Reencarnação
15 Não quero ser mal visto
Notas iniciais
Levi
Eu e Eren estávamos na fila já faz um tempo. Como hoje era sexta-feira à noite, não estranhei a lotação estrondosa daquele lugar. Mas com muita paciência, finalmente chegara nossa vez.
– Olá o que desejam? – Perguntou o atendente.
– Er... – Eren ainda olhava indeciso para a tabela pendurada acima. – Acho que vou querer a média mesmo!
– Certo, então, duas pipocas médias e mais um refrigerante médio e uma garrafinha d’água. – Pedi.
O rapaz rapidamente montou nosso pedido e nos entregou. Eren segurou seu pacote de pipoca sem muito jeito. Mesmo o tamanho médio já era meio grande e os pequenos grãos de milho estourados transbordavam, quase caindo tudo no chão, mas o garoto fez jeito de equilibrar.
– Vamos logo, Levi! A sessão já vai começar, se não corrermos só vão sobrar assentos na frente!
– Tá, tá...!
Passando por entre as pessoas, finalmente fomos para o longo corredor do cinema, um pouco mais silencioso do que a área de fila para a lanchonete e para comprar ingressos. O enorme e grosso carpete do piso abafavam qualquer som de passos, além de dar um clima mais particular ao ambiente.
Eren e eu fomos à sala nove, onde pude notar várias pessoas apressadas já ansiosas para pegar bons lugares. Como não era um filme de uma sala 3D, não podíamos escolher os lugares com antecedência já no caixa, o jeito era só ser mais esperto e chegar antes.
Infelizmente os lugares do fundo já haviam sido todos preenchidos. Mesmo estando meio escuro, pude notar uma variedade enorme de idades do público presente. Haviam tanto velhos e adultos, como crianças, mas o que dominava por ali ainda era o público adolescente. Bem, não era pra menos. Este filme é do gênero de ação, logo atrairia mesmo mais a jovens do que qualquer outro, ainda mais sendo na temática de guerra. Eren era um desse que adorava esse tema. Já que eu estava sem ideias, deixei que ele escolhesse o filme.
Conseguimos encontrar alguns lugares vagos na área do centro da sala. Fomos nos esgueirando por entre algumas pessoas que já haviam se sentado na fileira, no meio deles até um trio de gordos, Eren quase derrubou sua pipoca em cima dos dois.
Enfim, com tolerância e pique, nos acomodamos. Embora preferíssemos sentar mais para o fundo, aqui até que não estava tão ruim. Eren logo que sentou, começou a atacar sua pipoca. Ele não resistia ao cheiro tentador da manteiga derretida que era jogada ali. Eu comia as minhas no meu ritmo mais controlado, não deixando de observar como a sala foi enchendo de jovens, todos em turma.
As poucas luzes que estavam ainda acesas logo se apagaram, deixando a sala num breu. Eram ouvidas algumas vozes de grupinhos que ainda conversavam e o som das pipocas que a maioria já estava degustando. Eren mostrava-se animado, pois já fazia um tempo desde a última vez que viemos ao cinema juntos. Nos últimos tempos, ele estava vindo apenas com Armin e Mikasa de companhia.
Os vários trailers passavam rapidamente, até enfim começar o filme de fato. Do começo até uma boa parte da história, Eren ficou atento somente ao enredo e hipnotizado com os efeitos especiais de Hollywood de algumas cenas mais ativas. Mas isso só até acabar toda sua pipoca, o que ocorreu quase na metade do filme. Com sua boca, já desocupada, ele pode enfim começar a comentar quase tudo do filme a mim, perguntar o que eu estava achando, se eu estava gostando, além de me apontar quando alguma coisa lhe chamava atenção nas cenas, ou seja, agia como uma criança. Quando ele se empolgava, era assim que ele ficava, ainda mais perto de mim. Mas como eu já havia comentado... eu gosto. Sinto-me relaxado em ter esse garoto por perto em momentos assim, por isso estava saindo bastante com ele esses dias.
Percebi depois que havia um casal sentado ao nosso lado, mais precisamente do meu lado. Só percebi que era mesmo um casal quando eles começaram uma sessão de beijos bem no meio do filme... Hunf, jovens... Não sei que estímulo tiveram para se atacarem assim de repente diante de um filme de guerra. Devia ser pura explosão de hormônios... ou talvez já fosse esse mesmo o plano do casal: fugir para uma salinha escura, longe dos pais, onde podem trocar leves carícias entre si em paz.
Sei que eles estavam no momentinho deles, mas... bem, normalmente casais se agarrando dentro da sala de cinema me irritam, mas agora... não entendo muito bem, eu não me sentia tão incomodado. Penso se era por eu também ter uma companhia do tipo aqui comigo...
