Reencarnação
16 Fotos e treino de muay thai
Notas iniciais
Eren
Eu terminava meu almoço calmamente na mesa da sala de jantar. Deixei a porta destrancada, pois Hanji voltaria aqui em casa em alguns minutos. Ela fez bastante mistério sobre a tal surpresa que tinha para mostrar, e assim que chegamos, ela voou para seu apartamento dizendo que iria encontrar. “Encontrar o quê?” Confesso que estava curioso para saber o que era...
Compramos alguns quitutes pra viagem em um restaurante de frutos-do-mar no caminho de casa. Hanji insistiu que eu fizesse o pedido que quisesse, não importando o preço. Bem... Eu não comia camarão já fazia um bom tempo, então... abusei um pouco da boa vontade dela e pedi isso. Camarão era algo que mais encarecia a cada ano
— Voltei, Eren!!! – Ela escancarou a porta de repente, fazendo a maçaneta chocar forte contra a parede.
— Eita, Hanji!! – Me assustei com o barulho.
— A desculpe...! – Ela riu, adentrando o apartamento com uma caixa em mãos. Parecia ser uma caixa de sapatos. – É que hoje Levi comentou comigo que falou a você sobre a nossa banda na escola, não é?
— É! Ele comentou...?
— Uhum, ele queria saber se eu tinha alguma coisa daquela época guardada, mas eu disse que não. – Ela pôs a caixa sobre a mesa. – Entretanto, só depois fui me lembrar desta caixinha!
— Hu? – Minha curiosidade fora aumentando. – Está dizendo que aí tem...?
— Siim! – Hanji sentou-se à mesa e se aproximou mais. Eu, terminando meu almoço, coloquei o tapauer descartável de lado e me concentrei na caixa de sapatos. A de óculos, depois de dar uma boa limpada na tampa, abriu-a. – Lembrei que guardei algumas fotos do tempo de colégio aqui. Devem ter algumas do “No Name” no meio!
— Sério?! – Meus olhos deram uma reluzida. Hanji foi tirando vários “maços” de fotos dali e deu um para mim.
— Vai procurando, em alguma pilha deve estar. – Ela foi olhando foto por foto. Eu me juntei ao trabalho.
Era cada foto estranha que eu via... Em algumas apareciam só as pernas das pessoas, outras apenas o topo das cabeças, em outras era da própria Hanji, mostrando seu rosto de ângulos estranhos, haviam também fotos do Erwin e do Mike, essas eram um pouco mais normais... até eu achar uma em que Erwin está de cavalinho com o Mike.
— Hanji... Erwin e Mike eram tão “animados” assim no colégio?
Hanji deu uma olhadinha na foto.
— Ah! Às vezes fazíamos umas poses meio estranhas em fotos. Em quase todas, as ideias para poses eram minhas! Haha, bons tempos...!
— É, imaginei...! – Eu ri, pois via os cortes de cabelo diferentes que eles usavam na época. O do Erwin era todo bagunçado, nada a ver com o penteado mais comportado que ele faz atualmente, sem falar que estava de barba. Já o Mike tinha o penteado parecido com o de hoje, só que mais curtinho e dividido de lado. Mesmo Hanji, em várias fotos, aparecia de cabelo solto, franja e já usava óculos. – Quem é esse loirinho aqui? Tem o cabelo parecido com do Levi... — Apontei.
— Oh, esta é a Nanaba! Ela andava conosco no colegial, daí viajou para os Estados Unidos quando se formou e não nos falamos mais... Só por internet!
— Oh, entendo... – Hanji ia falando e eu só observando a foto, apertando os olhos. Essa Nanaba parecia ser um menino pra mim. E era bem bonitinha. Logo mudei de foto, ainda procurando pelo Levi... já folheei um monte aqui e não o vi nem no fundo, como “figurante”. – Ué... Não parece ter fotos do Levi aqui, Hanji.
