Reencarnação
8 Curiosidade hormonal
Notas iniciais
Eren
Hoje eu acordei bem em cima da hora com o chamado do Levi. Me troquei rapidamente e levei os pães para comer no carro, coisa que ele odiava pois deixava o assento e o piso cheios de farelos. Mas não liguei. Eu estava com muita fome pra dar importância a sermões.
Como o meu colégio é a caminho do hospital Santa Rose, Levi sempre me dava uma carona na ida. Já na volta, vinha a pé junto de Mikasa e Armin, que moravam na mesma direção.
Levi parou um pouco depois do portão do colégio para evitar o tumulto de gente que fica a entrada principal. Ajeitei a mochila nas costas, logo saindo do carro.
– Valeu a carona, Levi! – Falei com um pedaço de pão inteiro ainda na boca.
– Não fale de boca cheia, seu pirralho... – Disse ele num leve tom de sermão. – Você tem dinheiro?
– Hum... Não se preocupe, sobrou de ontem! – Respondi engolindo o pão.
– Certo, quando voltar pra casa, feche as janelas pra não entrar nenhum inseto. – Ele pediu.
– Haha, não se preocupe, Levi. Eu te protejo de novo se outra barata aparecer. – Respondi logo dando um sorriso divertido pra ele, que por sua vez apenas me olhou com uma cara irritada e impaciente com meu comentário.
– Cale a boca, pirralho... Hunf. Estou indo, então. Não se esqueça de pedir o telefone da senhora Kirschtein ao Jean. – Disse simplesmente, e eu concordei, logo pisou no acelerador e seguiu a avenida em direção ao hospital.
Eu apenas fiquei parado na calçada, rindo da cara que ele fez agora. Pareceu sem resposta e meio constrangido de lembrar do ocorrido de ontem. Posso brincar com essa historinha da barata mais vezes para irritá-lo.
– Eren! – Ouvi uma voz feminina me chamar, em seu tom meio inexpressivo de sempre.
– Ah, oi Mikasa! – Cumprimentei-a enquanto ela se aproximava de mim.
– O que houve com você ontem? Não tomou suspensão? – Ela perguntou preocupada.
– Ah, droga, esqueci de avisar você e o Armin! – Bati na própria testa vendo que me esqueci totalmente de ligar para os dois ontem. – Não se preocupe, foi só uma advertência. O diretor disse que só se visse eu e o Jean brigando de novo é que daria suspensão. – Expliquei enquanto caminhávamos os dois para dentro do colégio.
– Ah... Ainda bem, então. – Ela suspirou aliviada, ajeitando seu cachecol vermelho no pescoço. – Fiquei preocupada que você perdesse as aulas...
– Não se preocupe com isso. E... Er... Não acha que está com calor com esse cachecol hoje, Mikasa? – Perguntei arqueando uma sobrancelha, afinal, esta manhã estava mais quente.
– Não... Eu gosto de usá-lo sempre. – Ela comentou.
Bem, parando agora pra pensar, ela nunca deixou de usar o cachecol desde que eu o dei para ela de aniversário.
– Hehe, mas não precisa usar se não quiser, viu? Te dei isso pra usar no frio.
– Hum... dá pra usar em dias mais quentes também. – Comentou ela.
– Ah achei vocês dois! – Armin, de longe, gritou e correu em nossa direção. – Eren, o que foi que aconteceu com você ontem? Não te vi mais depois que levaram você e o Jean pra diretoria... – Disse dando um tapinha em minhas costas e um tanto curioso de saber da história.
No caminho para sala contei todo o resto do ocorrido a Armin e mais detalhes à Mikasa. O loiro logo me deu um leve sermão dizendo que havia avisado para eu não brigar e controlar minhas frustrações. Ele sempre dizia coisas assim pra mim. Quando adentramos nossa sala, pude ver de longe, ao fundo e sentado sobre a carteira, Jean me olhando com uma cara de invocado, para logo desviar seu olhar de volta para seu amigo, Marco, que andava sempre junto a ele. Já lancei um olhar também cheio de desprezo ao cara de cavalo enquanto caminhava até meu lugar. Eu sentava no meio de uma das fileiras do canto, enquanto Armin sentava-se à minha frente e Mikasa na carteira ao meu lado. Assim era melhor, podíamos conversar os três.