Eu dava umas olhadas de canto pra Eren... Ele olhando apenas para a tela. Confesso que foi tentador a vontade de começar a fazer com ele o que o casal fazia ao nosso lado, mas me segurei. Fui descendo o olhar até sua mão, que se encontrava pousada sobre o braço do assento. Surgiu-me uma estranha vontade de segurá-la, só para ficar de mãos dadas mesmo, principalmente porque Eren ainda tinha impagáveis reações de constrangimento com gestos do tipo em público. Mas... praticamente não tinha do que se envergonhar, o lugar era escuro mesmo, e todos estavam prestando atenção no filme, exceto, claro, o casal do lado.
Sem pestanejar, levei minha mão calmamente até a dele, roçando minha palma na sua até entrelaçar nossos dedos. Feito isso, já logo desviei o olhar para o lado oposto. Mesmo sem vê-lo, já pude sentir seu nervosismo diante do gesto. Sua mão ficou paralisada, como se estivesse sido pego de surpresa. E realmente foi.
Dei-lhe uma olhadinha de canto e percebi que ele mordia o lábio e não olhava para a tela com tanta concentração como antes. Agia mesmo como uma garotinha no primeiro encontro... mas bem, este não era o primeiro encontro dele então não precisava ficar nervoso. Aliás, ele só se tocava que era um encontro quando eu falava explicitamente, caso contrário ele pensa que é apenas uma saída comum comigo.
Mas Eren logo fechou os dedos, segurando minha mão com mais firmeza, e assim continuou a ver o filme, assim como eu, que agia naturalmente até agora. Mas notava que o casal ao meu lado não parava com os amassos, acho que já ia fazer uns vinte minutos ou mais que estavam nessa melação. Antes eu não estava ligando, mas passei a me incomodar no momento que vi a perna da moça pousar sobre o colo do rapaz, não há alguém que aguente uma coisa dessas em público...
De um longo e alto suspiro, que deve ter sido audível para o Eren, pois ele logo se virou para mim.
– Que foi...? – Sussurrou para mim. Eu, como resposta apenas apontei com a cabeça o casal ao meu lado. Assim que Eren viu o casal, ficou sem jeito. Ele logo começou a tentar disfarça. Eu estranhei...
– Eu disse alguma coisa...? – Também perguntei no sussurro, bem perto de seu ouvido, já que não escutaria nada pelo som das explosões que agora saíam dos alto-falantes.
– Não! Er... é só que... – Ele começou a rir então. Rir sem um motivo aparente... Bem, na verdade tinha sim um motivo. Notei que, de uns tempos pra cá, quando Eren se sentia constrangido, começava a rir, exatamente como está fazendo agora. – É que eu to pensando coisas... É bobagem.
– Me fala.
– Ah, não...! – Ele ainda ria.
– Pra mim você pode contar o que quiser. – Praticamente encostei meus lábios em sua orelha ao falar.
– Er... T-tá, então. E-eu achei que... v-você estivesse sugerindo que fizéssemos... er... – Eren, todo sem graça, apontou para o casal afogueado do meu lado.
– Oh... Você quis dizer... pra fazermos o que eles estão fazendo? – Meu rosto se mantinha indiferente, mas meu tom de voz caiu para o tom malicioso.
– E-e-eu só pensei na hora! Sei que... você não quis dizer isso. Hehe. – Ele riu novamente.
– Você quer? – Perguntei diretamente.
– Hã?
– Você quer fazer? – Apontei novamente aos dois pombinhos.
Mesmo dependendo apenas da iluminação da tela, pude ver a vermelhidão que ficou o rosto do Eren diante da minha pergunta. Ele logo, disfarçadamente deu uma olhada envolta, mostrando receio. Só por esse gesto já tive minha resposta. Sim, ele queria! Mas tinha medo de ser visto. Nesse caso, não só ele, mas eu também...
– V-você faria...? – Ele perguntou tímido.
– Hm... Sim. Mas não vou fazer. Sei que não se sente à vontade em público. – Falei, tranquilizando-o. – Quem sabe em casa... – Dei um sorrisinho de canto, que logo mexeu com os hormônios do pirralho.
– Sério?!
– Isso vai depender do seu comportamento até o fim do filme.
– Hun... Levi, eu não sou criança!
– Mas age como uma diversas vezes. – Falei e Eren, sem mais respostas, simplesmente fechou o bico, fez beicinho e voltou a atenção ao filme. E não soltamos as mãos em nenhum momento, pelo contrário, o garoto a segurou com mais força.
Num ato tímido e repentino, Eren foi deitando sua cabeça até apoiá-la em meu ombro. E assim ficou. Eu, de algum modo, senti um calorzinho.... Um calor confortante diante de seu gesto. Por ato reflexo, também apoiei minha cabeça na dele... Eren deu um sorriso satisfeito.
– Levi...
– Hm?
– Isso aqui... é um encontro? – Perguntou num tom inocente.
– O que você acha...? – Sussurrei e ele novamente começou a rir.
...