— Hum... Essa deve ser a pilha do primeiro ano... Olhe nesta! – Ela me deu mais um monte de fotos. Pelo que olhei os cabelos deles já estavam diferentes das que eu acabara de ver. E o rosto deles parece um pouco mais maduro... Até que, numa foto em grupo, finalmente achei o Levi.
— Ah, achei uma!!
Hanji logo se inclinou para ver.
— Ahh, sim pode continuar olhando que deve estar nesta pilha! – Confirmou ela. – Viu como o Levi era?
— Aham... Bonitinho... Não está tão diferente de hoje.
— Ah, é! Sempre foi o maior comentário. De todos nós, o que menos envelheceu na aparência... e cresceu na altura... foi o Levi!
— Haha, Levi tinha um e sessenta aqui também? – Perguntei.
— Aham, e ficou nessa altura por quase dezesseis anos, imagine só. – Fui sorrindo diante de umas descobertas do passado do Levi. Agora fui encontrando-o em várias fotos, na maioria delas sua franja estava mais curtinha e ele não a dividia de lado como faz hoje. – Parece um emo! – Comentei e Hanji caiu na gargalhada.
— Ahh, eu falava exatamente isso a ele!! Levi ficava tão bravo, era muito engraçado! – Eu e ela rimos juntos. Conforme eu passava as fotos, nós comentávamos coisas que parecessem ridículas. Até que foi bem divertido! Entretanto, não encontramos ainda nenhuma foto de uma banda ou coisa do tipo. Fomos olhando mais pilhas de foto. Era muita foto! E em todas as pilhas haviam imagens estranhas como as que eu havia citado primeiro. Tinha foto até de gatos se acasalando ou de cachorro urinando em árvores... Parece que Hanji se divertia bastante com essa câmera. Até posso imaginá-la, toda feliz tirando fotos de tudo que achasse engraçado ou fascinante.
Em uma das pilhas, a primeira foto já mostrava cenas aparentemente de um festival escolar. Devia ser nesta! Hanji e eu agora olhávamos para o mesmo “maço” de fotos. Conforme eu folheava, ela falava alguma “legenda” engraçada sobre a cena registrada.
Até que no final, encontramos! Várias fotos de Hanji, Mike e Levi sobre um palco. Mike na bateria, Hanji na guitarra e Levi no centro, bem na beirada no palco, com um microfone. Eu fiquei olhando hipnotizado. Em todas as fotos até agora, Levi aparecia sempre com uma cara indiferente e braços cruzados, ou seja, como ele é até hoje. Não parecia demonstrar interesse por nada... Mas ele aqui no palco... com esse microfone... Mesmo sendo uma imagem parada, dava pra notar que ele cantava com vontade e parecia estar satisfeito com isso. Estava de terno. Aliás, os três usavam terno. Tinha um efeito de luzes bem legais! E estranhamente seus olhos estavam vendados.
— Hanji, por que estão usando isso nos olhos? – Perguntei curioso.
— Oh, as bandagens? Bem... – Ela olhou para o teto tentando se lembrar. – Foi Mike quem sugeriu... Sim, ele achou que estávamos muito sem graça só de terno, por isso, inventou de pegar as bandagens da enfermaria só pra criar um estilo.
— Waaw... Ficou muito legal! – Eu continuava encantado em vê-los aqui. Pareciam mesmo uma banda oficial. Em várias fotos, durante a apresentação, Levi aparecia mexendo no cabelo, como se estivesse jogando sua franja para o lado. – Hanji, tem alguma gravação em vídeo dessa apresentação?
— Hum... Acho que não tem, Eren. Sinto muito... Nem mesmo gravação só das vozes em fitinha. Nós só tínhamos câmera fotográfica na época, filmadora era caaaro... – Disse ela.
