Reencarnação
22 Avisos do Velho Oeste
Notas iniciais
Eren
Eu fiquei mais entretido do que nunca. Assim que terminei de lavar a louça vim para a sala jogar um pouco de Guitar Hero, me ajudava a desestressar. Hoje havia sido o cúmulo. Jean infernizava demais, eu estava pronto pra ferrar com ele também, só devia descobrir como.
Enquanto jogava, conversava com Armin ao telefone. No viva-voz, claro, eu precisava das duas mãos no controle. No início, o assunto foi alguns afazeres que minha sala teria para o festival de fim de ano do meu colégio, mas depois o assunto mudou para “Jean”. Não aguentava as idiotices que aquele cara fazia e especificamente hoje eu precisava desabafar disso. Ninguém melhor do que o loiro para ouvir.
– ... Eu já falei, Armin, ele tem alguma marcação comigo que não tem com mais ninguém.
– Hum... Já imaginou algum motivo? – Questionou o loiro. Ao que eu ouvia, ele também cuidando de seus afazeres domésticos.
– Ah, você mesmo disse que é por causa da Mikasa... Uh... Será que se ela ficasse com ele, Jean me deixaria em paz?
– É... Pode até ser.
– Não... mas eu não quero isso. – Falei.
– Ué, por quê não?
– É que eu gosto de ver ela dando fora nele, é um dos meus maiores prazeres! – Zombei e Armin riu. Mas eu falava sério, gostava disso.
– Bem... Na verdade não sei. Pelo que venho observando, ele parece ter sim algum outro motivo além da Mikasa gostar de você... – Armin entrou em seu modo analítico.
– Outro? O que mais poderia ser?
– Você não parou pra pensar nem um pouquinho, Eren? Por que mais uma pessoa ficaria tão em cima de outra que ela supostamente odeie? – Agora ele havia me pegado. Não consegui pensar em nenhuma resposta que não fosse “Então ele é louco!”, mas continuei a procurar um motivo plausível... Demorei. Armin deve ter ficado quase dois minutos só ouvindo o som das teclas do meu controle.
– Ah, foi mal, Armin. Então o Jean é simplesmente louco.
– Não...! Veja, se ele pega no seu pé, é porque quer chamar sua atenção.
– Hah?– Dando uma pausa no jogo, peguei a latinha de refrigerante ao meu lado pra tomar um gole. – O que quer dizer? Fale objetivamente comigo, Armin, sabe que eu demoro um pouco pra entender...
– Eren, não vê? Jean tem uma queda gay por você, mesmo que inconscientemente. – Depois dessa fala, cuspi todo o refri no tapete e tampei a boca.
– Ah, droga!! – Lastimei.
– Calma, não precisa reagir assim também...
– Não! Armin, eu manchei o tapete da sala!
– Vish...!! – O loiro deve ter sentido o arrepio de imaginar Levi chegando em casa e se deparando com isso. – Então coloque pra lavar agora!
– O tapete?! Não, eu vou só disfarçar isso aqui e amanhã eu levo pra lavanderia... – Desencanado pela preguiça, resolvi deixar pra lá e continuar meu jogo. – Bem, acho que Levi já planejava lavar isso esta semana, então... Ah, e isso foi tudo culpa sua, Armin!
– Minha?!
– Fica me falando essas coisas esquisitas para mim! Deus me livre... V-você acha mesmo que o Jean...? – Engoli seco. – M-mas ele dá em cima da Mikasa! Com insistência! Como ele pode estar, sei lá... com uma queda por mim...?
– Hum... É, mas isso não é justificativa. Jean tem cara de jogar nos dois times. Bem, o ponto é que você pode usar isso para sua vingança infantil. – Sugeriu.
– Sim... Oh, então ele é gay... Vou expor isso a todos, ele vai passar a maior vergonha da vida! – Eu abria um sorriso maléfico. Continuava meio chocado com essa revelação, mas me parecia ótimo para fazer o Jean passar por poucas e boas na escola. – Espere aí! Como assim “infantil”? Foi ele quem começou!
– Isso também é culpa sua, Eren. Você tem pavio-curto e se rebaixa ao nível de briga do Jean com muita facilidade. Se não fosse por isso, não aumentava a vontade dele de pegar no seu pé, aí vocês dois não teriam se acidentado na escada, não dariam fama de gays na escola e aí você não teria mudado meu assunto sobre o festival para esta conversa de meninas no telefone só pra desabafar das suas coisas!! – Agora Armin falou bem duro e de uma vez. Eu até assustei e afastei pro lado. Mesmo estando no viva-voz, sua voz foi bem ardida nos ouvidos. Até errei as notas do jogo.
