Reencarnado Como Galo em Outro Mundo

22 Capítulo 21 - A Dança da Vergonha


Manhã, 29 de Mai. Após algumas horas viajando a cavalo, finalmente Ferdinand e seus guardas chegavam a Cognac. Sua intenção é recuperar o corpo de Rémy, seu agente secreto morto misteriosamente enquanto investigava o tráfico de escravos. Mesmo que a viagem tenha sido cansativa, Ferdinand não pretendia descansar até concluir sua dolorosa missão. Foi diretamente para a guilda de aventureiros da cidade se encontrar com o chefe de lá.


_Enquanto eu resolvo as coisas por aqui, quero que entrem em contato com Claude e Félix o quanto antes. Se não me engano, o ponto de encontro deles é a taverna Lumiére du Jour. A senha é aparecer com uma rosa branca na roupa, comprem uma na floricultura perto do mercado popular. Quando terminarem, voltem aqui e me esperem.


_Sim, Senhor!


Continências prestadas, os dois guardas se retiraram calmamente como se apenas estivessem temporariamente liberados do serviço. Ferdinand entrou na guilda e então foi de encontro à uma das recepcionistas.


_Bom dia! Meu nome é Marie. Em que posso ajudar o senhor?


_Bom dia. Meu nome é Ferdinand Gautier. Sou o chefe da guilda de Bordeaux. Aqui está meu medalhão de autoridade.


_Oh, minha nossa! Perdoe-me, Senhor Gautier! Eu estava tão focada no atendimento que mal poderia imaginar que se tratava do senhor! — Respondeu Marie com uma reverência, visivelmente embaraçada com sua gafe.


_Hahahahaha. Acalme-se, Marie, de forma alguma me importo com isso. Estar focada em atender bem é uma coisa boa, e se levar em consideração que eu mesmo fui um aventureiro em meus dias de juventude, não está errada na forma de lidar comigo.


_Ora, o que é isso, Senhor Gautier! O senhor ainda parece muito bem aos meus olhos. A que devemos a visita?


_Hum, muito obrigado pelo elogio. Quanto ao assunto… eu gostaria de falar diretamente com Lavigne, se não for incomodá-lo. Ele se encontra?


_De forma alguma! O Senhor Lavigne está em seu escritório nesse momento. Vou pedir para que chamem a Senhorita Iché. Queira aguardar, por gentileza.


_Claro, sem problemas.


Cerca de cinco minutos depois, uma bela mulher desceu as escadas e foi diretamente falar com Ferdinad.


_Bom dia, Senhor Gautier. Sou Michelle Iché, secretária do Senhor Lavigne. Por favor, queira me acompanhar.


_Obrigado.


_Ei, Marie! — Alguém a chamou, sussurrando.


_Hã? Coraline!? O que foi?


_Quem era aquele bonitão que você atendeu?


_Ora, Coraline! Isso são modos dese comportar? Aquele homem é o Senhor Ferdinand Gautier. Chefe da guilda de Bordeaux.


_Sério? Mas ele está muito em forma! Aqueles músculos… uau.


_Pare com isso, Coraline! Essa sua atração por homens maduros ainda vai te causar um problemão!


_Ehehe. O que posso fazer? Aquilo é um pedaço de mau caminho…


_Ai, Coraline! Você não tem jeito mesmo!


Três batidas na porta. Era o sinal que Cédran Lavigne, chefe da guilda de Cognac, devia apagar seu cachimbo e terminar sua pausa.


_Entre.


_Senhor Lavigne. Trago comigo o Senhor Gautier, da guilda de Bordeaux. Ele deseja lhe falar.


_Oh! Gautier! Faz tempo que não o vejo, talvez uns três anos? Ficou feliz que esteja bem!


_Lavigne! Sempre com seu fiel cachimbo! Ervas de Cidre, eu presumo!


_Seu olfato anda apurado como sempre, homem! É isso mesmo! Aceita uma tragada?


_Eu prefiro uma boa xícara de café, se não for abusar de sua bondade. Passei a última noite em lombo de cavalo e pouco parei para descansar.


_Pelos deuses! O próprio chefe de guilda vir em pessoa e com tamanha pressa. Deve ser um assunto realmente importante. Senhorita Iché, por favor providencie um bom café para meu amigo.


