Reencarnação
7 Agora sou crescido
Notas iniciais
Levi
Eu estava em minha sala, organizando alguns orçamentos. E não, não era mais o meu trabalho anterior naquele escritório. Agora eu estava no hospital do Erwin. Sim, do Erwin. O loiro foi bem ousado e corajoso, juntou um capital por anos, creio eu desde o tempo de estágio, até conseguir comprar essa propriedade. Agora além de médico, era dono do hospital Santa Rose, o mesmo que Grisha trabalhava e onde Carla deu a luz ao Eren. Creio que foi por esse motivo que ele tenha se inspirado em vir trabalhar justo neste.
Como médico e cirurgião, vamos dizer que Erwin não tinha lá todo o tempo do mundo para organizar a parte logística do local. Sendo assim, ele me chamou na hora pra ajudá-lo. Mesmo não tendo formação na área administrativa, Erwin fez questão que eu cuidasse da organização, pois ele sabe bem que dou conta. Eu controlava boa parte das coisas ali, o que era uma enorme responsabilidade. Eu que entrevistava futuros funcionários, fazia a distribuição dos salários, pesquisava melhorias e consertos do hospital. Claro, apenas executava planos depois da aprovação do próprio Erwin. Podemos dizer então que sou eu quem toma ideias e apresenta sugestões a ele, tudo pra melhorar os negócios.
Agora mesmo me deparo numa situação de falta de funcionários. Não no hospital todo, apenas na área da maternidade. Faltavam enfermeiros, ou apenas um mero funcionário que ajudasse nos cuidados dos recém-nascidos. Mas foi em meio aos meus raciocínios que recebi uma ligação no celular... Do colégio do Eren.
Dei um pesado suspiro ao atender e ouvir a voz do diretor do colégio pedindo por uma visita minha em sua sala hoje. Não parecia ser coisa boa, aquele pirralho imbecil deve ter aprontado alguma. Já sentia os fiozinhos da minha paciência arrebentando uma a uma bem devagar. Logo agora...?
Juntei minhas papeladas e deixai de lado, peguei apenas meu celular, as chaves do carro e a carteira. Saí de minha sala, logo deixando o aviso à minha secretária.
– Petra, vou dar uma saída, se o Erwin perguntar por mim, diga que não irei demorar. Oh, e se alguém telefonar pra mim urgente, pode dar o meu número do celular, ok? – Disse, enquanto vestia meu casaco.
– Pode deixar, senhor. – Respondeu a pequena ruiva.
Digo que é bom poder chamar alguém de pequena, porque... hoje em dia percebo que está um pouco difícil encontrar alguém mais baixo do que eu na minha faixa etária. Embora Petra fosse bastante nova ainda, ela era uma das poucas pessoas com quem convivo direto que seja mais baixa. Até o Eren já passou de mim, está dez centímetros mais alto, e nem fez dezoito anos ainda. Isso, internamente me frustrava.
Peguei meu carro e fui rumo ao colégio do Eren, apenas imaginando o que o pirralho possa ter feito. Tirou nota baixa? Ficou de recuperação? Xingou o professor? Brigou com alguém...?
Chegando lá, fui caminhando calmamente rumo à diretoria. Não vou lá sempre, aliás, nunca fui chamado assim para uma visita repentina, por isso eu quase esquecia de como era ali dentro. Era um colégio bastante atraente e bem arquitetado, sem falar da boa higiene. Isso foi o que me convenceu a matricular o Eren aqui. Armin e a outra amiga dele, Mikasa, vieram estudar juntos com ele. Os três não se desgrudavam nunca. Mais ainda a Mikasa, que se juntou aos dois pirralhos no ensino fundamental, na escola anterior. Ela fica sempre tão em cima do Eren que chega a me irritar um pouco. Os três continuam andando juntos desde então, e entraram neste colégio aqui na época de ginásio. Não deu nenhum problema para mim nesse tempo. E agora, justamente agora, que ele estava na metade de seu primeiro ano de colegial, sou chamado pelo diretor.
Assim que adentrei à sala dele, deparei-me com o meu pirralho e mais um outro garoto sentados em frente à mesa do diretor. Eren logo suou frio ao me ver entrar com uma expressão nada boa no rosto.
– Oh, seja bem-vindo, senhor Levi. – O diretor, num jeito um tanto despojado, cumprimentou-me num aperto de mão. – Por favor, sente-se. – Ele me mostrou um assento vazio ao lado do Eren. Este parecia evitar fazer contato visual comigo.
