Reencarnação
21 Clima pacífico
Notas iniciais
Eren
Mais um belo fim de semana de descanso. Como adiantamos várias das tarefas domésticas na quinta e na sexta, tínhamos agora o fim de semana mais livre. Estava até ensolarado. Eu levei um pouco mais de tempo para tentar calçar os patins do que o Levi. Ele já dava umas voltinhas ao redor do banco enquanto me esperava.
Finalmente calçado, fui me pondo em pé vagarosamente, não tirando minha mão de apoio do banco.
— Eren, anda logo...! – Chamou Levi na sua típica pose de impaciência, com os braços cruzados e com olhar apressado.
— Espera, eu já vou! – Ainda com as pernas meio trêmulas, fui tentando andar na direção do Levi o mais rápido de pude. Mas, como eu não sei andar de patins, já fui logo perdendo o equilíbrio a cada centímetro que me aproximava dele, além de eu não saber como frear. – Ahh, L-Levi, socorro!
Quando perdi o equilíbrio de vez, ele rapidamente veio e me segurou em seus braços antes que eu fosse de cara com o chão. Foi um alívio. Tenho certeza que me esfolaria bonito.
— Ei, preste mais atenção. Tem um travão aí no patim, use-o para frear. – Ele falou no maior tom de óbvio enquanto me ajudava a me manter em equilíbrio.
— Mas como que usa?
— Vire os pés assim... – Levi fez uma posição com o calcanhar, apoiando a parte do tal travão no chão.
— Tá bem... V-vou tentar. – Consegui ficar em pé, bem ereto, mas ainda tremia as pernas. Levi, vendo minha insegurança, veio à minha frente e estendeu a mão.
— Vem, eu vou te puxar. E servir de apoio também. – Fiquei aliviado ao tê-lo como segurança. Assim que segurei sua mão, ele começou a andar. – Mantenhas os pés retos para frente, se não você vai acabar indo para os lados ou acabar abrindo um espacate aqui.
— Entendi. – Mesmo com Levi me ajudando, ainda achava muito ruim andar de patins, mas respirei fundo e fui tentando ir ao meu ritmo. Não quero mais fazer nada feio na frente dele.
Depois de andar uma boa parte da pista do parque, Levi sentiu firmeza de eu conseguir prosseguir sozinho. Logo soltou minha mão e foi me acompanhando ao lado.
— Isso, garoto...! Está indo bem. – Elogiou ele. Eu sorri, me sentindo mais confiante.
— Ahh... Até que é fácil! – Me senti melhor ainda quando fui conseguindo desviar das pessoas do meu caminho. Mas surgiu bem na minha frente um rapaz que passeava com vários cachorros ao mesmo tempo, no meio deles, um São Bernardo. Este quase pulou sobre mim. Eu rapidamente fiz um desvio maior que me levou para uma outra pista...
— Eren, não! Aí é descida! – Levi, num tom mais exaltado, disse.
— Descida...?! – Fiquei branco na hora e quando dei por mim, já estava ladeira abaixo sem controle. A velocidade foi aumentando mais e eu fui entrando em desespero, não conseguiria desviar de nada e nem de ninguém. – S-sai da frente! Saiam! Eu não consigo parar!! – Apenas pedia espaço para os que estavam no caminho para evitar acidentes. Nem lembrei na hora como é que freava. Eu já até fechei os olhos, esperando pelo meu choque contra o chão.
Mas antes, pude sentir os braços do Levi me segurarem para logo tentar diminuir a velocidade. Porém não deu tempo, chegamos à uma curva com uma área gramada e os patins travaram à margem, caímos e rolamos com tudo uns metros à frente, quase atingindo uma família que fazia piquenique ali, até eu ficar deitado e o corpo dele sobre o meu.
Nossa, foi um baita susto! Abri os olhos e vi Levi me olhando com preocupação. Logo fui me tateando pra ter certeza de que estava inteiro.
— Caramba, achei que eu fosse morrer... – Senti o coração acelerado. Foi muita adrenalina, mas não senti tanta dor quanto pensei que sentiria... Mais uma vez Levi me salvou... e amorteceu minha queda.
— É... Você me deu um susto também, seu pirralho... Não faça mais isso. – Levi, num tom aliviado, foi logo se pondo em pé e me ajudando a levantar.
— O-obrigado por me salvar... de novo. – Agradeci e Levi ajeitou meu cabelo, que ficara bem bagunçado por conta do vento.
