Reencarnado Como Galo em Outro Mundo

3 Capítulo 3 O Galo Está Frito


Um som muito alto de algo se quebrando é ouvido. O celular de Ricardo foi de encontro ao espelho ao ser lançado por Júlia em um acesso de raiva. Sentindo tonturas, apoiou-se na mesa e por pouco quase se cortando com os cacos espalhados sobre o pequeno móvel, as lágrimas teimavam em cair.


Ela não queria acreditar no que havia lido, mas estava ali, letra por letra a prova de traição. Se beliscou com força até suas unhas ficarem cravadas em seu braço e um leve filete de sangue escorria do ferimento. Como acordar de um pesadelo estando desperta? A dor a que se infligiu era ínfima perto do que estava sentido naquele momento.

_Ele vai me pagar. Ela vai me pagar. OS DOIS VÃO ME PAGAR!

Com um grito de fúria, Júlia sai apressada do vestiário, e com sua saída a porta fez um forte estrondo contra a parede interna do cômodo danificando as dobradiças.

_Gente, que barulho todo é esse?

A porta da gerência se abriu revelando uma assustada Marilise enquanto seu pai ainda se levantava da cadeira. Ao se deparar com Júlia que parecia a própria personificação do ódio, sentiu um frio na espinha. Mesmo assim não conseguiu segurar a língua.

_Meu Deus, Júlia, o que foi i…

_CALA A BOCA, SUA VAGABUNDA!

O tapa que veio em seguidafoi tão forte que Marilise se desequilibrou, caindo desacordada sobre uma pilha de caixas com sacolas de papel para viagem. Sua face esquerda inchada tinha a exata impressão da palma de Júlia em um tom vermelho-arroxeado. Alberto ficou sem reação por um instante antes de amparar a filha machucada.

_MAS O QUE É ISSO, GAROTA!? FICOU MALUCA?

Júlia não lhe deu ouvidos. Desceu as escadas com pressa e passadas pesadas ignorando os clientes que a olhavam atônitos pelo barulho e gritos vindos do andar de cima.

Júlia tinha um lugar em mente para onde queria ir, mas antes de mais nada foi até a cozinha. Marcelo, que havia desligado o fogo para ir ver o que aconteceu ficou espantado ao ver a garota entrando na cozinha e apanhando algo na mesa de preparo. Voltou de lá com uma grande faca na mão e os clientes ao vê-la armada não tiveram outra reação senão ficarem paralisados de medo. Não queriam se intrometer com uma moça nervosa e armada de forma alguma, seja lá o que pretendia fazer.

Hermes, que havia saído da loja para fumar, teve a brilhante idéia de se postar à frente de Júlia com os braços abertos bloqueando o caminho.

_Que foi aquilo lá em cima? E pra quê essa faca?

_Sai. — Disse em voz baixa.

_Hã? Não vai me responder? Cuidado como fala comigo, garota!

_ Eu disse sai da minha frente.


_Primeiro me entrega essa faca! Ela pertence à loja!


_Então tenta pegar.


Dessa vez a voz de Júlia estava clara e seu tom imperativo parecia tornar a faca especialmente mais afiada.

Hermes,finalmente entendendo que não seria inteligente persistir, subiu as escadas correndo. Camila paralisou de medo mal conseguindo respirar e Marcelo que havia saído da cozinha para ver o que houve não tinha se dado conta do sumiço de sua faca até vê-la nas mãos de Júlia que agora saia apressada pela porta principal.

Ricardo não estava mais no local em que entregava os panfletos. Mudou-se para baixo de uma frondosa e distante árvore tentando fugir do sol e não havia percebido Júlia se aproximando.

_Ahhh, chega! Não dá mais. Vou pra loja almo- ué. Júlia? Que foi? Porque tá chorando?

_...Alice Loirinha.

_Hã? O quê?

_O olhar de Júlia parecia injetado, fixo em Ricardo. Ainda sem entender, tentou perguntar mais uma vez.

_Júlia, o-

_Carla do shopping. Monique da livraria.

“Merda, isso não parece bom.”

_D-do que você está falando? Que nomes não esses? — Ricardo tentava disfarçar, vacilando em sua voz.


E então percebeu a faca na mão da garota.

_Lúcia. Do… peitão.


Não tinha mais dúvidas do que havia acontecido, Lembrou ter Pedido a ela minutos antes para recolher seu celular, estava claro que ela havia olhado as mensagens. Achou melhor se afastar devagar da garota sem lhe dar as costas.