– Obrigado, senhor diretor. – Disse, formalmente àquele senhor, que parecia não ligar muito para formalidades. Logo notei um cantil de bebida em sua mesa. Será que aquele senhor bebia durante o trabalho?
– Pode me chamar apenas de Pixis. – O velho disse.
– Certo... diretor Pixis. O que foi que o Eren fez? – Perguntei olhando de canto de forma intimidante para o pirralho, que desviou novamente o olhar.
– Ao que fui informado, esses dois garotos estavam brigando no pátio do colégio... e ambos negam terem iniciado qualquer tipo de afronta. – Explicou o velho, passando levemente a ponta do indicador em seu bigode.
– Hunf. Eren... – Virei-me para o pirralho novamente, pedindo por explicações com o olhar. – Olhe pra mim enquanto falo com você! – Ele, com um pouco de cisma, virou-se para mim.
– Levi, a culpa não foi minha, eu juro! O Jean que... fica me provocando direto. É ele quem começa sempre, diretor! – Eren argumentava, desta vez virado para o velho careca.
– Mas o primeiro a bater é sempre ele, só bati de volta por pura defesa. – O outro garoto se justificou.
– Que defesa? Você que agarrou a gola da minha camisa e ficou me ameaçando! – Eren também se inocentava.
– Com a sua permissão, diretor Pixis. – Comecei a falar. – Na minha opinião, os dois são culpados. O que o senhor fará? Suspensão a eles ou apenas uma advertência?
– O quê?! – Os dois olharam juntos para mim, indignados com o meu curto e grosso julgamento.
– De que lado você está, Levi? Você não acredita em mim? – Perguntou o Eren.
– É claro que eu acredito, por isso mesmo já julguei que você tem sim sua parcela de culpa. – Falei. Ao mesmo tempo, olhei para o assento ao lado do outro garoto. Estava vazio. – E você, garoto? Onde está o seu responsável?
– Hum... Não preciso... – Ele cruzou os braços.
– Já ligue para a mãe de Jean Kirschtein, acho que ela logo chegará. – Disse o diretor. Mas na hora eu fiquei meio pensativo... Jean Kirschtein... Kirschtein... Esse nome me soava bastante familiar. Foi quando me lembrei totalmente daquela moça de anos atrás... aquela do orfanato. Aquela que ficou com o Eren quando o deixei lá...
De repente a porta se abriu, e uma senhora adentrou a sala.
– Oh, diretor, desculpe o atraso, o trânsito estava terrível... – Sim... Era ela. Estava um pouco mais gordinha agora, mas reconheci seu rosto.
– Senhora Kirschtein? – Chamei-a, assim que ela me viu, logo deu um sorriso.
– Oh, meu Deus... Levi! – Ela logo veio me cumprimentar. – Minha nossa, quanto tempo. Olha só pra você, não mudou nadinha! – Disse ela olhando-me de cima a baixo.
– Hunf, exceto a idade... – Comentei.
– Ora que coincidência, vocês aqui na mesma escola do meu filho... – Logo ela se virou para o pirralho. – Oh, então... você é o Eren, não é? Meu Deus, como você cresceu! – Ela dava aqueles ataques típicos de tias. Eren apenas olhava-a interrogativo. – Jeanzinho, não me diga que arrumou encrenca com este menino. – Ela se virou para seu filho, que não a olhava com uma cara boa. Pelo visto, era daqueles garotos adolescentes bem rebeldes.
– Mãe! Já falei pra não me chamar assim!! – Ele se virou para o outro lado, fazendo bico. – Que saco...
– “Jeanzinho” é?! – Eren já logo quis começar uma provocação.
– Cale a boca, Eren!! – Jean começou a revidar também.
Notei que o diretor Pixis, vendo a briga iniciando-se à sua frente, apenas pegou seu cantil de bebida e deu uma boa golada. Bem, eu não fui contra essa ideia. Eu mesmo, vendo a discussão infantil daqueles dois pirralhos, já estava quase pedindo um gole também.
A reunião ali demorou um pouco, primeiro pra fazer aqueles dois calarem a boca, pra depois entrarmos num acordo. Depois de uma boa conversa, o diretor resolveu apenas dar uma advertência aos dois, visto que eles não quebraram nenhum bem escolar, mas que se fossem vistos brigando novamente, seriam suspensos. O que foi bom. Eren sabe que se tomar uma suspensão, arrancarei suas sobrancelhas com uma pinça, uma a uma.
