cheiro do Levi. Minha imaginação não estava pegando leve. Eu comecei a pensar nas coisas mais libidinosas possíveis com o Levi... Pude ouvir certinho sua voz levemente alterada enquanto falava comigo... Seus toques sobre mim que me deixavam arrepiado... e seu beijo que creio eu que seria tão viciante quanto sentir seu cheiro agora...
Vagarosamente fui sentando em minha cama, para enfim deitar aos poucos e encostar a cabeça no travesseiro. Será que isso era certo...? Ter pensamentos pecaminosos e realistas com o Levi...? Seja como for, acho que agora não tem mais volta. Eu estava em transe, não conseguindo parar de imaginar coisas... uma sequência de acontecimentos entre eu e ele. Ambos sozinhos num lugar fechado... Arrancando reações um do outro...
Realmente meu corpo fora tomado pelos hormônios da puberdade naquele momento, pois já estava deslizando sorrateiramente minha mão direita para dentro da minha calça...
Levi
Finalmente eu havia chagado no prédio. Fui pedir comida chinesa por drive-thru e demorou mais do que imaginei. Havia uns oito carros na minha frente e a minha paciência estava prestes a morrer ali. Mas por fim, consegui retornar em casa sem a tolerância ser esgotada.
Chegando em meu andar, com as mão cheias, tive um pouco de dificuldade para encontrar a chave da porta. Ao que notei, pelos barulhos do apartamento vizinho, Hanji já devia ter voltado pra casa e estava tocando sua velha guitarra elétrica. O som saía abafado, mas pude identificar a melodia. Era uma das músicas da nossa época de escola. Bem nostálgico.
Depois de certa dificuldade, consegui abrir a porta e adentrar meu apartamento. Coloquei as coisas na mesa e comecei a desatar aquela gravata que apertara meu pescoço o dia todo.
Normalmente eu anunciava ao Eren quando retornava, mas o apartamento estava meio silencioso agora... Fui até a área de serviços e vi a roupa pendurada lá. Não todas apenas as peças brancas, mas já era alguma coisa. “Oh, bom trabalho garoto... Merece um biscoito.” Ao que notei ele não estava por ali, nem no banheiro, nem na cozinha... Quando adentrei o corredor e passei pelo seu quarto, vi que a porta estava fechada. Com certeza estava aí dentro.
Eu ia bater a porta e chamá-lo, mas parei ao ouvir uns barulhos estranho ali. Era baixinho e abafado, mas dava para escutar algo... Só não pude identificar exatamente o quê. Fiquei quieto e atento ali... Quando o ouvi claramente dar um suspiro alto. A primeira coisa que pensei foi que estivesse passando mal...
– Oe, Eren! – Agarrei a maçaneta e abri a porta sem bater. – Eren, você está bem?
– Argh!! Er... Ahh, L-Levi...!! – Seu tom de voz saiu bastante assustado. Vi o garoto deitado de lado na cama, de costas para mim. Ao que parece, não estava mesmo esperando minha chegada. – Q-que susto, e-eu não ouvi você entrar...!
– Por que está deitado aí?
– Ah... é que eu... fiquei cansado de lavar a roupa e... resolvi deitar um pouquinho...! – Ele falava sem se virar totalmente para mim. Eu apertei os olhos, desconfiado. Eu sei pelo tom de voz que ele estava mentindo.
– Deixa de fazer corpo mole, garoto. Levante-se daí, eu trouxe nosso almoço... que pelo horário está mais para o lanche da tarde.
– Aham... T-tá bom, eu já vou! – Desta vez ele olhou de canto para mim, mas continuou deitado de lado.
Dei de ombros. Sei que quando adolescentes agem dessa forma ao serem pegos de surpresa num momento sozinho, o motivo sempre tem a ver com pornografia. Eu sei disso, já tive a idade dele. Resolvi ignorar. Só de imaginar o que aquele pirralho estava fazendo ali já me deixava com dor de cabeça. Eu estava mais encucado mesmo era com as coisas que Hanji e Erwin me falaram lá no hospital. Seja como for, eu seria bem mais cauteloso e observador hoje com o Eren.
~*~
Já de noite, ambos estávamos mais em silêncio. O restante da roupa fora lavado e devidamente pendurado. Agora, permanecemos na sala. Ao que notei até agora, Eren estava um pouco mais calmo hoje, porém levemente envergonhado. Sempre que o pegava me olhando ele desviava na hora. Eu me mantive na minha indiferença, apenas observando-o discretamente.