— Hunf... Talvez não tenha sido uma boa ideia andar de patins...
— N-não! Não pense isso. O problema deles é que... a gente não tem controle do freio... – Falei rindo para o mais baixo, que apenas deu um breve suspiro, checando todo o meu corpo a fim de ver se eu estava mesmo inteiro.
Foi aí que percebi duas crianças que estavam paradas em pé olhando para nós. Eu e Levi as olhamos interrogativos, pois elas faziam uma expressão estranha.
— Moços, vocês se machucaram? – Perguntou a menina com um tom inocente. Nós dois nos entreolhamos, para logo responder.
— Não. Está tudo bem... – Tranquilizou Levi.
— Que bom, porque a queda de vocês foi engraçada! – O menino e a menina então começaram a dar altas gargalhadas de nós. Uma veia pulsou na testa de Levi.
— Oh, e que tal uma queda de vocês dois até aquele lago ali? Não seria engraçado? – Levi na sua indiferença foi indo até os dois de um jeito bem medonho. As duas crianças, sem parar de rir, correram para longe. – Hunf.
— Levi, não precisava assustá-los assim. – Falei.
— Eles merecem... Não tenho paciência com criança. – Ele disse e simplesmente foi caminhando cuidadosamente até a pista do parque. Enquanto eu fiquei com uma expressão meio torta.
— O quê? Como assim “não tem paciência com criança”? – Arqueei a sobrancelha, indignado. – E pra cuidar de mim? Como foi que fez?
— Hum... Você é diferente... – Ele disse baixo e sem me olhar, logo pôs-se a continuar seu caminho de patins. Eu casualmente fiquei com as bochechas coradas olhando-o, até chacoalhar a cabeça e ir atrás dele.
— Espere, Levi! – De forma muito lenta e desajeitada fui andando a fim de alcançá-lo. – Vai mais devagar! Não me deixe aqui, eu ainda não sei andar direito! Leviii!!!!
Levi
Depois de um bom tempo andando na pista do parque, Eren avistou um carrinho de sorvete e logo se animou.
— Ah, Levi! Vou comprar um sorvete lá rapidinho, tá? – Avisou.
— Ok.
— Você não quer?
— Não, compre só você.
— Tá! – Eren, de forma sedenta, foi voando até o senhor dos sorvetes. Achei bom mesmo fazer uma pausa. Apesar de estarmos meio que entrando no inverno, o sol esquentava bem hoje pra quem ficava sob ele muito tempo. Eu e o garoto suávamos. Fui até um banco a fim de sentar e descansar um pouco, abri minha garrafinha d’água e dei uma golada. Eu mesmo já estava mais cansado do que o normal. O estranho é que não estava tão calor assim hoje, mas ficar com a cabeça em baixo do sol...
Dei uma olhada ao redor, vendo como o parque estava cheio. Famílias sentadas à sombra de árvores, crianças correndo pra lá e pra cá, jovens jogando bola na quadra, velhinhos sentados dando migalhas de pão a pombos, tudo bastante movimentado. Meus olhos passaram por todos até prestar atenção em uma pessoa em específico que de repente se levantou e saiu andando rápido até sumir colina abaixo. Estranhamente ela estava toda encapuzada e com sobretudo, então não pude ver nem se era homem ou mulher. Mas achei estranho...
— Levi?
— Hu? – Voltei minha atenção para Eren, que já tomava seu sorvete de casquinha.
— Quer um pouco? – Ele me ofereceu. – Parece bem cansado.
— Talvez... – Ironizei, logo me inclinando até dar uma lambida num canto que escorria o sorvete. – Hum... baunilha.
— É... – O rosto dele ficou rosado.
— Pode parar com isso.
— Eh?!
— Eu sei que está pensando besteira.
— Quem disse que eu pensei besteira?! – Falou indignado.
— Sua cara.
— Mentiroso...! – Eren se encabula muito fácil.
— Meninos, vocês aqui!! – Uma voz extremamente estridente e familiar nos chama a atenção, quando vemos uma figura de óculos vindo em nossa direção.
— Hanji! – Eren logo abre um sorriso para a quatro-olhos.
— Oh, você por aqui também. – Comentei surpreso, vendo-a num traje típico de corrida.
— Ah, sim...! Eu quis dar uma espairecida. – Sua voz soou meio diferente...
— Tudo bem com você, Hanji? – Perguntei.