– Ah, f-foi mal, Armin! – Fiquei levemente sem graça agora imaginando que parecíamos mesmo duas meninas falando ao telefone sobre o povo da escola. Além de notar o cansaço que o loiro estava de me ouvir reclamar do Jean. – Mas hoje, Jean passou dos limites! Ele pegou o meu celular e passou mensagem em meu nome! Para o Levi!!
– Eren, seja homem e deixe o Jean pra lá! E não se preocupe mais com isso, afinal você já consertou esse erro, não foi? – Depois dessa fala, eu fiquei branco. Armin notou meu silêncio repentino. – Não me diga que... Você não mandou outra mensagem ao Levi quando chegou em casa.
– É... Eu... Eu esqueci! – Rapidamente larguei do controle e fui aos tropeços até a cômoda próxima à tomada. – Ah, droga, Armin!! Eu deixei carregando e esqueci de responder o Levi!
– Cara, como pode esquecer uma coisa dessas??! Você ficou reclamando exatamente disso até agora! – O telefone quase deu pulinho com a eufórica indignação expressa pelo loiro no outro lado da linha. – Conserta logo!
– Tô consertando! Tô consertando!! – Fui tentando ligar o aparelho, mas demorou mais do que eu pensei. – Anda! Liga, liga, liga...!! – No meio do processo, a porta da frente foi aberta de forma estrondosa, fazendo-me recuar três passos de susto.
– Jae-ger... – A voz ameaçadora ecoou pelo apartamento, causando arrepio geral.
– Er... Falou, Eren, tá na minha hora. Foi bom falar contigo. Até amanhã! – O telefone fora desligado rapidamente.
– A-Armin!! – Essa foi boa, o loiro deve ter ouvido a voz do Levi e já saiu de fininho...
– Oe, olhe pra mim quando ou te chamo, garoto. – Num golpe rápido, Levi segurou minha camisa e passou uma rasteira eu meus pés. Na queda, ele se pôs sobre mim, não parando de lançar um olhar bastante perturbador.
– A... Er... E-eu... Acho que... o senhor parece meio bravo... – Suava frio imaginando o que ele faria comigo. Enquanto isso eu me lastimava por dentro. Novamente minha tapadisse não deixou que eu consertasse um mal entendido e agora eu levaria uma bronca. Ou até mais! Levi levou uma das mãos ao bolso e me mostrou a tela de seu celular.
– Que merda foi essa que você escreveu pra mim?
– F-f-foi sem querer!!! Eu Juro!! D-deixe-me explicar...!
– Quem você pensa que é? – Ele ia aproximando o rosto do meu para maior intimidação. – Acho bom escovar bem essa língua antes de usar esse tipo de palavreado comigo, mesmo sendo só digitado, tá me ouvindo? – Levi foi desatando seu cinto. – Espero que você tenha nádegas de aço... – Vendo o quê ele pretendia, segurei suas mãos por reflexo.
– E-espera!!! Não fui eu quem escreveu isso!! Foi o Jean!!
– Eh? – Ele me olhou torto. – Como assim?
– O-o Jean pegou meu celular, leu a nossa conversa e mandou essa mensagem só pra me ferrar...
– ... – Levi olhou bem fundo nos meus olhos, apertando-os. – Então ele que escreveu aquilo e não você... É isso? – Fiz que sim com a cabeça desesperadamente. – Hunf... Para o seu bem, é melhor isso ser verdade...
Aos pouquinhos, ele levantou-se, ajeitando as roupas e voltando à sua normalidade. Eu continuei deitado no chão, ofegante, aflito e corado. Levi novamente quase me matou do coração. Confesso que imaginei duas coisas diferentes que ele faria ao desatar seu cinto. Ou me daria uma cintada... ou ia fazer coisas inapropriadas comigo.
– Er... D-desculpe ter te deixado assim... eu ia te avisar que foi o Jean, mas a bateria do celular acabou e eu só o liguei agora a pouco.
– Hunf. Entendi... – Massageando as têmporas, como sempre, Levi foi caminhando até seu quarto. Eu fiz um bico, imaginando o que ele estava pensando agora... Mas já que eu finalmente havia me explicado, me senti bem mais leve. Resolvi retornar ao meu jogo. Terminaria as três músicas que faltavam desta lista para enfim liberar a próxima!
