Reencarnado Como Galo em Outro Mundo
25 Capítulo 24 - Lágrimas de Alívio
_O que… meu Rikko é…
A pergunta feita por Lucille para Inako foi tão direta quanto deveria ser. Ela havia conhecido Rikko literalmente ontem, e ainda não haviam conversado a respeito, então o que poderia dizer? Continuaria a mentir? Perguntaria ao amigo e desfaria ali mesmo seu segredo? Haviam mais perguntas a se fazer do que respostas para dar.
_Inako. Pode falar a verdade. Eu não me importo mais. — Disse Rikko.
_Senhor Rikko? Tem certeza?
_Sim, eu tenho. Prefiro esclarecer tudo aqui — não exatamente tudo — e conseguirmos ajuda para resgatar a sua irmã. De qualquer jeito, eu não sei até onde iríamos mentindo pra todo mundo.
_O que eu digo pra eles?
_Apenas repita o que eu disser. Vou dar um resumo rápido.
_Tá bom.
Um pequeno e estranho diálogo se formou entre os dois na presença de Lucille e os integrantes da Coeur. Ninguém conseguia entender o que estava acontecendo naquele momento.
_Peraí. Eu tô vendo coisas ou ela tá falando com o bicho? — Disse Jean em voz baixa, atônito.
_Cara, você não tá sozinho nisso. Dá pra alguém explicar? — Axel respondeu.
_Nunca pensei que veria uma situação dessas. Em meus anos de estudo encontrei muitas pessoas que certamente não regulavam bem da cabeça, mas algo me diz que essa menina não está inventando coisas. — Disse Claire.
_Eles parecem… serem bons amigos. — Disse Amélie.
_Seja o que for, tenhamos a mente aberta. Depois de tudo o que aconteceu, o mínimo que podemos fazer é ouvir com atenção e compreender. — Disse Henri.
_Está bem, se o Senhor Rikko quer assim, eu vou dizer pra eles.
_Um momento, Inako. — Interferiu Lucille.
_Hã? Mas eu ia…
_Exatamente por isso. Ouviremos tudo o que tem a dizer, mas é melhor que seja lá em cima. Até segunda ordem, vou tratar de sua questão como assunto confidencial. Lilou?
_Sim, Senhorita Allard?
_Você e as outras meninas voltem ao trabalho normalmente. Os outros aventureiros devem estar retornando, então peça à eles para trazerem as mesas e cadeira para dentro. E quero que mantenham segredo sobre o que ouviram agora, entendido?
_Sim! Entendido! — Lilou e suas colegas assentiram de imediato.
_Muito bem. Inako, venha comigo. E vocês cinco também.
O local escolhido foi o escritório de Ferdinand. Inako sentou-se em uma das poltronas com Rikko em seu colo enquanto Henri e os demais de seu grupo acomodaram-se como podiam na poltrona e sofá restantes. Jean preferiu ficar de pé atrás do sofá por ser corpulento. Lucille sentou-se na cadeira de Ferdinand.
_Agora que todos estamos acomodados, você pode começar, Inako.
_Hã, bem… sobre o Senhor Rikko… ele não é um galo comum.
_Depois do que ele fez, isso tá mais do que óbvio! — Interrompeu Jean.
_Silêncio, Jean! — Ordenou Henri imperativamente.
_Ok, ok, foi mal! Perdão, mocinha.
_Como estava dizendo, o Senho Rikko não é um galo comum. Ele tem poderes mágicos e consegue falar comigo. Nos conhecemos naquela floresta ontem de manhã. Desculpem por eu ter mentido lá embaixo, ele não é meu bichinho de estimação. É meu amigo.
_Não há problema nenhum com isso, você apenas está tentando defender seu amigo, afinal. Talvez mais do que amigo, já que se refere à ele como Senhor Rikko. — Disse Lucille.
_Sim, eu tenho muito respeito por ele, porque apareceu pra mim na hora em que eu mais preciso de ajuda.
_Parece algo bem sério. É relacionado ao que lhe aconteceu quando estava com os Les Intrépides? — Perguntou Henri.
_Muito antes disso. Como eu já tinha dito antes à Senhorita Allard, eu sou de Sakê, um país bem distante daqui, ao Leste. Eu vim parar em Champagne procurando pela minha meia-irmã Tenko, que foi raptada por mercadores de escravos deste país. Abandonei o templo onde vivia com nosso pai às pressas para tentar resgatá-la.
_Sozinha? Isso foi muito descuido da sua parte! Mercadores de escravos são muito perigosos, sabia? — Disse Claire.
_Eu sei. Eu sou uma completa idiota por causa disso, mas eu tinha que fazer alguma coisa, eles estavam cada vez mais distantes. Quando cheguei no porto, o navio deles já tinha partido e eu soube que estavam a caminho de Champagne. Tive de entrar como clandestina em outro navio, mas pra minha sorte, o capitão era muito bondoso e deixou que eu viajasse com eles se ajudasse nas tarefas.
