Reencarnado Como Galo em Outro Mundo
4 Capítulo 4 A Fuga do Galo
Gilmar estava muito tenso ao volante. Todo o seu corpo suava frio, afinal faltava pouco para chegar à lanchonete. O que estava prestes a fazer era algo que não lhe agradava de forma alguma. Mas a sua cabeça dizia que algo por sua filha precisava ser feito. É um homem que tem cabeça quente, mas embora raramente apelasse para a violência, estava determinado a dar uma lição no indivíduo que magoou Diana.
No painel do caminhão há uma foto de sua filha de quando tinha seis anos sentada no colo de sua esposa. Ao lado desta há outra foto com Diana em sua adolescência. Acariciou a foto com ternura.
_Eu volto logo, querida. Aquele moleque sem vergonha vai ter o susto da vida de- Emudeceu repentinamente.
Algo lhe chamou a atenção. Havia acabado de passar por seu alvo na companhia de uma garota. O reconheceu facilmente após gravar na memória aquele rosto sorridente na selfie, não tinha como errar. Era Ricardo, o maldito que magoou sua filha. Estava perto dele e distante o bastante da lanchonete para realizar sua vingança.
_Ahhh, mas parece que a sorte tá do meu lado. Vai ser é aqui e agora.
Acelerou o caminhão e virando na esquina seguinte. Pretendia contornar o quarteirão e surpreender sua presa por trás.
_Me diz uma coisa, Ricardo. Você abriu meu presente?
_Hã? Não, acabei guardando no bolso da calça, ficou lá no armário. Vou devolver pra você quando chegarmos.
_Não, ele é seu. Fica como lembrança.
_Tem certeza? Eu nem tinha comprado o seu…
_Imaginei. Mas deixa assim por enquanto, me dá alguma coisa depois.
_Tá ok, vou me esforçar pra achar algo que valha a pena.
_Eu vou cobrar, hein? Sou muito pers- hã?
Júlia não conseguiu completar sua frase. Uma buzina soou forte atrás dos dois e Ricardo por reflexo puxou Júlia para longe da borda da calçada, mas o caminhão que passava rente à eles não seguiu seu curso, mas parou poucos metros depois.
_Ô, seu maluco! Vai dar susto em outro! — Gritou Ricardo enquanto mostrava o dedo do meio.
_Ah, susto? Mas eu ainda nem comecei…
O dono da resposta desceu do caminhão em seguida. Júlia reconheceu a pessoa como Gilmar, o entregador freelancer que abastece o restaurante.
_Seu Gilmar? Tá fazendo o que aqui? Hermes tá que nem doido esperando você lá na loja!
_Ah, eu sei. É que antes preciso resolver uma coisinha. Com esse mocinho aí do teu lado.
_Eu? — Ricardo ficou confuso. — O que quer comigo?
_Ora, pra que tanta pressa, garotão? Mas se quer saber.... lembra dessa mocinha aqui? — Gilmar puxou o celular exibindo uma foto em sua tela. A selfie.
_Essa garota… Diana? Ah, é a Diana!
_Isso, Diana. É o nome dela, muito bem.
_Porque você tem essa foto?
_Ah, isso é porque… ela é minha filha. — Puxou a barra de ferro de dentro do caminhão — A minha querida filha, que você teve a cara de pau de trair! A MINHA FILHA!!!
Gilmar investiu com a barra de ferro para cima de Ricardo, atingindo seu ombro. Ele cai no chão.
_AHHHHH, meu ombro!!! Espera aí, vamos conversar!
_Ah, mas já estamos conversando, não entendeu? TOMA ESSA!
Um segundo ataque, mas desta vez não o atingiu. Júlia, recobrada do susto anterior, segurou o braço de Gilberto antes que atingisse o alvo.
_ME LARGA! EU VOU ARREBENTAR ESSE MOLEQUE!
_Não, você não vai!
Júlia empurra Gilmar com todas as suas forças em seguida empunhando a faca ficando entre ele e Ricardo caído.
_Você nem tente! Eu tenho uma faca!
_HA! Você tinha!