— Ah, que pena... – Bem, mas só de ter as fotos já fiquei contente. Poder ver Levi, Hanji, todos adolescentes... Eu não havia visto isso ainda. Levi não tinha fotos dele nem quando criança e nem adolescente... A verdade é que Levi realmente não é muito fã de tirar fotos. Sempre que eu apontava a câmera do celular para ele, desviava na mesma hora e me xingava. Bem, essas fotos aqui estavam todas bem nítidas, mesmo com os efeitos de luz do palco, dava para ver o rosto dos três perfeitamente. – Essas fotos estão boas... Ficaram num ótimo ângulo.
— O Erwin que tirou essas fotos da apresentação! – Disse Hanji. – Você deve ter notado que não sou uma boa fotógrafa...! – Nós rimos com o comentário. – Hum... pode ficar com essas fotos.
— Jura?
— Claro! Levi não tem nenhuma foto guardada da época da escola. É bom ficar algumas com ele. E também pra você olhá-las com mais calma.
— Obrigado! Gostei de ver todos vocês com a minha idade... Ah, e Hanji... O que mais vocês fizeram no colégio de legal?
— Hu? Tipo o quê?
— Eu queria saber... mais coisas desta época. Você tem historinhas?
A de óculos logo pareceu se animar. Ficou afobada e logo se inclinou sobre a mesa.
— Agora que tocou no assunto, lembro de várias! – Disse ela e eu sentei-me melhor na cadeira, pronto para ouvi-la.
~*~
Era incrível! Quando Hanji começava a falar, ninguém conseguia pará-la. Ela ia se empolgando cada vez mais com as historias. Estava sendo engraçado ouvir dos tempos de colegial na narrativa dela. Ela contou algumas coisas embaraçosas que o Levi já passou. Algumas eu fiquei boquiaberto. Até comentei com Hanji que na última vez que eu e ele fomos ao cinema, acabei abaixando as calças dele sem querer. A de óculos caiu na gargalhada. Até que não estava uma conversa tão cansativa, como era às vezes. Tanto que nem notei que já era quase sete horas da noite. Só fui me tocar quando a porta da frente se abriu e foi adentrando o principal tema de nossos assuntos...
— Oe... O que estão fazendo? Dá pra ouvir a risada de vocês lá do elevador. – Levi comentou enquanto tirava seu casaco e afrouxava a gravata.
— Ah... Nada de mais. – Hanji revirou os olhos, tentando disfarçar. – Achei fotos do “No Name” e estava mostrando ao Eren.
— Hã?! – Levi olhou para ela, depois para a caixa sobre a mesa. – Você... Então você tinha fotos.
— Hehe, desculpinha, lembrei só depois...! – Hanji ria sem graça.
— Tem outras fotos aí além da apresentação, não tem?
— Claro! – Ela confirmou.
— Você já viu tudo, Eren...?
— Já! P-por quê...? – Inclinei-me de lado. Vi que Levi desviou o olhar e coçou a nuca. Logo foi até a geladeira buscar algo.
— Hehehe Levi tem vergonha da época emo dele, Eren! – Hanji falou. E ele logo a olhou desgostoso.
— Quatro-olhos! Você não está se esquecendo de nada a fazer hoje?
— Hum... Ah!! – Hanji olhou o relógio e logo entrou em desespero. – Ai, droga!! Eu tenho que ficar de plantão hoje!! – Ela recolheu suas coisas e deixou nosso apartamento no maior alvoroço. – Tchau Eren!! Tchau Levi!! – Ela nem usou o elevador, foi descendo pelas escadas mesmo.
Eu fui até a porta, fechando-a, dando um último tchau à ela.
— Até amanhã, Hanji! Cuidado com os degraus...
Levi veio se aproximando de fininho da mesa, dando uma olhadinha discreta nas fotos, até encontrar as que ele cantava como “No Name”.
— Hm... Eu nem sabia que tinha fotos dessa época... – Ele segurou uma delas, mas afastava-a um tanto longe para olhá-la.
— Hum... Elas ficaram boas, não é? – Eu falei num tom mais sereno e ansioso... Agora que Levi chegara em casa, eu estava esperando por algo...
— É...