_Escuta, Júlia, eu posso expli-

_...e mais um monte de garotas que nunca ouvi falar. Todas são garotas que você pegou. Todas enquanto estava comigo. Esse tempo todo. Esse. Tempo. Todo. — Apontou a faca para Ricardo.

_Júlia, olha, aquelas garotas são minhas amigas, as mensagens são de brincadeira, entende? Não é nada sério, você precisa se acalmar! — Suava frio, tinha de tentar convencê-la.


_Eu não acabei…! — A postura de Júlia mudou para uma clara intenção de ataque em meio a gritos — ATÉ A VAGABUNDA DA MARILSE! BEM NA MINHA CARA!

Júlia investiu com tudo para cima de Ricardo que desviara por muito pouco de ser atingido na barriga. Ela foi de encontro com a árvore e quase se chocando contra ela.

Ricardo aproveitou a chance para correr, mas foi na direção oposta à lanchonete. A fantasia parecia ainda mais pesada e os pés escorregavam dentro das patas molhadas pelo suor, mas ainda teve forças para correr pela rua com Júlia em seu encalço.

_VOU TE MATAR! TRAIDOR! DESGRAÇADO!

Ricado corria a plenos pulmões. A cabeça da fantasia havia sido perdida em algum ponto do trajeto percorrido, mas para ele pouco importava. Era seu pescoço que estava em jogo naquele momento. Júlia que até onde ele sabia, não era do tipo atlética, corria apenas com a força do ódio.

Não parecia demorar para alcançá-lo com aquela fantasia pesada, mas já haviam percorrido duas quadras e a lanchonete estava cada vez mais distante.

Voltemos um pouco no tempo.


Em outra parte da cidade, o motorista Gilmar tinha acabado de deixar sua filha em casa com sua esposa. Pretendia levá-la junto para tirar a limpo a situação com Ricardo, mas mudou de idéia achando que seria melhor a deixar fora do assunto. Quando estava de volta ao caminhão e dando a partida, sentiu lhe segurarem pelo braço.

_Pai! Por favor, não faz isso! — Era Diana, sua filha que havia aberto a porta do caminhão para tentar detê-lo.


_Calma, filha. Eu te disse. Papai só vai conversar com ele.

_Com essa barra de ferro ali atrás? — Apontou o objeto.

_E só um sustinho, prometo que não vai ser nada além disso.

Sua esposa interviu segurando a filha e a forçando a largar seu braço. Seu olhar estava cheio de dúvida e medo, pois conhecia seu marido muito bem. É um bom pai, mas no que dizia respeito à filha, ele poderia virar um monstro se precisasse.

_Filha, vem aqui, se afasta do caminhão!

_Não, mãe! Ele vai matar o Ricardo!

_Não, ele não vai! Gil! Por favor! Tenha consciência! — Implorou.

_Eu sei, Márcia. Vou ter.

Antes que pudesse ser contido novamente, deu a partida e aos poucos o caminhão se afastava. No retrovisor, pode ver esposa e filha abraçadas na calçada ficando cada vez mais distantes. Pegou a barra de ferro colocando-a sobre o banco do carona. Seu ponto de chegada já estava definido: Lanchonete Deliciasas.

_Ninguém mexe com a minha família. Ninguém.

De volta ao tempo atual, a perseguição continuava. Júlia não estava disposta a ceder, mas começava a demonstrar sinais de cansaço. Ricardo fez uma má escolha acabando por ficar encurralado em um beco. Não havia mais para onde correr com Júlia posicionada à sua frente.

_...arf, arf… agora… eu te… peguei.

_Júlia, não faz isso. — Exausto, suavizou a voz o melhor que pôde.


_NÃO FAZ ISSO? VOCÊ POR ACASO PENSOU ANTES DE FAZER O QUE FEZ ALGUMA VEZ? PENSOU?

_NÃO, NÃO PENSEI! EU SEI DISSO!

_E PORQUÊ?

_…

_PORQUÊ?

_PORQUE EU SEI QUE SOU UM MERDA!

Júlia demonstrou surpresa. Ricardo nunca havia dito nada sobre si que não fosse algo para se gabar, nada de negativo. Admitir algo assim era novidade.


_...porque eu sou um merda. Mulherengo. Ganancioso. Inseguro. Sei disso tudo muito bem.