Mas posso dizer que a visita foi boa, pois pude reencontrar a senhora Kirschtein. Enquanto caminhávamos para a saída do colégio, e os dois pirralhos tentavam ficar de bem, não deu tempo para conversarmos muito, mas perguntei do orfanato. Ela disse não estar trabalhando mais lá, que estava numa feira. Na hora, pensei “que mudança radical de área, de crianças passou a mexer com alfaces...” Mas bem, desejei tudo de bom para ela. Nos despedimos e fomos cada um para seu lado, continuar os afazeres. Mas pelo que notei, nem Eren e nem Jean Kirschtein pareceram ficar de bem um com o outro.
~*~
O pirralho achou que eu o levaria direto pra casa, mas não. O trouxe para o hospital comigo. Como leve castigo por me fazer perder tempo indo à sua escola, ele agora ficaria ali até eu voltar para casa. O que, pode ter certeza, é chato pra caramba. Eren já logo começou a reclamar, mas é só dar uma boa e inteligente ameaça e um puxão de orelha que ele fechava o bico rapidinho.
Ele sentou-se na poltrona, no canto da minha sala, olhando entediado para o chão. Fazia bico e logo cruzou os braços. Sentei-me à minha mesa observando-o.
– Que cara é essa? Aqui você tem tempo de sobra pra fazer seus deveres de casa. – Disse isso apenas para vê-lo desanimar ainda mais. Ele fazia uns gestos bem cômicos em situações assim.
– Afe... Fazer o que... – Ele, sem muitas opções, acabou concordando.
– E por que está olhando desse jeito pra mim? – Perguntei, sem resenha. E vi que Eren tomou um leve susto por eu ter notado seu olhar meio insatisfeito pra mim.
– Er... É que... Você não ficou do meu lado! Não fui eu quem começou a briga... – Ele insistia em se inocentar.
– Não interessa, Eren. Só de você ter participado da briga já te torna culpado.
– M-mas...
– Sem “mas”! O que foi que você tinha prometido pra mim, hein? Aliás, não só a mim, como à sua mãe também.
– Hum... que eu nunca mais entraria em brigas...
– Certo.
– É que o Jean me provoca faz tempo! E hoje eu fiquei de saco cheio... Ele implica comigo direto, não sei por quê...
– Vai ver ele tenha inveja de você. – Argumentei, enquanto colocava a papelada em ordem para guardar nos arquivos.
– Inveja? Mas ele só me critica...
– É assim que pessoas com inveja agem. – Falei.
– É mesmo...? – Ele perguntou refletindo. – Mas do que ele teria inveja? Ah, tanto faz... aquele filho da puta é muito estranho.
– Ô, Eren! – Chamei sua atenção. – Pode xingar Jean Kirschtein do que quiser, menos de filho da puta. – Falei.
– Hã? Por que? – Foi aí que ele deu uma refletida. – Ah é, ia te perguntar... como você conhece a mãe dele?
– Hum... Olha, posso dizer que sua vida só está do jeito que está graças àquela mulher. – Respondi.
– Sério? – Ele arregalou os olhos diante da minha fala. – C-como assim?!
– Bem... Você sabe que eu te deixei no orfanato logo que nasceu, lembra?
– Hunf, lembro... – Ele fez mais bico ainda. Por mais que ele tenha aceitado esse ocorrido, ele não gostava de lembrar que já fora deixado por mim uma vez.
– Então, foi ela quem cuidou de você e que não colocou seu nome na lista de adoção. – Expliquei. – Era bem possível que você fosse adotado se ela não tivesse feito o que fez.
– Oh... nossa, sério? – Ele perguntou, aparentemente num tom aliviado. Eu apenas dei um riso de canto. Apesar dos apesares, Eren demonstrava não querer uma outra vida que não fosse a que ele tem agora, e ouvir que teve uma chance enorme de perder tudo deve tê-lo deixado meio inquieto.
– Por isso agradeça muito a ela.
– Certo...
Como a sala era bastante silenciosa, deu para ambos ouvirmos a barriga de Eren roncar. Apenas dei uma olhada de canto pra ele, que deu um sorrisinho sem graça.
– Anda, pode ir para a lanchonete almoçar. – Falei sem parar de organizar os papéis.
– Tá bom! – Ele rapidamente se levantou da poltrona, doido pra comer algo.