_D-deve ter sido muito difícil… — Disse Amélie, juntando as mãos em ansiedade.
_Então quando chegou aqui, você conheceu Les Intrépides e passou a viajar com eles. — Disse Henri.
_Antes disso eu fazia pequenos trabalhos aqui e ali tentando achar o rastro daqueles homens. Ter encontrado os aventureiros foi muita sorte, aprendi muitas coisas com eles. Fiquei sem saber o que fazer quando eles morreram, então vaguei pela floresta sozinha até que encontrei o Senhor Rikko.
_Se ele fala com você, então quer dizer que é inteligente e está entendendo tudo o que dizemos. Você confirma isso? — Peguntou Lucille.
_Sim! Eu também fiquei assustada quando percebi que ele conseguia falar comigo, mas segundo ele, humanos comuns não conseguem entender o que ele diz, apenas Hanjins conseguem.
_Peraí, o que são Hanjins? — Perguntou Axel.
_É como nós meio-humanos somos chamados em meu país.
_Inako, ele sabe dizer porque é um galo mágico? Quando analisei a pena dele, descobri que ele possui duas fontes de mana, e isso não é normal. Como estudante de magia, é um assunto que não posso deixar de perguntar. — Disse Claire.
_Sobre isso… ele também não sabe dizer. Ele vivia em uma fazenda e fugiu quando entendeu que não era normal e viraria comida se ficasse lá.
_Muito bem, parece que quanto à origem do “Senhor Rikko” estamos inteirados o bastante, por enquanto. — Disse Lucille.
_Ele disse que podem chamá-lo apenas de Rikko.
_Está bem. Rikko, então. Mas agora eu gostaria de voltar ao assunto sobre essa sua irmã, a Tenko. Estou positiva em acreditar que o rapto dela está diretamente ligado com a investigação que nosso superior está conduzindo. Nesse momento ele foi para a cidade de Cognac exatamente por isso.
_Um momento, Senhorita Lucille. O Senhor Ferdinand não nos informou nada a respeito disso. — Disse Henri.
_Era exatamente sobre isso que eu queria conversar com vocês depois. O Senhor Ferdinand foi para Cognac recuperar o corpo de Rémy.
_Opa, espera aí! Rémy morreu? — Respondeu Jean, atônito.
_Infelizmente, sim, desculpem por ser tão abrupta quanto a isso. Ele estava a serviço investigando o tráfico de escravos quando foi morto. Claude e Félix não estavam com ele na hora e relataram o que houve por mensagem.
_Pobre Rémy. Que Phinita o tenha em bom lugar. Disse Amélie em sinal de oração.
_Rémy era nosso companheiro de bebida! Isso não vai ficar assim, de jeito nenhum! — Disse Axel.
_Você pode apostar! — confirmou Jean.
_Vão devagar, vocês dois! Ficar de cabeça quente não vai adiantar nada para nós! Senhorita Lucille, o que sabe sobre esses mercadores de escravos? — Disse Claire.
_Infelizmente pouco, Claire. Pouco antes de morrer, Rémy nos informou que um grande leilão ocorreria em Cognac no primeiro dia de Juin, mas quanto à hora e localização, bem como os nomes dos responsáveis, ainda é incerto.
_A senhorita está falando da Feira Negra, não é?
_Como conhece esse nome, Inako?
_Senhorita Lucille, eu descobri por causa disso aqui. Peguei de um homem bêbado em outra cidade.
Inako apanhou um pequeno papel dobrado e entregou para Lucille.
_Mas isso é… Henri, venha ver isso.
Após um breve momento lendo em silêncio, Henri deu seu parecer:
_Segundo esse papel, a feira vai acontecer em Cognac, mas não dentro da cidade, ela serve apenas como local de encontro. Se não me engano, essa Taverne du Crepúscule fica nos arredores da cidade baixa. O horário tardio certamente é para que os frequentadores possam trafegar nas sombras.
_”Trajados para a ocasião”… imagino se tratar algum tipo de disfarce, provavelmente capuzes de cor preta. Bem adequando para essa corja. — Disse Claire, após receber a minuta de Henri.
_O local real não foi especificado e esse “M” com assinatura poderia ser qualquer coisa. Um nome, uma alcunha. Mas mesmo assim é mais do que sabíamos. Obrigada, Inako, você foi de grande ajuda. — Agradeceu Lucille.
_Hã, eu comecei a juntar dinheiro porque queria contratar aventureiros para me ajudar a resgatar a minha irmã. Por favor, eu não sei se é o bastante mas aceitem esse dinheiro e salvem a minha irmã, eu prometo trabalhar e pagar a diferença! — Implorou Inako oferecendo todo o dinheiro que carregava consigo em suas mãos.
_Ô, calma aí. Quem disse que queremos o seu dinheiro? — Disse Jean.
_Hã? Por que?
