Reencarnado Como Galo em Outro Mundo
24 Capítulo 23 - Dúvida e um Frio Cortejo
_PODE PARAR AÍ, MOCINHA!
Jean fez sua entrada dramática seguido dos demais integrantes da Coeur de Lion no exato momento em que Inako explicaria seus problemas para Lucille.
_HÃ? AIÊ! — Inako deu um pequeno salto para trás quando viu o grupo mais uma vez.
_Jean? O que está acontecendo?
_Senhorita Lucille, desculpe entrar desse jeito, não conseguimos segurar o Jean! Nos disseram que esses dois haviam entrado aqui. — Henri comentou.
_E a gente chegou na hora certa! — Disse Axel.
_Ai, vocês dois! Dá pra não se empolgarem tanto? Senhorita Lucille, o Senhor Ferdinand está? — Disse Claire.
_Ele foi até Cognac para lidar com um assunto importante. Vocês estarão a par de tudo assim que ele retornar.
_Ele saiu? Justo agora quando íamos desmascarar esse saco de penas? Mas que porcaria! — Jean protestou após dar um soco na parede.
_De qualquer forma, nós temos assuntos a tratar com essa menina e esse galo. E nos desculpe, Senhorita Lucille, mas nós não vamos sair daqui até acertarmos as contas com eles! — Disse Axel.
_M- mas o que a gente fez?
_Senhorita, peço desculpas de antemão, mas precisamos de sua colaboração. Acredite, não queremos te prejudicar, tem minha garantia. — Disse Henri calmamente.
_Isso mesmo, pode deixar que esses dois não vão tocar no seu bichinho de estimação. Eu, Claire Laurent, dou minha palavra! Escutaram bem, parede de carne e sombra de minhoca?
_Ei! Me chamou de parede de carne de novo! — Disse Jean.
_Eu não sou sombra de minhoca! Sou esbelto e definido! — Protestou Axel.
_Que seja, apenas calem a boca!
Lucille calmamente ajustou os óculos em seu rosto, mas era impossível não notar uma veia saltada em sua testa. Respirou fundo três vezes antes de tomar as rédeas da situação.
_Muito bem, ouvirei o que vocês tem a dizer. Tenham calma e me expliquem com detalhes. Podem começar.
Jean e Axel tentaram se adiantar e fazer o relatório segundo eles, mas ficaram em silêncio quando sentiram Claire os beliscando em seus traseiros. Henri tomou a palavra:
_Permita-me explicar. Ontem, a certa hora da manhã, retornávamos para Bordeaux quando Jean e Axel pediram para descer da carroça e, bem, “irem ao banheiro”. Pouco tempo depois, ouvimos um som parecendo uma explosão dentro da floresta. Quando corremos para ver o que havia acontecido, os dois estavam machucados e nos disseram que o que parecia ser um frango os haviam atacado.
_Um frango? Que história absurda é essa?
_Por mais absurdo que pareça, foi o que aconteceu. Inicialmente achamos que os dois estivessem tendo algum tipo de alucinação causada por monstros, então ignoramos e procuramos indícios do ataque. O fato é que encontrei o que Claire identificou como resíduos de mana em um tronco de árvore. De volta à cidade, viemos comunicar o ocorrido ao senhor Ferdinand.
_Eu não fui informada sobre este fato. O que ele respondeu?
_Como já deve imaginar, ele também considerou a ocorrência como absurda, mas quando Claire mencionou que os resíduos de mana se tratavam de magia de vento poderosa, ele prometeu que mandaria soldados para investigar a existência de monstros e nos mandou tirar o resto do dia de folga.
_Então devo supor que o galo de estimação de Inako seja o responsável pelo ataque?
_Não gosto de tirar conclusões precipitadas como já deve saber. Mas na noite de ontem, quando estávamos jantando na Taverne à Volonté, nos deparamos com esta menina e seu animal de estimação. Jean e Axel reconheceram a ave na hora e antes que causassem uma confusão maior, os mandei para fora.
_A Coeur de Lion, o melhor grupo de aventureiros que nós temos, causando confusão em uma taverna. Isso é vergonhoso. — Disse Lucille levando a mão à testa.
_Realmente. Sentimos muito por isso. Mas, vergonha à parte, nem tudo estava perdido. — Disse Henri, levando a mão até uma pequena bolsa em sua cintura e tirando um objeto de lá.
Ah, aquilo é…? — Rikko não esperava por isso.
_Uma pena? — Disse Lucille.