Dito isso, voltei minha atenção no computador, checando as listas de funcionários, que ficou aberta na sessão da maternidade. Olhando uma pequena falta ali, foi que tive a ideia...
– Ah, droga, por que não pensei nisso antes? – Dei uma leve lastimada. – Eren! – Chamei-o novamente antes que deixasse a sala.
– Hum?
– Quando você for pro colégio amanhã, peça para o Jean o telefone da mãe dele. – Pedi.
– O quê?! – Ele perguntou confuso. – Por quê?
– Quero falar com a mãe dele, oras.
– Mas... logo para o Jean... – Ele deu uma resmungada, demonstrando a falta de vontade em fazer o favor. Não imaginei que a implicância dele com Jean Kirschitein era tanto assim.
– Eren, é apenas um favor. É tão difícil assim pra você conversar com aquele garoto normalmente?
– É!
– Hunf, tanto faz. Faça isso ou limpará a casa sozinho pelo resto do mês!
– Hã?! – Ele deu um pesado suspiro. – Hum... tá bem. – Ele concordou, dando-se por vencido, voltando ao seu caminho até a lanchonete do hospital.
~*~
Eren
Bem, não posso dizer que estava feliz em levar uma advertência na escola, mas aquilo não era lá grande coisa. O que me irritou mesmo foi o Levi não ter ficado do meu lado de novo quando fui me justificar. Ele sempre achava o jeito mais rápido de se livrar da situação. Na maioria dos conflitos da vida que eu tinha, ele não ouvia totalmente o meu lado. Mas... ao mesmo tempo que me irritava, me impressionava ver como ele resolvia problemas com tamanha velocidade e certeza. Dei uma suspirada. Melhor deixar isso de lado.
O chato, de momento, é que eu devia ficar aqui no hospital até o Levi acabar seus afazeres e resolver ir para casa. A única vantagem é que eu podia comer de graça ali. Bem, mais ou menos, na verdade deixava tudo na conta do Levi, mas é como se fosse de graça. E era uma lanchonete muito boa, que ficava numa área grande e aberta do quarto andar, com muitas mesas e cadeiras. Como era horário de almoço, muitos funcionários e enfermeiros estavam ali, incluindo uma das pessoas mais queridas pra mim.
Hanji me achou assim que terminei meu almoço e já logo perguntou o que eu estava fazendo ali no hospital. Expliquei que Levi me buscou no colégio hoje e que eu havia brigado com um colega de sala.
– Oh, não. Você foi parar na diretoria então? Que mal... – Ela falava balançando a cabeça.
– Hum, isso não é nada. Tomei uma advertência, não sei porque. Eu apenas me defendi. – Resmunguei.
– Ah, relaxa , porque é normal acontecer de vez em quando. E foi só desta vez, não foi? – Concordei com a cabeça. – Venha comigo, vou te ajudar a esquecer isso.
– Hum, como?
– Me ajude a levar esse material até o almoxarifado e esqueça essa história. – Pediu ela. – Veja, pelo menos não foi suspenso.
– É.. tem razão. – Concordei e ela logo deu duas caixas enormes e pesadas para eu carregar, achei que meus braços fossem cair quando as peguei. – Meu Deus...! O que tem aqui...?!
– Oh, é que nessa de baixo tem a máquina de lacre de embalagens de alguns materiais esterilizados, mas bem, você é homem, jovem e com bastante força e saúde, pra você é moleza carregá-lo, não é? – Ela logo começava a andar até o corredor do hospital.
– Er... C-claro! – Não quis demonstrar fraqueza na frente dela, então apenas concordei. – Eu c-consigo levar tudo de boa... – Falei com uma voz meio forçada, seguindo-a.
– Haha, esse é meu garoto! – Ela passou a mão em minha cabeça, bagunçando meu cabelo, gesto que me deu certa nostalgia.
– Ah... Levi costumava falar assim comigo... – Comentei baixo, simplesmente deixei a frase escapar.
– Hm? Por quê? Ele não faz mais? – Perguntou ela curiosa.
– Não... Pensando melhor... Parece que ele não me dá mais o mesmo tipo de atenção que antes... – Murmurei.
– Oww, e você se sente solitário? – Ela falou com uma vozinha meio infantil para mim, aparentemente encantada com o meu jeito.