O sinal tocou e todos foram rapidamente para seus lugares. Uma menina quase se atrasou. Era a Sasha. Ela se atrasava direto, na verdade, e os motivos eram sempre comida. Mas ao menos ela conseguiu entrar na sala antes do professor Ian, de geografia. O que me fez lembrar que eu não fiz a tarefa de casa! Comecei a suar frio.
Ele logo chegou, mandando todos fazerem silêncio e se sentarem direito na cadeira.
– Bom dia, pessoal. Sem conversas agora... – Ele veio com seus materiais, colocando-os sobre a mesa. Eu o olhava um pouco desesperado, esperando que ele tivesse se esquecido da tarefa, ou ao menos não a vistasse agora. Pensei rapidamente em pedir ao Armin pra copiar a dele. Mas antes que eu o chamasse, o professor Ian chamou a atenção da sala. – Ei, pessoal! Hoje, teremos algo diferente. Vocês irão assistir a uma palestra nas duas primeiras aulas. – Disse ele, o que me deu um baita alívio. Perfeito. Isso tomaria a aula dele e eu poderia fazer a tarefa tranquilamente em casa.
Agora eu apenas ouvia as vozes alheias do pessoal da sala, alguns curiosos e outros desanimados com a tal palestra. Uns já até colocavam a mochila sobre a carteira para servir de travesseiro para um bom cochilo ao notarem que usariam o retroprojetor. Eu estava quase me juntando a esse pessoal.
Logo, uma moça, bastante jovem, adentrou a sala, junto do diretor Pixis, cumprimentando a todos nós com bastante simpatia.
Logo o diretor começou a falar.
– Bom dia, jovens. Eu seu que foi uma visita sem avisos prévios. Era para esta palestra acontecer no próximo bimestre, entretanto a senhorita Anka conseguiu um horário para o dia de hoje. Então, por favor, Anka... – O diretor Pixis passou a palavra à moça.
– Muito obrigada. Pessoal, bom dia, sou Anka Rheinberger. É um prazer para mim vir aqui, ao convite do diretor Pixis. – Ela educadamente se apresentou para nós.
Bem, o que falarei com vocês aqui e agora é um assunto importantíssimo para jovens, ainda mais na idade de vocês... – Assim que o professor Ian ajudou a ligar o retroprojetor na tela da lousa, a moça logo colocou seus slides na tela.
Pegou a todos de supresa o título “Sexualidade na Adolescência” bem grande e no centro do slide. Já se podiam ouvir alguns risos do fundo da sala e sorrisos maliciosos de outros. Eu, de primeira, apenas dei um riso de canto. Não esperava que fôssemos ter esse tipo de palestra assim do nada. Eu era um tanto inexperiente sobre esse assunto.
Quase nunca via coisas relacionadas a sexo. Lembro-me anos atrás da primeira vez que vi alguma coisa do tipo, numa madrugada em que eu estava sem sono, vendo TV na sala, quando aleatoriamente parei num canal que só mostrava programas ou filmes eróticos depois da meia-noite. Só sei que eu me assustei um pouco de começo, primeiro pela “gritaria” daquela mulher do filme. Segundo, pelo choque que foi pra mim por descobrir naquele momento como que é o sexo propriamente dito. Pois eu nunca perguntei pra ninguém, nem pra Hanji, como que era, pela vergonha.
Por isso, quando vi “aquele filme” na madrugada, fiquei boquiaberto. Juro que nem passava pela minha cabeça que o homem tinha que enfiar o... Bem, tanto faz! Eu só sei que esse pensamento infantil já se foi e agora eu sei perfeitamente como que se faz. Até já dei umas olhadas pela internet pra saber mais. Só que, para mim, isso era mais assunto de adultos e realmente não me importava muito. Por isso nem procurei mais por conteúdos desde então...
