Reencarnação
23 Passado amargo
Notas iniciais
Levi
Respirei fundo e tentei ao máximo manter a calma. Um assassino muito habilidoso estava dentro de minha sala com uma arma apontada para mim. Realmente uma situação nada confortável. Ainda mais visto que eu acabei parando no centro do cômodo, longe da minha mesa, longe da janela, longe da porta, longe de qualquer objeto que eu pudesse usar a meu favor naquele momento. Estava indefeso... O jeito era simplesmente ficar parado e esperar pra ver o que Kenny faria.
Meu choque ainda era eminente, embora eu não demonstrasse por fora. Descobrir que o velho estava vivo e eu me encontrar numa condição próxima de perder a vida era desesperador. Milhões de pensamentos se passaram pela minha cabeça, uma menos agradável do que a outra. Se fosse uma pessoa fraca do coração em meu lugar, provavelmente já teria tido um ataque cardíaco, mas eu me mantive firme, sem tremer, sem demonstrar medo...
– Deve estar se passando milhões de coisas na sua mente agora, não? – O tom irônico na sua voz permanecia sem o mínimo de alteração. Eu nada respondi. – Aposto que está em choque de ver que estou aqui, mais vivo do que nunca, não é?
Mordi o lábio inferior. O infeliz era tão esperto quanto eu me lembrava... O que ele faria comigo?
– Oh, está querendo entender como estou vivo, acertei?
Por hora, eu me recusava a responder qualquer coisa.
– Bem, eu vou contar... – Ele começou a andar... O som de seus passos abafados pelo tapete ainda eram audíveis devido ao silêncio absoluto do lugar. Kenny tomou cuidado em manter-se a uma distância boa de mim, afinal, já sabe que se chegar muito perto, eu consigo tirar-lhe a arma. – Mas primeiro de tudo... Meus parabéns, Levi! Você bolou um excelente plano para me matar naquele dia, como esperado de um discípulo meu. Eu jamais esperaria uma emboscada como aquela! Era para ser um assassinato perfeito... – Ele mostrava orgulho como também rancor na fala. Mordi mais ainda o lábio ouvindo suas palavras, lastimando. – Entretanto... você cometeu o pior erro que um assassino pode cometer: Não verificou se a vítima estava realmente morta... Com isso, você me decepcionou de todas as maneiras, Levi. Se ao menos tivesse feito o serviço direito, talvez eu até perdoasse a sua traição...
– O único que traiu foi você!! – Desta vez eu me exaltei. Já não estava suportando ouvir tudo aquilo. Meu passado estava voltando para me assombrar... um passado que eu já pensei ter me livrado de vez.
– Oh... Você não está em posição para revidar nada, pirralho. – Ele continuava a andar, contornando a sala bem devagar. – Eu criei você, alimentei, dei um abrigo e te treinei até você se tornar um homem. E como você retribui? Me matando... Matando ao seu criador!
– Tsc... Você está aí agora, em pé e cheio de vida... – Comecei a falar ironicamente também. – Quer dizer que você não precisa ter rancor algum de mim. Afinal, eu não te matei!
– Ora, mas essa é só a ponta do iceberg, Levi... – Ele foi indo à minha mesa, sem tirar a mira do revolver da direção de minha cabeça e ali sentou-se, apoiando os pés sobre a mesa. Agora sim pude olhá-lo na cara... Seu rosto não havia mudado muito, apenas lhe apareceram mais rugas perto dos olhos e ainda mantinha o costume de usar um chapéu de abas retas. Parecia zombar da minha cara. Eu rangia os dentes... doido para escapar desse maldito, mas eu ainda estava em desvantagem. Limitei-me a apenas continuar ouvindo-o e respondendo. – Veja... Eu estava vivo, porém acabado. Você me deixou à beira da morte naquele dia, mas eu não morri... E para minha felicidade, a polícia apareceu... Oh, sim... E eles tinham uma ficha minha com meus crimes e mais uma foto me identificando, ainda por cima...!! Sensacional isso, não é?
– ... – Eu apenas engolia seco, evitando desviar o olhar dele.
– O detalhe é que... eu sempre fui muito bom em escapar sem deixar pista alguma, lembra-se?
– Hm... ...
– O que significa que, se a polícia me pegou, foi porque alguém me entregou e eles puderam assim me localizar. Alguém que soubesse de cada crime meu e que também tivesse minha confiança...
– Tsc...
– Meus parabéns de novo, Levi. Eu fui preso! Condenado à prisão perpétua! Com isso, eu não sei se no final, tudo saiu como você planejou ou se foi um acidente... O que você queria afinal, hein Levi?
– ... – Novamente me limitei só a ficar olhando-o firme. Eu apertava os punhos pensando no que eu poderia fazer naquele momento...
– Me responda logo! – Ele abriu um sorriso divertido. – Seu tempo está acabando. Daqui a pouco sua secretária vai voltar do horário de almoço, estou errado...? Acho que você não ia gostar que ela ficasse sabendo deste nosso encontro, não é? Afinal... eu não hesitaria em fazê-la de refém até você falar... E eu só saio daqui depois que eu concluir minha conversa com você.