— Oh, claro! Por que pergunta? – Ela continuava sorrindo, mas pra mim já estava mais do que claro que havia alguma coisa errada.
— Hanji, eu te conheço...! – Falei firmemente e Eren passou a olhá-la interrogativo. A quatro-olhos então parou por um tempo, olhando a nós dois com uma expressão mudada, como se tivesse se dado conta que não enganaria ninguém. Uma lágrima então escorreu de seu rosto e nós dois passamos a ficar pasmos.
— O que houve, Hanji?! – Eren começou a se apavorar. Sempre foi meio chocante para ele ver Hanji chorar.
— Er... Eu... Eu perdi um paciente hoje! – Ela então desabou em lágrimas, de uma forma bem histérica, como uma criança que se machucara. Logo se agachou no chão, dando soluçadas. Todos que estava por perto viraram-se para nossa direção.
— Oh, Hanji... – Eren olhou-a com pena. – S-sinto muito... – Ela, com seu jeito espevitado, abraçou Eren com força fazendo uma cena bem dramática que quase o fez derrubar o sorvete. Ele, meio sem jeito, passou a mão nas costas dela, tentando acalmá-la. – T-tudo bem, Hanji, tudo bem...! Er... J-já vai passar. – Pobre garoto, ele ficava muito sem ações quando tentava consolar alguém. Resolvi ajudar...
— Quatro-olhos, sente aqui. – Abri um espaço para ela no banco, e se acomodou sem largar o Eren.
— Snif... Ahh, Levi... tinha que ver... Era um senhor tão simpático. Eu conversei um monte com ele. Estava pra fazer um transplante e eu seria a assistente na cirurgia... Mas ele não resistiu...!! – Novamente ela desabou, de uma forma que chamava muita atenção. Eu logo fiz sinal para as pessoas ao redor que estava tudo bem.
— Hanji, essas coisas acontecem... Você é enfermeira, já viu outros pacientes irem assim também... – Tentei normalizá-la.
— É, mas... com esse velhinho foi diferente. Eu me afeiçoei muito a ele em apenas cinco dias... Ele era tão bacana... Tão honesto... como pode ir assim?!
— Levi...! Melhor levarmos Hanji pra casa... – Eren falava com uma voz sufocada devido à força que a doida o apertava.
— Quatro-olhos, venha. Vamos pra casa então... – Eu vim levantando-a, e ela por sua vez não largava o Eren.
— E pare de sufocar o menino assim! Quer outra morte aqui? – Falei firme, sei que não era o momento para ironias, mas saía meio que automático. E ela logo o soltou para abraçar a mim agora. E continuava a choradeira.
~*~
Já em nosso apartamento, depois de várias horas junto comigo e com o Eren, Hanji se acalmou. Eu já sabia que ia terminar assim, por isso até que estava tranquilo, pelo menos mais do que o Eren. Sei que Hanji é uma mulher muito forte e resistente, mas ela desaba diante de algo trágico do tipo. Todavia também, depois de um tempo conversando e se distraindo, ela superava bem. E agora, comia bastante da nossa comida pra extravasar a emoção.
— Está melhor agora, Hanji? – Perguntou Eren apreensivo enquanto servia-lhe um copo de suco.
— Ah, bem melhor agora, querido. Obrigada. – Ela fez uma carícia em seu rosto e tomou da bebida. – Hm... Espero que o senhor Sawney descanse em paz agora.
Depois que ela contou a história desse velho e mais todas as historinhas que ele contou a ela, reconheci que já havia visto esse senhor. Acho que a filha dele conversou comigo há um tempo para negociar um preço para uma cirurgia, não me recordava muito bem. Eu, como diretor financeiro, costumo conversar com muitos pacientes que querem descontos em tratamentos ou negociar prestações, por isso tinha uma leve lembrança de como era o rosto desse senhor.
Hanji continuou seu jantar enquanto Eren fazia graças para ela, o que funcionava bem, pois ela já ria normalmente.
~*~
Deu meia-noite, Hanji e Eren continuavam na sala de jantar. Conversa vai, conversa vem, eles acabaram entrando no assunto das provas finais do garoto, então a quatro-olhos resolveu estudar com ele a fim de se distrair mais. Estudaram principalmente biologia, que é a área que Hanji domina e ficaram ali por quase três horas. Agora, já estando muito tarde, fui chamar a atenção dos dois.