Só sei que, assim que o título da palestra fora revelado, todos os que estavam com sono, ficaram muito bem acordados. A sala ficou toda ouvidos e olhos para a moça à nossa frente. Foi aí que notei que o assunto “sexo” era um interesse geral. Até o Armin e a Mikasa ficaram um tanto empolgados em saber mais coisas a respeito. Ver a reação deles até que despertou minha curiosidade também do porquê o pessoal é tão... fissurado nisso.
– Bem, pessoal, vamos começar então... – A senhorita Anka deu a introdução. – Antes de mais nada, já aviso para os engraçadinhos que sexualidade não é sinônimo de relação sexual, viu? – Ela fez um tom irônico, já olhando para alguns garotos do fundo da sala. – Sexualidade é na verdade a energia que motiva as pessoas a encontrarem o amor. O contato físico e a intimidade veem depois. Creio que muitos de vocês agora já devem ter sentido uma quedinha por outra pessoa, não é?
Muitos riram, bastante sem graça com o que a moça disse. Eu me senti meio deslocado na hora. Não me lembro de ter ficado a fim de alguém até hoje... Mas eu sei que sou meio devagar desses assuntos, então... até posso ter ficado a fim de alguém e nem ter me dado conta. Seja como for, agora eu estava prestando bastante atenção nas palavras de Anka. Ao mesmo tempo, notei Mikasa me olhar de canto.
– Que foi...? – Sussurrei para ela.
– Nada... – Ela voltou a olhar para a orientadora e eu arqueei uma sobrancelha.
– Bem, mesmo que nem todos aqui tenham sentido atração por outra pessoa ainda, posso lhes assegurar que a fase que vocês estão agora é a que mais terão sensações estranhas, curiosidades e vontades em relação à outra pessoa. – Anka dizia tudo tão calmamente e de forma tão simples, mantinha todos bastante atentos. – Pois é a fase na vida de vocês de maior produção hormonal. Influenciará nos pensamentos, sentimentos e comportamentos. Digo que é a partir dos onze ou doze anos que as pessoas entram para o mundo da sexualidade a começar pelo autoconhecimento... Que eu sei muito bem o que os mocinhos aí do fundo acabaram de pensar. – Novamente ela deu um sorrisinho ao pessoal do fundo, que havia rido depois de sua fala. – Mas não se preocupem... meninos! – Ela lançou um olhar esperto sobre todos nós. – Tenho certeza que a maioria de vocês aqui já praticaram o autoconhecimento, não é? – Toda a sala riu. Foi aí que vimos que era uma moça bem espontânea. Falava tudo abertamente e interagia bem com a sala, que era lotada de jovens maliciosos. – Quem fez, apenas digo, não tenham vergonha de terem feito, pois masturbação é a coisa mais natural que todo ser humano faz, como já disse antes, não é nada mais, nada menos que conhecer o próprio corpo.
A palestra prosseguiu e Anka começou a falar de coisas bastante... Bem, só posso dizer que me dava certo constrangimento e uns arrepios. Primeiro sobre masturbação... Depois ela apontou como ficamos, principalmente durante a adolescência, cheios de medos e desejos. Anka falou até que amizade com amigos do mesmo sexo é uma forma de nos protegermos do sexo oposto, que é desejado e ao mesmo tempo temido. Achei uma lógica bastante estranha, mas que tinha sentido sim. Apesar de eu não me lembrar de sentir atração por nenhuma das meninas daqui... A orientadora falou da possibilidade de sentirmos atração por alguém do mesmo sexo. Essa fala, por algum motivo, me deixou um tanto inquieto...
Foi falado também que são os meninos que iniciam a vida sexual antes das meninas. Algo tipo “os meninos espalham a notícia” e “as meninas se rendem à situação”. Mas ao que deu a entender, aqui na minha classe, uma parte do pessoal, especialmente dos rapazes, não era mais virgem. Eu era um dos poucos. Anka também mencionou a respeito de virgindade ser um orgulho para uns e uma enorme culpa para outros... Eu, particularmente, estava indiferente quanto a isto.