_Agora mesmo, Senhor Lavigne. Com sua licença.


A porta se fechou e Lavigne convidou Ferdinand para se sentar. Apesar de um tanto pequena, sua sala era bem limpa e organizada, algo que ele preza desde que assumiu seu cargo quinze anos antes.


_Agora, Gautier. Em que posso ajudar?


_Vou direto ao assunto. A Feira Negra se aproxima.


Ao ouvir esse nome, a expressão de Lavigne escureceu e então levou as mãos ao rosto. Após algum tempo em silêncio, voltou seu olhar para Ferdinand.


_Esses malditos de novo. Aqui? Em Cognac?


_Infelizmente, sim. No dia primeiro de Juin.


_Em minha cidade, debaixo de minhas barbas. Como descobriu?


_Eu tinha um homem no caso. Mas ele foi morto aqui em Cognac. Vim para buscar o corpo dele.


_Então o homem misterioso do rio era seu. Sinto muito por sua perda.


_Definitivamente uma perda irreparável. O nome dele é Rémy. O corpo dele está aqui na guilda?


_No subsolo. Estamos conservando com magia de gelo, mas se levasse mais tempo para identificá-lo teríamos que sepultar. Você chegou bem a tempo.


_Eu me sentiria muito mal se não pudesse fazer ao menos isso pelo meu amigo.


A porta se abriu e Michelle havia retornado com uma bandeja e um jogo de chaleira e xícaras de porcelana.


_Trouxe o café como pediu. E alguns biscoitos.


_Obrigado, Senhorita Iché. — Agradeceu Ferdinand.


_Senhorita Iché, preciso que vá ao subsolo e comunique que o morto desconhecido já tem um reclamante. Diga para que ponham uma nova camada de gelo e preparem uma carroça coberta.


_Entendido. Com sua licença.


_Precisamos elaborar um plano para pegar esses vermes. Alguma pista sobre quem são os responsáveis?


_Anos de investigação e nunca conseguimos nada. Sejam os nomes dos organizadores ou os nomes dos participantes, todos encobertos pela nobreza imunda. O pouco que sabemos é a data e que será aqui em Cognac.


_Eles são espertos até demais. Queria colocar meus aventureiros no caso, mas a atividade dos monstros nos arredores da cidade tem aumentado muito.


_Lavigne, não acha isso coincidência demais?


_Qual é o seu ponto?


_Sempre que ocorre uma Feira Negra, monstros aparecem de todos os lados. Isso não é normal.


_Então os monstros poderiam ser uma forma de distração. Um domador ou algo do tipo realmente faria um belo estrago. Mandarei um comunicado a todos os aventureiros para que fiquem de olho em pessoas com essas habilidades.


_É o melhor a se fazer. De minha parte, enviarei meus aventureiros para cá e encontrar os responsáveis pela feira a qualquer custo.


_Agradeço por isso. Providenciarei alojamentos e alimentação para todos. É o mínimo que posso fazer.


_Já é mais do que o suficiente. Mandarei os Coeur de Lion para lidar com isso.


_Mais uma vez, obrigado. É uma ajuda e tanto, conheço a reputação deles. Gostaria de descansar um pouco em um quarto antes de partir?


_Não, amigo. Agradeço a oferta, mas preciso dar um enterro digno para o Rémy o quanto antes. Ficará para outro momento mais oportuno.


_De acordo. Então vamos descer e tratar do translado.


_Sim. A essa altura meus guardas estão de volta com os dois agentes sobreviventes. Veremos se eles trouxeram mais informações.


Enquanto isso, em Bordeaux, Inako e Rikko despertam de seu sono.


_Hmmmm, bom dia, Senhor Rikko! Dormiu bem?


_Bom dia, Inako. Dormi bem, sim. Mas eu tive um certo problema agora pela manhã?


_Hã? O que foi?


_Eu queria cantar.


_Cantar…? Ah, mas o senhor é um galo. E galos cantam de manhã.


_Esse é o problema. Desde que meu corpo se desenvolveu, eu não tive sequer uma vez vontade de cantar ao nascer do sol. Mas agora é diferente. Pela primeira vez, eu sinto uma vontade incontrolável de fazer isso.