Fui me aproximando dele, mas ele não dava muita atenção, estava mais interessado na caixa de sapatos lotada de lembranças do colegial. Fiquei parado ao seu lado, esperando ele me olhar. Até que ele pegou uma das fotos que ele está com o cabelinho de emo. Ele soltou um longo suspiro.
— Ah... Todo mundo tem uma época da qual não se orgulha... — Comentou para si mesmo.
— Nee, Levi... – Chamei-o. – Er... Oi! – Falei meio sem jeito. Eu sei que já era meio tarde, mas... eu quis cumprimentá-lo pela sua chegada do trabalho. Levi logo me olhou nos olhos e sorriu de forma irônica.
— “Oi”?
— É... V-você não cumprimentou quando chegou em casa...
— Hm... Entendi. – Levi chegou mais pertinho, segurou suavemente meu queixo e me deu um breve selinho... apenas fizemos biquinho e encostamos os lábios. Nada mais. Só com esse toque já comecei a dar baixos risos de felicidade e de timidez. – Oi, Eren... Já cheguei. Satisfeito?
Fiz que sim com a cabeça.
~*~
Levi
Não sei porquê, mas do nada Eren chegou em mim e pediu... “Levi, me ensina muay thai?” com uma voz implorativa. Explicou que já estava tentando entrar nesse grupo da escola já faz um tempo, mas não conseguiu até então, e ele queria muito. É a primeira vez que eu ouvia isto. Penso porquê ele não comentou sobre essa vontade comigo antes...
Bem, só sei que ele fez uma ótima escolha de professor. Faço treinos de muay thai desde adolescente. Ensinarei a ele o máximo que puder com prazer. O problema foi que ele disse que já faria o teste semana que vem. Isto me fez dar um tapa na própria testa. Como ele pretende aprender ao menos o básico em apenas uma semana? Não é tão fácil assim como ele achava. Só para ele ficar preparado para enfrentar um oponente já levaria meses... Apenas respirei fundo e aceitei esse desafio. Tentaria ao menos prepará-lo para que não se machucasse e conseguisse desviar.
Como eu não tinha tempo de manhã, fui treiná-lo à noite mesmo. Lá na quadra do prédio. Era sempre bem vazio, ainda mais agora, que está quase no fim do ano e o clima permanece mais frio. Isso não pareceu incomodar o Eren, que sempre foi do tipo calorento.
Chegando lá, retirei a blusa e a pendurei na grade que cercava toda a área. Eu fiquei de camisa e calça de moletom. Eren aguentou ficar só de bermuda e camisa mesmo naquela estação. Fomos para o ponto do centro da quadra. Lá dei as primeiras instruções para ele.
— Olha, Eren, primeiro de tudo, eu não consigo fazer milagres, vou ensinar o que der e o que julgo que será útil só para você passar nesse teste, entendido?
— Sim, senhor! – Eren manteve o corpo bem ereto. Típica pode de aluno iniciante.
— Aperfeiçoamento e técnica você pode focar depois, mas por hora... Tenho uns macetes que sempre dão certo. Mas preciso ver se seu corpo está preparado para isso.
— Certo. – Ele ia concordando com a cabeça com tudo o que eu falava. Me afastei de leve dele.
— Outra coisa...! – Ressaltei. – Muay thai é bem diferente das brincadeiras de lutinha de fazíamos, viu! Espero que não se esqueça disso.
— Ah, claro...! – Eren concordou, meio rindo.
— Muito bem, me mostre sua postura de combate... – Cruzei os braços, observando-o com atenção. Eren se pôs em posição, era a única coisa que eu sei que ele sabia fazer.
— Assim?
— Isso... Só levante mais os cotovelos. Mantenha os punhos próximos ao seu rosto.
— Ok.
— Agora... me mostre um soco direto.
— Sim! – Eren golpeou reto o ar à frente, de forma meio desengonçada e lenta.
— Não, tá errado.
— Hã?! Mas eu fiz reto...