Ao fim do filme e começo dos créditos, as pessoas logo se levantavam de suas poltronas e recolhiam seus pertences, já prontas para deixarem a sala. As fracas luzes da parede se acenderam e mostrou o transito de pessoas passando pelo corredor da sala. Somente agora o casal de pombinhos do meu lado parou com a melação e se movimentou junto com a multidão em direção à saída. Fui indo atrás deles. Notei que Eren mexia em celular, aparentemente respondendo mensagem, julgo eu, do Armin.
– Eren, levanta, vamos indo. – Chamei-o.
– Tá. Já estou indo... – Sem tirar os olhos da tela do aparelho ele se levantou e veio me seguindo. No meio do corredor, à caminho da saída, não esperando por menos, ouvi o garoto tropeçar bem atrás de mim e cair pra frente. Sem muitas opções de lugares pra se segurar, claro que ele agarrou no cós da minha calça no meio da queda e abaixou-a até meus joelhos.
Eu, de primeira, apenas parei de andar e fiquei massageando as têmporas. Como esse garoto conseguia ser tão desastrado assim?? Já notava os rostos alheios olhando e comentando entre si sobre minhas calças arriadas. O alívio foi que a roupa íntima não havia descido junto. Eren, já no chão, logo percebeu o acidente e rapidamente tentou consertar.
– Ahh... Er... D-desculpe!! Desculpe, Levi! E-eu não queria...! – Ele, em meio ao apavoramento, foi subindo minha calça. Eu, mantendo a calma, simplesmente terminei o serviço.
– Hunf, deixa. – Vesti as calças novamente e apertei mais os cintos. – Você é mesmo muito distraído, rapaz. Quando se está no meio da multidão não pode ficar olhando só para o celular!
– P-perdão...
– Tsc... Olha aí! – Apontei para seus tênis. – Está com os cadarços desamarrados. – Eren logo se deu conta e se abaixou para amarrá-los. Eu dei outro longo suspiro. Não, eu não estava bravo por ter sido visto sem calça em público, mas sim com a falta de foco que esse garoto tinha. Ele tem que ser mais esperto e atento, se quer se virar na cidade grande quando eu não estiver por perto. – Você sabe que... se eu fosse uma das garotas da sua idade, que estivesse saindo contigo, ia te largar aí sozinho depois dessa, né?
– Me desculpe, Levi...! – Ele se curvava, todo desesperado. – Mas... você não vai me largar... né? – Seu olhar baixo se mostrava esperançoso, junto a um sorrisinho.
– Hm... É... Não vou. – Falei simplesmente, estendo a mão para fazê-lo se levantar.
Prosseguimos o caminho até a saída do cinema, seguindo o fluxo de pessoas pelos corredores. Nenhum som de passos até o fim graças novamente ao enorme carpete que cobria o piso. Entretanto, as vozes ainda eram bem audíveis. Inclusive a do Eren, que começara a resmungar de repente.
– Levi...! Eu preciso ir ao banheiro! – Falou com manha.
– Tsc. Não pode esperar até chegar em casa? Estamos de carro, é pertinho... – Tentava convencê-lo, pois eu vi a fila do lado de fora do toalete. Isso porque era o masculino. O feminino tinha uma fila que ia quase até o fim do corredor.
– Por favor, espera um pouquinho!! Vai transbordar!
– Tá! Mas vai rápido. Vou te esperar lá fora, na calçada.
– Valeu!! – Eren, à duzentos por hora, voou até o banheiro. E nem cogitou ir para o fim da fila, já foi entrando. Creio eu que tentaria convencer ao primeiro da fila a deixa-lo ir na frente.
Bem, eu já não estranhava tanto... Quero dizer, muitas vezes Eren estava numa boa na dele, de repente do nada dava-lhe um ataque na bexiga e já se sentia apertado. Não sei o porquê disso, mas passei a ver como algo normal... Fui caminhando até a calçada, saindo daquele mundaréu de gente dentro daquele cinema, aproveitando para tomar um ar fresco. Encostei-me ao poste de transito e logo vesti minha jaqueta.
Em meio às pessoas que saíam do estabelecimento, pude ver o casal que sentara ao meu lado durante a sessão. Eles foram andando juntos e abraçados em direção ao ponto de ônibus da esquina. Fiquei olhando-os por breves momentos, percebia que, por mais melosos que fossem, pareciam se gostar mesmo... pareciam não se importar com nada ao seu redor, apenas com o universo deles. Aquilo ali seria um sentimento verdadeiro de... amor...?
Assim que o casal passou reto por um beco, notei uma sombra... um vulto... alguma coisa se moveu rapidamente pra dentro... parecia se esconder. Será impressão minha, como na outra noite...? Por ato reflexo, desta vez resolvi ir até lá e ver claramente se tinha alguém ou se era coisa da minha imaginação. Corri, parando bem de frente para o beco. Olhei tudo, sem adentrá-lo, cada cantinho, até as paredes altas dos prédios que a contornavam. Apenas uma olhada geral, mas nada havia ali...