— Ei, vamos dormir logo... – Falei cansado. Eren deu um bocejo, logo seguido por Hanji.
— É, está tarde mesmo. – Comentou o garoto. – Mas muito obrigado Hanji! Me ajudou muito a adiantar uns estudos...
— Sem problemas, querido! – Ela sorriu do seu jeito costumeiro, o que é um alívio, quer dizer que havia superado o episódio ruim do hospital.
— Bem, quer mais alguma coisa antes de ir, Hanji? – Perguntei.
— Ir? Pra onde?
— Ué, pra sua casa... – Falei em tom de óbvio.
— Ahh... É mesmo... É uma pena. Não imagina o quanto eu adoro ficar com vocês dois...! Nós três nos divertimos tanto... Mas é... está certo, tenho que ir pra casa... É bem aqui do lado, afinal, né...? – Hanji fazia um tom lamentável e claramente teatral. Talvez ela ainda não quisesse ficar sozinha. Dei um longo suspiro e olhei-a antes que saísse do apartamento.
— Espera, quatro-olhos...
...
Alguns minutos depois estávamos eu, Eren e Hanji dividindo a cama queen size do meu quarto, já prontos para dormir. Cada um com sua própria coberta. E a doida ficou bem no meio de nós.
— Ahh, essa cama é mesmo enorme! – Comentou ela, bastante impressionada. – Haha, agora sei porque Eren dorme aqui todas as noites.
— Eh?! C-como é que você sabe? – Eren ficou perplexo e levemente envergonhado.
— Ora, dá pra ouvir tudo...!! – Tapei a boca dela, já sentindo a veiazinha pulsar em minha testa.
— Hanji, é hora de dormir, lembra? – Falei em tom irônico. Notei também a expressão espantada do garoto. – E relaxa, Eren, ela tá blefando.
— Não estou não...!
— Levi... isso quer dizer que... os outros apartamentos também... Ah, droga, eu não posso mais encarar os vizinhos de novo depois dessa! – Ele afundou o rosto no travesseiro, completamente sem graça.
— Não, Eren! Confie em mim, não dá pra ouvir, eu garanto. – Tranquilizei.
— É, mocinho, relaxe, eu sou a única do prédio que tem estetoscópio. – Falou Hanji num tom tão tranquilo.
— Como é que é?! – Agora quem ficou perplexo fui eu. – Você fica ouvindo a gente com estetoscópio, sua maníaca? Toma teu rumo! – Ela logo caiu na gargalhada.
— Eu tô brincando, baixinho, você não tem mesmo senso de humor, não é? – Ela se virou para o garoto. – Eren, relaxa, eu não escuto nada não, tá? – Ela foi tranquilizando-o. Pelo seu tom agora, parecia mesmo estar sendo sincera, só por isso dei uma relaxada, pois já estava pronto para colar uma fita adesiva em sua boca ou simplesmente fazê-la dormir no chão. – Eu só percebo que vocês fizeram alguma coisa quando Levi aparece pra mim com o maior sorrisão no dia seguinte!
— Hanji!! – Meu rosto já enrubescia de raiva.
— S-sério, Levi...? – Eren fez uma cara estranha pra mim.
— Não, claro que não! Argh... Por que estamos aqui conversando besteiras? É hora de dormir! – Já de saco cheio de tanta criancice, resolvi apenas virar para meu lado e ficar quieto até o sono chegar. Mas ainda dava pra ouvir os baixos risos de Hanji e Eren.
— Ownt, você é um amor, Levi. – Hanji, pra fazer graça, fez cócegas em minha nuca.
— Pare!! – Meu tom saiu mais alterado.
— Oh, espero que não fale rude desse jeito quando formos tocar lá no colégio do Eren. – Ela logo se pôs a rir de novo.
— Hã?! H-Hanji! – Eren arregalou os olhos. – V-v-você comentou sobre isso com ele? Eu falei que foi uma ideia meio...! Er... Mas você iria, Levi...?
— Não...
— Ah, ele está sendo chato, Eren. Não se preocupe, ele vai sim. – Ela piscou pra ele.
— Haha, tudo bem, Hanji... Não precisa ir não, Levi. A gente só está brincando...! – Já percebi pelo tom da voz que Eren tentava ao máximo não me deixar desconfortável.
— Quê?! Mas eu tô falando muito sério! – A quatro-olhos protestou. – Ele vai sim, Eren. O Mike já topou e com o Levi... bem, eu sempre dei um jeitinho.
