Reencarnado Como Galo em Outro Mundo
23 Capítulo 22 - O Galo Está Fora do Saco
_Muito bem, eu preciso de explicações! E quero agora!
A voz que se elevou em meio à confusão é de Lucille Allard, secretária de Ferdinand e atualmente escolhida para representá-lo em sua ausência. Ela nunca havia imaginado que seu breve tempo como chefe interina ocorresse de forma tão conturbada. Apenas alguns instantes longe do salão de atendimento foi o bastante para que o lugar se tornasse um verdadeiro caos. Ela precisa consertar isso, e em nome de Ferdinand, ela vai.
_Lilou, está mais calma?
_Sim…
_Então me diga o que houve.
_Bem… essa menina veio em minha direção e então dei início ao atendimento, mas foi quando o galo em posse dela saltou de seu ombro, e… começou a dançar pra mim. — Lilou conseguiu dizer tudo em um só fôlego, embora seu rosto ainda estivesse tão vermelho quanto o mais maduro dentre os tomates em uma cesta.
_Agora é a sua vez, mocinha. O meu nome é Lucille Allard e nesse momento estou encarregada da guilda na ausência do Senhor Gautier. Quem é você e em que podemos ajudar?
_Hã… Meu nome é Inako. Eu vim de longe, e estou aqui pra vender alguns itens de monstros.
_Entendo. Mas e quanto a esse animal? O que ele faz aqui?
_Ele é meu bichinho de estimação, senhorita. Ele é mansinho, mas acho que ele ficou interessado na senhorita atendente. Ele fez aquilo pra se exibir, eu acho.
_Um animal flertando com uma humana…
_Senhorita, eu sei que ele agiu errado, mas por favor, não faça mal pra ele! Prometo que não vai acontecer mais!
_Está tudo bem. É verdade que ele deixou Lilou em uma situação desconfortável, mas não causou qualquer perigo a ela. Não vou tomar nenhuma medida a respeito, apenas o mantenha comportado.
_Sim, senhorita! — Inako agradeceu com um sorriso de alívio enquanto abraçava Rikko.
_Parece que escapamos de uma boa. Foi mal por isso, inako.
“Tudo bem, Senhor Rikko. Sei que não fez por mal.” — Respondeu Inako em voz baixa.
_Então está tudo resolvido. Vamos deixar o que passou no passado. E isso vale para todos vocês, entenderam? — Disse Lucille, olhando para as outras atendentes e os aventureiros que tiraram sarro da situação.
_Sim, senhorita! — Todos os apontados responderam em uníssono.
_Assim é melhor. E então, Inako. O que tem para nós?
_É coisa grande, senhorita. Não vai caber no balcão.
_Grande? O quão grande?
_Eu vou mostrar.
Rikko foi rápido na resposta. Quando Inako estendeu sua mão, a item box se abriu de imediato. Duas presas de cobra enormes caíram sobre o balcão para espanto de todos.
_Caramba, aquilo são presas de Serpent Indigo? Olha o tamanho delas! — Disse um aventureiro.
_Lilou, analise.
_Sim, senhorita!
Após alguns instantes de avaliação, a atendente deu seu parecer:
_Confirmado. São presas de Serpent Indigo. Os depósitos de veneno se encontram cheios e o veneno está fresco.
Os aventureiros presentes ficaram espantados. Aparentemente era muito difícil conseguir presas ainda com veneno, cheias ainda por cima. As Serpent Indigo costumam lançar seu jato de veneno tão logo começam seu ataque.
_O veneno dessas cobras é muito valioso para nós. Se não me engano você havia dito que tinha algo mais. Pode colocar aqui mesmo no chão? Encontraremos um jeito de recolher depois. — Disse Lucille, olhando sério para as atendentes que há pouco tempo deixaram Lilou sozinha.
_Eu vou precisar de mais espaço, Senhorita.
_Mais do que isso? Quanto?
_Hum…
Inako olhou ao redor do salão enquanto pensava. Então apontou para as mesas onde os aventureiros estiveram sentados.
_Essa parte toda.
_…? Está falando sério?
_Sim, senhorita.
Surpresa com o fato de Inako confirmar a necessidade de mais espaço até aquele ponto, Lucille deu a ordem.
_Todos os aventureiros! Apanhem as mesas e cadeiras e levem para fora!
Logo todos os móveis que atrapalhavam ficaram fora do caminho. Os aventureiros que estavam curiosos voltaram, mas agora se postavam junto às paredes para não atrapalhar.
_Muito bem, Inako. Agora é com você.
Inako novamente movimentou sua mão e então, o cadáver decaptado de uma cobra gigantesca tomava quase todo o salão. O som do corpo atingindo o chão causou um estrondo capaz de assustar as pessoas que passavam na frente da guilda naquele momento.
_AIII! — Lilou gritou de susto.
_UAU!
_Olha só o tamanho dessa coisa!
_A Pele e as escamas estão bem limpas!
_Quem será que a matou?