~*~
Levi
Depois de uma longa conversa e mais explicações, me acalmei de vez sobre o mal entendido da mensagem. Mas mesmo assim, dei ao garoto um sermão por continuar sendo desatento e deixando tomarem as coisas das próprias mãos. Após um jantar à base de pizza, Eren continuou a jogar seu joguinho de música, enquanto eu sentei-me ao sofá e me pus a ler um livro.
Claro que eu e o garoto íamos conversando no durante.
– Então você foi bem em todas as matérias...? – Perguntei.
– Er... quase. Em matemática, física e química que eu ainda não sou muito bom... Nem sei por que essas matérias existem...
– Não despreze assim, se tem, é porque é necessário.
– Ah, mas o que eu vou fazer com matrizes e determinantes, por exemplo?! Eu não entendi pra que serve essa coisa até agora... na verdade eu nem entendi nem como resolve.
– Oras, essa matéria você devia estar sabendo...
– Hunf... E você? Sabe? – Ele perguntou desafiador.
– Ah... – Juntei as sobrancelhas, pensativo. Eu, na verdade nem me lembrava que essa coisa existia. – Mais ou menos...
– Há! Não lembra! – Ele apontou. – Viu só! Eu nunca vou usar isso!
– Hunf... é que eu sou de humanas, essa não é minha área... – Justifiquei e ele riu.
– Ah, tanto faz, pra mim, dois mais dois é a única verdade em matemática. Química e física também são ridículas. Nem lembro em qual delas que tem aquela matéria sobre pilhas...
– É em química.
– Não interessa, eu estou pouco ligando para o nível de oxidação ou de redução que isso faz. Mas tá tranquilo, pois agora que acabaram as provas do ano, já posso relaxar... – Eren deu uma espreguiçada numa curta pausa de seu jogo.
– Não fique tão tranquilo... Do jeito que estou vendo como você é ruim em exatas, eu ficaria atento às recuperações. Você ainda não escapou totalmente.
– Ah, Levi... Não estraga meu momento de calmaria. Finalmente terminei meus estudos com o Armin. Agora só me concentraria no festival que vai ter na escola! – Eren falava e falava, mas não perdia um momento a concentração de seu jogo.
– Hm... Festival... – Ajeitei os óculos. – O que vocês fazem exatamente nesse negócio...?
– Bem... Se você fosse nas vezes que te chamei, você saberia... – Ele fez um tom brincalhão e eu dei um peteleco em sua cabeça.
– Responde direito.
– Ah, então... são várias coisas... Cada sala faz alguma atração diferente para o público.
– Hm... E quem é o público?
– Er... os outros alunos... e convidados que quiserem ir... né? – Ele deu uma piscadinha para mim.
– Eu não vou, sabe que fim de ano é mais cheio de trabalho do que nunca. Tenho que adiantar tudo até o natal.
– Sim, claro! – Eren sorriu. – No natal você tem que estar livre!
– Uh... Planeja algo para este dia, por acaso? – Perguntei irônico.
– Ah, nada de mais...! – Ele revirou os olhos.
– Hunf. Ah, isso me lembra... Erwin comprou uma casa de praia, sabia?
– Sério?! – Eren desviou por um momento sua atenção da tela pra me fitar com brilho nos olhos.
– Sim... Acho que vamos passar o ano novo lá.
– Oba!! P-posso levar o Armin?
– Hu? Er... Sei lá, pergunte ao Erwin.
– Ok! Uhuu, vamos pra praia!
– Por que quer leva-lo? – Perguntei com receio... pois na verdade, eu posso até ter pensado nuns planinhos a fazer com o Eren diante de um clima supostamente tranquilo e romântico que é uma casa na praia. Mas se tiver amigo dele por perto... Se bem que era o Armin... ele já era quase de casa.
– Eu queria poder passar férias assim com meu melhor amigo, nunca fomos à praia juntos... Ah, nesse caso, chamarei a Mikasa também, beleza?
– Não!
– Eita... Espere, não acabou de dizer que é o Erwin que tem que autorizar? – Perguntou irônico.
– É, mas... mas ela... Bem... – Dei um longo suspiro, me virando para o lado. – Ah, deixe pra lá.
– Humm... Levi... – Ele fez um sorrisinho mais sacana. – Está com ciúme da Mikasa?
– Eh? Que absurdo.
– Está sim! Você morre de ciúme quando me vê com ela!! – Ele riu e ao mesmo tempo fez um rosto de adoração.