— Hanji... – Agora eu perdia a paciência mesmo. – Eu tenho um travesseiro aqui em minhas mãos... e você sabe que eu consigo matar uma pessoa só com isso, não sabe?
— Uhh, boa noite então, baixinho! Boa noite, Erenzinho! – Ela rapidamente se acomodou quietinha na cama. Eren novamente riu.
— Hehe, é legal ter a Hanji por perto, ela pode dormir aqui mais vezes, Levi? – Ele perguntou na maior inocência e eu respondi com meu olhar mais carrancudo que tinha.
— Tá zoando, né?
~*~
Eren
A semana das provas finais estava chegando ao fim! E neste momento, eu ainda estava na sala de aula, terminando a minha última prova do ano. Biologia. Eram vinte questões, e faltavam apenas duas para eu estar totalmente livre de estudos chatos e excessivos que eu fazia com Armin. Mas agora eu me concentrava mais no que aprendi com Hanji no nosso último estudo juntos. Ela me ajudou bastante. Chutei só umas cinco questões, o resto eu lembrava mesmo da matéria, especialmente a parte sobre genética, que eu sempre confundia tudo e errava as probabilidades... Bem, eu continuava a confundir ainda, mas bem menos do que antes.
Terminada minha prova, fui rapidamente entregar à professora Rico, ansioso em sair logo daquele lugar enfurnado. Como era a última aula, quem fosse terminando a prova já poderia ir para o pátio do colégio esperar pelo sinal. Mikasa e Armin terminaram antes de mim, como sempre, e já estavam livres há mais tempo. Mesmo tendo demorado, saí pondo a mochila e dançando animado pelo corredor. Eu sei que havia ido bem nesta prova! Tenho certeza! Acho que este será um semestre que não terei recuperação alguma, passarei já direto para o segundo ano. Tudo sem nenhum sofrimento.
Antes de chegar ao pátio, eu parei no meio do corredor, logo pegando meu celular. Agora, depois de um tempo se acostumando, Levi tem usado bastante o chat do celular pra se comunicar com as pessoas. Eu e ele temos conversado bastante... Eu queria agora contar a ele primeiro sobre meu feito do dia.
Encostei-me à parede e escrevi a mensagem...
—-------------------
[Eren]:
Levii, eu consegui!! (o(
Fui bem na minha última prova e tenho certeza que passei de ano com tranquilidade >0
—--------------------
Guardei o celular e fui até o bebedouro ali perto tomar um pouco d’água. Nesse meio tempo, que não deu nem dois minutos, meu bolso já vibrou. Ele está respondendo mais rápido ultimamente.
—-------------------
[Eren]:
Levii, eu consegui!! (o(
Fui bem na minha última prova e tenho certeza que passei de ano com tranquilidade >0
[Levi]:
É mesmo? Hunf. É o mínimo que você deve fazer, pirralho.
—--------------------
— Quê?!! – Fiquei indignado com a resposta.
—-------------------
[Eren]:
Levii, eu consegui!! (o(
Fui bem na minha última prova e tenho certeza que passei de ano com tranquilidade >0
[Levi]:
É mesmo? Hunf. É o mínimo que você deve fazer, pirralho. ¬¬
[Eren]:
Que maldade, Levi...!! ç.ç Foi a minha maior felicidade do dia até agora e eu quis contar a você...
—--------------------
Quis ver se ele se sentiria culpado com essa, mas aparentemente não.
—-------------------
[Eren]:
Que maldade, Levi...!! ç.ç Foi a minha maior felicidade do dia até agora e eu quis contar a você...
[Levi]:
Huhu, eu sei.
Eu estou só brincando, não tem nenhum senso de humor não?
—--------------------
Eu logo ri. Levi tentando fazer piada...! Nunca dá certo quando ele faz de propósito.
—-------------------
[Levi]:
Huhu, eu sei.
Eu estou só brincando, não tem nenhum senso de humor não?
[Eren]:
Haha, isso não teve graça :D
[Levi]:
¬¬
Cale a boca...
—--------------------
Eu sorri. Creio que ele deve ter ficado meio sem graça. Mas Levi parecia mostrar mais coragem de falar coisas se for pelo chat. Aliás, a maioria das pessoas são assim. No caso, pensei em lhe escrever algo e ver o que ele me responderia...
—-------------------
[Eren]:
Haha, isso não teve graça :D
[Levi]:
¬¬
Cale a boca...