– O que você quer saber?! – Já estava para perder a cabeça. A minha situação estava ficando cada vez pior. O hospital ainda estava em funcionamento. Todos fazendo suas tarefas normalmente. E mesmo nessa condição, Kenny conseguiu chegar até mim facilmente e ainda me ameaçar... Eu não sabia nada do que ele pretendia. Pode ser qualquer coisa! Mas eu tinha que fazer de tudo para deixar Petra e os outros fora disso.
– Quero saber o que você queria fazer comigo, afinal de contas. Me matar ou me mandar para a prisão? Qual desses era o seu objetivo? – Ele foi direto, não saindo de sua posição despojada sobre meu assento.
– ... – Eu engoli seco. Odiava quando me faziam pressão daquela forma. Mas como estava em posição de desvantagem, o melhor agora era mesmo responder-lhe. – Eu ia te mandar para a cadeia... Esse era o plano inicial. Um plano só meu e eu faria tudo sozinho. Denunciei vários de seus crimes à polícia e ia fazer jeito de te pegarem... Isso levou muitos meses...!
– Hum... E fez tudo isso por meses sem que eu reparasse...? Muito bem, Levi...! – Ironizou de novo, o que me fez ficar com a veia pulsando...
– Você percebeu sim!
Nesse momento ele sorriu de forma debochada.
– Hunf... Prossiga com a explicação.
– Argh... Com os meses se passando, mais eu via o quando você é perigoso, e que mesmo preso você daria um jeito de escapar... Então achei que só com a sua morte que os seus terrorismos terminariam.
– Oh... Então temos aqui um justiceiro! – Ele zombou. – E quem é você pra julgar que eu estou sendo o “errado” dessa história? Aquele era o meu trabalho! Eu sustentava você com isso.
– Ora... – Apertei os olhos enquanto encarava seu rosto, já puto da vida. – Você merece todas as punições possíveis! A quantidade de pessoas que você matou em toda a capital foi assustadora, eu tinha que te parar!! Você é a pessoa mais perigosa que eu já vi na minha vida. Seria ideal que você simplesmente fosse apagado da face da Terra!
– Oh, sim... E você nem pensou duas vezes em matar outro ser humano, não é? Hehe... E depois de matá-lo, você ainda rouba o sobrenome dele para si, achando que vai começar uma nova vida em outro lugar? Me poupe... Você se acha o bonzinho por ter feito isso, mas tem a mente de um assassino, Levi! Isso você não pode negar.
– Cale a boca! Eu não fui matar por dinheiro como você. Fui matar porque era necessário... E no final eu nem matei. Não sou um assassino!
– Oh, como pode dizer uma coisa dessas? – Ele levantou-se de minha cadeira e foi caminhando até perto da janela. Seu braço parecia não cansar nunca de segurar aquele revólver. – Você foi o meu maior cúmplice. Eu te achei na rua e te ensinei tudo o que você sabe. Quem vigiava os itens roubados? Quem acobertava meus assassinatos ou crimes com convencimento infantil à polícia? Quem sempre estava me assessorando com minhas torturas? – Ele riu discretamente. – Foi tudo você... Levi Ackerman. – Eu já estava para fazer alguma imprudência ali. Kenny sabia mexer com o psicológico e deixar a vítima sob seu controle. Eu me segurava para não correr até ele e golpeá-lo da forma como merecia, mas isso seria suicídio. Sei que ele não hesitaria em atirar em mim...
– Pare com isso... – Abaixei a cabeça. – Pare com isso...!
– Oh, não te contei a melhor parte! Meu tempo na prisão perpétua isolada numa ilha... Ah, sim...! – Ele começava a se expressar de forma mais teatral, como se zombasse de mim. – Eu fiquei lá por quase dez anos, Levi. Hehehe... Dez míseros anos! E digo que não foi muito bacana ficar lá. Era tedioso. Era humilhante. E só havia idiotas lá dentro! Sabia que lá tinha a fama de ser uma prisão perfeita que nunca deixara um único preso escapar? Uma pena eu estar lá para abaixar esse recorde...
Quanto mais ele falava, mais medonho ele parecia. Ele sempre contava histórias surpreendentes de como conseguia se safar das piores situações possíveis e agora não estava diferente. Eu olhava de canto para o relógio, verificando se dava o horário de almoço da Petra. Eu não podia deixar ninguém ficar sabendo sobre o Kenny.
– ...Eu passei esses dez anos, cavando uma passagem para fora da prisão sem que percebessem... Hunf. Foi muito trabalhoso, mas deu mais certo do que eu imaginei... E perdi dez anos da minha vida fazendo isso... Tudo graças a você... meu filho...
– Eu não sou seu filho!
– Oh, mas agiu como tal antes de me esfaquear pelas costas... Ah, e eu levei mais alguns anos pra te achar também... Percorri outros países por toda Europa e finalmente o encontro nesta cidade... – Ele se aproximou um pouco mais. – Só vim até aqui, neste momento, no meio de seu trabalho, para lhe dizer... Olho por olho, dente por dente, Levi...