Ele agora estava sentado no sofá vendo TV, agarrado à almofada e com as pernas juntas, parecendo uma garotinha adolescente totalmente perdida em seus devaneios. Eu também assistia ao programa, só que da mesa da sala de jantar. Como já era mais de nove horas, preparei uma boa caneca de chocolate quente. Tomava goladas segurando-a da minha maneira característica, pelas bordas ao invés da asa.
Como era sábado, creio eu que ele não dormiria tão cedo. E já que estávamos os dois de bobeira...
– Oe, Eren. – Chamei-o.
– Hã, oi? – Ele agora olhava diretamente para mim.
– Hum... Não está com sono?
– Não...
– Por que não jogamos então? Estou entediado... – Apoiei o queixo sobre a palma da mão.
– Ah... Tudo bem. Quer jogar tranca?
– Hmm... não.
– Truco?
– Não quero baralho. Quero algo mais ativo. – Eu falava com ele na minha indiferença costumeira, mas mesmo assim ele olhava pra mim com cara de quem estava estranhando algo. Está ficando esperto, garoto. – Que tal jogarmos aquele seu jogo do tapete... como é o nome? Twister... – Sugeri.
– Hã? Por que quer esse...?
– Ora, não importa. Fiquei a fim apenas. – Fui o mais natural possível. Pois sei que tentar arrancar informações numa conversa direta com o Eren não funcionava. Nesses assuntos mais embaraçosos sobre relacionamentos ele ficava sem fala, tentava contornar a conversa e depois corria para o quarto. O jeito era ir com calma e de jeito que ele não perceba ser um teste.
– Tudo bem, então. – Eren se levantou do sofá e logo foi para seu quarto buscar a caixa do jogo.
Ao retornar, ele logo abriu-a e ambos estendemos o tapete branco com os círculos coloridos no meio da sala. De momento lancei um sorriso divertido para ele.
– Eren... Olha, pra mim jogos ficam mais interessantes...
– ... quando tem uma aposta? – Ele próprio já completou minha frase. Parecia um pouco mais empolgado agora.
– Oh... Sim. Por isso eu queria fazer uma agora, já que está demonstrando essa empolgação. – Falei de forma desafiadora.
– E-e... O que você quer apostar? – Ele perguntou curioso.
– O que você gostaria de ganhar de mim? – Fiz uma voz mais baixa, num tom convidativo. Já pensando que talvez ele já revelasse algo agora. Dei-lhe a chance de pedir o que quisesse para mim. Eu estava à disposição. Se ele ganhar, realmente faria o que quer que pedisse.
– Er... – Ele levou o indicador ao queixo, pensativo. – Eu... quero que faça a faxina pesada sem mim o resto do ano! – Falou determinado. Eu de primeira arqueei a sobrancelha. Não estava esperando um pedido desses...
– O que, odeia tanto assim limpar a casa? Garoto, eu te dei a chance de pedir qualquer coisa que você quiser de mim... – Relembrei-o. Mas estranhamente ele continuou firme na sua proposta.
– Não. Eu já decidi, é isso que eu quero!
– Hunf... Moleque preguiçoso... – Revirei os olhos.
– E você, Levi?
– Hum... Se eu vencer, você vai dever um favor a mim. – Fui bem resumido. Eren pareceu aceitar numa boa rapidamente. E para minha irritação, estava com um olhar confiante. Apesar que isso era bom, mostra como Eren se descontraí mais de seus problemas quando se entrete num jogo. – A regra é a mesma da última vez, lembra?
– Três rodadas. Quem cair duas vezes primeiro, perde.
– Isso mesmo...
Até para mim, digo que é bom descontrair com esses desafios que nós dois fazíamos de vez em quando. Pois nessas coisas ele não era preguiçoso e mostrava vontade de vencer, posso até dizer que dava gosto jogar com ele, seja Twister, baralho, tabuleiro, qualquer jogo.
Ambos tiramos par ou impar pra decidir quem começaria. Ele ganhou. Logo pegando a roleta do Twister, girando-a.
– Mão direita... no vermelho. – Logo ele ajoelhou-se apoiando ali. – Sua vez!
Também girei a tal roleta. Pé esquerdo no amarelo.