Novamente dei outra massageada em minhas têmporas. Será que eu vi mesmo algo? Ou foi só coisa da minha cabeça? Eu tenho certeza que vi uma sombra se mexer rápido. E parecia ser de uma pessoa... Igual a da noite que eu e Eren fomos ao restaurante... Será que eu estava enlouquecendo...?
– Levi?? – Pude ouvir ao longe o chamado do Eren vindo da entrada do cinema. Assim que me avistou perto do beco, correu ao meu encontro. – Ahh, te achei! Ué, por que veio até aqui? – Ele também olhou pra dentro do beco, procurando por algo.
– Hm... Por nada. – Optei por não dizer nada sobre a tal sombra ou o vulto que vira na outra noite. Até porque não sabia se realmente vi ou não. – Vamos indo. O carro está pra lá. – Puxei Eren pela manga da camisa e assim fomos.
~*~
Eren
Eu ia pra escola contente todos os dias. Desde que tive meu primeiro encontro com o Levi, temos saído bastante juntos. Claro, saíamos juntos sempre, mas... agora era diferente. Eu sentia! Mesmo nós já convivendo juntos há anos, sinto um friozinho na barriga quando ele demonstra essa afetividade diferente... como se fosse um amante...
– Eren! – Armin deu um peteleco em minha testa, fazendo-me sair de meus devaneios.
– Hã?! Oi?!
– Ah, foi mal te assustar, é que você estava babando no seu sanduíche... – Armin deu um discreto riso. – Tive que de trazer ao mundo real antes da Mikasa voltar à mesa.
– Sim... Claro! – Voltei minha atenção ao meu lanche, e disfarcei minha distração momentânea dando outra mordida.
Mikasa logo chegou junto com Jean e Marco, acomodando-se à mesa em que eu e Armin estávamos guardando. Mikasa, como sempre, vinha se sentar ao meu lado, coisa que deixava Jean com uma cara emburrada. Ele já me lançava um olhar de “te pego na saída, Jaeger”. Eu só respondi com um olhar também provocador de “vem pegar então!”. Mas mesmo convivendo mais perto dele todos os dias, até que não estava mais saindo tantas brigas como antigamente... O que era bom... mas ruim também, pois aumentava a verba dos boatos sobre nós dois estarmos saindo. Isso incomodava tanto a ele quando a mim. Mas por hora, ignorávamos, até porque não houve nenhum tipo de zoação direta, pois Mikasa estava sempre por perto e intimidava a todos. Somente agora que percebi que essa fama dela podia vir do fato de ela fazer parte do clube de muay thai da escola, um título desse realmente põe um pouco de medo nos outros... Ela nunca comentava do que acontecia lá. “Hum... Colocar medo nos outros...” Cocei meu queixo tendo uma ideia...
Jean resolveu dar uma desabafada hoje, falou sobre um monte sobre gente cochichando e olhando para nossa mesa.
– Olha lá, bem atrás de nós... Duas meninas desta vez! – Jean nem se deu ao trabalho de se virar pra lançar um olhar feio a elas, ele já estava meio que se acostumando com o mal entendido.
– Ah, não ligue pra elas. Logo as duas e todo o pessoal vai esquecer essa história. – Marco quem falou, e com a maior tranquilidade do mundo. Até que eu me sentia mais calmo agora que ele andava com a gente também, ele sempre procurava ser gentil com todos, não importa quem fosse. O sardento é um dos caras mais agradáveis de se conversar da nossa sala, pelo que notei melhor nesse meio tempo, e eu não entendo como ele consegue aguentar o mala do Jean. Marco certamente tem uma paciência infinita.
– Mesmo assim, ver pessoas cochichando entre si olhando pra você, é irritante! – Jean bufou. – Olha o problema que você causou Jaeger! Até parece que vão esquecer uma cena daquela! Eles tiraram fotos, lembra?
– E que culpa eu tenho?! Você que devia ter saído da minha frente!
– Como conseguiu cair da escada do nada e ainda conseguir mirar na minha boca??
– Mirar??!! O que quer dizer com isso?! – Fiquei indignado.
– Eren, não brigue. – Mikasa deu um leve golpe de faca de mão na minha nuca.
– Ai ai, Mikasa! Não precisa fazer isso! – Choraminguei. – Er, enfim, eu escorreguei numa casca de banana e... simplesmente caí. – Me justifiquei de novo.
– Casca de banana?! – Jean deu uma alta gargalhada. – E por que não olha por onde anda?
– Tinha muita gente na minha frente!
– Fosse mais devagar.
– Mas eu estava com pressa!
– Pressa do quê? – Diante da pergunta do Jean eu dei uma pausa e olhei de canto para Mikasa. Será que era seguro responder que foi afobação pra ir dar um beijo na Annie?
– Er... eu simplesmente... estava com pressa... – Fiz um tom mais baixo.
– Hunf. Tanto faz, mas graças à você não estou em nenhum dos clubes que eu queria... – Desabafou Jean, olhando para mim.
– Viado! – Xinguei-o.