– O que vai fazer então? Me matar? – Enfrentei-o de modo ousado. Uma atitude um tanto imprudente e que poderia me custar caro...
– Hunf... Te matar...? – Ele riu. – Levi... Se eu quisesse mesmo te matar, teria feito quando você entrou nesta sala. Mas não... Isso não seria nada comparado ao sofrimento que você me fez passar por uma década inteira naquela maldita prisão! – Suas expressões eram bem sádicas. – Então... Eu prefiro apenas te fazer passar medo... sentir o terror e a insegurança de saber que eu estou por perto, cometendo mais e mais crimes a meu favor...
– Você é idiota ou o quê?! A polícia vai te encontrar!
– Oh, óbvio que não. Esqueceu que eu nunca deixo rastros...? – Ele teve a ousadia de se aproximar mais, mas ainda não era uma boa distância para eu chutar seu revólver pra longe. – Ninguém me pegará a menos que alguém me denuncie. E lhe garanto, o único que sabe de mim é você... E se ousar entregar-me às autoridades ou pedir qualquer tipo de ajuda, alguma coisa muito ruim pode acontecer com seu precioso garotinho... – Nesse momento meus olhos se arregalaram, pasmos. – Isso, aquele mesmo de olhos verdes... Como é o nome dele? Eren, não é...?
– Você... Era você que estava nos seguindo há meses! Aquela sombra, aquele vulto, aquele cara encapuzado... Eram todos você! – Agora fiquei mais inquieto do que nunca. Se ele me seguia, quer dizer que agora devia ter aprendido minha rotina, até sabia do horário de almoço da Petra.
– Juro que até me impressionei. Não era pra ninguém ter me notado enquanto te observava... Mas eu não esperava menos de você, meu discípulo.
– Seu maldito...
– Haha, você era muito forte, Levi! Era independente. Um adolescente quase invencível... Mas aí, você fez amigos. Eu lembro de ter lhe ensinado a não fazer amizade, pois isso ia lhe tornaria fraco. Olhe a sua situação agora! Fez um leque de reféns para eu escolher... – Ele riu de forma nojenta. Esse velho desgraçado... – Ouse me denunciar, que na hora seu garoto sofrerá as consequências. Não só ele... seus outros amigos também. – Ele sorria enquanto ia calmamente em direção à janela. – Oh, parece que deu a minha hora...
No mesmo instante, ouvi som passos de quem usava um salto baixo e já olhei para a porta. Com certeza era Petra voltando... Ela não podia saber de nada do que estava acontecendo. Olhei de volta para Kenny, mas ele havia sumido. Corri até a janela e olhei para o lado de fora, por toda a lateral do prédio. Mas não havia nada. É como se ele tivesse sido evaporado, pois não fez nenhum ruído. Isso só mostrava o quanto ele estava mais perigoso agora. Massageei as têmporas, apoiando-me no parapeito da janela. É a pior coisa que poderia acontecer... O que eu faria...? Se eu não fizesse absolutamente nada a respeito, Kenny então não revidaria? Aquele cara também é bom em blefar, o que tornava a indecisão do que fazer muito maior...
Respirei fundo novamente e tentei me acalmar. Acabei de passar por um choque, mas tentarei manter a postura na frente de todos.
– Senhor? Já voltei! O que está fazendo? Está se sentindo mal...? – A voz de Petra estranhamente foi tranquilizadora para meus ouvidos naquele momento. Virei-me e fui até minha mesa com a indiferença estampada no rosto. Afinal, eu não podia demonstrar nada sobre a visita inesperada de Kenny...
– Está tudo bem Petra... Não precisa se preocupar, só fui tomar um ar fresco.
– Ah, sim, mas tome cuidado, pois o vento está bastante forte hoje, senhor. – Ela, com um sorriso, educadamente sentou-se em sua mesa de recepção, retomando suas tarefas.
Eu dei mais um longo suspiro, aliviado e inquieto ao mesmo tempo. Pois o que estava me encucando agora era o Eren... Kenny pareceu dar uma certa ênfase nele...
~*~
Eren
Eu fiquei distraído por um momento. Tive uma sensação meio estranha... Um desconforto que me fez até parar de prestar atenção no jogo. Por um momento achei que fosse fadiga, mas não... Me veio o Levi na cabeça de repente. Lembrei-me como o fim de ano era mais lotado de serviço pra ele fazer. Só agora pensei que eu talvez pudesse ajudá-lo em alguma coisa para que não se sobrecarregasse tanto. Isso ia lhe fazer mal...
– Eren!! Cuidado!! – Armin avisou de lá da arquibancada.
– O quê...? – Quando dei por mim, já tinha levado uma bolada bem no meio do rosto. Forte o suficiente pra me fazer cair sentado no chão.
– Hunf. Se ficar distraído no meio do tiroteio, vai levar bala, fedelho... – Minha visão ficou meio atordoada devido à bolada, mas vi perfeitamente a silhueta de Annie, parada bem de frente para mim.
– Annie... Você que me acertou...? – Massageei a testa. Ô mulherzinha forte.