=========================================================
Eu te amo|
[Enviar]
—--------------------
Antes que eu enviasse, o celular fora tomado da minha mão. A minha única reação foi arregalar os olhos vendo que era o Jean. Senti meu coração quase sair pela boca.
— Ora, ora. Não devia ficar parado assim tanto tempo no meio do corredor, Jaeger. – Zombou Jean. – A professora disse para irmos para o pátio.
— S-seu...! Seu...! – Eu nem sabia do que xingá-lo no momento, só fiquei desesperado em pegar o celular de volta. – Me devolve!
— Naa... Por que? – Jean usava sua vantagem de ser mais alto estendendo o celular lá em cima para que eu não alcançasse. Acho que agora entendi algumas frustrações que Levi sentia. – Tem algo comprometedor aqui, é? – O cara de cavalo logo desviou de mim e saiu correndo pelo corredor, eu prontamente fui atrás dele. Pra piorar, o filho da mãe começou a ler as mensagens em voz alta, inclusive as anteriores. – “Eu te amo” Oh, que coisa fofa, trocando mensagens com namoradinho depois da aula? Então você é mesmo um viadinho, Jaeger... !– Zombou ele.
— Para, Jean!! – Eu já estava gritando, pois ele ficava cada vez mais longe.
— Espere... – Ele subitamente parou de andar. – “Levi”? Esse não é o seu responsável...? – Ele parou pra refletir. – Oh... “responsável” é só uma fachada, então?
— Jean, está falando alto demais! – Finalmente alcançando-o, me joguei sobre ele fazendo nós dois cairmos no chão.
— Ai, ai! Ficou louco, Eren?!
— Me devolve, Jean!! – Tentei ao máximo tirar o celular de suas mãos, mas quando fui ver, Jean já estava digitando alguma coisa ali. – O que está fazendo?! – Entrei em desespero. Olhei ao redor, verificando se não havia ninguém olhando e cruzei um soco em seu estômago que o fez até perder o ar.
— Eren, seu... viadinho de merda... – Nesse intervalo, pude pegar o celular de volta, checando a tela... e vi a cagada feita.
—-------------------
[Eren]:
Haha, isso não teve graça :D
[Levi]:
¬¬
Cale a boca...
[Eren]:
Mal vejo a hora de te comer esta noite
—--------------------
— A... ... – Paralisei. Quem perdeu o ar agora fui eu. Não consegui nem me expressar o quanto que eu queria bater no Jean. – S-seu... maldito! Filho duma jamanta!! Como é que...?!!
Jean, já em pé, ainda estava um pouco sem ar, mas isso não o impediu de dar um último sorrisinho de deboche. Essa foi a última gota.
— Jean, você vai apanhar tanto que vai valer pelo resto da sua vida!! – Levantei e corri até ele, me jogando novamente sobre seu corpo.
— Não, Eren, espera! Escada!!! – Quando percebi, já era tarde. Havia me jogado sobre o imbecil... no topo da escada... Pra variar... era aquela escada. Exatamente a mesma que eu e Jean tivemos a “sorte absoluta” de acabarmos dando um beijo ao fim da queda. Aqui estávamos nós, de novo, caindo juntos até piso térreo. Ambos apenas fechamos os olhos e ficamos esperando o impacto começar e terminar.
Novamente, caídos lá em baixo. Desta vez Jean acabou ficando meio de quatro sobre mim... e eu... incrivelmente fiquei com o traseiro levemente inclinado, numa pose muito sugestiva. Lá demos de cara com Mikasa, Armin e Marco. A mestiça olhava-nos preocupada.
— Eren!! – Ela se agachou ao lado pra me ver. – Você está bem? Se machucou?
— N-não...! Relaxa, Mikasa... – Eu e Jean rapidamente saímos da posição estranha, mas foi meio tarde. Ouvimos um som de câmera fotográfica em ação. Um grupo de meninas, se não me engano eram as líderes de torcida, estavam no topo da escada, cochichando entre si e olhando para nós.
— Ah, não... – Eu e Jean lamentamos juntos e logo nos entreolhamos com fogo nos olhos. – Seu imbecil!! Olha o que você fez!! – Continuamos a falar juntos. – Não foi minha culpa!! Foi sua!! Pare com isso!! Para de falar o que eu falo!! Você me irrita demais seu grande filho da...!!