– De você eu não quero ouvir isso!! – Jean elevou mais o tom da voz.
– Jean... – Mikasa chamou, o que o fez se acalmar na hora e voltar toda sua atenção à ela.
– Oi?
– Você já tentou o clube de muay thai? Acho que lá eles serão mais bacanas. – Explicou ela. Logo eu dei uma exaltada, mas nada disse, pois foi exatamente essa a ideia que tive agora a pouco! Era eu quem queria entrar pra esse clube e então começar a por medo nas outras pessoas sem precisar da Mikasa!! Bem, na verdade, eu já havia tentado uma vez... só que não passei no teste do treinador. Ele era muito rigoroso com as escolhas dos membros...
– Oh... Er, verdade, não tentei esse... V-você está lá também, né? – Jean perguntou confirmando.
– É... Posso falar de você para o treinador. – Ela ofereceu a ajuda. Vi o rosto de Jean se enrubescendo na hora. Era a primeira vez que eu o via assim... Até que era... Diferente. – Só que você vai ter que passar pelo teste dele. Eren já tentou uma vez...
– Espere aí! Mikasa! – Chamei-a. – O seu treinador abriu testes para novos membros agora?! – Fiquei na dúvida, pois da última vez que eu fiz o teste, ouvi o homem dizer que não chamaria mais ninguém para o grupo o resto do ano.
– Não exatamente.... Ele apenas comentou que podia colocar mais uns três membros no time masculino. Posso pedir para ele fazer um teste com vocês. – Disse ela indiferente. – Desculpe, esqueci de te avisar isso. Sei que você também quer entrar faz tempo... – Ela fez uma expressão meio sem jeito para mim.
– O que?! – Jean arregalou os olhos. – Você também resolveu entrar pro muay thai, só porque a Mikasa me convidou, invejoso?
– Invejoso??? – Fiquei mais indignado do que nunca. – Que invejoso? Eu tentei entrar pra esse clube antes de você saber que ele existia!
– Mentira!
Eu e Jean novamente começamos a discutir. E nossa discussão era sempre... bem infantil. Eu sei, pois mais tarde eu sempre refletia... Só conseguíamos atacar um ao outro, acho que nem ouvíamos direito o que o outro falava. Mas o Jean me irrita tanto...! Eu não me aguento perto dele!
Armin e Marco, os dois pacíficos, ficaram apenas suspirando enquanto nossa briga continuava. Os dois só resolveram agir quando eu e Jean levantamos dos bancos para peitar um ao outro. Mas, quase ao final do intervalo, nós fomos mais amenizados e paramos de discutir. Mas, ainda olhávamos feio um para o outro.
– Então você tentou entrar pro muay thai e não conseguiu, Jaeger? Hunf. É um franguinho mesmo. Vou entrar lá com a metade do esforço que você teve.
– Ah, é quero ver você tentar então! – Provoquei. Pois eu sei como a avaliação do treinador era rigorosa. Ia ser uma delícia assistir o Jean perdendo.
– Mikasa...! – Ele a chamou, mudando seu tom de voz para uma mais calma. – Que testes ele fez pra você entrar?
– Hm... O teste para as meninas é diferente da dos meninos. – Disse ela, tomando seu suco com canudinho. – Dos meninos é bem mais difícil.
– É mesmo...? – Jean deu uma leve tremida. – Bem, eu encaro!! Eu vou entrar pro muay thai! – Ele se virou para mim. – E antes de você! – Apontou.
– Ah é?! Eu vou fazer o teste também!! – Falei firme. Mikasa ficou mais feliz ao me ouvir dizer isso. – Eu vou passar desta vez e você não! – Provoquei o cara de cavalo novamente, todo confiante.
– Hunf. Então, você vai falar com o treinador... Mikasa? – Ele voltou seu tom suave para ela.
– Sim. Mas... sugiro guardar a comemoração pra depois de passar no teste dele. – Disse ela.
– Bem, hehe, na verdade... e-eu ser aceito pelo treinador não é minha maior preocupação... o problema são os outros alunos do clube... – Confessou Jean.
– Eu vou com você até eles. Nenhum deles vai mexer com você. – Ela disse. Eu estranhei, Mikasa não é de ajudar os outros assim, ainda mais o Jean.
– B-bem... tá bom então. Semana que vem?
– Sim. – Ela concordou e casualmente voltou a degustar o seu lanche. Jean agora não mostrava mais seu mal humor. Entretanto comigo ele sempre agia de forma irritante. Na hora ele já fez um gesto pra mim como se dissessse “Há, na sua cara!!”. Eu mostrei a língua a ele, que respondeu mostrando “o” dedo para mim, que respondi mostrando “os” dois dedos a ele.
– Ahhh, parem com isso!! – Desta vez Armin estourou, de vez em quando ele dava essas recaídas, e quando acontecia, já sei que ele estava em seu limite de tolerância. – Será que... vocês dois não podem simplesmente não se agredirem?