Lucille sinalizou com a mão para silenciar o falatório, e após observar o cadáver meticulosamente, voltou sua atenção novamente para Inako.
_Nem mesmo preciso pedir para que Lilou analise. Não tem como esse corpo enorme não ser uma Serpent Indigo, eu diria até mesmo que nunca houve uma desse tamanho por essas partes. Agora preciso perguntar: Quem matou essa cobra? Foi você?
_Hã? Eu?
“Ai, cacete! Não tínha combinado isso com ela!”
_Você não vai me dizer que matou essa cobra sozinha, ou vai?
_Ehhh, bem…
_Inako! Inako! Inventa alguma coisa, mas não diga que fui eu! Não diga! — Disse Rikko.
_Então… Senhorita. Eu estava fazendo trabalho temporário para o grupo de aventureiros Les Intrépides como curandeira. Mas fomos atacados por uma horda de monstros durante a missão e eles acabaram morrendo. Só eu sobrevivi, mas só consegui fugir com a ajuda deles.
_Les intrépides… sim, eu já ouvi falar deles, são originais de Margaux. É uma pena que eles tenham morrido. Agora entendo, você está vendendo os restos que trazia consigo para sobreviver. É justo. Você tem uma licença de aventureiro?
_Não, senhorita. Eles praticamente me recolheram das ruas. Vim de Sake, um país longe a oeste daqui.
_Imagino que tenha um bom motivo para ter vindo de tão longe.
_Sim, tenho. Mas no momento preciso resolver meus problemas com dinheiro antes de lidar com o que vim fazer.
_Entendo. Lilou, por favor faça a avaliação
_Sim, senhorita. Temos couro, a pele que fica abaixo do couro, carne, presas e veneno. Juntando tudo… são oito moedas de ouro no total.
Inako não conseguiu conter sua surpresa.
_Tudo isso? Senhorita Lilou, essas coisas valem tudo isso?
_Sim, eu tenho certeza.
_Lilou é uma de nossas melhores atendentes. Se tem algo que ela jamais errou desde que entrou para a guilda, foi em termos de cálculos. Pode confiar nela sem medo. — Disse Lucille.
_Sim! Obrigada, Senhorita Lilou!
_Hum, foi um prazer ajudar.
_Inako, como foi dito por Lilou, sua recompensa é de oito moedas de ouro. Está de acordo?
_Sim, eu aceito!
_Muito bem. Acompanhe Lilou até o balcão de pagamentos, as meninas pagarão sua recompensa. Não é mesmo, meninas?
_S-sim, senhorita! — As três atendentes que aguardavam um sermão pós-expediente assentiram com medo e foram aos trancos buscar o dinheiro requerido.
_E rapazes… já que estão todos com tempo livre o suficiente, o que acham de nos dar uma ajuda carregando essa cobra até o galpão de triagem? Agora, se for possível.
_Sim, Senhorita Allard!
_A senhorita é quem manda!
_Caramba, que pesada! Vamos ter de arrastar.
_Eu disse carregando. Não quero ver o chão sujo. Entenderam? — Com isso, Lucille deixou bem claro qual era a punição para o grupo após todas as gracinhas que fizeram.
_IIIIIRGH! SIM, SENHORITA! — Com uma resposta quase em uníssono, seguraram o enorme corpo sob suas cabeças e o levaram para fora assustando os transeuntes que ficaram apavorados com a cena.
_Aqui estão, Senhorita Inako. Oito moedas de ouro no total. Confirma o recebimento?
_Sim! Muito obrigada!
Lilou pôs sobre o balcão uma pequena bandeja com oito moedas que foram verificadas por Inako. Ela fez uma reverência em agradecimento. Lucille, que acabara de verificar que os aventureiros haviam entregue o cadáver da cobra ao galpão, havia retornado.
_Inako, é uma quantia considerável para se carregar por aí. Não gostaria de se cadastrar como aventureira e abrir uma conta conosco?
_Ah, sim! Seria muito útil pra nó- digo, pra mim.
_Inako, agora é a nossa chance. Fale com ela sobre o seu problema. — Rikko que até então apenas observava o recebimento da recompensa empoleirado no balcão, comentou.
_É mesmo!
_…? O que foi, Inako?
_Senhorita Lucille, eu preciso falar uma coisa. Tenho um problema que precisa ser resolvido o mais rápido possível.
_Ora, se é um problema que nossa guilda possa resolver, teremos prazer em ajudar. Do que precisa?
_Mesmo? Muito obrigada! Bem, o que eu preciso é-
_PODE PARAR AÍ, MOCINHA! — Uma voz conhecida irrompeu pela porta principal e invadindo o local.
_Hã?
_Puta que pariu, de novo não… — Rikko não ficara nem um pouco feliz quando pela terceira vez se encontrava com os aventureiros da Coeur de Lion entrando pela porta liderados por Jean que furiosamente apontava para ele com seu machado.