– Sua nanica... Estamos num jogo escolar, não numa missão de guerra. – Mikasa bufava para a loira. – Você podia tê-lo machucado.
– Você também podia ter machucado um monte de gente aqui, brutona.
– Vou te mostrar a brutona...!
– Mikasa, não! – Mesmo de longe tentei fazê-la não brigar com a Annie, ou acabaria causando um acidente de verdade por aqui. Até porque eu não estava machucado. Sou homem, aguento qualquer coisa. Claro que eu suportaria uma mísera bolada. Mas o sinal do fim da aula tocou e não pudemos terminar o jogo, o que foi uma pena, pois se não fosse pela minha distração, eu ia acabar com todos eles.
Era o final da aula de educação física. Fizemos um jogo de “queimado”. É sempre bem emocionante jogar isso com o pessoal da minha sala, pois acaba virando uma guerra. Entretanto não jogamos com times, era cada um por si. Quem pegasse a bola tinha que jogar sem sair do lugar que a apanhou. Quem fosse atingido, ia pra arquibancada. Corríamos de um lado para o outro quase sem parar. Foi bem cansativo. Ao final, restaram na quadra apenas eu, Mikasa, Annie, Ymir, Bertholdt e Reiner. Demoramos para decidir quem seria o vencedor, mas no final, acabei levando uma bolada da Annie.
– Ahh... – Mikasa, agora acalmada, deu um suspiro, enxugando o suor do rosto com as costas da mão. Mostrava-se bem cansada. – Bem, isso porque ainda vamos ter ir a pé até em casa...
– Nem fale... – Armin se juntou a nós trazendo toalhas de rosto. E ainda se mostrava levemente ofegante. Mas daria um desconto, ele não era tão fisicamente preparado pra aguentar tanto tempo numa atividade cansativa como “jogo de queimado”. Tanto que ele foi o primeiro a sair. – Eu estou quase morrendo... imagina andar até em casa ainda... – O loiro se lamentava.
– Tudo bem, Armin. – Mikasa o acalmou. – Vamos parar numa lanchonete no caminho e tomar um daqueles sucos enormes.
– Uh, boa ideia! – Ele rapidamente se animou.
...
Antes de irmos pra casa, Armin correu para o banheiro desesperadamente. Ele devia estar bem apertado. Aproveitei para encher minha garrafinha d’água enquanto o esperava. Eu cansei demais e com certeza sentiria sede no caminho de volta pra casa. Bebi mais várias goladas refrescantes daquela água. Nesse meio tempo, me surgiu saindo do banheiro alguém que eu procurei evitar o dia todo...
– Jaeger... – Ele já usou tom de descaso e passou reto por mim, indo guardar o uniforme de educação física em seu armário.
– Kirschtein... – Também falei com descaso, mas ele ignorou. Fiquei pensando na conversa de ontem com o Armin. Ainda não creio que esse cara tenha uma queda por mim. O loiro é quem estava louco por pensar uma coisa dessas. Mas fiquei encarando-o, sem muita discrição, ele logo olhou feio pra mim por isso.
– Tá olhando o quê, Eren? Por que não tira uma foto?
– ...!! – Realmente eu não consegui responder-lhe à altura na hora. – Er... Sua cara... cada vez que eu olho, mais eu me lembro de um cavalo, impressionante...
– Quê...?! Vai cuidar da tua vida! – Jean então sentou-se no banco em frente aos armários, cruzando os braços, e ali permaneceu. Eu arqueei a sobrancelha.
– Então sai daqui. O que está esperando? – Falei grosso.
– Estou esperando o Marco. Por que você não sai?!
– Estou esperando o Armin!
– O loirinho? Eu não o vi lá no banheiro.
– Ele está ali, usando o mic... Ué. – Olhei para dentro do banheiro e realmente não havia ninguém nos mictórios. – Pra onde ele foi?
– Hunf... É óbvio que está inventando só para ficar por perto.
– Mas, hein?! – Agora eu fiquei indignado. – O que quer dizer com isso?!
– Argh, você é muito tapado, Eren... Eu sei que você é gay mesmo! E deve ficar secando todos os caras por aí. Mas eu tô esperto contigo!
– ...!! – Novamente mordi os lábios, vermelho de raiva. Quem o Jean pensava que era pra achar que eu teria intenções com ele? Eu estava mais puto do que nunca. Tudo porque ele leu minha conversa com o Levi. Eu tinha que conseguir uma informação comprometedora dele pra ficarmos quites. Se Armin estiver correto, Jean também é um... gay enrustido e provavelmente não tenha percebido. Eu poderia chantageá-lo muito com um fato desses nas mãos, mas eu tinha que confirmar antes. Por hora, apenas respirei fundo e tentei manter a calma.
Ficamos num breve silêncio. Ambos esperando os respectivos melhores amigos aparecerem... O que demorava mais do que eu pensei. Eles não apareciam nunca... Até que me veio uma ideia... Dei uma verificada discreta por todo o vestiário, confirmando que só havia eu e Jean ali. E ele se encontrava virado de frente a um enorme espelho, que refletia a nós dois.