— Mas foi muito lerdo, já teria sido atingido se estivesse com um oponente à sua frente. Tente fazer com mais firmeza e concentrado em acertar o rosto do oponente.
Eren deu um suspiro diante do argumento. Logo voltou à posição inicial, tentando outro golpe, seguido por outro... e por outro... e por mais um... e assim foi indo em sequência. Eu só queria mesmo era ver como ele estava para em seguida dar-lhe o exercício correto.
— Tudo bem, já está bom. – Descruzei os braços e fui até ele.
— Agora eu fiz certo?
— Só vamos saber o resultado depois que você conseguir me enfrentar... e ganhar.
— Ah... – Seus olhos pareceram brilhar na hora. – Eu vou lutar sério com o Levi?! – Rapidamente ficou empolgado. Era de se esperar... Eren sempre quer ganhar de mim nos desafios, jogos ou qualquer outra tipo de disputa, por isso se empolgava quando via a chance de poder me enfrentar em algo.
— Sim... Mas não hoje. Agora, vai só pegar um pouco de resistência para o seu teste. Pode ir se abaixando aí e fazendo cinquenta flexões.
— Cinquenta?!
— Sessenta.
— O quê?!
— Sententa!
— Ah... T-tá bom... parei de reclamar. – Ele abanava as mãos em minha direção, pedindo para eu ir com calma. Ele às vezes se esquece que quanto mais reclama, mais eu pioro sua punição. Ele logo ficou em posição e começou o exercício... Eu ia contando em voz alta.
O treino desta noite se resumiu nisso... Apenas exercícios de resistência seguidos de algumas demonstrações de golpes. Depois das sofridas flexões, mandei-o fazer abdominais... e mais alguns exercícios que eu conhecia para os braços.
Logo, por insistência do Eren, acabei por fazer uma pequena luta com ele ali. Eu não o golpeava diretamente, apenas desviava. Mas quando dava a brecha, não pensava duas vezes para passar-lhe uma rasteira no calcanhar e o fazer cair com a bunda pra cima. Na primeira queda ele bateu levemente a cabeça no chão. Olhei de longe pra ver se não tinha acontecido nada, mas ele pareceu bem... ficou em pé rapidamente, pondo-se em posição para uma nova tentativa.
O fiz cair diversas vezes só naquela noite. O que me impressionava era como ele não se desanimava por estar só perdendo. Eren se levantava todas as vezes que caía... Não importava o quanto eu o derrubava, ele não desistia ou se sentia inferior. Pelo contrário, ele ficava mais e mais motivado a querer ganhar, mostrava claramente em seu olhar. Eu gostava disso nele.
Eren começava a sentir umas dorzinhas das quedas e dos chutes que eu dava em sua perna. Eu pude ouvir baixos murmúrios de dor vindos dele... Eu sentia dó, mas ao mesmo tempo, sei que ele odiava quando eu pegava leve sem ter pedido. Ele continuava pedindo em voz alta “Pode vir com tudo, Levi!” Mas é claro que eu não faria isso, esse garoto era muito extremista. Por mais que ele me peça para lutar a sério, inconscientemente eu colocava menos força em meus chutes. E assim... simplesmente continuei a golpeá-lo sem usar as mãos, só as pernas.
~*~
Já no apartamento, preparei um chocolate quente para o Eren e para mim. Enquanto esperava o leite esquentar no fogão, deixei duas canecas sobre a mesa e terminava de enxugar a louça do jantar. Eren estava no sofá, com a cara emburrada. A televisão estava ligada, mas o garoto parecia não prestar muita atenção. Hunf... Ainda estava bravo por não ter ganhado de mim uma uma única vez na luta corporal. Ele ficou de pernas cruzadas, como índio, abraçado a uma das almofadas.
Visto que o leite já estava no ponto, retirei do fogão e despejei quantias iguais nas duas canecas, logo misturando o achocolatado em pó.