No retroprojetor foi até passado um vídeo, mostrando exatamente como acontece tudo durante a relação sexual. Era um desenho animado e mostrava de lado, como num livro de biologia, expondo todos os sistemas reprodutores masculinos e femininos e o que acontece ali durante o sexo. Não era uma coisa muito maliciosa. Uma voz narrava tudo como ocorria. Mikasa estranhamente olhava o vídeo com bastante atenção. Bem, lembro-me que, quando criança, ela vivia perguntando para os adultos de onde vinham os bebês e eles sempre a enrolavam. Agora, embora ela já soubesse a resposta, ver um vídeo explícito e animado tenha sido bem fascinante para ela.
Depois disso, Anka começou a falar sobre as prevenções. Ela alertou das doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada, afirmando que, como adolescentes em explosão de hormônios, tendemos a esquecer essas coisas e sair “fazendo”. Então ela enfatizou o uso de preservativos sempre. Ela não só disse, como distribuiu um par de camisinhas para cada aluno ali.
Não sei por que motivo, mas eu fiquei corado ao receber aquilo em mãos. Relaxe, Eren, não é como se você fosse sair da escola hoje para já usá-las, a moça apenas distribuiu como parte da palestra.
Anka, então, abriu uma oportunidade para perguntarem qualquer coisa para ela a respeito de tudo isso. No início, todos ficaram meio sem graça, mas depois que veio a primeira pergunta, ainda por cima do Reiner, foi que o resto tomou coragem para perguntar também. E saía cada dúvida constrangedora. Vi Armin ficar vermelho com cada uma delas. Eu mesmo pensei em perguntar algo, mas... achei melhor não.
Só sei que assim que a palestra terminou, Anka se despediu de todos, deixando a sala. Quando o sinal tocou, logo os grupinhos foram se juntando para iniciarem os comentários sobre a palestra. Ao que percebi, todo mundo ali gostou. Eu, Armin e Mikasa também ficamos comentando entre nós.
~*~
Depois da terceira aula, finalmente tocou o sinal para o intervalo. Eu saí voando na frente da Mikasa e do Armin até o refeitório. Os dois nem ligaram, pois sabiam bem do inferno que virava aquele lugar caso demorasse muito pra chegar.
Corri bastante e logo entrei na fila da cantina... bem, quando eu digo “fila” quero dizer “tumulto”. Sim, mesmo saindo logo, o lugar já ficava cheio. E como era um tumulto, fui entrando na frente do pessoal passando pelos menores espaços que encontrava até alcançar o caixa. Lá pedi um lanche e a moça me deu rapidamente. Saí do meio do pessoal, feliz de finalmente poder comer algo e logo no início do intervalo. Eu estava faminto.
Fui andando até o centro do refeitório, sem olhar pra frente. Apenas fitava meu lanche. Quando dei a primeira mordida, foi meio inevitável trombar com alguém sem querer. O choque me fez dar um passo para trás e quando vi o sujeito...
– Argh, olha por onde anda, Jaeger! – O cara de cavalo, na sua delicadeza de sempre, apenas me deu uma empurrada e saiu andando. Mas antes que se afastasse eu segurei seu braço.
– Espere! – Pedi com a boca cheia. Acabara de lembrar que tinha um pedido do Levi para ele. – Jean, vamos ficar numa boa só agora...?
– Hum? – Ele arqueou uma sobrancelha, olhando estranhamente para mim. – O que é que você quer? – Ele livrou seu braço e então deu uma relaxada, apoiando a mão na cintura e esperando minha fala.
– Er... Então... E-eu queria o telefone da sua mãe... – Fui direto.
– Hã? Você quer o telefone da minha casa, então? – Perguntou olhando-me mais estranhamente.
– Não entenda coisa errada! Quem tá pedindo isso é o meu... o meu... – Eu sempre travava nessa hora. Era um problema constante. Sempre que eu conversava com outras pessoas, que não fossem Mikasa ou Armin, eu nunca sabia como chamar o Levi. Irmão? Pai? Primo? Tio? Acabava sempre chamando-o só de responsável. – O Levi, meu responsável, é quem está pedindo, não eu! – Esclareci.
– Ah...! Aquele carinha de ontem... É seu irmão? – Perguntou curioso.