– Não! Não é isso... Er... só quero dizer que... hã... o Levi era mais legal antigamente... agora ele é tão chato... – Desabafei. – Só pensa em trabalho e limpeza... Ah, não que o trabalho não seja importante, é só que...
Eu me embaralhei um pouco com as palavras e acabei não me expressando bem como eu queria para Hanji, mas ela me olhava com uma cara de quem já entendeu o que eu queria dizer. Era esperado de alguém, ainda mais mulher, que passou a vida inteira comigo assim como Levi.
– Ow, Eren... Não fique assim. – Dizia ela, ajeitando seus óculos, enquanto adentrávamos a sala do almoxarifado. – Na verdade, ele sempre foi assim, fechado, sério, carrancudo e... chato. – Explicava ela.
– Não... ele não era assim antes... – Falei lembrando-me de quando eu era criança.
– Olha, querido, vou te contar uma coisinha aqui entre nós. – Ela disse num tom mais baixo. Eu, apenas coloquei as pesadas caixas sobre a mesa, aliviando meus braços.
– Diga...
– Sabia que... a primeira vez que eu o vi agindo diferente do que ele é, foi quando Carla, a sua mãe, deixou você para ele cuidar?
– Hm? Verdade? – Perguntei surpreso. Não sabia dessa... ou pelo menos não parei para pensar. – Mas diferente como?
– O Levi nunca fala de coisas sentimentais, mas... deu pra ver perfeitamente, quando ele te segurava no colo e te olhava, que você se tornou alguém bastante importante na vida dele. – Hanji falava e a cada palavra dita, eu sentia um calor interno bastante confortante. – Então não pense que ele mudou, não, mocinho! Porque vamos admitir que, com crianças, todos somos mesmo bem mais atenciosos do que com adolescentes, não é?
– É... Hehe, tem razão, Hanji. – Concordei agora refletindo. Não sei exatamente porque ficava encucado com o jeito como Levi me trata ou deixa de tratar. Mas eu tinha que ter em mente que seu trabalho de coordenador do hospital não era fácil, por isso não tinha lá toda a disposição do mundo para ser atencioso ao extremo comigo... Aliás, eu não preciso de atenção, já sou bem crescido, não é?
~*~
Finalmente, depois de um bom tempo, voltamos ao nosso apartamento. Era sete e meia da noite. Tanto eu quanto Levi estávamos exaustos. Ele pelo trabalho de sempre, e eu por acabar ajudando Hanji a organizar a sala de materiais do hospital. Me joguei de barriga no sofá, com mochila e tudo. Desde o lanche que almocei no hospital, não comi mais nada até agora. Eu estava faminto...
– Oe, nem pense em dormir agora sem tomar um banho. – Disse ele enquanto retirava seu casaco e afrouxava a gravata.
– Ah... eu tô com fome, Levi... Não tem nada pronto aí? – Falava num tom cansado.
– Temos a sobra de ontem... – Disse ele, olhando dentro da geladeira, imediatamente pegando os tapawers. – Acho que vai dar para nós dois hoje.
– Hm...! Quer que eu esquente a comida? – Me ofereci.
– Não, eu faço isso. Vá tomar seu banho primeiro. – Mandou.
– Hunf, tá bom... – Revirei os olhos, levantei-me do sofá e fui rumo ao meu quarto, pegando roupas limpas e toalha. Bem, creio eu que Levi estava mesmo era se sentindo incomodado em me ver com o uniforme da escola todo sujo de terra, devido à minha briga com Jean (foi na área gramada), e queria que eu estivesse devidamente higienizado antes do jantar.
Entrei no banheiro e fechei a porta. Foi a primeira vez que me olhei no espelho hoje depois da briga na escola, e notei que o idiota do cara de cavalo conseguiu deixar uma marca roxa em minha testa e bochecha. Bem que eu senti um pouco o gosto de sangue quando ele me deu aquele soco. Se ele tivesse acertado um pouco mais embaixo teria me nocauteado. Mas não liguei, pois dei uma de volta nele, só pra não deixar barato assim. Fui retirando peça a peça, a blusa, depois a camisa, daí a gravata, por último as calças e a roupa íntima. Senti que estava um pouco mais frio esta noite, um leve corrente de ar adentrou pela janela aberta do banheiro e chocou com minha pele, fazendo-me arrepiar. É, mal via a hora mesmo de tomar um bom banho quente e relaxar.