Eu e Jean nos entreolhamos de novo e logo desviamos o olhar, não querendo mais papo um com o outro.
– Hunf... Agindo assim, parecem mesmo um casal! – Armin falou num tom bem firme, que fez eu e Jean o olharmos torto.
– O que??!!
– Haha, desculpe mas vou ter que concordar desta vez. – Marco deu um sorrisinho.
– Marco! De que lado você está? – Jean se levantou da cadeira.
– Ué, eu só disse o que parece mesmo.
– Tudo bem, tem um outro jeito de acabar com esse boato... – Mikasa se pronunciou, na sua costumeira indiferença, e logo segurou minha mão. – Podemos blefar... Né, Eren...? – Ela lançou um olhar meio atirado para mim.
– Hã? Como assim “blefar”? – Perguntei confuso.
– M-mas porque com ele?! – Jean pareceu indignado. – Mikasa, blefa comigo!! – Ele se ajoelhou diante dela de forma bem teatral.
– Hum... Só se Eren recusar...
– Recusar o quê?! Eu não estou entendendo nada! – Declarei, o que fez Armin dar um tapa na própria testa.
~*~
Numa das trocas de aula, fui sozinho buscar meu material para a aula de química, que eu havia esquecido. No meio do caminho, encontrei Annie, também sozinha, organizando rapidamente o seu armário. Por um momento eu parei. Fiquei pensando coisas... Pensando no plano que disse a Armin no outro dia. Creio que Annie seria minha saída garantida para os bullyings sobre gay que fazem comigo quando Mikasa não está perto... visto que minha entrada para o muay thai não é lá muito garantido... Não! Eu conseguiria! Mas mesmo assim, tentar fingir uma queda pela Annie não é uma má ideia.
Foi nesse momento que bati na minha própria testa, entendendo agora o que Mikasa quis dizer com “blefar” na hora do intervalo.
Aproveitei que tinha alguns caras do segundo ano e membros do time de futebol no corredor que poderiam me ver. Estufei o peito, joguei minha franja de lado e caminhei até a Annie. Ela parecia não perceber minha aproximação até eu encostar no armário ao seu lado, fazendo uma “pose de macho”.
– Hey, como é que vai, Annie...? – Dei uma leve tremida na minha voz. É que eu nunca cantei ninguém assim na cara dura... Ela olhou para mim com a sobrancelha arqueada.
– Oh, você... – Continuou a arrumar os seus livros. – O que você quer? – Annie falava com tanta indiferença quando Levi ou Mikasa. Mas tentei ao máximo parecer charmoso para ela.
– Ah... É que... – Parei pra pensar um pouco. – É que tenho notado que você está muito bonita esses dias...
– Está dizendo que eu não era bonita antes?
– Não!! Er... quer dizer... – Pensei rapidamente numa correção. – V-você sempre está bem bonita, mas... é que... creio que meus olhos estejam vendo mais beleza ainda em você nos últimos tempos. – Eu me senti um pouco melhor depois dessa. Vi um brilho diferente em seus olhos, deixando o tom azul mais vivo. Parece que funcionou!
– Você... – Ela ficou meio paralisada por um breve momento. – Você está me cantando para disfarçar sua homossexualidade na frente dos outros caras, não é? – Como num tiro no peito, Annie falou direta e reta para mim. Depois dessa, comecei a suar...
– O-o-o... O quê??! C-claro q-que não!! De onde t-tirou isso? – Dei uma afrouxada na gola da minha camisa, engolindo seco. Será que ainda dava tempo de prosseguir com a minha cantada? – V-você acreditou nos boatos da escola?! Annie, você estava bem de frente ao acontecimento daquele dia, você viu que meu beijo com o Jean foi um acidente! Como pode achar que sou gay só por causa disso?
– Não foi por causa disso... Já te achava gay antes desse acidente acontecer. – Ela simplesmente disse. Foi uma flechada no peito. Eu fiquei muito vermelho depois dessa.
– M-mas eu não sou!! E-eu juro!
– Melhor você admitir agora, antes de continuar paquerando garotas, realmente acabar convencendo uma delas a sair com você, fazê-la ficar gostando de você até se apaixonar perdidamente para no final partir-lhe o coração dizendo que só a estava usando para a sociedade não descobrir que você é homossexual. – Annie falou tudo rápido, mas mantinha sua indiferença. Eu por outro lado, fiquei suando mais... Agora com os olhos arregalados. Comecei a tremer bastante. Agora por causa da culpa... Annie tinha razão. Não posso usar uma garota assim pra... me proteger de zombarias na escola...
– Er... Ahh... – Soltei um longo suspiro, me dando por vencido. – É... Tá bem, Annie, você me pegou... e-eu não queria sair com você de verdade, mas... – Falei baixinho. Fiquei mais envergonhado do que nunca. Fora Armin, eu não havia dito a mais ninguém sobre minha preferência... – Desculpe por tentar te usar...
– Hunf. Tudo bem, eu não me importo com isso na verdade.