– Hum... não... – Será que seria melhor apenas ter concordado? – Por quê?
– Por nada não. Só achei ele meio novo pra ser seu tio ou algo do tipo... – Comentou. – Mas por que ele quer falar com a minha mãe? – Perguntou um tanto impaciente.
– Eu não sei, não perguntei... Só que... é importante!
– Hunf. – Jean deu um leve suspiro. – Minha mãe contou pra mim a sua historinha no orfanato. – Ele disse, agora com uma voz mais suave. O que me fez olhá-lo meio surpreso.
– É...?
– Hum, então, tá aqui... – Jean então pegou um guardanapo de uma das mesas perto do refeitório e ali anotou o telefone. – Toma, o número de casa e do celular dela. – Disse estendendo o papel a mim.
– Oh, obrigado, cara de cavalo! – Agradeci.
– Pare de me chamar assim, seu idiota! E sai da minha frente! – Ele deu um tapa bem forte em minhas costas antes de continuar seu caminho até a cantina. Normalmente eu revidava esse tipo de coisa, mas deixei passar desta vez. Ao menos Levi ficaria contente de eu não esquecer um favor que ele pede, pois normalmente esqueço a maioria dos favores dele.
Avistei de longe Armin e Mikasa sentando-se em uma das mesas perto da janela. O loiro acenava pra mim. Continuei meu caminho até ele, dando mais uma mordida em meu lanche.
~*~
Já era quase sete horas da noite, e obviamente eu estava em casa. Já havia feito o dever de geografia e agora estava lavando a louça do café da manhã e do meu almoço. Aproveitava para esquentar a comida para o jantar. Queria terminar tudo antes do Levi voltar do trabalho.
Confesso que não parei de pensar na palestra de hoje desde que cheguei em casa. Muitas coisas que Anka havia falado me fizeram prestar mais atenção em mim mesmo e nos outros meninos... nas meninas também... O fato do tema “sexo” ser bastante interessante pra todo o pessoal foi que despertou mais minha curiosidade no assunto. Sempre é tão falado no tal prazer ao ter relações sexuais, que é uma sensação única e que te deixa viciado... Isso eu já ouvia tanto do pessoal da escola como também fora comentado durante a palestra. Será que é tão bom assim...? Internamente fiquei bastante a fim de experimentar essa sensação na hora... Só pra matar a curiosidade.
Será que o Levi já teve essa sensação? Bom, claro né Eren! Ele já tem mais de trinta anos, claro que já se aproveitou dessas coisas alguma vez, ao menos. Eu fico me perguntando sobre isso mais porque... não consigo imaginá-lo tendo qualquer tipo de reação de regozijo extremo. Afinal, pelo que eu ouço por aí, “transar” é um ato que faz a pessoa sair um pouco da razão e perder sua postura. E não consigo de forma alguma imaginar o Levi nesse estado... Parece meio irreal. Levi nunca mostra muito suas emoções, está sério a maior parte do tempo. Vez ou outra, ele dá um riso, mas tem que ser por algo muito engraçado mesmo. Que coisa... Eu vivo com ele desde que eu nasci e ainda não o conheço completamente. Pelo menos nessas coisas de sentimentos e expressividades. Levi sempre foi tão misterioso nesse aspecto... isso de alguma forma me despertava curiosidades... “Como seria o Levi nesse estado...?”
– Cheguei, Eren. – Tomei um baita susto ao ouvir a voz ecoar da porta de entrada do apartamento. Quase deixei o copo cair de minhas mãos. Logo olhei meio desesperado para o meu responsável.
– Levi! Ah... Er, b-bem vindo de volta! – Dei um sorrisinho, suando estranhamente.
– O que foi? – Perguntou ele com um olhar estranho pra mim.
– Que foi o que?
– Parece meio nervoso... Aconteceu alguma coisa? – Perguntou desconfiado.
– Hã?! C-claro que não, p-por que aconteceria alguma coisa? Por que eu estaria nervoso?! – Dei um sorrisinho meio forçado. Nem mesmo eu sabia porquê estava agindo assim.