E assim, fomos jogando. Normalmente esse jogo era demorado, pois ambos não caíamos facilmente, claro. Por isso fazíamos apenas três rodadas. Entretanto, jogávamos Twister mais na época que o Eren era criança. Ele era minúsculo, então deixava o tapete, digamos, mais espaçoso. Agora que o pirralho cresceu, ficou enorme. Maior do que eu. De fato deixou o tapete mais apertado... mas por hora estava tranquilo. Eu tive a tremenda sorte de só cair “pé” para mim. Nem usei as mãos ainda, estava em pé e até de braços cruzados, vendo o garoto sofrendo ali em baixo.
Eren já se encontrava todo torto, com os quatro membros já apoiados no tapete. Estava com a barriga pra cima e com as pernas cruzadas, como uma moça. Cada mão numa extremidade do tapete. Pela sua tremedeira, pude ver o quanto seus braços estavam cansando e queria se apoiar melhor. Mas ele tentava ao máximo mostrar que estava aguentando numa boa.
Ficamos um bom tempo mudando as posições. E eu continuei ainda em pé. Num certo momento, Eren acabou de quatro entre minhas pernas. Até dei-lhe um tapinha na cabeça alertando-o a não usar os joelhos para se apoiar. Então ele foi levantando o quadril até quase encostá-lo na minha área mais... perigosa. Confesso que mordi o lábio inferior ao olhar de melhor ângulo o redondo traseiro daquele garoto, bem entre minhas pernas. Era bem cheinho e essa posição fazia com que sua calça contornasse mais suas curvas... deixando bem saliente.
– L-Levi... – Vi que ele estava com uma voz de quem já não estava mais aguentando se apoiar nos braços. – Sua vez!
Eu dei um discreto riso ao perceber que ele estava constrangido com a posição que nos encontrávamos.
– Bem... – Girei a rolete e finalmente caiu pra eu usar a mão. Era a direita no azul. Dei uma procurada por perto, mas não havia um círculo azul livre. Com o corpo do Eren no meio do caminho, me tiravam a maioria das opções... Mas pude ver um circulo azul sem obstáculos bem à frente do garoto, o problema era só alcançar ali... Teria que passar o braço por cima dos ombros dele.
Fui me inclinando pra frente, sem tirar os pés do lugar, praticamente deitando sobre o Eren que estava tremendo um pouco embaixo de mim. Quando meu baixo ventre encostou em seu traseiro, o garoto deu uma murmurada de susto e tentou se afastar indo pra frente. Mas acabou desequilibrando e caindo.
Eu, finalmente tocando o circulo azul, dei uma olhada divertida para o Eren.
– Oh... parece que ganhei.
– Ah, m-mas... mas... I-isso foi golpe baixo! – Protestou o garoto, com o rosto bastante corado.
– Hã? Do que está falando?
– Você... v-você veio e... Chegou atrás e... – Vi que se embaralhou completamente. Estava bastante sem graça. Eu apenas me pus em pé e apoiei as mãos na cintura. Fiquei observando-o. Talvez ele mostrasse uma reação mais concreta agora. Mas ele simplesmente não completou a frase.
– Tanto faz... Ackerman um e Jaeger zero. – Falei provocador. Outra coisa que eu sei que o Eren não gosta, de ninguém, é quando esfregam uma vitória sobre ele na cara dura.
– Eu vou ganhar o próximo!! – Ele rapidamente recompôs a postura.
– Hunf. Veremos...
De começo, na segunda rodada, fui eu quem ficou abaixado desde o começo. Eren manteve-se em pé, tendo a mesma sorte minha de antes. Encontrava-me numa posição muito ruim, praticamente num espacate frontal. Por sorte eu tinha um bom alongamento. Pelo que eu pude notar ao longo da rodada, Eren também tinha um corpinho bastante flexível. Só lhe faltava mesmo resistência de aguentar ficar parado na posição.
Mudamos várias vezes. Ele já apoiou a barriga em minhas costas; passou o braço entre minhas pernas; ficou de quatro de novo, só que sobre mim desta vez. E eu, de barriga pra cima, na direção contrária à ele. Aquilo era praticamente um meia-nove, se estivéssemos devidamente alinhados. Nesse momento, Eren novamente reagiu de forma nervosa diante da posição...
– Tudo bem aí, garoto? – Perguntei num tom irônico.
– Aham... Tô! T-tudo bem... Não vou perder! – Ele falava ainda mostrando firmeza. Mas notei que parecia se conter para não cometer qualquer imprudência...