_Sim. Antes de sair, aproveitei a chance para obter uma amostra do animal sob o pretexto de acariciá-lo e então recolhi essa pena solta. Claire passou a noite toda analisando e chegou à conclusão que…
_… tinha a mesma assinatura de mana que encontramos no tronco. — Completou Claire.
S- Senhor Rikko!-Sussurrou Inako.
_Mas que maldito! Foi naquela hora! Eu nunca gostei de ser tocado por homem, e agora mais do que nunca sei o porque!
_Quanto tivemos a confirmação, viemos para comunicar a descoberta ao senhor Ferdinand o quanto antes. — Disse Henri.
E então os olhares da Coeur de Lion e Lucille estavam voltados para Inako e Rikko, que se encontravam encurralados contra o balcão. Jean e Axel não escondiam as caras de satisfação que claramente significava “nós te pegamos!”. Lucille, agora convencida dos fatos, perguntou:
_Inako, me desculpe por isso, mas preciso pergun-
_A CULPA É TODA DELES!
_…? — Todos ficaram sem reação com o grito de Inako, que apontava para os dois que haviam sido forçados ao silêncio e tirando o sorriso de seus lábios.
_ELES QUERIAM COMER O MEU RIKKO! PULARAM EM CIMA DELE FEITO MORTOS DE FOME!
_Ah, é mesmo… — Disse Claire, levando a mão à testa em sinal de vergonha.
_Então foi isso que aconteceu? Jean? Axel? — Disse Lucille, claramente incomodada.
_Ah, é que… — Disse Axel.
_E- ele tava na floresta dando sopa! Achamos que não tinha dono! — Jean tentou se explicar.
_EU ESTAVA LÁ! Eu estava há dias sem comer quase nada, mas mesmo assim eu não tentei comer ele! Mas vocês tentaram! E foi bem feito a surra que levaram! — Disse Inako.
Na verdade, você tentou me comer, sim. Mas isso não vem ao caso agora. — Pensou Rikko.
_E vocês dois assumiram que apenas por estar sozinho na floresta, o galo não tinha dono. O quão idiotas vocês ainda podem ser? — Perguntou Lucille.
_Ah, mas é que… tá, desculpa. — Jean tentou argumentar, mas de nada adiantaria, então apenas se desculpou.
_Eu sinto muito, fomos idiotas. — Afirmou Axel.
_EI! Fale só por você!
_Não retruque! Os dois foram idiotas, sim! — Afirmou Claire.
_Vocês dois estão pedindo desculpas para a pessoa errada. É para a Inako que devem se desculpar. — Afirmou Lucille.
_Argh! Foi mal, mocinha! — Disse Jean, completamente desconcertado enquanto se punha de joelhos.
_Me desculpa! Prometo não fazer isso de novo! — Afirmou Axel, imitando o amigo.
_Eu também devo lhe pedir desculpas. Como líder do grupo, devia saber comandar melhor esses dois. Eu sinto muito. — Disse Henri.
_P-por favor, perdoe eles! — Pediu Amélie.
_Eles são estúpidos, mas não são de todo mal. — Admitiu Claire.
Inako, ao ver a reação de todos, não tinha porque guardar rancor, afinal o real ofendido da situação era Rikko. Apenas mentiu um pouco para o bem do amigo, e então decidiu que deixaria em suas mãos — ou melhor, asas — se os perdoaria ou não. Olhou para ele, aguardando seu parecer.
_Deixa pra lá. Já dei a surra que mereciam. — Disse Rikko.
_Hã, tudo bem. A gente perdoa vocês.
Múltiplos suspiros de alívio foram ouvidos. O assunto estava para ser resolvido e chegar a seu final, mas foi quando uma nova questão veio à tona por parte de Lucille:
_Fico contente que os tenha perdoado. Como chefe de guilda interina, declaro esse assunto por encerrado, mas com uma ressalva. Inako?
_Hã, sim?
_O que exatamente o seu Rikko é?
Enquanto isso, em Cognac, Ferdinand e Cedrán desciam para o subsolo da guilda e ver o corpo de Rémy, morto durante as investigações a respeito da Feira Negra. Seu corpo recebia uma nova camada de congelamento naquele momento para que pudesse suportar a viagem de volta a Bordeaux e finalmente ser depositado em sua última morada.
_Eu estou aqui, Rémy. Vim te buscar. Peço perdão por minha incompetência, você ainda estaria vivo se não fosse por isso. — Lamentou Ferdinand.