Mesmo não crendo que faria uma coisa embaraçosa dessas, eu retirei “casualmente” minha camisa, fingindo apenas me trocar. – Percebi que ele deu uma olhada, mas logo desviou. Isso ainda não confirmava nada. Então, peguei minha garrafinha d’água e joguei em mim mesmo, especialmente sobre meu rosto e peito. Deixei que escorresse por pelo meu corpo. Balancei os cabelos, agora bem molhados e fiquei de olho na reação do Jean... que agora arregalara os olhos, fitando-me.
– S-seu...! Seu...!! Eu não sou gay, se é que está pensando isso! – Ele se levantou de forma inquieta, se afastando de mim o quanto deu.
– Hã? Eu nunca disse isso. – Falei indiferente.
– M-mas você...!
– O que deu em você, Jean? Começou a gritar de repente, se controla...
– E-eu não...! Marco! Por que está demorando tanto?! – Gritou para o banheiro de forma mais desesperada.
– Tá bem. – Eu, por outro lado, já notava o quanto estava conseguindo manipulá-lo. – Não precisa ficar assim, eu não disse nada disso... – Aproximei-me dele e passei o indicador de leve em seu queixo. Pra completar, lambi os lábios, lançando-lhe um olhar mais sensual. – Né, Jeanzinho...
Ele ficou pasmo e bastante corado. Nem conseguiu ter qualquer reação momentânea, simplesmente ficou paralisado e mudo. Meu braço ficou levemente encostado em seu peito e notei seu coração mais acelerado.
– Aha!! Eu sabia!! Você também é gay, Jean! – Falei, rindo de deboche.
– A... – Ele continuou engasgado com as palavras. Isso mostra que fora mesmo descoberto. – E-eu não sou gay!! Seu merdinha! Isso aqui foi...Er...!
– Oi, Eren, voltei! – O loiro logo saiu do banheiro, acenando.
– Armin! – Jean rapidamente deu um tapa em meu braço para retirar de seu peito. Nesse pouco tempo pude notar os batimentos dele acelerarem mais depois que Armin apareceu.
– O que estão fazendo? – Perguntou inocente.
– Ah, o cara de cavalo confessou, Armin! Ele é homo mesmo! – Ri enquanto falava.
– Hã? – Armin arregalou os olhos.
– Cala a boca, Jaeger. Isso é mentira!
– Então por qual outro motivo ficou vermelho assim quando eu passei a mão em seu rosto?
– Eu fiquei vermelho de raiva!
– Seu coração também estava acelerado.
– M-mentiroso!
Agora foi a vez de Marco sair do banheiro e nos encontrar.
– Gente que barulheira é essa? — Perguntou o sardento, também inocente.
– Marco, fala pra eles que eu não sou gay!
– Hu? Hum... – Marco olhou estranho para o amigo, mas logo se virou para nós dois. – Ok, então... “O Jean não é gay”. – Ele fez o sinal de aspas com os dedos, o que fez a gente rir.
– Que dedos são esses aí? Fala direito, Marco! — Jean protestou.
– Mas estou falando sério.
– Argh...! – Jean então saiu bufando do vestiário. – Você vai embora sozinho, Marco!
O sardento deu um riso discreto antes de segui-lo, e deu tempo dele cochichar para nós.
– Ele tá na TPM, não liga não...! – Fez um tom brincalhão. Já Armin, ficou me olhando torto.
– Não acredito que deu certo. – Ele riu. – Mas não totalmente, ele não falou explicitamente que era...
– Não interessa, eu conheço essas reações de quem tá com uma atraçãozinha por outra pessoa... – Falei firme.
~*~
No caminho de casa, ainda passei um tempo rindo com Armin sobre o Jean. Bem, na verdade o loiro não ria tanto. Ele mostrou ter um pouco de pena do cara de cavalo agora. Mikasa ouvia, mas ficava indiferente como o usual.
O clima estava mais frio aqui, fora do colégio, mostrando de fato o início do inverno. Meu corpo estava aquecido ainda, então fechei minha jaqueta pra não sofrer nenhum choque térmico. Não andamos muito, passamos por apenas um quarteirão quando então fomos surpreendidos por uma buzina. Eu levei um sustinho, mas logo vi que era... o carro do Levi?
– Levi! – Corri até ele, sorrindo. Mikasa e Armin pararam de andar e ficaram a me esperar. A mestiça olhava fixamente para nós.
– Eren... – Ele puxou o freio de mão e ligou o pisca-alerta.
– O que faz aqui? Erwin te liberou mais cedo?
– É... Então vim te buscar... – Respondeu. Notei que ele estava meio suado... Será que ele saiu com pressa para chegar aqui a tempo?
– Hehe, Não precisava ter vindo correndo assim. Eu já estava indo a pé pra casa com Armin e Mikasa como sempre. Você podia ter ido direto pra casa com mais calma depois...
– Não. Eu quis vir mesmo... Entra no carro. – Assim, destravou as portas. Eu o olhei meio torto.