– Ah... Ainda bem então...
– Melhor ir para a aula. O professor vai brigar se nos atrasarmos. – Ela fechou o armário e logo foi caminhando pelo corredor. Eu rapidamente fui até seu lado, acompanha-la.
– Bem e você... não está me achando repugnante por ser... por ser gay...? – Falei num sussurro.
– Não. Por que acharia? Tem outros na nossa sala...
– É mesmo?! – me surpreendi. – Quem??
– Prefiro não mencionar nomes...
– Ah, Annie... – Fiz bico.
Assim que passamos pelo time de futebol, eles logo pararam para mexer comigo, visto que Mikasa não estava junto.
– Olha aí o Jaeger! O que está fazendo junto com a Annie? Estão compartilhando saias e sapatos? – Eles riam. Riam que nem umas hienas. Eu não entendia ainda esse estereótipo que eles tinham de que um gay tem que necessariamente agir como uma garota. Eu não gostava nada de agir como uma garota! Senti uma raiva de novo ao ouvi-los, mas desta vez respirei fundo e optei por ficar quieto. Levi havia me ensinado uma vez que ignorar é a pior coisa que pode se fazer a outro ser humano...
Entretanto, creio eu que Annie também se irrita com atitudes infantis assim, pois sem eu pedir nada, ela segurou minha mão, entrelaçando nossos dedos e apoiou a cabeça sobre meu ombro enquanto caminhávamos. Confesso que não esperei essa atitude dela. Assim passamos bem na frente deles até o final do corredor. A loira deu uma última olhada para trás em direção ao capitão do time, lançando seu olhar intimidador que, pelo pouco que conheço, empatava com o da Mikasa. Incrivelmente os caras se calaram na hora. No exato momento que ela pegou minha mão. Bem... isso me fez sentir superior a eles por um momento.
Depois de dobrar a esquina do corredor, Annie se afastou de mim, voltando ao seu normal. Eu... Bem, eu continuei meio envergonhado...
– Annie... Er... Obrigado por isso. – Cocei a nuca, sem jeito.
– Não precisa agradecer... Eu também não vou com a cara daquele pessoal. Um bando de esnobes. – Desabafou. – E se der em cima de mim outra vez, vou quebrar seus pulsos e tornozelos, entendido?
Depois dessa fala eu fiquei branco e engoli seco. Annie conseguia amedrontar alguém quando queria. Não sabia que era tão medonha assim... Isso novamente me fez lembrar do Levi.
– S-sim, senhora!
– E fique sabendo que está devendo esse favor a mim. – Simplesmente disse, já adentrando nossa sala de aula.
– O que?!
~*~
As aulas terminaram bem lentamente. Como estávamos em época de provas, Armin quis ficar na biblioteca hoje pela tarde, por mais que eu falasse que não precisava se sobrecarregar tanto assim. O loiro gostava de estudar. Aliás, combinamos que eu dormiria em sua casa esta noite, pra estudarmos mais um pouco juntos, mas antes eu passaria em minha casa pra arrumar minhas coisas.
Na saída da escola, chequei meu celular e percebi que havia uma mensagem da Hanji ali. Nela dizia:
“Oi, Eren!! Desculpe a chamada repentina, mas hoje não ficarei de plantão e já saí mais cedo. Passei aqui pra te dar uma carona pra casa! Estou estacionada na esquina da frutaria. Beijos, Hanji (>.O)/”
Assim que a li, me virei para Mikasa.
– Mikasa, Hanji está aqui, ela vai me dar uma carona... Você quer que eu veja se ela te dá uma carona também? – Os olhos dela pareceram brilhar depois da minha fala.
– Ham... Tudo bem, se não for incomodá-la.
– Não...! Hanji é de boa. – Falei. Mikasa logo assentiu e me seguiu até a esquina. Não sei porque, mas... eu me sentia levemente incomodado com o jeito que Mikasa estava agindo com o Jean hoje. Ela pareceu dar-lhe mais atenção do que outros dias... – Er... Mikasa...
– Hm?
– Por que você... hã... está sendo legal com o Jean? Ele é o maior tapado!
– Ah... – Ela deu um suspiro. – É como agradecimento.
– Agradecimento? Pelo quê?
– É coisa minha.
– Hmm... – Olhei-a bem antes de me convencer. – Por que está escondendo coisas de mim? Sou seu melhor amigo, não sou?
– Claro... Mas, simplesmente... não vai te interessar. – Ela disse.
Fiquei observando suas expressões enquanto caminhávamos. Pensei em insistir dela me contar, mas desisti. Talvez ela não quisesse mesmo dizer... Ela estava tão indiferente como sempre. Parecia o Levi... Era em momentos assim que eu me recordava que os dois são Ackermans... Mas essa história ainda estava muito mal contada! Sempre que eu perguntava ao Levi sobre isso, ele simplesmente cortava o assunto e mandava eu esquecer. Ah, e sempre garantia, no final, que não tinha parentesco algum com a Mikasa... É uma história muito confusa! Uma história que eu ainda me remoía de vontade de entender mas que não queria deixar Levi numa situação de incômodo.