_…

_Júlia, sei que não tenho direito de me justificar, eu fiz muita merda e não tenho como contestar.

_...porque é ganancioso?

_Não queria ser como meu pai, passando a vida toda servindo aos outros e no fim viver de aposentadoria mixuruca quando não prestar pra mais nada. É errado querer uma vida melhor?

_Isso não justifica dar em cima daquela safada. E porque é inseguro?

_Porque eu sei que não sou o tipo de cara que as garotas querem, inventei essa fachada de pegador, queria que as garotas me notassem.


_Eu te notei! Eu gosto de você, seu idiota! E algumas dessas garotas deviam gostar também!

_Mesmo assim me sentia inseguro!

_Você é muito infantil de pensar assim!

_EU SEI...! Eu sei.

_Se sabe, o que vai fazer agora, então?

_Ainda tô pensando. Mas uma coisa eu sei que tenho de fazer.

_...e o que é?


_Me perdoa.

_Depois de tudo isso, acha que vai ser fácil assim? Te perdoar vai mudar alguma coisa?

_Não, sei que não vai. Mas é um começo. Vou começar por você. Me perdoa.

_E as outras garotas?

_Vai demorar, mas vou me desculpar com todas elas, o tempo que precisar.

_Acha que depois de tudo isso eu ainda vou gostar de você?

_Não. Eu não te mereço. É querer demais esperar por isso.

_Você tá mesmo arrependido?

_Estou. Preciso de um tempo pra consertar tudo, mas eu vou me esforçar pra te provar que estou.

_Está bem. Vou acreditar em você. Por enquanto. Não me decepcione de novo.

_Obrigado.

Júlia respirou fundo, tentando organizar seus próprios pensamentos. Depois de um minuto de silêncio, questionou:

_E agora, o que a gente faz?

_Como assim? Não sou eu quem tem de fazer algo?

_Não depois de eu ter arrebentado a cara da Marilise com um tapa. — Respondeu envergonhada, desviando o olhar.

_Você fez o quê?

_A maldita mandou mensagem pro seu telefone. Só estava te dando papo, ela não quer nada com você. Sabia que a gente estava junto então queria tirar uma com a nossa cara. Mexeu na minha folga pra não folgarmos juntos e até pretendia pedir ao pai dela pra me demitir. Aquela vaca.

_Essa parte eu não sabia.

_Porque quando ela mandou as mensagens você estava fora. E agora não vai ver mais, porque… eu taquei seu celular no espelho e ele quebrou. — Respondeu desviando o olhar.

_Quebrou meu celular!?

_Eu fiquei com raiva, queria o que?

_Tá, deixa pra lá, é só um telefone. E essa faca aí?

_Peguei escondida do Marcelo. Ele vai ficar doido por isso.


_Marcelo? Eu tô é pensando em Alberto cuspindo fogo! A gente vai rodar, pode ter certeza disso.

_Se eu não for presa por bater naquela desgraçada, já tô no lucro.

_Se isso acontecer, eu bato nele, aí a gente vai preso junto.

_Hahahahahaha, jura?

_Depois desse troço aqui, ele tá mais do que me devendo. — Afirmou enquanto apontava a fantasia com as mãos.

_Tá toda depenada.

_Não mais do que eu queria. Se não estivesse só de cueca aqui dentro, tirava agora mesmo e fazia em pedacinhos.


_Hahahaha! Eu sei. Acho melhor a gente ir, mas antes disso…

_O que-argh! Aiii...

_Um soco acertou Ricardo em cheio. Como não teve tempo de se preparar, caiu rolando no chão gemendo de dor. Após dar o soco, Júlia se espreguiçou com um sorriso nos lábios.

_Ahhhh, agora sim. Tô bem melhor! Não pensou que ia sair dessa sem levar nada, né?

_Pra falar a verdade, achei sim.

_Vai, levanta logo. Pega na minha mão.

_Ai, tá bom, eu mereço. Será que vai deixar marca?

Começaram o caminho de volta para a lanchonete. Júlia estava mais calma e faziam planos de procurar outro emprego juntos. “Júlia é muito bruta, mas é uma garota ainda melhor do que pensei. Preciso repensar minhas atitudes, sou grato à ela por me acordar.” — Pensou.

A tarde parecia mais agradável aos dois agora que tinham se acertado, fazendo-os caminhar a passos lentos. Não havia pressa de voltar e encarar o destino que lhes esperavam.