_E porque o senhor não canta agora? Era pra não me acordar?


_Isso também. Mas pare para pensar. Estamos dentro de uma cidade, fora de fazendas ou áreas rurais. De repente, um galo começa a cantar no meio da cidade. Não seria um tremendo incômodo?


_Agora que o senhor diz, é verdade. Se cantar aqui na hospedaria, vai ser um barulho daqueles.


_Muito mais do que “daqueles”. Se não houver controle, posso cantar na mesma frequência que usei quando explodi a cabeça daquela cobra gigante. Imagina o estrago aqui.


_Puxa! É verdade! E agora?


_Já amanheceu, então acho que o pior já passou. Mas vou precisar praticar meu controle o quanto antes. Já tenho problemas demais para lidar sendo o que sou.


_O senhor tem razão. Quer descer pra comer alguma coisa? Estou faminta.


_Sim. Quando terminarmos, vamos direto para a guilda de aventureiros, precisamos levantar a grana e conseguir ajuda.


_Tá!


O café da manhã na taverna era simples, mas saboroso. Um pedaço de pão do tipo baguette com um pouco de geléia de frutas vermelhas — talvez morangos e amoras -, um pouco de manteiga, uma caneca de leite quente e uma tigela com pedaços de polenta doce frita para Rikko, mas ele ganhou um pedacinho de pão com geléia de Inako também.


_Nossa, isso é tão bom! É bem diferente do que comíamos no templo!


_Deixa eu ver se adivinho… arroz, missoshiru e tsukemono, correto?


_Ué, como o senhor sabe disso? Já esteve em Sake?


_Digamos que apenas sei, não se apegue aos detalhes.


_Tá. Mas é isso mesmo, não comemos coisas doces logo de manhã, principalmente no templo, afinal dependemos das doações dos fiéis. Quando estive com os aventureiros, eu comia pão e frutas de manhã ou mingau ao ar livre, só estive com eles em uma taverna uma vez e já tinha passado da hora do café.


_Pelo menos agora você pode experimentar. E vamos fazer isso sempre que pudermos. Falando nisso, está na hora de irmos para a guilda.


_Sim, vamos! Senhorita, estamos de saída! O dinheiro está aqui!


_Certo! E para onde está indo?


_Para a guilda de aventureiros, tenho algumas coisas para vender por lá. A senhorita sabe onde fica?


_Claro que sim! Vou fazer um mapinha para você, espere aí.


Era um mapa simples, escrito em um pedaço de papel amarelado com um bastão de carvão fino envolto por madeira cuidadosamente presa com algum tipo de cola. Antiquado para os conhecimentos de Rikko, mas não muito distante do que imaginava.


Hâ… agora nós viramos aqui nessa esquina, e… encontramos! Lá está a guilda Senhor Rikko!


A guilda de Bordeaux. Se encaixava bem com a imaginação de Rikko. Um grande prédio de dois andares que se expandia para os lados. Não era suntuoso, mas a aparência era bem imponente, no arco acima da porta principal haviam os dizeres:


Guilde de Bordeaux. Ici, les courageux deviennent valeureux.


“Aqui os corajosos se tornam valorosos. Isso definitivamente é coisa de guildas de RPG.” — Pensou Rikko.


_Bem, aqui estamos, hora de entrar.


_Sim!


Passaram juntos pela porta dupla principal e foram saudados por olhares tão curiosos quanto os da noite anterior na taverna. Eram aventureiros que descansavam em mesas de espera, talvez aguardando o acerto de alguma missão.


Não era a toa que estavam curiosos, afinal aventureiros entram e saem por aquela porta, mas era a primeira vez que viam uma pessoa entrar acompanhada por um galo sentado em seu ombro como se fosse um falcão ou outro tipo de ave adestrada.


“E aí está. A famosa cena de aventureiros descrentes encarando os personagens principais. Bem típico.” — Pensou Rikko, não parecendo surpreso.


_Hã… Senhor Rikko, e agora?


_Vá direto ao balcão e fale com a recepcionista. Ignore todo o resto por enquanto.