Com um rápido movimento como uma tacada de golfe, a barra de ferro zune no ar atingindo a faca em cheio e quebrando sua lâmina, que é lançada para o ar caindo em seguida perto das rodas do caminhão fincada entre um bueiro e o asfalto. Desarmada, Júlia recua tropeçando e cai no chão.
_Olha, eu não bato em mulher, então fica quietinha agora! — Ele se vira para Ricardo — E então, onde estávamos?
_NÃO!
Júlia se recuperou da queda e agarra Gilmar por trás. Levantando-se do chão, Ricardo ameaça ir para cima do motorista em defesa da garota.
_Júlia! Larga ele e corre daqui!
_Seu burro! É você quem ele quer pegar! Some daqui, depressa!
Ricardo vacila por um instante, mas percebe que se correr o motorista irá atrás dele, deixando Júlia segura para trás.
_Então você me quer? Vem me pegar então!
Ele corria da melhor maneira que podia e já tinha se distanciado um pouco quando Gilmar finalmente se livrou de Júlia.
_Volta aqui, moleque! AIII!
Mesmo tendo se livrado, ele não esperava que Júlia o mordesse em seu braço e assim ela conseguindo tirar a barra de ferro das mãos dele e lançando alguns metros à frente.
_Maldita pirralha!
Desta vez Gilmar não consegue se conter e acaba dando um tapa em Júlia, que cai no chão. Queria recuperar sua barra de ferro, mas Ricardo já estava sumindo no final da rua, e ele não seria capaz de alcançá-lo a pé.
_Merda! Você não vai fugir!
Subiu no caminhão às pressas e deu a partida acelerando o máximo que podia. Ouviu um barulho estranho, mas sua ira falava mais alto. Se o baú do caminhão não estivesse cheio de frangos congelados conseguiria mais velocidade, mas não podia se livrar da carga naquele momento. Continuou pisando no acelerador o máximo que podia sem tirar os olhos do fugitivo.
Deu-se início à perseguição. Na frente, Ricardo corria do jeito que podia, principalmente agora que o caminhão se aproximava. Estando a pé ele tem a desvantagem da velocidade, mas usou esse fato para dificultar seu perseguidor virando em todas as esquinas que apareciam. Cogitou pular o muro de alguma casa, mas com a fantasia que usava não conseguiria fazer isso, então preferiu seguir em frente até conseguir ajuda.
Percebeu que o caminho tomado o estava levando em direção à lanchonete, que não era o melhor lugar para ir nesse momento, mas com a confusão que Júlia disse ter causado, havia a possibilidade de Alberto ter chamado a polícia, o que poderia ser sua salvação. De fato, ao chegar no início da longa rua que levava ao estabelecimento, notou uma viatura parada na frente do Deliciasas. Estava salvo.
_Só mais um pouco, aguenta firme, minhas pernas!
O caminhão surgiu logo atrás no início da rua. Ao ver onde estava e o carro de polícia à frente. Gilmar não conseguia acreditar que tudo tinha dado errado.
_Merda, a polícia! Porque estão aqui? Justo agora que quase consegui!
_RICARDO! ONDE É QUE VOCÊ FOI? E CADÊ AQUELA LOUCA?
Quem gritou foi Alberto, com a cara carrancuda mais feia do que o costume. Ao lado dele estava sua esposa abraçada com a filha que se desmanchava em lágrimas de falsidade após dar seu depoimento aos políciais.
Hermes, que até então dava satisfações aos clientes e passantes curiosos que não estava acontecendo nada e a lanchonete continuaria a funcionar normalmente, avisou:
_Olha, Senhor Alberto! Gilmar está vindo! Mas porque ele estava correndo daquele jeito? Aliás, até que enfim apareceu, Ricardo! Onde está Júlia? — Sua atuação canastrona não era nada convincente.
_Me ajudem! Ele quer... me pegar!
_Que se dane você! Eu quero é aquela louca presa! — Retrucou Alberto.
Gilmar não teve outra escolha a não ser parar. Respirou fundo e parou o caminhão alguns metros depois da lanchonete, sentiu que o caminhão estava estranho. Se a situação ficasse complicada para ele, negaria a tudo com todas as suas forças. Apenas se lamentava por não ter dado a surra que queria. Desceu do caminhão e foi se aproximando do grupo ali reunido, seus olhos faiscavam para Ricardo.