Finalmente liguei o chuveiro e adentrei o box, sentindo a água cair sobre meu corpo, esquentando aos pouquinhos. Agora só me lembrava que não consegui nem me despedir do Armin e da Mikasa hoje. O coordenador chegou e já arrastou Jean e eu para a sala do diretor Pixis, e não me encontrei com os dois depois disso. Creio que eles tenham ficado preocupados comigo... Eu devia ter ligado para eles... Bem, ligo daqui a pouco! Afinal, com o Armin, mesmo com Mikasa, sei que poderia ligar à qualquer momento sem incômodos.
Dei uma suspirada, colocando um pouco de xampu nas mãos e passando em meu couro cabeludo. Ficava pensando que devia parar de brigar com o Jean. Mas não dava... o cara me irrita muito. Lembro que a primeira vez que ele mexeu comigo, foi no fundamental e foi meio sem motivos. Talvez eu tenha dito algo que ele não gostou, desde então nunca fomos muito com a cara do outro.
Creio que o único motivo de eu não ter entrado em briga com ninguém ainda foi por Armin e Mikasa me impedirem sempre. Ela me segurava e o loiro falava imediatamente coisas que amenizassem minha raiva do momento. Sem falar também da promessa que eu havia feito ao Levi e à minha mãe de não brigar mais. Mas desta vez, Jean me irritou profundamente. E eu via a forma como ele me olhava quando discutíamos. Alguma coisa em mim também o irritava profundamente. E eu não tenho ideia do que seja.
De qualquer forma, só sei que amanhã, terei que, ao menos tentar, conversar civilizadamente com ele e pedir o telefone de sua mãe. Que saco! Por que o Levi não teve essa ideia quando estava junto dela na hora que foi me buscar? Agora eu tinha que falar com ele...
Senti minha barriga roncar de novo. Resolvi deixar o Jean pra lá e só terminar meu banho, pensando no que ia comer de janta daqui a pouco.
Levi
Eu quase terminava de esquentar a comida. Agora já estava sem gravatas e os primeiros botões da camisa desabotoados. Finalmente iria relaxar um pouco e jantar. Aí, antes de dormir, tomarei um bom e revigorante banho. Mas por hora queria que Eren tomasse banho primeiro, afinal estava todo sujo devido à sua briga na escola. E para o bem das orelhas dele, acho bom não se repetir.
Deixei as panelas no fogo baixo e me virei para buscar os pratos no armário. Quando estava para colocá-los na mesa, levei um baita susto e dei uma recuada. Apareceu de repente e do nada. Aquela coisinha demoníaca, cascuda e imunda rastejando pela minha cozinha... Por ato reflexo, na hora do recuo joguei um dos pratos na direção do bicho, fazendo um barulhão. Foi meio sem querer. Lanço o que tiver em mãos na hora. Mas a filha da mãe foi rápida e conseguiu desviar. Eu entrei num certo desespero interno. Eu não podia tirar os olhos daquela coisa. Se eu a perdesse de vista e não tivesse a certeza que está morta, não dormiria a noite.
Aquele demoniozinho, com as antenas maiores que o corpo, começou a vir em minha direção rapidamente. Eu dei uma engasgada com o ar e fui desesperadamente tateando a pia, em busca de qualquer coisa para tentar matar o bicho. Quando senti o cabo da faca de cortar carne, nem pensei duas vezes, atirei na desgraçada sem dó. Mas errei. Fui atirando todos os outros talheres, mas nenhum a acertou.
Até que ela foi para debaixo do fogão. Droga! E agora?
Foi aí que a porta do banheiro se abriu e Eren veio correndo até mim, um tanto assustado e curioso para saber o que estava acontecendo.
– Levi! Você está bem? Eu ouvi uns barulhos... O que é isso?! – Ele se espantou ao chegar na cozinha e ver os cacos de prato e vários talheres jogados no chão.
– O demônio entrou em casa, Eren! Vá buscar a vassoura! – Ordenei, não tirando os olhos daquela fenda embaixo do fogão.
– Hã?! – Ele arqueou a sobrancelha, confuso com a minha fala.
– Vá logo! – Mandei, sem muita paciência. Sem questionar, ele logo foi até o armário da lavanderia e voltou rapidamente com a vassoura em mãos. Agora que notei que estava sem camisa e seu corpo ainda estava meio molhado. Provavelmente, ao ouvir a barulheira, saiu correndo do chuveiro e, sem se secar, apenas vestiu a calça para vir ver o que passava.
– É um rato? – Ele perguntou já ficando em posição para acertar qualquer bicho que for.