Depois de um bom tempo, chegou um momento que dificultou para o meu lado. Fiquei agachado nos círculos do canto do tapete e o Eren ficou bem atrás de mim. Perto... Um palmo de distância das minhas costas. Ele, então, moveu sua mão direita até o círculo amarelo ao lado da minha. Isso fez com que ele se aproximasse mais. Eu não me virei para ele, mas notei que estava meio ansioso. O sopro de sua respiração vinha agitada de encontro com a minha nuca... coisa que estranhamente me fez ficar arrepiado. Mas não demonstrei nada externamente. Reações eram as coisas que eu mais conseguia disfarçar... pelo menos, normalmente.
Dei uma respirada mais profunda, pra manter a concentração. Girei a roleta e para o meu azar caiu no circulo verde, que estava... lá longe... Dei uma olhadinha de canto pra trás, em busca de um círculo livre. O mais próximo ainda assim era longe. E o garoto estava no meu caminho. Pois bem, teria que me virar agora nessa situação. Notei que Eren estava com as pernas abertas, deixando uma única passagem entre elas disponível. Era minha perna direita que eu usaria, então creio que iria conseguir. Sorrateiramente deslizei-a ali... Entretanto, não deu pra evitar roçar de leve a parte posterior da minha coxa na região mais sensível dele ali... Ouvi Eren dar uma suspirada na hora, para logo em seguida fechar a própria boca com força.
– O que foi isso...? – Perguntei, só para ver sua reação.
– Hã? Isso o quê...? – Ele se fez de desentendido. Pirralho medroso... Resolvi dar de ombros.
Depois, em sua jogada, ele foi um pouco mais pra trás para alcançar o outro círculo com a mão esquerda, afastando-se um pouco. Na minha vez, de novo, caiu mão direita. E bem no verde, lá perto de onde estava meu pé agora.
– Vish... – Foi só o que falei ao tentar imaginar como faria para chegar lá. Mesmo sabendo que teria que torcer todo meu tronco e esticar bem o braço pela lateral da cintura do Eren até alcançar o círculo, eu o fiz sem hesitar na esperança de conseguir. Mas acabei por escorregar e cair sobre a perna esquerda do garoto... Droga...
– Aeee!! Eu venci!! – Eren ergueu o braço, vitorioso, sem sair de sua posição. Eu me coloquei enfim sentado no chão, coçando a cabeça e dando um breve suspiro. Vi que o garoto estava com as bochechas levemente avermelhadas. Mas ele manteve seu sorriso para disfarçar qualquer constrangimento que tivera durante aquela rodada, visto que fizemos umas posições bastante sugestivas.
Pelo que eu estava analisando, o garoto apenas reagia com uma aproximação mais intensa ao corpo de outra pessoa. Ou melhor... de outro homem. Agora só... mais um empurrãozinho pra ele confirmar... se era a mim que ele queria... Tenho certeza que, mesmo sendo gay, se fosse realmente a fim de outro rapaz que não eu, ele não teria tanta coragem de avançar sobre mim. Já que, para ele, sei que sou uma figura paterna em sua vida. Mas se ele realmente está de olho exclusivamente em mim... tal como está demonstrando até agora... bem, eu ainda preciso confirmar isso de fato. Quero a prova mais concreta que eu conseguir...!
– Bem, parece que empatamos garoto. – Comentei, dando meu sorriso de canto.
– Agora, a rodada decisiva! – Eren continuava no seu sorrisinho confiante. Pelo que deu pra notar, ele voltava a agir normalmente quando estava um pouco mais afastado de mim. No caso então... vou forçar uma aproximação casual nessa última rodada. – O perdedor começa...!
– Hunf, pare com essa expressão irritante de vitória... Você só deu sorte agora.
– Não. Levi que está velho para isso, não é? – Ele fez sua expressão sarrista, que despertou aquela veia em minha testa a pulsar nervosamente. Garotinho atrevido... Agora ele ia ver... Vou judiá-lo.
– Vou te mostrar o velho...! – Falei em tom mais ameaçador enquanto girava a roleta do jogo. Comecei bem com “pé” primeiro... Posicionei-me numa das extremidades do tapete, bem paralelo ao Eren. Podendo assim, olhá-lo de frente.