– Ei, calma aí, pirralho, só fiz uma pergunta... – Disse simplesmente. – Bem, vejo que já esquentou a comida. – Comentou observando as panelas no fogão. – Nesse caso, eu vou tomar banho agora, ok? – Avisou enquanto desatava sua gravata indo direto para o banheiro e trancando a porta. Sempre avisávamos um ao outro quando íamos tomar banho, afinal, temos um único banheiro no apartamento. Se um ficasse apertado não conseguiria se aliviar até o outro sair. Mas de momento eu não estava apertado. Agora eu me sentia um pouco estranho... Fiquei nervoso agora na frente do Levi sem motivos...
Espere. Na verdade... tinha motivo sim! Eu estava... tentando imaginar o Levi durante o sexo?! O que deu em mim?! Mas que... que estranho. Não é possível que depois de uma simples palestra eu tenha me tornado um pervertido a ponto de ficar imaginado o meu... meu praticamente irmão, muito mais velho do que eu, e ainda por cima homem, nesse tipo de situação. “Pare com isso, Eren! Esqueça esse assunto e vá assistir um pouco de TV!”
Isso! Rapidamente, quando terminei de guardar toda a louça nos armários, retirei o avental, fiz meu prato para a janta e logo fui para a sala sentar-me no sofá. Apoiei o prato em uma almofada e a mesma em meu colo, iniciando minha refeição. Por hora fui distraindo dos pensamentos sobre o Levi vendo a programação da TV a cabo.
Pouco tempo depois, ouvi Levi saindo do banheiro e dando passos até seu quarto. Por um momento parei pra pensar... Levi chegou em casa e foi direto para o banheiro, nem foi buscar roupas limpas no quarto. Isso quer dizer que ele estava andando nu pelo corredor...? Quando dei por mim, já estava me inclinando no sofá para dar uma espiadinha...
Mas por que eu estava fazendo isso?! Virei-me rapidamente pra frente. Eu tinha que me controlar, que distúrbios são esses? Vai ver é por eu estar pensando muito em sexualidade por causa da palestra de hoje. Não sou experiente nesse assunto e estou apenas com bastante curiosidade agora, então acabava olhando para a primeira pessoa que estiver à frente, que no caso é o Levi. Pronto, era só isso! Nada a se envergonhar. Amanhã, na escola, focarei em outras pessoas. Nas meninas de preferencia...
– Por que não está comendo na mesa? – Levi subitamente apareceu do meu lado perguntando.
– Ahhh! É que... e-eu... queria ver TV! – “Caramba, como você se vestiu rápido!” Pensei.
– Hum, tudo bem então. Só cuidado pra não sujar o sofá. – Ele logo foi para a cozinha que, como era aberta à sala, me permitiu que o ficasse observando. Andava sempre de chinelos em casa, com fobia de sujar os pés, por mais limpo que o nosso chão fosse. Estava usando sua camisa branca de mangas longas e uma despojada calça de moletom. Era seu típico pijama para noites um pouco mais frias como hoje. – Oh, parabéns, não queimou a comida desta vez. – Comentou abrindo as panelas e se servindo da comida também.
– Hã? Eu nunca queimei a comida!
– Queimou sim. – Levi falava tudo no mesmo tom, sempre foi assim. Nunca dava pra saber se ele estava sendo sarcástico ou não. Ele logo sentou-se na mesa e começou sua refeição. – Você trouxe o telefone da senhora Kirschtein? – Perguntou brevemente.
– Hum, sim! – Respondi de boca cheia. – Está na minha mochila, te dou daqui a pouco.
– Certo, mas não fale de boca cheia, já falei isso quinhentas vezes...
– Opa, desculpa.
– E então? Como foi seu dia na escola? – Levi perguntava isso vez ou outra. Creio que tenha ficado encucado depois da briga que tive com o Jean ontem e quis saber se estava tudo bem entre eu e ele.
– Foi normal... – Respondi ao mesmo tempo me lembrando da palestra.
– Não brigou com ninguém?
– Não. – Respondi.
– Hum, bom garoto. – Levi encheu um copo com água, logo dando um gole. – Mas se brigar, pelo menos ganhe a briga. – Comentou e eu ri.