– Pare com isso! – Dei um chute nas costas dele. – Seu idiota. – Desviei o olhar de novo e Eren riu mais. – Tá... por mim, pode levar quem você quiser.
– Valeu, Levi...
– Hunf! – Ele então, repentinamente, segurou minha mão e a beijou, dando um sorriso terno. Eu, por outro lado, fiquei meio sem ação...
– Você é o melhor... – O garoto logo voltou a atenção ao seu joguinho. Dei mais umas várias piscadas antes de voltar a atenção ao meu livro. Creio que teria que ler a página inteira de novo, pois perdi a linha de raciocínio da história... – Er... Levi...
– Hu...? – E a linha de raciocínio fora cortada novamente.
– Er... Escuta... Sobre o negócio da mensagem que o Jean enviou... Por que você ficou tão incomodado...?
– Quê? Como assim...? – Uni as sobrancelhas.
– Bem, é que... sei lá... Você... pareceu não querer fazer de jeito nenhum. Por que isso?
– Eren... – Dei outro suspiro, desta vez bem audível. – Olha, Eren... não fique pensando nisso. Não é nada demais...
– Você tem medo de ser o passivo?
– Eh?!
– Você se sente desconfortável...?
– Não! É só que... garoto, você que é novo nisso ainda e... – Bem, confesso que agora eu não tinha nenhum argumento bom para isto. O jeito era contornar o assunto. – Ah, continue seu jogo!
– Levi, te digo que não é ruim. Pelo contrário, é bem gostosinho...! Você... podia tentar um dia! – Ele fez um olhar cheio de intenções agora.
– Hunf... Você terá a possessão assim sobre mim quando eu permitir. Ainda é só um pivete.
– Ah, quer dizer que um dia você vai deixar? – Ele abriu um largo sorriso.
– Talvez...
– Eba, valeu de novo! – Desta vez ele se inclinou e beijou meu rosto. Todo contente. Pois é... Melhor deixá-lo na expectativa, assim ele parava de falar nesse assunto. O que demorou mais um tempo. Parece que ele chegou a curiosidade de saber como é atuar do jeito tradicional na relação sexual... Pois, convenhamos que ele ainda não sentiu como é que o homem normalmente se sente, no caso, sendo o ativo. Eu ainda tinha receio de deixar isso e não entendia ainda o porquê... Acho que eu não gostava de me sentir submisso em nenhuma situação e fazer o papel do passivo me remetia submissão. Eu sempre odiei isso...
~*~
Eu me sentia ofegante, fraco, morrendo de sede e já fazia um bom tempo que eu caminhava sob o sol intenso e sem uma gota d’água no cantil. A ardência sobre a pele era constante, mas eu me mantive firme no meu caminho. Há horas que eu não via nada a não ser terra, cactos e mais terra... Estava tão seco... Meu cavalo também já sentia tanta sede quanto eu. Até que finalmente pude chegar a uma pequena cidadezinha. Bem pequena mesmo, composta por basicamente uma única rua de terra cercada por casas de madeira e barro. Ali parecia um bom lugar para dar um tempo da minha viagem.
Já nas primeiras casinhas que vi, estavam colados vários cartazes... “Procurado” era o que estava escrito em todas, acompanhando da caricatura daquele cara... Agora vi que ele estava valendo o dobro. Uma boa quantia de grana que eu estava precisando. Depois dessa, até que me deu uma maior animada em continuar minha busca... Um dos bandidos mais temidos do oeste.
Conforme eu adentrava a cidade, mais cartazes eu via... e mais olhares estranhos pousavam sobre mim. Isso era típico, sempre que aparece um forasteiro na cidade, todos ficam atentos e com razão. Afinal, eu posso ser um bandido de marca maior e não ser famoso, não é?
Avistando um saloon bem antigo, parei meu cavalo próximo a um imenso bebedouro, bastante mal cuidado e cheio de terra impregnado, mas ele nem ligou, foi dando grossas goladas. Para animais, claro que a higiene era meio irrelevante, ao contrario de mim, que importava bastante... Descendo de meu cavalo e batendo as botas, caminhei até o estabelecimento. Já na entrada, todos pararam o que faziam para me encarar, deixando um silencio medonho no lugar. Outra cena típica...
– Ora, ora, carne nova no pedaço!
– De onde vem, forasteiro?
– Você parece meio jovem pra andar por aí sem a mamãe.