— Eren, já está pronto. Vem tomar! – Chamei-o, mas ele continuou sentado no sofá, olhando para a grande tela de plasma. – Perdeu a língua? Diga um “sim”, “não” ou “ok”.
— J-já vou... – Ele se levantou do sofá e veio caminhando até a mesa, logo se acomodando numa das cadeiras. Eu também me juntei a ele, estendendo-lhe a caneca quente. Eren deu soprou a bebida e deu seu primeiro gole. Pensei em falar-lhe de outras coisas, pra ver se ele parava com essa cara emburrada.
— Eren, não te perguntei ainda... Como foi nas provas até agora?
— Hm... – Ele parou pra pensar. Isso não era bom sinal. Quer dizer que nem sabia como tinha ido. Logo, deve ter ido mal. – De geografia eu sei que fui bem, porque estudei com o Armin...
— Hm... Bom. E o resto?
— Er... Mais ou menos... – Ele deu outro gole no chocolate.
— Como assim “mais ou menos”? Você tem que ir bem, Eren!
— Eu sei, mas... n-não me dou muito bem com contas ou gramática... E as outras matérias se baseiam nisso... Ainda faltam duas matérias. Biologia e História. Esses eu sei que vou ir bem! – Falou confiante.
— Oh... Melhor então. – Terminei rapidamente de tomar meu chocolate. E Eren continuava com aquela cara emburrada.
— Eren... Por que ainda está desse jeito? Já falei que o primeiro treino é sempre assim... Você esperava me vencer já no primeiro treino?
— Sim...!
— Hunf, você é bem otimista.
— Mas eu podia! E-eu... Eu tenho força. Eu consigo vencer o Jean, que é maior do que eu, achei que pudesse vencer você, que é baixi... – Nessa hora ele mesmo tampou a própria boca, aparentemente notando que falou um pouco demais. Uma veinha começou a querer pulsar em minha testa.
— Oe, Eren... – Ameacei levantar-me da cadeira.
— D-desculpa, desculpa!! E-eu n-não quis dizer isso! Er... s-saiu sem querer, mas... n-não é isso que eu acho não! É só que... – Ele estava começando a se exaltar e aumentar o volume da voz. Pousei meu indicador sobre seu lábios, fazendo-o se calar.
— Ei... calminha aí. Pra quê isso tudo?
— É que... Eu... Eu nunca ganho do Levi em nada! Não ganho no baralho, nem no Twister, nem na velocidade de limpar a casa... Eu queria ganhar qualquer coisa... e... – Ele mostrava-se envergonhado.
— Eren...
— Mas parece que... não importa o quanto eu tente... você sempre ganha. Isso... meio que me deixa atraído por você... mas também me deixa bravo! – Ele se levantou da cadeira e foi reto até o sofá da sala, deitando-se de bruços abraçado à almofada. Fazia drama... Eu cocei de leve o topo da cabeça, não entendo esse comportamento dele. Às vezes acontecia e era sempre meio de repente, mas sempre diante de uma situação ou de um conjunto de situações que o tenha deixado frustrado. Eu chamava de “ataque de TPM do Eren”. Era meio irritante, mas aprendi a lidar. Não durava muito tempo e fazê-lo voltar ao normal era fácil...
Eren mantinha seu rosto afundado na almofada. Caminhei até o sofá e agachei-me perto de sua cabeça. Comecei a cutucar seu ombro.
— Ereen... Olha pra mim. – Mesmo sem estar enxergando qualquer coisa, ele desviou o olhar para o lado oposto. – Não tem motivo pra ficar assim... Você já ganhou de mim várias vezes também.
— Mas você me deixa ganhar... – Disse com a voz abafada.