– Não, é pior... – Falei enojado, pois era a coisa mais detestável desse mundo. Pelo menos para mim.
– Onde está? – Ele perguntou meio ansioso.
– Foi pra debaixo do fogão. Pra pegar agora, vai ser horrível...
– Oh, é só ligar o forno. – E lá foi o pirralho até o fogão acendendo o forno na temperatura máxima. – Não importa o bicho que for sairá daí com esse calor. – Disse ele, apenas se posicionando com a vassoura em mãos, pronto para pegá-lo.
– Garoto, cuidado, está descalço... Vai acabar pisando num caco...
– Ali!! – Eren deu um grito que me assustou, logo tentando acertar com a vassoura a coisinha que acabara de sair debaixo do fogão, mas errou. – Ah, é só uma barata... – Comentou, olhando-a.
– É uma barata sim! O que está esperando?! Mate-a logo!!
Eren tentou acertá-la novamente, mas a bicha era rápida. Por que essa criatura apareceu logo hoje? Hoje não estava uma noite tão quente assim pra esses insetos malditos aparecerem. E pior, estavam bem ligeiros. Eren acertava o pé da mesa, a cadeira, os armários, menos a barata. Eu mantinha uma certa distância. Não que eu esteja com medo... Mas é que... Bem, Eren já estava ali tentando matá-la então não tinha motivo para eu ficar em cima também...
Foi aí que de repente, na maior covardia, a criatura abriu as asas e começou a voar. A voar! Pior ainda, na minha direção! Arregalei os olhos e fui recuando rapidamente para a sala até eu tropeçar no tapete e cair de costas no chão. E tendo a horrível visão daquele bicho todo aberto, feio, nojento se aproximando num voo totalmente sem rumo. Aliás, tinha rumo sim! O rumo era sempre a sua cabeça!
– Eren!!! – Gritei no desespero, me encolhendo ali no chão, numa tentativa de me proteger. Foi quando ouvi o barulho do choque da vassoura com o inseto no ar. Como uma bola sendo rebatida por um taco de beisebol. E de fato foi. Quando abri os olhos e me virei para frente, vendo Eren terminar de matar o inseto já no chão.
– Há! Consegui, Levi! – Disse ele, todo vitorioso e alegre. – Venha ver, ela ainda está com as asas abertas...
– Argh! Não mesmo...! Apenas se livre disso! – Falei totalmente enojado, enquanto me colocava em pé novamente. Já basta a visão que eu tive desse negócio vivo e voando, imagina morto e esmagado por uma vassoura, definitivamente desnecessário...
– Tá bem. – Disse o garoto, em busca da pá para varrer o inseto morto e jogá-lo no lixo. – Não sabia que você tinha tanto medo assim de baratas... – Ele comentou meio rindo.
– Não tenho!! – Falei em tom intimidador que o fez fechar a boca na hora. Mas percebi que ainda se segurava para não rir. Que coisa humilhante. Essa era uma de minhas reações que eu não queria que ele visse nunca. – Ah, e jogue essa vassoura fora, comprarei outra amanhã... – Falei e ele apenas assentiu, ainda com uma expressão travessa no rosto.
Depois disso, limpamos juntos toda a cozinha até finalmente sentarmos à mesa para jantar mesmo. Fiquei meio inquieto depois de Eren dizer que poderia haver mais baratas no apartamento. Mas ele só queria ver minha reação. Afinal, agora que aquela havia morrido foi que pensei... Morávamos em um prédio. Não era para ter esses bichos aqui. Mas... o porém é que essa visitante de agora voava, somente por esse motivo que apareceu. Não creio que teriam mais, já que eram bem poucas as que voavam, ainda mais nesse tempo meio frio. Mas só porque ele me deixou encucado com isso, mandei Eren verificar o apartamento todo para ter certeza que estava tudo limpo e sem pragas.
Eren
Depois de jantarmos fui para a sala assistir um pouco de TV, enquanto Levi preparava um suco para nós. Eu ainda o olhava segurando meu riso. Nunca na minha vida havia o visto com medo de algo. Ele encarava valentões maiores do que ele. E agora que aparece um mero insetinho, ele ficou todo apavorado. Isso foi muito engraçado! Nunca esquecerei as caras que ele fez quando ela voou.