Vozes, muitas vozes comentavam a primeira impressão que tiveram de mim. Como sempre, fui adentrando o local com a indiferença estampada na cara. Ao sentar diante do balcão, ajeitei meu chapéu, mas não o tirei.
– E aí, vai querer o quê, meu jovem? – Um homem de bigode, obeso e com um péssimo mau-hálito veio me atender.
– Uma dose de run.
– Oh, pra um garoto, você até que é bem ousado, hein? – Ele então me serviu um pequeno copo de vidro com a bebida. Não deu nem para o cheiro. Virei tudo num único gole.
– Essa é a coisa mais forte que tem? Decepcionante...
– Oh, então o forasteiro prefere algo mais extremo? – O gordo, provavelmente dono do saloon, preparou uma outra mistura e me serviu. – Que tal este então?
– Tsc... – Peguei o copo e dei uma golada já pra matar. – É... Esse até que estava mais fortezinho. – Zombei e dei um olhar sarcástico ao senhor do bigode, que logo de cara me olhou torto.
– Ora, é muita coragem aparecer sozinho numa cidade desconhecida e já ir esnobando as pessoas assim... Gostei de você! – O homem abriu um largo sorriso e me serviu agora um canecão de cerveja. – Ahh, aqui, este é por conta da casa!
– Hunf. – Fiz um sinal com a mão em forma de agradecimento. Ao mesmo tempo, uma outra pessoa, que já estava ao meu lado se manifestou.
– Tsc, eu sei qual é a sua... – Estranhamente era uma voz feminina. Eu já havia dado uma boa olhada geral por todo o estabelecimento, analisando se havia alguém perigoso por aqui, mas eu não havia prestado atenção nesta moça. Até porque ela não estava vestida como as mulheres daqui normalmente se vestem.
– Oh, e o que uma donzela faz sozinha dentro de um saloon repleto de velhos pervertidos...? – Perguntei irônico.
– Quero ver um desses porcos colocar as mãos em mim e sair vivo... – Ela falava de uma forma ameaçadora que me chamou atenção.
– Uh... E você é daqui?
– Isso não é da sua conta... – A moça era afiada nas respostas, aparentemente mais durona que vários dos caras que estavam neste lugar.
– Hm, é bastante corajosa para enfrentar um forasteiro assim... – Levantei de meu assento para chegar ao seu lado, passando-lhe a mão leve na cintura.
– Ei! – Ela deu um chute que fora desviado por mim. Depois dessa, quase todos os olhares caíram sobre nós. – Com quem acha que está lidando? Baixinho abusado... – Seu chapéu caíra revelando melhor sua aparência. Essa moça apresentava traços mestiços e um cabelo quase tão negro quanto o meu.
– Hmm... “Jaeger”? Quem é? – Perguntei curioso, observando o folheto em mãos. Era um rosto num cartaz de “Procura-se” que eu nunca tinha visto antes. – Olha, ele parece valer mais do que o velho que estou caçando...
– V-você... Quando foi que...? – Finalmente ela se deu conta que eu havia apanhado seu papel enquanto passava-lhe a mão.
– E ainda não respondeste minha questão. Quem é este? – Apontei o cartaz e todos no saloon olharam curiosos.
– Nem pense em intervir... Ele é meu. – Ela ajeitou seus curtos cabelos, lançando seu olhar intimidador.
– Oh, entendo... Também é uma caçadora de recompensas... – Dei um sorriso de canto. – Quer dizer que você é minha concorrente...
– Tsc... – A mestiça olhou-me raivosamente, rangia os dentes. – Qual é o seu nome, nanico?
Olhei para os lados, vendo os bebuns já empolgados em ver qualquer conflito que provavelmente começaria ali.
– Não é educado perguntar o nome de alguém sem antes se apresentar, sabia, donzela?
– Argh... – Ela deu uma bufada, mas manteve a postura. – Sou Mikasa e acho bom você se lembrar desse nome, pois serei eu a capturar o procurado Jaeger!! – Ela foi bem rápida, sacou sua pistola e atirou em minha direção. Mas infelizmente para ela, eu também era rápido, desviei da bala e chutei uma das mesas em sua direção. Com a brecha, já fugi do saloon com o cartaz de Jaeger, um procurado que valia mais do que aquele velho maldito. E melhor, ele não era quase conhecido por ninguém. Era a presa perfeita e eu o queria.
Mas a mestiça esquentadinha não ficou pra trás, saiu correndo atrás de mim, disparando vários tiros rua à fora. Eu, meio no sufoco, desviei dos que consegui e me escondi atrás de uma casa de caixões.