_Não se mortifique, Gautier. Se existe um culpado pela morte de se estimado amigo, esse alguém ainda está à solta por aí, impune. E vamos pegá-lo com o devido tempo.
_É o que me consola, Lavigne. Sei que a vingança é um veneno para dois, mas gostaria muito de colocar as minhas mãos nos malditos que fizeram isso. Minha espada clama por sangue impuro.
_São palavras fortes. Definitivamente não odeio isso.
_Me diga, conseguiram determinar como ele morreu?
_Os covardes provavelmente não o queriam enfrentar cara a cara. Lançaram magia explosiva em seu rosto queimando-lhe os olhos. A perfuração por faca nas costas certamente veio após isso.
_Algum indício de veneno na faca?
_Não haviam resquícios de veneno do ferimento, mas fizeram questão de girar a faca para aumentar o estrago. A lâmina se partiu dentro dele deixando um fragmento da ponta, está naquele envelope.
Na mesa ao lado do corpo, o envelope de cor amarelada aguardava por Ferdinand. Ao abri-lo, a ponta da faca brilhou com a luz das velas. Tratava-se de um tipo de lança serrilhada, arma típica de assassinos atrozes.
_Foram espertos em jogar o corpo no rio. Não encontramos o local do assassinato ou qualquer gota de sangue que seja. Sem testemunhas. — Disse Cedrán.
_Ninguém ouviu o som da explosão?
_Não. Quem a usou, certamente conhecia meios de abafar o som.
_Está bem. Eu confio em sua habilidade e nas de seus homens.
_Já eu nem tanto. Afinal tudo isso aconteceu aqui nesta cidade e sabe-se lá o que mais há por vir.
_Estamos no mesmo barco, meu caro.
_Com licença, Chefe Lavigne! Permissão para falar. — Disse um dos funcionários da guilda que acabara de entrar no subsolo.
_Concedido.
_A carroça coberta está pronta e os homens do Senhor Gautier estão à espera dele.
_Muito bem. Traga mais três com você e levem a maca para a carroça. Tenham cuidado para não derrubar o corpo.
_Sim, Senhor!
O funcionário foi e voltou logo em seguida com mais três. Apanharam a maca contendo o corpo congelado e lentamente a levaram escada acima, seguidos de Ferdinand e Cedrán. Do lado de fora, os seus guardas além de Claude e Félix, os dois agentes sobreviventes os esperavam.
_Mestre Rémy… — Disse Claude, tentando esconder as lágrimas com a manga de seu casaco.
_Isso não vai ficar assim, não é mesmo, Senhor Gautier? — Disse Félix.
_Não. Não vai. Conseguiram mais alguma pista?
_Lamento, Senhor. Exceto pelo que já havia sido informado, não encontramos mais nada.
_Então não há mais o que fazer aqui, ao menos por enquanto. Peguem os seus cavalos, estamos de partida.
_Sim, Senhor!
_Gautier.
_Sim, Lavigne?
_Sei que desejar uma boa viagem nesta situação não é de bom tom. Então apenas desejo para que chegue em segurança. — Disse Lavigne, estendendo-lhe a mão amigavelmente.
_Obrigado. Amanhã mesmo, a Coeur de Lion estará a seu dispôr tão cedo o quanto possível.
_Estarei à espera.
O corpo congelado havia acabado de ser fortemente amarrado ao fundo da carroça e coberto com grossos lençóis brancos. Novamente montado em seu cavalo, Ferdinand dirigiu-se aos seus homens.
_Estão prontos?
_Sim, Senhor!
_Então, vamos!
Ao som de cascos e rodas, o pequeno cortejo fúnebre deixava Cognac. Não haviam pompa ou circunstâncias, tampouco coroa de flores. Apenas corações feridos e um desejo por justiça.
Esta é nossa última viagem juntos, Rémy. Mas não se preocupe, sua morte não será em vão. Eu vou libertar aquelas meninas, custe o que custar. Eu, Ferdinand Gautier, seu chefe e amigo, lhe prometo.
Pouco tempo depois da partida quando o grupo já ia ao longe, algo se movia nas moitas que cercavam a guilda. Saltou delas um homem baixo, maltrapilho, que lentamente caminhava em direção aos becos escuros da cidade. Estava sorrindo como se a coisa mais feliz do mundo acabasse de lhe acontecer. E de seus lábios secos e entre dentes amarelados, se ouviu um sussurro infame:
_O mestre Montblanc vai adorar saber disso, hehehehehe...
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