Na vez do Eren, ele também caiu com pé. Ambos conseguimos ficar em pé uma boa parte do tempo, apenas, bem dizer, caminhando pelo tapete do jogo. Até cair uma “mão” para o menino. Tinha algum espaço à sua frente mas ele preferiu apoiar-se no círculo de trás, finalmente agachando-se. Dei uma verificada de lado pra ver se ele estava sentado, já que estava bastante desconfortável dependendo apenas de uma mão pra sustentar o corpo. Mas não, ele não estava roubando... Melhor pra ele, sabe muito bem o que lhe acontece quando trapaça. Olhava discretamente para suas expressões, via seus olhos sobre mim novamente e continuava levemente corado. Eu estava começando a achar que era febre ao invés de vergonha. Como consegue ficar vermelho assim tanto tempo...? Ao notar meus olhares, ele fitou o chão.
Girei a roleta novamente e caiu “mão” para mim também. Haviam alguns círculos disponíveis atrás de mim e uma fileira na frente... mas eu preferi aquele que estava bem atrás do Eren.
Agachei-me vagarosamente e, sem nem mover os pés do lugar, inclinei para frente, praticamente de encontro com o corpo do garoto, que, vendo meu movimento, foi ruborizando ainda mais o rosto.
– Oe, oe, Levi!! O-onde você vai...?! – Pude ver novamente como ele ficara nervoso com a minha aproximação.
– Ué... Vou colocar a mão no verde. Não viu a roleta?
– M-mas...!
Nem dei ouvidos para qualquer argumento que falasse, fui avançando à frente. Como Eren estava com as pernas meio abertas, um pé na fileira do vermelho, outro na do verde, eu pude me encaixar entre elas, praticamente encostando meu peito ao dele, chegando meu rosto ao lado do seu, próximo à sua bochecha, enquanto levava meu braço esquerdo por debaixo do dele até finalmente minha mão tocar o círculo.
Desta vez fiz jeito de deixar nossos corpos bem juntos. E... confesso que por um momento dei uma paralisada me perguntando seu não estava indo longe demais com meu teste... Senti-me levemente culpado por fazer esse tipo de pressão no Eren, justo agora que ele estava tendo distúrbios emocionais da puberdade. Mas eu sentia que tinha que fazer isso. Eu queria mesmo confirmar se Eren Jaeger estava gostando de Levi Ackerman.
Na hora, o ouvi apenas dar um rápido e baixo murmúrio ao sentir nossos corpos se roçarem, como se estivesse segurando uma reação maior. Ele imediatamente desviou o rosto para o lado oposto do meu. Tremia bem mais agora.
– O que foi, Eren...? – Falei bem baixinho devido minha proximidade de seu ouvido naquele momento.
– Hã...?! – Vi que ele estava bem fora de foco.
– Por que você está tremendo...? – Usava uma voz mais manhosa. Um tom que julgo bastante convidativo à revelar o que for que o estiver incomodando.
– Ah... N-não tô tremendo! – Ele agora começava a agir como criança de novo, negando até a morte aquilo que está óbvio.
– É porque estou perto de você...?
– N-n-não! Não é nada!! – Eren fechou os olhos com força e manteve-os assim, como se quisesse fugir da conversa.
– Eren... – Com a mão livre, agarrei seu pulso. Eu confio bem na minha força e sei que se ele tentasse correr para o quarto, como sempre faz, agora eu conseguiria impedir. Entretanto, ele não demonstrou intensão alguma de fugir... Parece que agora virou homem e encararia a situação. Mas continuava com seus receios... Aproximei meus lábios de seu ouvido astutamente. – Eren, por que você anda estranho esses dias...?
– Ahn... E-eu... Eu não sei... – Ouvi um gemido ali no meio de sua fala?
– Por que você fica tão apavorado quando eu me aproximo assim de você...? – Eu continuava chegando mais e mais perto de seu ouvido, a ponto de meus lábios roçarem levemente ali a cada palavra pronunciada. – Você está escondendo algo... Quero saber o que é, agora...!
Eren deu um gemidinho mais audível conforme eu cochichava pra ele.
– Levi... Hum... N-não faz isso... – Eren começava a se contorcer em baixo de mim. – Por favor... Levi...
– Eren! – Afastei-me levemente para poder olhá-lo de frente. – Olha pra mim enquanto eu falo com você, pirralho!
Dito isso, de forma bastante tímida, Eren virou seu olhar para mim. Estava sem jeito, sem o que dizer. Pude notar que seus olhos estavam diferentes agora...
– Me fala... – Continuei no meu tom manhoso para não assustá-lo mais ainda agora, que nossos rostos estavam bem de frente um para o outro. – Eren... Quando você começou a me olhar dessa forma...?