– Ei, por que não volta aqui e me encara como um homem, nanico?! – Provocou. – Agora que você sabe do Jaeger, não posso permitir que viva!! Ele será meu!
– Há... não se eu for mais astuto. – Dei um tiro ao longe que passou de raspão pelo rosto dela, fazendo um pequeno corte perto do olho.
– Argh! Venha duelar comigo, forasteiro! Aqui na frente das testemunhas!
Pelo visto ela era do tipo que seguia as regras dos pistoleiros. Gostava de resolver as coisas num combate justo e público. Já eu não ligava para essas coisas, quando eu via a brecha, simplesmente escapava. É a lei dos mais espertos e eu sou um marginal bem esguio. O problema é que eu a subestimei...
Mikasa também era silenciosa e se aproximou rápido de mim, apontando sua arma. Eu, por reflexo, chutei sua mão, mandando a pistola para longe.
– Péssima ideia me encarar numa luta de perto, garota! – Na hora, não pude pegar a minha pistola, mas consegui derrubar a mestiça no chão e ela rapidamente revidou, invertendo as posições. Foi uma briga meio feia, mas bastante profissional. Ela sabia se virar bem sem arma, assim como eu. Seu estilo de briga era com os punhos, e apresentava bastante força, mesmo para uma moça. Enquanto eu ia melhor golpeando com as pernas. Nós nos atacávamos sempre que dava a brecha, mas também nos defendíamos. Era uma briga bem empatada que foi levada para o meio da rua, chamando atenção de quase todos ali na cidade. O entretenimento foi geral. A poeira subia. Algo até bem cômico. Eu brigava sem deixar meu chapéu cair. “Isso era perda de tempo!” Lutar com uma garota assim? Eu precisava sair de fininho, de preferência sem chamar muita atenção, mas agora era meio tarde. Os olhares estavam sobre nós.
Quando eu estava para bolar um plano de escape, um assobio agudo e estridente chamou a atenção de todos, inclusive minha e da senhorita Mikasa... E para nossa surpresa, estava ali encostado em um pilar de madeira ao longe, um rapaz bastante novo e com um sorriso sacana.
– Wow... Brigando assim pela minha pessoa? Estou lisonjeado... – Um tom irônico que eu nunca ouvira antes perturbava meus ouvidos. Esse rapaz... será que era ele? Dei mais uma olhada no cartaz roubado de Mikasa e prestei atenção nos traços dele. Quando fazem caricatura era meio duvidoso de saber, mas o traço mais marcante do desenho eram os grandes olhos do procurado, que o desenhista fez o favor até de pintar de verde para destacar. Exatamente os mesmos olhos do rapaz ali.
– Oh... Que sorte, a recompensa veio até mim desta vez. Não imaginei que fosse tão jovem assim... – Comentei rindo. – Parece até que eu te conheço de algum lugar... – Analisei-o, enquanto a mestiça olhava hipnotizada para o jovem e logo também sorriu satisfeita.
– Ah... Você não me escapa agora... – Ela estalou os dedos.
– Uhh... Que azar... Dois caçadores de recompensa num único lugar. Acho que estou na desvantagem... – Achei meio estranho... Ele não demonstrava um pingo de medo... Na verdade não demonstrava expressão alguma, apenas de tédio em sua voz. De alguma forma isso não me parecia certo.
Mikasa, esguia como o vento, correu até o garoto premiado, pronta para capturá-lo. Mas o procurado Jaeger, mesmo não sendo tão rápido, era bom em esquivas e pôde facilmente escapar da mestiça.
Eu também fui atrás, não podia deixar a garota pegá-lo. Ele valia muito! Mas esse Jaeger era mais escorregadio do que esperava, com saltos para trás e mudanças astutas de direção, ele escapava de nossos golpes com tranquilidade. Fiquei impressionado, nunca encontrei uma “recompensa” tão boa assim numa briga sem armas, ainda mais contra dois oponentes. Deve ter cometido cada delito com essas habilidades... Por isso devia valer tanto.
Mas, inesperadamente, quando Jaeger estava correndo pra mais longe, ouvimos outro som de tiro. Um tiro feito por uma pistola diferente das comuns... Logo o rapaz procurado parou de andar e caiu pra frente com o corpo mole no chão. Levantou bastante poeira... Eu e a Mikasa ficamos meio pasmos. Foi bem rápido. Estranhamente não conseguíamos saber de onde veio o tiro, mas acertou em cheio o Jaeger. Logo, surgiu do meio de um nevoeiro uma silhueta medonha, que dava arrepios só de olhar. Ao apertar os olhos, pude enxergar que era o velho que eu estava caçando...