De qualquer modo, optei por não prolongar esse assunto sobre o Jean com a Mikasa. Talvez ele a tenha ajudado de alguma forma, fazendo algum favor ou coisa do tipo e ela o esteja retribuindo. Agora que eu olhava bem o quanto eu fui cego. Jean é totalmente caído pela Mikasa e vê-lo se dando bem com ela... Er... É que me incomodava ver Jean se dando bem em qualquer coisa! Pois ele ficava mais insuportável do que nunca. Aquele cara de cavalo...! Eu tinha tanta bronca dele, sujeito irritante...
Enfim, chegamos à esquina e logo avistamos o carro de Hanji. Ao olhar pela janela, percebi que ela dormia, com os pés apoiados sobre o banco do passageiro. Dei dois toques no vidro fazendo-a acordar.
– Ah, Eren!! Eu não estava dormindo! Pode ir entrando aí! – Ela destravou as portas.
– Oi, Hanji! Obrigado pela carona. Ah, pode levar a Mikasa também? Ela fica...
– Eu sei, fica à caminho de casa, tudo bem! – Ela toda animada sem motivos, virou-se para a de cachecol. – Entre aí, Mikasa!!
E assim todos nos acomodamos bem no assento e fomos indo. Hanji como sempre, bastante conversadora. Não sei de onde ela tirava tanto assunto assim, e mesmo com as respostas curtas da Mikasa, ela não desanimava. O estranho mesmo foi ela me dizer que tinha algo para me mostrar quando chegássemos em casa... Bem, mais precisamente, na cada dela!
~*~
Levi
Depois de um bom tempo olhando através do refrator, Erd finalmente deu a consulta como concluída. Sim, a minha dor de cabeça e a vista embaçada me preocuparam, por isso pedi uma consulta ao Erd, nosso oftalmologista mais habilidoso. Essa é a parte boa de se trabalhar em um hospital. Qualquer problema já poderia ser consultado e na maioria das vezes resolvido ali mesmo.
– Prontinho, chefe. Isto é tudo. – Ele afastou o equipamento do refrator para que eu finalmente pudesse descer daquela cadeira... Me incomodou, pois era muito alta. Por pouco eu não tocava os pés no apoio.
– Bem... E então? Algum resultado. – Perguntei ansioso.
– Sim. Mas nada com que se preocupe. O seu caso é o mais comum de todos, senhor! – Erd, quase como o Erwin, tinha o tom da fala bastante tranquilizador e educado quando lidava com pacientes. Ele pegou seu bloco de papéis e ali foi anotando tudo com uma caneta. – O seu problema é um simples caso de hipermetropia, a famosa “vista cansada”.
– Hipermetropia...? – Dei um suspiro longo. Só me faltava essa agora... Bem, ao menos não era grave. – Achei que isso fosse dar só depois dos quarenta... Eu ainda tenho trinta!
– Não se preocupe, senhor Levi! É perfeitamente normal adquirir o problema em qualquer idade, até em crianças. – Tranquilizou Erd.
– Ah... Certo então. – Logo aceitei meu problema de visão. Não estava conseguindo enxergar de perto já faz um tempinho. Ler então estava um inferno. Eu tinha que me afastar uns trinta centímetros para as letras ficarem nítidas. – É só esse o problema, não é?
– Sim, ao todo que examinei, não há mais nenhum outro tipo de deficiência com a sua visão. – Tranquilizou Erd.
– Bem, que seja... Qual é o meu grau?
– Um e setenta e cinco nos dois olhos. Aqui. – Ele me entregou o papel em que estava fazendo anotações. – Aí está a receita para óculos e para lentes de contato também. É só ir na ótica.
– Hm, obrigado por essa, Erd. – Agradeci-o aliviado por não ser nada grave. Assim, me despedi dele e saí de sua sala, com a receita em mãos. Sem pensar duas vezes fui direto para minha sala, arrumar minhas coisas e pegar as chaves do carro.
Petra fez uma expressão interrogativa ao me ver passar por sua sala de recepção com tanta pressa.
– Senhor? Está tudo bem?
– Sim. Olha, avise o Erwin que vou dar uma saída e que não demorarei. – Vesti meu casaco e logo fechei a porta de minha sala, ajeitando a gravata. – Qualquer problema que tiver pode me ligar no meu celular, Petra. – Deixei avisado e logo saí da sala.
– S-sim senhor! – Petra concordou ao longe.
Eu segui reto pelo longo corredor do andar da minha sala, desci pelo elevador e rapidamente saí até o estacionamento, já com a chave do carro em mãos. Estava muito incômodo ler qualquer coisa de perto e isso me irritava, estava começando a atrapalhar meu trabalho, por isso queria ir à ótica mandar fazer meus óculos novos o quanto antes.
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