– Hã...? D-dessa forma como...?
– Você sabe muito bem como. – minha última frase saiu num sussurro.
Eren ficou sem resposta por um momento. Apenas se manteve me fitando com o olhar entreaberto... Quando ele repentinamente saiu de sua posição de jogo, apoiando-se melhor nas próprias pernas no tapete e avançando à frente; segurou os lados de meu rosto com ambas as mãos e, assim que caí deitado de costas no tapete, Eren juntou sua boca à minha de forma ávida.
Eu, de momento, fiquei com os olhos arregalados, totalmente perplexo. Minha cabeça ainda estava processando o que estava acontecendo. Eren... o pirralhozinho... avançou em cima de mim e me beijou... ainda estava me beijando! Apenas um contato tímido de início... Ele movia seus lábios de forma inexperiente, mas ao mesmo tempo afobado e cheio de curiosidade. Eu não conseguia nem pensar direito na hora... Pude até sentir sua língua, um pouco descontrolada, roçando em minha boca, querendo adentrá-la. Eu ainda nem me movi direito pra corresponder-lhe, pois eu tive uma sensação estranha que arrepiou todo o meu corpo. Eu continuei meio em choque pela sua atitude repentina... Confesso que eu não esperava mesmo que ele fosse fazer isso. Estava sendo todo submisso até agora...
“É Levi... Vai brincar com o gatinho achando que é inofensivo... quando vê, já te atacou...”.
Depois de passar o choque, me permiti corresponder-lhe o beijo... Estava ainda receoso, mas a sensação daquele toque me fez esquecer as coisas... esquecer quase tudo... Só ficava me relembrando de sentir cada vez mais o gosto da boca daquele garoto...
Até soltei seu pulso, que eu segurara forte até então.
Abri um pouco os olhos, vi que ele ainda estava com os dele fechados e pelo visto totalmente em transe... Ele também não via nada ao seu redor, não estava pensando em nada. Apenas seguiu seus instintos do momento e me atacou quando não aguentou mais.
Agora que já passara sua afobação, ele fez movimentos mais lentos... ainda inexperientes, mas até que estava indo bem. Eu não entendia direito, mas eu continuava com aquela sensação estranha correndo pelo meu corpo... Era como se esse beijo... o beijo desse menino fosse tão familiar quanto a palma da minha mão. Foi por esse motivo que eu quis senti-lo mais também...
Eu ouvia Eren dar uns gemidos abafados no durante, coisa que... confesso, me deixou louco.
Ele manteve as mãos em meu rosto, não as moveu dali nenhum momento... o que me faz pensar que a única coisa que ele estava mesmo querendo era um beijo, nada mais. Sendo assim... eu tentei conter minhas mãos. Estava quase o tocando... querendo apalpar o seu corpo. Agora sim eu estava para sair do meu controle e... quase pra arrancar todos os tecidos do caminho e fazer de tudo com aquele menino ali e agora, na sala.
Mas um pingo do meu juízo me fez dar uma despertada para a realidade e perceber que estava me deixando cair em tentação. Vendo o que eu estava prestes a fazer, separei rapidamente minha boca da dele. Aproveitando para retomar o fôlego. Ambos respiramos errado durante o beijo... Eren por ser inexperiente e eu por ter sido pego totalmente de surpresa. Continuei deitado e Eren sobre meu corpo. Massageei a testa, ainda bem avoado.
Ao abrir os olhos e me fitar foi que o garoto de fato tomou consciência do que acabara de fazer. Logo arregalou seus olhos.
– Ah... Er... – Vi o quanto ele mesmo ficou chocado e sem o que dizer a mim. – Ahn... L-Levi... Eu... eu não ia...
– Ei, Eren... – Eu ia tentar acalmá-lo, mas ele nem deu chance.
– E-eu juro... Eu... M-me desculpe... Me perdoe, senhor! – Foi tudo o que conseguiu dizer. Rapidamente ele apenas se levantou de cima de mim sem nem querer mais me encarar, correndo em direção ao seu quarto. De novo.
– Não... Eren! Espere...! – Ia segurar seu braço, mas dessa vez não deu... Pensei em simplesmente ir até ele e tentar conversar, mas o problema é que não era só o Eren, eu também ainda estava chocado com o beijo. Resolvi então só... ficar por ali, deitado no chão mesmo. Aquela sensação estranha no durante ainda continuava...
“Por que diabos ele me chamou de ‘senhor’?”
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