Ele nada disse, apenas pegou o corpo do rapaz, colocou-o sobre os ombros e foi levando-o de volta para o nevoeiro. Sem dizer absolutamente nada.
– Ei!! – Gritei, mas parece que ele nem ouviu, continuou seu caminho. Eu e Mikasa observamos o garoto procurado Jaeger se mexer e logo estender o braço em nossa direção. Estava fraco... parecia pedir por ajuda... Será? Eu logo tentei ir na direção deles, mas meu corpo paralisou. Não consegui mover nada, era como se tivesse sido cristalizado. E por algum motivo, Mikasa ficou na mesma situação, parada no lugar. Estranhamente lágrimas começaram a escorrer de nossos olhos vendo o velho sumir no nevoeiro com a nossa recompensa...
~*~
Abri os olhos repentinamente, fitando o teto da sala. Eu suava e respirava com ansiedade... Esfreguei os olhos e dei um suspiro aliviado... Fora apenas um sonho. Um sonho que não fazia o menor sentido... Mas assim como todos os sonhos, conforme eu retomava a consciência, ele era esquecido aos poucos. Mesmo assim, ainda mantive um mau pressentimento sobre ele.
Percebi só agora, adormeci no sofá enquanto lia meu livro. E Eren dormia pesado sobre mim, deixando o sofá mais apertado ainda. “Foi por isso então que senti uma leve falta de ar durante o sono” O garoto parecia mais pesado. Senti um repentino alívio de vê-lo ali. Parecia tranquilo... Babava um pouco em minha blusa e ainda estava segurando o controle do videogame.
Levei minha mão até sua cabeça, fazendo-lhe um cafuné. Em resposta, ele abriu um sorrisinho inconsciente.
~*~
Mais um dia bastante cheio no hospital. Eu terminava meu almoço rapidamente para voltar logo ao meu escritório terminar de fechar as contas do mês e organizar os pagamentos dos funcionários. Era uma tarefa bem cansativa, mas eu era quem fazia isso com maior velocidade.
Saí da praça de alimentação rumo ao meu escritório calmamente. No caminho dos corredores, via o clima tranquilo que estava ali... Enfermeiros e médicos andando para lá e para cá, carregando materiais, fichas de pacientes ou macas. Tudo perfeitamente normal. Até esbarrei com Hanji. Desta vez ela nem parou pra conversar como sempre fazia, passou reto apenas falando alto...
– Está com uma carinha cansada, Levi. Levo café pra você mais tarde!! – E assim, ela seguiu seu caminho acenando. Devia estar bem ocupada também. Fim de ano era sempre assim. Eu continuei a observar a “calmaria” do lugar com cisma. Não sei se eu que estava com algum problema ou não. Acho que devia estar incomodado com o sonho que eu tive na outra noite...
Sim, eu lembrava de algumas partes... apenas as mais marcantes. Fiquei com um pressentimento ruim sobre isso que eu tentava ignorar. Chacoalhei a cabeça e continuei andando.
No elevador, dei de cara com Erwin, como o usual, vestido de jaleco sobre roupas brancas. Assim que viu meu rosto ele entortou a boca.
– Tudo bem com você, Levi?
– Ah, sim... Só estou um pouco cansado...
– Hm... Eren dormiu com você na mesma cama?
– ...!! – Eu ia dizer-lhe algo revidando, mas... acho que não tinha porquê revidar. Erwin já sabe sobre Eren e eu, então não precisava me sentir... envergonhado. Por mais culposo que ainda possa ser me relacionar com um garoto tão mais novo que eu. – É... Dormiu. Ele se mexe muito. Deve ter uns pesadelos... Isso é normal.
– É mesmo? E o que você faz para acalmá-lo? – Erwin perguntou curioso. Eu logo lancei lhe um olhar irritado.
– Isso não é da sua conta...
– Oh, se você não quer falar então deve fazer algo embaraçoso, suponho. – Erwin riu e meu tique no olho começava a se manifestar. Esse loiro parecia gostar de brincar sobre eu e Eren só pra ver minha reação.
– Erwin, está ficando igual a Hanji, pode parar com isso.
– Haha, eu? Até você entra na dela facilmente. Hunf... Como quando foram tentar pregar peças em mim...