— Não deixo nada... Ahh... – Dei outro suspiro. Parecia ser mais um teste para minha paciência. – Pare com essa frescura, pirralho. – Respirei fundo, tentaria dizer as coisas que o deixaria confortável se ficasse sabendo. – Eren, cadê o seu jeito determinado de quem nunca desiste? Até agora há pouco você estava assim, e... eu gosto disso. – Comecei a fazer uma carícia em seu cabelo. – Percebe? Eu te derrubava... Mas você se levantava todas as vezes. Todas... Sem um pingo menos motivado do que antes. Pelo contrário, você se levantava com mais vontade de vencer... Você faz isso em todos os jogos que jogamos, todos os desafios que fazemos, qualquer coisa... – Conforme eu falava e acarinhava seu cabelo, Eren ia relaxando os ombros. – E... isso é algo que me atrai muito em você... garoto.
Eren ainda não se virou, continuou olhando para o lado oposto e com boa parte do rosto afundado no travesseiro. Entretanto pude ver sua orelha ficando mais vermelha.
— Então... pare com essa frescura e olha pra mim, Eren. – Pedi, com bastante calma, mas ele ainda não olhava. – Ereen... – Era teimoso em certos momentos, e essa situação... pedia outras medidas. – Se você não se levantar daí e olhar nos meus olhos... – Levantei-me do chão e fui subindo em cima dele, aproveitando que já estava deitado de bruços. Sentei-me sobre suas coxas, apoiando minhas mãos cada uma de um lado do seu tronco. – Acho que vou ter que te forçar... – Dei leve tapinha em uma de suas nádegas pra chamar-lhe a atenção. – Me responde, pelo menos.
— Hmm... – Ele afundou mais ainda seu rosto no travesseiro.
— “Hm” não é resposta. Fale direito. – Pedia, enquanto dava uma sequência de leves batucadas nas nádegas dele com as duas mãos, como se tocasse dois tambores. – Eren! – Chamei-o novamente, mas de novo, sem resposta. Continuei a dar batidinhas rítmicas na sua bunda até notar algo diferente. Dei uma boa apertada nas duas elevações rechonchudas dele. – Waw... Isso aqui parece maior ou é impressão minha...?
— Para, Levi!! – Ele deu um grito, não aguentando mais o embaraço.
— Oh, então você ainda tem língua. – Inclinei-me sobre ele, quase encostando meu peito em suas costas. Tentei ver seu rosto, mas ele escondeu novamente. Já sem paciência, resolvi recorrer ao último método de fazê-lo parar com uma birra que nem motivo tinha. – Se eu bem me lembro... – Ainda inclinado sobre ele, levei ambas as mãos pra dentro de sua camisa. – Você é bem sensível aqui, não...?
Nesse momento Eren ergueu a cabeça. Mas já era tarde, comecei a mover meus dedos sobre a pele das laterais de seu corpo, os dois lugares que ele mais tem cócegas, fora a barriga.
— Aghh... Levi!! Não...!! – Ele logo começou a rir e a se contorcer. O que foi ótimo, uma resposta positiva! Isso me incentivou a fazer mais. – Ah...! Para, Levi!! Não! Aí não...!! – Ele ria no meio da fala. Era uma risada gostosa. Eu mesmo comecei a sorrir por dentro vendo-o assim.
Eren já estava todo contorcido, dava leves chutes inconscientemente. Foi pensando nisso que já me sentei em suas pernas, impedindo o movimento. Já começava a sair lágrimas de seus olhos. Ele não aguentava cócegas, sempre foi assim. Por isso era tão divertido fazer nele. E o garoto foi se virando até ficar cara a cara comigo. Rapidamente se deu por vencido.
— Tá bom, tá bom!! Parei! Não tô emburrado! Só queria ganhar, mas não estou bravo! – Ele falou em meio aos risos. Pelo seu tom, me pareceu uma resposta sincera. Sendo assim, parei o “estímulo”.
— Bom garoto. – Disse e ele abriu os olhos, enxugando as lágrimas. – Que isso não se repita. É irritante... – Falei duro. – Melhor quando está alegre... – Afastei sua franja.
— A-acha mesmo...?