_Detesto admitir, mas o parede de carne está certo. Inako, ninguém aqui vai aceitar seu dinheiro para isso. — Disse Claire, ignorando o olhar de desgosto de Jean.
_Exatamente. Assim que o Senhor Ferdinand voltar, traçaremos um plano para acabar com essa feira de uma vez por todas, você tem a minha palavra. — Afirmou Henri.
_Mas… mas…
_Sem “mas”, Inako. Há anos estamos tentando prender os responsáveis por essa feira, e em nome de Ferdinand Gautier, lhe garanto que sua irmã voltará são e salva. Fique com o seu dinheiro, todas as despesas serão pagas pela guilda. — Disse Lucille.
Inako caiu de joelhos no chão em lágrimas e as moedas rolaram de suas mãos. Estava muito feliz.
_Vocês… são pessoas muito boas! Muito obrigada! Muito obrigada!
Henri e os outros integrantes recolheram as moedas espalhadas pelo chão e um a um, entregaram nas mãos de Inako.
_Você pode contar conosco. — Disse Henri.
_Pode deixar que eu vou reduzir aqueles malditos a pó. — Disse Claire.
_Mocinha, foi mal mesmo pela confusão que a gente causou. Está vendo esses músculos? Eles estarão a seu serviço apartir de agora! — Se exibiu Jean.
_As sombras são minha especialidade, e como um especialista, é meu dever punir quem as usa para o mal. — Disse Axel.
_E-eu quero muito conhecer a sua irmã, tá? Por favor, não chore. Equidus, o Deus da Justiça, vai olhar por você. — Disse Amélie ao entregas as últimas moedas.
_SIM!
_Bem, parece que tudo está caminhando para um bom desfecho. Agora só precisamos aguardar que o Senhor Ferdinand retorne. O seu caso está em boas mãos, Inako. — Disse Lucille.
_Ainda não acabou. Estão se esquecendo de mim.
_Hã? Senhor Rikko?
_O que ele está dizendo? Perguntou Claire.
_Tá, eu vou dizer à eles. O Senhor Rikko disse que vai ajudar também.
_Não entendi, como que ele pode nos ajudar? — Perguntou Axel.
_É melhor ele ficar de fora disso e deixar que a gente resolva essa briga. — Disse Jean
_Vocês dois já se esqueceram da surra que levaram? Ele tem poderes mágicos. Não sei exatamente do que ele é capaz, mas se conseguiu varrer o chão com vocês, a ajuda dele é mais do que bem vinda. — Disse Claire.
_Também não precisava nos eculachar! — Responderam Jean e Axel em sincronia.
_De fato. Temos de levar em consideração que não teríamos todas as informações que Inako nos trouxe e ignorar a força do Rikko seria um desperdício. Rikko, podemos contar com a sua ajuda? — Disse Henri, lhe estendendo a mão.
_Olha só, ele tá querendo apertar a “mão” do galo… — Debochou Jean.
_Pois eu estou dentro! — Disse Rikko, esntendo uma pata para apertar a mão de Henri.
_Ele disse que aceita! — Disse Inako.
_E não é que ele apertou mesmo? — Disse Axel, descrente.
_Que bom que podemos ser amigos. — Disse Amélie.
_Heh. Parece que ele é mais inteligente do que vocês dois. — Disse Claire.
_Para, cacete! — Respondeu a dupla.
Algumas risadas ecoaram a contra-gosto de Jean e Axel, mas cabia a Lucille dar por encerrada a reunião.
_Muito bem, escutem todos. Agora que tudo foi acertado, marcaremos uma nova reunião tão logo o Senhor Ferdinand esteja presente. Acredito que isso ocorrerá ainda hoje, então vocês estão liberados pelo resto do dia até então. Entendido?
_Sim, Senhorita! — Respondeu o grupo.
_Muito bem, podem ir. E quanto à você, Inako, ainda pretende se registrar como aventureira?
_Sim! É o melhor jeito de ganhar algum dinheiro enquanto eu estiver por aqui e vou precisar pra quando for voltar para Sakê com a minha irmã.
_Eu também vou me registrar.
_Ah, o Senhor Rikko disse que vai se registrar também!
_Ele? Como aventureiro? Agora vale tudo, mesmo. — Disse Jean.
_Bem, e porque não? Se ele passar na avaliação como qualquer outro aplicante não vejo o porque de não tentar. Você pode se registrar também, Rikko — Disse Lucille
_Humm, eu ia voltar para a estalagem, mas eu não vou perder esse exame de jeito nenhum! Quero ver isso de perto. — Disse Claire.
_Nesse caso, vamos todos juntos. Também estou curioso para ver isso. — Disse Henri.
_Viu isso, Senhor Rikko? Eles querem ver o quanto o senhor é forte! — Disse Inako, o abraçando.
_Heh, eles vão ter uma bela surpresa. Eu acho. — Disse Rikko.
Fale com o autor