— Tá bom!! – Armin deu um basta. – Gente, por favor, se o diretor Pixis pegar vocês...!
— Se eu pegar o quê, senhor Arlert?
— Ah... ... – Armin e todos nós gelamos diante da presença autoritária do nosso diretor. Eu e Jean inconscientemente nos pusemos em pé, passamos o braço em torno dos ombros um do outro e abrimos o maior sorriso, mostrando que estava tudo bem.
— Hum, o que houve por aqui? Escutei um barulhão de lá da minha sala... Algum de vocês poderia me dar uma explicação? – Ele olhou para cada um de nós com um tom medonho. Eu suava frio. – Senhorita Ackerman?
— ... – Mikasa, com sua expressão séria, encarou o diretor e respirou fundo antes de responder. Eu e Jean olhávamos para ela impacientes, imaginando o que ela diria. – Foi só o barulho da Sasha peidando, diretor.
— Quêê??!! – Sasha que estava bem na porta do banheiro feminino logo paralisou, completamente indignada.
— Como...? – O Diretor Pixis logo massageou o queixo, confuso. – Mas não pareceu esse tipo de barulho...
— Ela também estava gemendo por causa de cólicas, diretor. – A mestiça completou.
— Mikasa!!! – Sasha, completamente sem fala, apenas olhou para o diretor.
— Bem, neste caso, senhorita Blouse, sugiro que repouse por hoje e tome um remédio.
— M-m-m-mas... – Ela só conseguiu gaguejar enquanto via o nosso diretor careca se retirando calmamente do corredor na sua típica posição com as mãos para trás. – Mikasaaa! Por que disse isso de mim?! O que foi que eu te fiz?! – Sasha, como os olhos arregalados de indignação, chacoalhou os ombros da mestiça.
— Nada. Eu agradeço a você, foi de grande ajuda agora. – Mikasa, por sua vez, manteve sua indiferença.
...
Finalmente, depois de mais uns minutos de trabalho que Armin e Marco tiveram de separar eu e Jean de outro “te pego na saída”. Finalmente pude respirar fundo e relaxar. Aquele cara de cavalo maldito conseguia me irritar muito e pior... agora ele sabe sobre o Levi e eu... Queria muito enfiar minha cabeça num buraco. Ele tem essa “carta na manga” pra me manipular a hora que quisesse. O que eu faria?
— Ei, Eren, pode relaxar agora. Jean não está mais aqui... – Mikasa foi me tranquilizando enquanto fazíamos nosso costumeiro caminho pra casa.
— É...
— Bem... Isso quer dizer que vamos parar de andar com o Jean e o Marco? – Perguntou o loiro.
— Ah, se eu ver o Jean de novo, vou voar no pescoço dele, Armin... Acho bom ficarmos longe um do outro por enquanto. Até por que... aquela líder de torcida tirou uma foto meio sugestiva minha com o imbecil. Se formos vistos juntos de novo...
— “Meio” sugestiva...? – Zombou Armin.
— Até você?!
— Não se preocupe, Eren. Garanto a você que elas não vão fazer absolutamente nada, ok? – Garantiu Mikasa.
— Como você garante? – Perguntei.
— Hm... mulher dá o seu jeitinho. – Disse simplesmente.
— Ah... Valeu, Mikasa. – Ela deu um sorrisinho diante de meu agradecimento. Fico pensando se ela por acaso as intimidou antes de sairmos da escola. – Agora... Armin, você sabe algum podre do Jean?
— Hum... Eu acho que não, por que eu devia saber de alguma coisa? Eu não tenho nada a ver com ele! – O loiro se exaltou estranhamente.
— Ei... Não...! É que você é bom observador, sei que consegue descobrir coisas só de olhar algumas poucas expressões das pessoas.
— Oh... É...! Ok! Se eu descobrir algo, eu te falo.
— Valeu, cara.
— Mas por favor, prometa ficar de bem com ele... Viu como quase se mataram hoje? Podiam ter quebrado algum osso naquela queda! – Novamente, Armin queria a paz.
— Mas...! Vocês não viram as gracinhas que ele ficou fazen... – Parei de falar quando recordei da mensagem que ele escreveu ao Levi. Entrando em desespero de novo, eu peguei meu celular do bolso pra olhar nossa conversa. Mikasa e Armin me olharam interrogativos. Ao ver a tela, dei um suspiro de alívio. Felizmente ainda não havia sido visualizada, ao menos eu ainda poderia explicar que foi Jean que escreveu isso e não eu. Ruim era se eu deixasse a mensagem como está. Quando fui digitar a primeira letra, a tela do celular apagou. – Eh?