Eu nada respondi. Resolvi demonstrar. Deitei-me totalmente de bruços sobre seu corpo, fazendo meu peito se encontrar com o dele e assim juntei nossas bocas num selinho demorado... Era só para sentir a maciez dos lábios um do outro. Eren, novamente, começou a rir... aquele riso de quando ficava tímido. Seu rosto corou rapidamente, parecia um camaleão de tão rápido que mudou o tom da pele. Fui um pouco pra trás, me encaixando melhor entre suas pernas, para assim poder deitar a cabeça sobre seu peito.
— Huhu... Seu coração está bem acelerado... – Comentei retoricamente.
— Hum... Também... Você me pegou desprevenido... – Ele fez um bico.
— Eu sei... – Senti seus braços entrelaçando em minhas costas, acolhendo-me mais. – Ouça, vou te treinar todos os dias até o seu teste... Quando vai dormir no Armin de novo?
— Ahh... Acho que na segunda. Minhas duas últimas provas serão na terça. – Explicou.
— Bem, então vamos treinar duro no fim de semana, ok? Principalmente no domingo.
— Claro! Er... Por que mais no domingo?
— Oh, esqueci de avisar. Sábado Erwin, Hanji e Mike vêm aqui, pra jantar de graça. – Ironizei, mas estava contente com o evento.
— É mesmo?! Ué, mas tem alguma ocasião...?
— Não, eles só estão com o tempo livre e... queriam uma noite pra jogar baralho. Hanji que convidou para que viessem na nossa casa.
— Ela que convidou? Heheheh Mas ela não mora aqui.
— Exatamente. É uma quatro-olhos muito abusada mesmo. – Comentei, roçando a mão sobre seu peito. – Bem... Acho melhor dormirmos. – Ameacei levantar dali, mas Eren me segurou.
— Não! Fica aqui...
— Hã...? Quer dormir no sofá? Você tem aula amanhã, não tem? Melhor você dormir na sua cama, onde é mais confortável...
— Ah, nãão... Já tá confortável aqui.
— Hunf. – Dei um suspiro, vendo que ele prendia meu corpo. Parece que queria que eu ficasse ali com ele. – Me deixe ao menos buscar um cobertor... — Ele pareceu recusar essa minha fala, pois me segurou com mais firmeza ainda, querendo impedir que eu me levantasse de qualquer jeito.
— Não... Assim já tá bom... Levi é quentinho... – Vi que sua expressão já se mostrava mais sonolenta.
— Hmm... Ok, então. Vou ficar aqui com você... – Resolvi esperá-lo pegar no sono, para que, enfim, eu pudesse ir para o meu quarto. Eren sorriu diante da minha resposta.
Conversamos mais um pouquinho. Assuntos totalmente aleatórios, mas nada cansativos. Eren foi falando até sua voz enfraquecer e seus olhos pesarem de sono. Não levou muito mais tempo até que ele dormisse de vez. Ainda esperei mais um pouco, até ter certeza de que estava em sono pesado, foi então que saí de cima dele e me pus em pé. No mesmo momento ele já se encolheu de leve, aparentemente sentindo frio.
Fui até seu quarto pegar seu cobertor e trouxe até a sala para cobri-lo. Depois de ajeitá-lo numa posição em que não ficasse com torcicolo, fui indo para o corredor, rumo ao meu quarto... mas parei. Dei uma última olhada para ele antes de apagar as luzes. Senti um pouco por deixá-lo ali sozinho na sala...
— Tsc. – Resolvi apenas pegar meu celular e voltei até o garoto. Ativei o despertador e coloquei na mesinha ao lado do sofá. Levantei a coberta e calmamente me deitei sobre seu corpo, me encaixando entre suas pernas de novo até pousar minha cabeça sobre seu peito, igual a posição de antes. Assim, cobri a nós dois com o cobertor... Por mais que seja um tanto pequeno para duas pessoas dormirem, não liguei de passar a noite ali, afinal. Eren estava comigo e... ele também era bem quentinho.
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