– Está tudo bem com você, Levi...?
– Sim, está... Entra logo no carro, Eren. Não posso ficar parado aqui muito tempo... – Ele disse com razão, afinal, parara numa rua estreia que mal passavam dois carros paralelamente.
– E Mikasa e Armin...?
– Dou carona para os dois.
– Oh, ok então! – Virei-me para meus amigos. – Gente, podem vir, Levi dá uma carona pra vocês!
– Eu aceito! – Armin nem pensou duas vezes. Ele estava esgotado devido ao seu esforço exagerado para acompanhar o ritmo do jogo de queimado hoje, então aceitou a carona de primeira. – Er... N-não será muito incômodo, não é, tio Levi? Q-quer dizer... s-senhor Levi! Não... Er... L-Levi...!
– Claro que não ligo, cabeça de cogumelo... E já falei que não precisa ficar tão tenso assim perto de mim, você já me conhece... – Levi falava com naturalidade. Armin não tinha medo, nem cisma, apenas sentia necessidade de ser mais educado com Levi, tal como fazia com todos os adultos.
Mikasa, por outro lado, continuou parada na calçada. Parecia estar cismada.
– Ei, Mikasa, você não vem? Levi ofereceu carona a você também! – Fiz gesto com a mão para que ela se aproximasse. Depois de ajeitar seu cachecol ela resolveu aceitar e se acomodou no banco de trás junto de Armin.
– Olá... tio. – Como Mikasa havia visto Levi quando era criança, tem a mania de chama-lo de tio até hoje. Mas por algum motivo eu sinto que isso era apenas uma provocação.
– Pode me chamar só de “Levi”, Mikasa. Você já é crescida... – Ele logo empurrou o freio de mão, engatou a marcha e foi indo. Não ficou um silêncio como eu pensei, Levi puxou assunto perguntando do porquê Armin parecia tão exausto. A partir daí conversamos bastante sobre o jogo de hoje até o ponto onde Armin e Mikasa desciam.
~*~
Nosso jantar de hoje foi à base de comida chinesa. Encontrávamos-nos sentados na sala de jantar degustando calmamente. Eu e Levi pedimos as mesmas coisas: um básico macarrão chop suey, que não é nada mais nada menos do que um yakissoba chinês. O porém é que o chinês é sempre mais barato.
Enquanto degustava minha comida, falava de coisas da escola. Tal como o festival de fim de ano e como eu estava ajudando com os preparativos da minha classe, além de tocar no assunto da nova casa de praia do Erwin. Eu estava louco para conhecê-la. Como eu não ia muito à praia, fiquei super contente de saber que alguém próximo conseguiu uma propriedade lá. Quer dizer que eu poderia ir várias vezes.
Eu comentava tudo com empolgação, mas notei Levi meio estranho nas reações e respostas. Não era uma coisa explicitamente aparente, mas eu percebi um “desânimo”. Muito tempo convivendo com uma pessoa tão inexpressiva como ele acabava fazendo você prestar mais atenção a detalhes. O porém é que essa minha percepção funcionava melhor só com o Levi. Ele parecia não ligar muito para o que eu falava. Ele não é assim! Pelo menos não nessa intensidade.
– Levi...? – Chamei-o enquanto mastigava minha comida. – Tudo bem com você? Está me deixando preocupado...
– Oh, não... é que... Primeiro, não fale de boca cheia, Eren. Eu estou cansado por causa do fim de ano, só isso. Outro dia eu voltei pra casa quase onze horas da noite, lembra?
– Ah, é...!
– Então, isso está me desgastando bastante... Por isso hoje Erwin me deixou voltar mais cedo. Ele achou que era a vez dele sofrer um pouquinho organizando aquela papelada. – Ele comentou irônico. – E mais todos aqueles cheques de pacientes para depositar... sem falar na organização do salário dos funcionários... e mais os materiais que esgotam mais rapidamente... – Levi começava a ficar sob estresse de novo lembrando das tarefas que ainda devia concluir. Eu sei que era muita coisa, organizar a parte logística e financeira de um hospital sozinho deve ser realmente cansativo.
– Ei, não precisa pensar nisso agora. Erwin deu sua folga, não deu? – Tentei animá-lo com um incentivo a finalmente relaxar em casa.
– É, tem razão. Acho que vou limpar o banheiro depois do jantar e lavar a roupa para desestressar. – Ele falou certo de que aquelas coisas eram realmente relaxantes. Se bem que para o Levi... era sim.
– Er... T-tem certeza? Eu preferia que você ficasse... sei lá, mais parado... Sem pensar em nada. – Sugeri.
Levi olhou-me pensativo assim que terminou seu jantar.
– Hum... Agora que falou nisso, lembrei de uma coisa... Quero que faça algo pra mim. – Ele levantou-se da mesa, jogando no lixo a caixinha de papelão para logo se dirigir ao o sofá da sala. Eu fiquei interrogativo, imaginando o que ele ia dizer... – Quero que faça uma das suas massagens em mim. – Disse simplesmente, apontando para os ombros. Eu logo sorri, terminei de comer rapidamente e fui até ele.