— O que foi? – Armin arqueou a sobrancelha. Fiquei branco novamente. Lástima era a única coisa que eu conseguia sentir naquele momento. Como pode acontecer tanta desgraça a uma só pessoa assim?
— A bateria... A bateria, Armin!! – Agarrei a gola da camisa do loiro, chacoalhando-o. – A droga da bateria! Me empresta o seu carregador!
— Eu não trouxe hoje, Eren...
— Mikasa!
— Desculpe, eu também não...
— Ah, não!! O que eu faço?!
— Mas por que ficou tão desesperado?
— E-eu... é que... Armin, Jean escreveu um negócio aqui e mandou pro Levi, acho que você já consegue imaginar o qu... – Eu fiquei tão distraído na conversa que nem prestei atenção no caminho e acabei por esbarrar com um senhor. Até dei uma recuada. – Opa, d-desculpe-me! – Olhei para o coroa, que parecia ter seus cinquenta ou cinquenta e cinco anos.
— Hehe, não foi nada. Mas tomem mais cuidado, crianças. Não sejam tão desatentos na cidade grande, é perigoso. – O velho ajeitou seu chapéu e foi então seguindo seu caminho calmamente.
Eu ainda o fiquei olhando... pensando que seu rosto me parecia familiar, só não sabia direito de onde. Até finalmente cair a ficha...
— Gente!! – Chamei os dois. – Aquele cara não parece com o ator?? O Clint?
— Clint Eastwood? – Armin olhou o senhor de novo, mesmo ele de costas. – Oh, agora que você falou, é verdade! Parece mesmo.
— Hum, eu não achei. – Cortou Mikasa.
— Ah, como sempre, você é controversa.
— É, mas... ele até que tem cara daqueles pistoleiros do faroeste... – Concordou ela, depois de analisar melhor.
Levi
Retornei ao meu escritório completamente ensopado. Molhava o chão por onde quer que eu passe. Petra, assim que me viu, estranhou.
— Meu Deus, o que houve, senhor? Está todo molhado! – Ela logo pegou uma toalha de rosto numa das gavetas e me entregou.
— Ah... Hanji me fez participar de outra brincadeirinha brilhante dela.
— Brincadeira? Hanji? O que ela fez pra você...? – A ruiva já segurava o riso. Ela já sabe bem como são as ideias absurdas da quatro-olhos.
— Não em mim. Ela queria pregar uma peça no Erwin, pelo aniversário dele... – Enxuguei meu rosto e meus cabelos.
— Aniversário? – Petra deu uma olhadinha de canto em seu calendário de mesa. – Mas hoje não é o aniversário do senhor Erwin...
— É claro. Tentar pegá-lo de surpresa bem no dia é muito óbvio, tem que ser em outro dia aleatório, quando ele não está tão atento... – Falei em tom de óbvio e Petra continuava a segurar o riso. – Deve estar se perguntando o porquê participo dessas idiotices com a quatro-olhos, não é? – Falei sarcástico. A pequena apenas fez que sim com a cabeça, curiosa.
— É... Não é muito a sua cara fazer essas coisas...!
— Bem... Na verdade nem eu sei porquê participo disso. – Dei de ombros e fui adentrar minha sala, ouvindo claramente o discreto riso de minha secretária. – Ouça, ligue para o Auruo e pergunte se tem alguma roupa seca lá e mande trazer até aqui. – Pedi à Petra que logo foi ao telefone, voltando ao seu trabalho.
Eu já vim logo desatando a gravata e desabotoei a camisa, deixando-as penduradas no cabideiro. Fiquei apenas com a regata que eu costumava usar por baixo. Estendi a toalha pequena sobre o meu assento e me acomodei ali, não ligando muito de molhar, afinal, minha cadeira era de couro. Na hora ouvi o som do celular, alertando que havia uma notificação. Devia ser o Eren. Ele parecia bastante feliz hoje, devo ter sido meio bruto com minha resposta. Acho que eu devia dar-lhe mais crédito pelo seu desempenho nas provas.
Assim que abri nossa conversa e li sua última mensagem, meus olhos imediatamente se arregalaram.
— Que porra é essa?!!! – Gritei tão alto e de forma tão perplexa que devo ter assustado a Petra.
Fale com o autor