_Gilmar, finalmente resolveu aparecer! Em má hora, mas veio. Trouxe a carga? — Perguntou Hermes, ignorando a alegação de Ricardo
_Eu trouxe sim senhor, desculpe a demora. O que tá acontecendo aqui? — Suava frio. Talvez alguém tivesse visto a perseguição e chamado a polícia ao reconhecer Ricardo ou a garota.
_Uma louca que trabalhava na loja agrediu a filha do Senhor Alberto e fugiu da loja com uma das facas da cozinha, pode isso? Aliás... parece que ela estava atrás do senhor, Ricardo. Pode me explicar isso?
Ricardo nunca gostou de Hermes, mas ouvi-lo chamar Júlia de louca o deixou ainda mais irritado.
_Nós brigamos, mas estávamos fazendo as pazes quando esse aí apareceu querendo me bater. E Júlia não é louca coisa alguma!
_Não importa o que você acha, pois os dois estão demitidos! Agressão e abandono de serviço. Não vão receber um centavo!
Os policiais que observavam a situação desta vez resolveram intervir, intrigados com tudo que ouviram desde que chegaram.
_Muito bem, viemos aqui por uma denúncia de agressão e furto e agora temos uma mais uma denúncia de agressão. Poderia nos dar mais detalhes, rapaz?
_Senhor policial, ele está inventando uma história estapafúrdia para tentar se safar da demissão. Gilmar é um bom homem e está aqui apenas para fazer uma entrega! — Hermes tentou desviar a atenção, mas os policiais ficaram ainda mais desconfiados.
_Rapaz, foi você quem fez a denúncia. Ela procede ou não?
_Bem, é que…
Naquele momento a cabeça de Ricardo começou a pensar.
“ Ele exagerou, mas a raiva dele teve motivo. Eu só levei uma pancada no braço. Acusá-lo não iria adiantar nada porque a única testemunha é a Júlia e por causa da agressão e da faca não vão acreditar nela. Hermes vai nocentar Gilmar e acusar Júlia de qualquer jeito. O melhor seria perdoá-lo e tentar livrar Júlia de alguma forma.”
_E então, o que vai ser? O policial reforçou seu questionamento.
_Desculpa, policial, eu exagerei. Mexi com a filha dele em uma festa e então veio me dar uma bronca e eu saí correndo. — Afirmou. Gilmar nesse momento ficou espantado sem acreditar que o mesmo rapaz a quem queria agredir agora o inocentava. Sua raiva cedeu um pouco.
_Tem certeza? E esses machucados no ombro e no rosto?
_Eu tive uma briga com a Júlia, minha namorada. Eu disse que ela poderia me dar um soco porque fui infiel com ela. Por causa dessa fantasia idiota eu tropecei e bati com o ombro em um poste.
_Mas disseram que a moça agressora foi atrás de você com uma faca. Ela te ameaçou com essa faca?
_ELA É UMA LOUCA! ARRUMOU BRIGA COM ESSE CRETINO E MINHA FILHA FOI PEGA NO MEIO DISSO! É TUDO O QUE ACONTECEU! — Alberto levantou a voz intervindo, mas o policial fez sinal para que ele ficasse em silêncio.
_Continue, rapaz, eu quero te ouvir.
_Valeu. Ela é minha namorada sim, e a faca foi só pra me dar um susto. Ela bateu na filha dele porque estava sempre a provocando e prejudicando na loja. As coisas aconteceram ao mesmo tempo e ela teve um surto. Foi minha culpa. Ela deve estar voltando pra cá agora, está com vergonha depois de tudo isso.
_Muito bem, vamos esperar ela chegar para averiguar tudo isso. E os senhores se contenham! Não posso lançar um depoimento sem ouvir todas as partes! — Disse à Alberto e Hermes, contrariados pela reprimenda.
Ricardo estava mais tranquilo agora. Talvez fosse possível inocentar Júlia de parte das acusações. Estariam demitidos, mas esse era o menor dos problemas. Dariam um jeito dali para frente.
“Bom, dos males o menor”.
Um estrondo ecoou e tudo ficou escuro para Ricardo.
Fale com o autor