Caminhando um tanto rígida pela ansiedade, Inako se aproximou lentamente do balcão e foi até a primeira recepcionista disponível que viu. Quando Rikko voltou seu olhar para a atendente para qual estavam se dirigindo...


“UAU! Essa garota é das boas! Esse rosto angelical, Esse cabelo tão sedoso, e esses… esses… PEITÔES!


_Bom dia! O meu nome é Lilou! Em que posso ajudá-AAAAAI, O QUE É ISSO?


_AAAAH! Sen- digo, Rikko, o que está fazendo?


Subitamente, antes que a recepcionista terminasse a saudação, Rikko saltou do ombro de Inako e aterrissando no balcão. Esticou seu pescoço fitando a moça com seu olho direito.


_Ai, ai, ai, p- porque ele está me olhando assim? Ele pretende me atacar? — A atendente levantou os dois braços os levando a proteger seu rosto.


_Não, não! O Rikko é mansinho, ele não vai te machucar, mas essa é a primeira vez que ele faz isso! Rikko, volte aqui! — Implorou Inako.


Foi então que aconteceu. Após alguns segundos fitando a atendente diretamente nos olhos. Rikko foi possuído por uma vontade estranha.


_...mas o que ele está fazendo?


A pergunta da confusa Lilou era justa. Primeiro de tudo, Rikko se curvou fazendo um sinal como com suas asas e cabeça como se reverenciasse a moça. e em seguida, começou a dançar rodopiando pelo balcão sem tirar os olhos dela. Mais do que assustada, Inako estava a essa altura vermelha de vergonha.


“Senhor Rikko, para com isso! Tô morrendo de vergonha!” — Inako sussurrou ao se aproximar dele. A situação era tão estranha que ela estava com medo de tocá-lo.


_Eu também estou! Mas não consigo parar, meu corpo tá se mexendo sozinho!


Foi naquele momento que uma lembrança veio à sua mente. Quando ainda era um pintinho, lembrou ter visto uma ou duas vezes galos da fazenda fazendo essa dança estranha entorno de suas parceiras. Era uma dança do acasalamento!


“AHHHHH, QUE MERDA! ACABA LOGO, DESGRAÇA!”


Todos os aventureiros sentados às mesas de espera observavam a cena incrédulos. Foi então que um deles se levantou e disse:


_AH! Eu sei o que é isso! Meus pais criam galinhas, os galos fazem isso quando querem acasalar!


Quando todos finalmente entenderam o que estava acontecendo, risadas ecoavam por todo o salão. Alguns, divertidos pela cena, atiçavam Rikko com palavras.


_É isso aí, galinho! Dá nela! Vai que dá, hahahahahahaah!


_Eu te entendo! Vai fundo!


_Aê, Lilou! Finalmente arrumou um namorado!


Lilou não sabia mais o que fazer. Ao olhar para suas colegas, estas se encontravam em um canto do balcão abraçadas e assustadas. A ajuda não viria delas.


_Desculpe a gente, Lilou!


_Aguente firme!


Rikko ainda não tinha parado de dançar quando alguém desceu as escadas para ver o que estava acontecendo. Era Lucille, a secretária de Ferdinand e no momento estava encarregada do lugar em sua ausência. Ao ver toda aquela cena, ficou estarrecida.


_Mas o que é isso tudo? Porque tem um galo dançando sobre o balcão? Lilou, me explique isso!


_AHHHH, Senhorita Allard! Eu não sei o que está acontecendo! De repente esse galo começou a dançar e não parou até agora! AI, QUE VERGONHA! — Respondeu Lilou, escondendo o rosto com as mãos.


Inako, que até então estava atordoada pela vergonha, finalmente decidiu agir. Aproveitou o fato de que Rikko estava com sua atenção voltada para Lilou para agarrá-lo quando fechou as asas por um momento.


_TE PEGUEI!


_AAAAAAAAHHHH!!!


Todos os aventureiros homens presentes reagiram com decepção quando o show gratuito chegou ao fim repentinamente. Houve até mesmo que caísse da cadeira de tanto rir e as aventureiras presentes apenas ficaram em silêncio demonstrando respeito por Lilou, que nesse momento se agachou atrás do balcão e não sairia de lá tão cedo. E com isso, o estranho show encerrou.