– Claro! Faço com prazer!
Levi sentou-se no sofá, meio de lado, e eu me posicionei atrás dele. Arregacei as mangas e estalei os dedos, pronto para começar. Mas Levi me lançou um olhar torto.
– O que pensa que vai fazer? Lave as mãos primeiro. – Ordenou, quebrando toda a minha euforia em ir massageá-lo. Mas claro, como eu poderia ter me esquecido da higiene básica que ele tanto exige?
~*~
Demorou um pouco pra começar a seção. Cada vez que eu ia começar a massagem, Levi me mandava lavar alguma parte do meu corpo. Depois da minha quinta ida ao banheiro já resolvi tomar banho de vez e até escovar os dentes. Ele não pode ter reclamação alguma sobre a minha higiene, pois agora eu estava tinindo.
Desta vez migramos para fazer a seção no quarto do Levi. Visto que já era tarde. Até vesti meu pijama, que não era nada mais do que uma calça larga e uma camisa de manga curta. Para o início do inverno, não existia roupa mais confortável do que essa. Chegando ao respectivo cômodo, Levi me olhou com mais aprovação.
– Hum... Muito bem. Parece mais aceitável. Pode começar. – Levi retirou sua camisa e a deixou sobre a cabeceira da cama.
– Beleza! – Até que foi bom eu tomar banho, me sentia bem relaxado agora. Deve ser por isso que Levi tomara uns três hoje. Mas mesmo assim ele ainda não parecia muito relaxado. Assim que toquei seus ombros, senti o quanto seus músculos estavam duros. A tensão sempre se concentrava ali e parecia cada vez pior. – Nossa, está bem tenso, Levi... Mais do que da última vez. – Comentei.
– É normal... Eu já falei quinhentas vezes que fim de ano é assim. É que você não sentia como meus músculos ficavam nos anos anteriores...
– Devia ter me contado, eu teria feito massagens em você, sabe que eu não ligo. – Falei serenamente.
– Hunf. É... Eu devia ter contado... – Enquanto apertava seus músculos tensionados, não parava de prestar atenção no “desânimo” que ele demonstrava na voz. Dizia Levi que era pelo excesso de trabalho... Bem, talvez seja, mas será que tem algum outro motivo? Eu sentia que tinha... Estaria ele ficando doente? Teria feito algo ruim e estava se sentindo mal agora? Será que viu alguma das séries de tv depressivas que Hanji insistia em nos fazer assistir? Ou pior... Será que ele está desanimado com a relação que está tendo comigo agora e queria dar um fim de vez nisso?!
– Não!! – Abracei-o por trás sem querer, afundando o rosto em suas costas. Pensamentos paranoicos às vezes refletem na realidade e me fazem agir por reflexo assim, surpreendendo pessoas. É que eu não suportei a ideia do Levi não querer nada comigo a não ser... a relação “dois meio-irmãos que dividem o apartamento”. Levi, logicamente, depois de meu ato, olhou-me confuso.
– Que susto! Não faça isso... – Massageou as têmporas. – “Não” o quê? O que foi, garoto?
– E-eu não sei o que eu fiz, mas prometo ser melhor pra você...! Eu gosto tanto da nossa relação agora, Levi... – Fui falando e ao mesmo tempo sentindo meus olhos marejarem. – Eu não falo tanto quanto eu queria, mas eu amo você de verdade... então, mesmo que você esteja cansado de mim...
– Quê?
– T-tudo bem, eu vou entender, é só que... Ai, ai, ai!!! – Levi me deu um puxão de orelha bem forte na hora.
– Que merda está falando? Está fumando as plantas da Hanji? Quem disse que eu estou cansado de você? – Ele já se mostrava impaciente.
– Er... Mas você está demonstrando um desânimo hoje... A gente nem deu beijo de cumprimento... – Meu rosto corou levemente. Levi me fitava com uma cara irônica de “Sério mesmo?”. – É que eu sou meio inseguro com essas coisas... Então achei que você possa estar cansado de ficar...
Levi repentinamente, segurou meu queixo e me puxou para um beijo antes que eu terminasse minha fala. Foi um singelo toque de lábios seguido por fracos e lentos movimentos. Foi o suficiente para me deixar sem fala. Levi separou fazendo um estalo em nossas bocas e então me olhou de forma penetrante.
– Pare com essas paranoias, menino... Claro que eu não estou cansado de você. – Ele virou-se de costas para mim de novo. – Acho até que... Eu nunca vou me cansar de você...
– Eh? – Senti meu coração ficar mais agitado. Eu não resistia quando ele falava desse jeito, mais aberto sobre sentimentos. – Aww, Levi!! – Abracei-o novamente, bem apertado, aproveitei para dar uns beijinhos em sua nuca. Ele não aprovou muito essa atitude.
– Ei, para!! Assim não...! – Ele ficou todo arrepiado antes de dar uma forte cotovelada no estômago. Recuei um pouco sem ar, mas sem deixar de me encantar com as reações que ele tinha quando mexiam em sua nuca. – Seu pirralho...