– Pode deixar! E você? Como foi no trabalho?
– Foi normal... – Respondeu igual a mim, dando uma outra golada em sua bebida. Ele começou a comentar de seu trabalho e de algumas conversas estranhas que teve com Hanji, ou seja, seu dia foi mesmo normal.
Por um momento fiquei olhando-o de longe enquanto ele falava. Sentado de forma despojada à mesa, vez ou outra dava uma massageada no pescoço. Seus cabelos ainda estavam meio molhados pelo banho, dava para ver de longe. Ora olhava para mim, ora olhava para seu prato, ora olhava para a TV. Seu olhar era bastante peculiar, meio fechado e inexpressivo, coisa que aumentava ainda mais o mistério que aquele cara era. Dei uma desviada no meu olhar pois notei que estava o olhando estranhamente de novo...
~*~
Levi foi dormir mais cedo, eu entretanto estava sem sono. Continuei na sala, vendo TV num volume mais baixo e com as luzes da sala apagadas. Apenas a própria TV era minha iluminação para enxergar as coisas ao redor. Só não podia ficar ali muito tempo, tenho que dormir logo pois ainda teria aula amanhã.
Só queria ver mais esse episódio da série que eu estava acompanhando. Quando entrou no comercial, fui passando os canais aleatoriamente pra ver que outras séries costumam passar nos outros canais neste horário. Foi quando parei naquele canal. Bem, na verdade não parei nele, passei direto, mas o titulo da programação me deixou meio curioso. Sim, era aquele canal que passava programas “para adultos” depois da meia-noite.
Hum, não sou nenhum santo. Claro que fiquei com vontade de ver com um pouco mais de concentração o que passa ali. Dei uma olhadinha de canto para o corredor em direção à porta do quarto do Levi. Estava fechada. Dei de ombros, supondo que já estivesse em sono pesado, visto que ele foi pra cama já faz bastante tempo.
Coloquei no canal. A primeira cena que apareceu foi uma garota, com umas roupas bastante curtas, abaixada sob a pia de uma cozinha. Aparentemente tentava consertar um cano. E pelo que notei, não manjava nada. De repente, do nada, apareceu um encanador (bem bonito!) perguntando para ela se foi aqui que pediram por seus serviços. Era uma historinha boba e meio sem nexo. Obvio que o objetivo era apenas mostrar o corpo daquela garota.
Quando menos se espera, o encanador e aquela moça já estavam se beijando e retirando as vestimentas. Eu, novamente, fiquei meio chocado. Era rápido assim que acontecia na vida real? As cenas eróticas logo começaram, nesse momento abaixei bem o volume da TV. Vai que o Levi escuta. Porque aquela garota praticamente gritava durante o ato, será que sentia dor? Será que já era prazer? Será que eles não têm vergonha de filmar uma coisa dessas?! Eram muitas perguntas rondando minha cabeça e umas sensações meio estranhas lá em baixo... E quanto ao homem? Tentei prestar um pouco de atenção nele, mas a câmera parecia focar mais na garota.
Mas fiquei olhando os movimentos dele... era um tanto hipnotizante. Ainda mais porque ele segurava e acariciava aquela garota de uma forma tão... tão... não sei nem explicar, mas me deixava todo arrepiado. Pior... o corte de cabelo dele... era raspado em baixo e mais comprido em cima, deixando as mexas negras caídas. Aquele cara era igualzinho o Levi, entretanto mais alto. Será esse o motivo de ter me causado umas reações...? Chacoalhei a cabeça tentando afastar quaisquer devaneios.
Bem, não sei se sentiam dor ali ou não, mas os dois atores realmente saíram de sua razão naquele momento, eles pareciam em transe e se entregaram para o seu lado animalesco... Aquela garota... deve estar sentindo mesmo muito prazer do jeito que se contorcia diante dos estímulos do Levi... digo, daquele homem. Será que aquilo era bom...? Comecei a me sentir meio estranho... Um pouco mais quente do que o normal. Resolvi desligar a TV. Melhor mesmo é eu dormir. E esquecer esse papo de sexo... !
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