Voltando um pouco no tempo nessa mesma manhã, encontramos o grupo Coeur de Lion sentados no saguão principal da estalagem. Haviam acabado de acordarem e aguardavam que Claire descesse de seu quarto. Jean amolava seu machado com uma pedra especial sentado no alpendre no lado fora. Axel cochilava em uma cadeira com uma visível marca de baba em sua máscara. Henri aproveitava a espera lendo um dos livros dispostos em uma estante enquanto Amélie terminava suas orações do dia.
_Tsc! Claire tá demorando muito lá em cima! Quero ir logo tomar meu café da manhã! Não vai rolar fazer nada até eu encher minha barriga! — Jean reclamava incessantemente.
_Não tenha pressa, Jean. Ovos cozidos e batatas-doces não costumam fugir depois de preparadas. — Respondeu Henri, ironicamente.
_Ah, nem vem! Eu sei que você tá com a barriga roncando também! Brioches com mel são bem gostosos pela manhã, não é mesmo? — Retrucou.
_Eu admito, mas lembre-se que ontem Claire nos prometeu que analisaria a pena que recolhi daquele galo. Ela deve descer a qualquer momento.
_E DESCI, MESMO!
_…?
Foram pegos de surpresa, a ponto de Axel cair da cadeira e Amélie engasgar. E lá estava Claire, no topo da escada que dá para o segundo andar, em tom triunfal.
_Porra, que susto! Eu tava dormindo tão bem…
_Você já dormiu demais, Axel! E agora orgulhosamente eu, Claire Laurent venho anunciar o resultado de minha análise!
_OOOOH! Até que enfim! — Desembucha logo de uma vez! O Disse Jean, entrando apressadamente pela porta.
_Humpf! Deveria se mostrar mais agradecido por eu ter me dado ao trabalho de investigar isso! Mas enfim… está confirmado! Aquele galo tem a mesma assinatura de mana daquele tronco de árvore!
_AAAAARGH, EU SABIA! Agora mesmo que eu vou fazer picadinho daquele bicho! E bem a tempo pro meu café da manhã!
_Deixe ao menos as coxas pra mim, Jean! Eu adoro coxas assadas. — Disse Axel.
_I-isso é horrível. — Disse Amélie tampando os ouvidos para não ouvir mais palavras ameaçadoras.
_Acalmem-se um pouco vocês dois. Mesmo que agora tenhamos certeza, ainda não sabemos o resto da história. Não quero ninguém tirando conclusões precipitadas.
_Cacete, Henri! Assim fica difícil saber de que lado tu tá! Meu machado tá pesado e preciso aliviar esse peso em algo!
_Tudo a seu tempo. Claire, confio em você está certa em cem por cento.
_Pode apostar! Cem por cento de certeza!
_Descobriu mais alguma coisa?
_Eu fiz a análise focando minhas habilidades ao máximo, por isso consegui determinar que as fontes da mana eram idênticas. Mas não foi isso que chamou a minha atenção.
_Hum, quer dizer que tem mais?
_Sim. Uma dualidade.
_...dualidade? — Os três ouvintes responderam ao mesmo tempo.
_Não é a toa que acharam estranho, eu também pensei assim. Por algum motivo aquele galo não tem apenas uma, mas duas fontes de mana distintas que se completam. Um verdadeiro e complexo emaranhado de mana.
_E isso quer dizer que…? — Perguntou Axel, ainda confuso.
_Que isso definitivamente não é normal. Não dá para saber como uma segunda fonte de mana foi parar no animal, mas foi algo feito por magia, isso eu sei dizer.
_Então quer dizer que temos um galo andando por aí com capacidades mágicas desconhecidas. — Disse Henri.
_Eu diria um monstro. — Retrucou Claire.
_M-monstro… — Suspirou Amélie.
_Se é monstro, então podemos matar que tá tudo certo! — Disse Axel, empunhando o machado. — Vamos lá pegar aquela coisa!
_Ei, ei, ei! Devagar aí, parede de carne! Eu nunca disse que era maligno!
_E isso agora tem diferença? E não me chame de parede de carne!
_Tem sim, porque se for para cima e no fim ele não ser uma ameaça, você vai acabar sendo incriminado, é isso que quer?
_O- o Deus Asclen não gosta de quem fere sem motivo. — Disse Amélie, mais uma vez desafiando a própria timidez.
_Tsc! É problema atrás de problema, e só o que eu queria era espremer aquele pescocinho fino!
_Certo, agora que sabemos de tudo isso, o que a gente faz? — Perguntou Axel.
_Antes de mais nada, vamos tomar café. Depois temos de ir para a guilda e relatar o que descobrimos. — Disse Henri.
_Exatamente! Eu dormi quase nada essa noite, e se não tomar meu café da manhã, acho que sou capaz de enlouquecer.
_O café fica pra depois! Vamos logo pra guilda, eu tô louco pra botar aquele galo desgraçado na parede, e… OPA!
Antes que pudesse terminar sua frase, Jean foi calado à força por Claire apontando seu báculo diretamente para o nariz dele. O susto o fez derrubar seu machado ruidosamente, quase destruindo piso de madeira da estalagem.
_CAFÉ. Entendeu?
_Sim, senhorita.
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