– Então... Você me ama, não é? – Perguntei com manha.
– Hã? Que droga de pergunta é essa? – Ele falou seco.
– Ué. E-eu quero ouvir... – Fiz bico. Levi ainda coçava a nuca, evitando fazer muito contato visual. Pareceu meio perdido depois da minha fala.
– Tsc... Pra quê ficar dizendo algo que você já sabe? Isso é muito inútil... – Falou com descaso, mas ainda assim meu coração acelerou diante de suas palavras. Mesmo que de forma implícita, já deixou claro como se sentia em relação a mim. Eu, no calor do momento, abracei-o de novo. Nós dois quase caímos da cama no ato. Ele me fitou com um olhar mais sereno, porém ainda tímido.
Eu queria muito ouvi-lo dizer “eu te amo” a mim. Sinto como se fosse explodir a cada dia que eu esperava por isso, mas não iria insistir. Já sei que ele gosta muito de mim e tem grande afeto, mesmo que não diga explicitamente a mim. Mas eu prefiro assim. Porque, quando se trata de pessoas mais inexpressivas como o Levi, a sinceridade em suas palavras com certeza seria mais evidente do que as que dizem “eu te amo” a qualquer um como se fosse um cumprimento. Levi seria verdadeiro...!
Sorri abobadamente enquanto apertava-o mais em meus braços. Ficamos abraçados por um tempinho considerável. Normalmente ele separaria o contato, julgando ser meio perda de tempo, mas ele não o fez. Para minha surpresa, ele abraçou de volta, agarrando minha camisa e permanecendo daquele jeito por um demorado tempo. Meu sorriso se alargou mais.
Algum dia, sei que ele irá dizer “eu te amo também”!
~*~
Levi
O garoto demorou mais pra dormir hoje. Subi sua coberta até abaixo de seus ombros. Eren era do tipo que não gostava de cobrir-se todo, até o pescoço, a menos que o frio fosse muito intenso, afinal ele se sentia meio sufocado... Depois de fazer uma massagem completa em minhas costas, me senti mais aliviado da tensão, então ficamos a conversar deitados à cama, esperando o sono chegar. Eren disse várias coisas sobre seu dia. Contou como fora na escola, como durou até o fim de um jogo na aula de educação física, desabafou de sua rixa com o filho da senhora Kirschtein. Aliás, me deixava meio encucado o tanto que Eren falava desse menino...
Agora, Eren já se encontrava tranquilo em seus sonhos. Deitado de lado, com um rosto angelical... que durava apenas na primeira hora de sono. Ele sempre dormia pesado e abria a boca no meio da noite, começava a roncar e babar. No dia seguinte sua cara estava sempre um caco. Mas ainda assim, era adorável ver. Isso mostrava que ele estava com a mente bem relaxada... Ao contrário de mim, que não conseguia fechar os olhos e não me lembrar das palavras de Kenny.
Eu ainda não consegui engolir essa história. Foi tão rápido e de repente que em momentos me pergunto se fora um sonho que tive ao pegar no sono casualmente em meu escritório. Bem... eu queria que fosse... Mas sei que aconteceu. E agora, mais do que nunca, me encontrava numa situação sem saber o que fazer. Neste momento só tinha cisma. Cisma de tudo. Tentei ao máximo não demonstrar nada ao Eren, mas ele notou sim. Não interpretou o porquê, mas sabia que eu estava estranho...
Mas eram muitas coisas a se preocupar... Kenny sabe da minha vida. Não sei se todos os detalhes, mas sabe. Ele tem conhecimento do Eren, da minha rotina, das coisas que fiz e tudo. E eu não tinha ideia do que ele faria. Só sei que ele quer se vingar de mim... Droga! Era a pior das situações. Especialmente por ele mencionar o Eren. Isso me pegou de calças curtas. Desgraçado... Ele já sabe que se ameaçasse o Eren, ele me teria na palma de sua mão. Era realmente a pior da pior das situações. Como me livrar disso? Quem garante que ele não nos atacaria enquanto dormíssemos? Estaria ele blefando no que dissera? Se sim, em qual parte especificamente? Atacaria o Eren mesmo se eu não dissesse absolutamente nada dele a ninguém? Será que neste exato momento já estávamos em perigo? Eram milhões de perguntas a serem respondidas e eu já estava a ponto de enlouquecer. Não conseguia dormir de forma alguma...
Ainda deitado, fitando o teto, tentando me distrair inutilmente com qualquer coisa, continuei a tentar dormir...
Virei-me de lado e fitei o menino dormindo pesado. Seus olhos fechados, seu cabelo bagunçado, suas mãos em baixo do travesseiro, seus lábios abrindo levemente... Uma expressão totalmente inocente. Esse menino... Eu não podia deixar nada acontecer com ele!
Aproximei-me dele e passei um de meus braços sobre si, puxando-o pra mais perto. Ele não acordou. Confesso que esse simples gesto fez me sentir um pouco melhor. É como se Eren já estivesse protegido de qualquer coisa ruim só de estar em meus braços. Não sei quanto a ele, mas eu tinha essa sensação...
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