– Tsc. Só de raiva, da próxima vez vou fazer dar certo! Vamos ver se você gosta. – Falei irônico enquanto o loiro saía do elevador, ao chegar em seu andar.
– Há, só que nunca. – Antes que as portas do elevador se fechassem novamente, Erwin as segurou e me fitou com uma expressão mais séria. – Ouça... Eu sei que você não está muito bem. Se te tranquilizar, digo que vou só atender mais três pacientes hoje, então posso ir cuidar dos fechamentos mensais. Se quiser voltar mais cedo pra casa, estou te liberando duas horadas antes, ok?
– Hm... – Revirei os olhos, fazendo um bico. – Ok... Obrigado, Erwin.
O loiro seguiu o seu caminho enquanto eu subia mais dois andares. Chegando ao meu escritório, já liberei a minha secretária.
– Petra, pode ir almoçar, eu cuido das ligações aqui.
– Er... Tem certeza, senhor? É que... eu sei que está muito ocupado, então... – Ela se mostrava preocupada.
– Acha que eu não dou conta? – Arqueei a sobrancelha.
– Ah, e-eu não quis dizer isso...! É só que... – Petra sempre brincava com os dedos quando se via nervosa ou sem graça, era exatamente o que fazia agora. Para relaxá-la, passei a mão no topo de sua cabeça.
– Tudo bem. Você precisa almoçar. É uma ordem, vá.
– Oh... S-sim, senhor! – Com o rosto levemente corado, a ruiva pegou sua bolsa e saiu de sua pequena sala de recepção. Notei que o som dos passos dela fazia bastante eco. Bem, este andar era o último de um prédio baixo, usado somente como armazenamento e coordenação do hospital. Era normal ser mais vazio que os demais.
Dei uma massageada rápida em meus ombros, de novo sentindo aquela dor chata de tensão muscular. Com o fim do ano chegando, o trabalho excessivo realmente acabava com todos. Acho que vou pedir ao Eren para fazer uma massagem à noite. Hum... Se fosse possível, eu até o traria aqui para que me fizesse massagem enquanto terminava o trabalho. Iria recompensá-lo, se fosse o caso...!
Sentei em minha cadeira, estalei os dedos e liguei o computador. Percebi o quanto a sala estava clara... Via o sol brilhando fortemente. Mesmo estarmos meio que entrando no inverno, um sol forte sempre aparecia e um leve calor era passado para o escritório através das janelas.
Em meio à minha distração com o céu. Ouvi o telefone lá na mesa de recepção tocar. “Ah, droga...” A falta de vontade era grande, visto que eu acabara de sentar, mas eu prontamente me levantei e fui atender.
Estranhamente, quando atendi ouvi o som de que estava dando linha. Era como se ninguém tivesse ligado. Achei estranho... Levei um leve susto ao ouvir algo caindo lá no corredor. Corri até a porta para ver o que era.
– Petra? – O som da minha voz ecoou por todo o corredor. Já perdendo a paciência, fui olhando sala por sala, até encontrar uma latinha de refrigerante caída no chão de uma delas. Eu suspirei aliviado... – Argh... Se eu pegar o sujeitinho que deixa o lixo largado na sala... Eu já falei mil vezes pra deixar o local de trabalho limpo... – Resmunguei enquanto jogava a latinha no cesto de lixo. Realmente era um andar bastante silencioso para eu conseguir ouvi-la cair de lá da minha sala.
Retornando à recepção da Petra, coloquei o telefone de volta no gancho e adentrei minha sala, massageando as têmporas.
Senti o vento vindo da janela chocar-se contra meu rosto. Estava meio forte, o que era esperado, visto que esta sala ficava no último andar. Mas... Espere um momento... Cheguei até o centro de minha sala, fitando pensativo as cortinas balançando...
– Eu não deixei a janela aberta...
Na hora pude ouvir o som típico de um revólver sendo recarregado. Bem atrás de mim. Eu paralisei na hora, completamente pasmo.
– Wow, há quanto tempo, hein, Levi...? – Uma voz de um velho ecoou em meus ouvidos, me fazendo engolir seco. Não me virei para fitá-lo, fiquei muito desacreditado para fazer qualquer coisa. E bem, não precisava nem olhar... dava pra sentir na pele quando tinha uma arma apontada para você. – Você cresceu, hã...? Não muito, mas cresceu. – Seu tom irônico fora reconhecido por mim no mesmo instante. Mas demorei a responder devido ao meu choque.
– Então... – Engoli seco. – ...Você está vivo... Kenny...
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