Mas bem, se eu risse da cara dele agora, provavelmente ele me bateria bastante. Por menos, ele já me passou uma rasteira na rua, me fazendo cair de costas no chão. E doeu bastante! Por isso, me seguraria para rir depois no meu quarto.
Quando eu cruzei as pernas, sentando como índio no sofá foi que notei que havia machucado meus pés. Provavelmente no momento que pisei nos cacos de prato no chão enquanto tentava matar a barata. Eu devia ter calçado no mínimo um chinelo... Se bem que não gosto muito. Prefiro andar descalço em casa.
Levi, ao se aproximar com os dois copos de suco, me viu mexendo nos pés.
– O que você fez, garoto...? Ah... – Ele soltou um suspiro ao ver os machucados. – Eu falei pra não fazer as coisas descalço, pirralho. – Ele pousou os copos sobre a mesinha da sala e foi até o armário, à procura da pequena maleta de primeiros socorros.
– Ah, não precisa não, Levi. Foi só um arranhão. – Falei.
– Hunf... Um arranhão... Claro, apenas um arranhão...! – Ele usava seu tom irônico. – Bem na sola do pé. E você que gosta de andar por aí descalço, pra pegar uma infecção vai ser rapidinho.
– Ah, não precisa exagerar, não está nem sangrando. – Falei, passando a mão sobre os poucos cortes. Mas aí vi um pouquinho de sangue manchado em meus dedos. – Oh, droga...
– Hunf, chega pra lá. – Levi logo se acomodou ao meu lado no sofá, abrindo kit de primeiros socorros e pegando aquele remédio que ardia. Oh, não! Logo esse? – Dê aqui os seus pés. – Ele pediu e eu... fiquei um pouco receoso. – Que foi? Ainda tem medo se sentir um ardidinho de nada? Vai passar. – Ele falava, com a mão estendida em minha direção.
– Er... deixa aí que eu passo depois. – Disse tentando convencê-lo.
– Hunf. Depois... – Ele então, sem paciência, agarrou meu calcanhar e aproximou dele. Passou o remédio com um algodão nas feridas. Eu mordi o lábio inferior ao sentir aquele ardido gelado de repente. – Viu? Pronto, não foi tão ruim... – Ele comentou.
– Por que não me deixou passar? Não sou mais criança!
– Não é criança, mas age como uma quando se trata de remédio! Especialmente este aqui. – Ele esfregava o frasco na minha cara. – Sei bem que se deixar por sua conta, você não passa!
– Hunf... – Fiz um bico. – Levi também parece uma criança... quando aparece uma barata. – Dito isso comecei a rir sem querer, mesmo que baixo, era um riso bem audível.
– O que você disse? – Ele logo puxou minha orelha, apertando-a com força.
– Ai, ai, ai, ai, ai, i-isso dói, Levi! E-espera...! – Falava em meio a dor.
– Hunf. Quem você pensa que é pra falar assim comigo? – Vi aquela veiazinha pulsante em sua testa, indicando o quanto estava puto de eu tocar no assunto.
– Ah... D-desculpe, é que foi tão engraçado...! – Falei ainda segurando o riso.
– Engraçado o caramba, você viu o tamanho daquela coisa?
– Vi, tem menos de sete centímetros... – Falei meio sarrista e ele puxou mais minha orelha. – Ai, ai, Levi, acho que agora você vai arrancá-la... – Pedi de forma mais chorada pela dor. Ele, ainda com uma cara emburrada, soltou minha orelha.
– Hunf. Esqueça isso... É um inseto muito sujo e asqueroso... – Comentou pegando seu copo de suco e tomando um gole. Eu, massageando meu ouvido, dei um sorrisinho.
– Você fez uma voz... bonitinha naquela hora. – Comentei.
– Hã?! – Voltou a me olhar com uma segunda veia pulsante na testa. – Que hora? Pare de falar merda.
– Quando você caiu no tapete e ela veio voando na sua direção, você pediu socorro de um jeito bonitinho...
– Que socorro? Eu mandei você mata-la, não pedi socorro! – Justificou ele.
– Inconscientemente me pareceu que pediu sim. – Provoquei. Era muito raro ver o Levi sem jeito, e era exatamente como ele estava agora. Evitava olhar diretamente para mim e tentava manter a postura de corajoso e sério. Disfarçava seu leve constrangimento bebendo suco. Nesses momentos que é legal provocar e provocar até o momento que ele explodisse de vez e começasse a me xingar, mas eu não ligava. Gosto de mexer com ele e deixá-lo irritado.
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