Reencarnado Como Galo em Outro Mundo

21 Capítulo 20 - Água Quente, Água Fria




“Essa não… eu sabia que isso poderia acontecer, mas agora a minha má sorte se superou…”


Foram as únicas palavras que passaram pela cabeça de Rikko naquele momento. Na verdade, houveram vários outros momentos que superariam facilmente sua situação atual, mas para ele, pouco importavam naquele momento.


_É ele… aquele maldito galo… — Disse Jean, deixando uma coxa de galinha assada cair de volta em seu prato.


_Só pode ser ele mesmo. E aqui, bem na nossa frente… — Disse Axel, completando as palavras de seu companheiro enquanto depositava sua caneca de bebida na mesa.


_Vamos pegar esse maldito!


_Dessa vez eu vou cortar as patas dele fora.


_Ei, ei! Onde pensam que vão? — Disse Claire, segurando os dois pelos braços.


_Tsc! Me larga! Eu tenho contas a acertar com ele! — Jean não estava disposto a parar naquele momento, mesmo que Claire tentasse o impedir.


_Mas ele quem?


_Aquele galo lá da floresta! Ele está bem ali, naquela mesa! — Disse Axel tentando puxar seu braço sem machucar a companheira.


_Ué, não é que tem mesmo um galo ali? Menina, tem certeza de que fez seu pedido certo para a atendente? Esse aí ainda está cru! — Disse Claire, ainda incrédula com o que via.


_Hã? Do que tá falando, moça? — Inako respondeu, confusa pela pergunta feita.


_Esse dois aqui estão falando desde cedo que foram atacados por um galo na floresta. Mas pra mim eles estão só ficando loucos.


_ Nossa, é mesmo? Mas que coisa es-


Quando Inako olhou para Rikko em busca de uma resposta, ficou surpresa com sua reação. Ele mal se mexia enquanto olhava para a dupla zangada e ela poderia jurar ter visto gotas de suor escorrendo pelo corpo dele se não fosse pelas penas que cobriam seu corpo.


_S-Senhor Rikko, o senhor está bem? Conhece essa gente? - Inako lhe fez a pergunta sussurrando pelo canto da boca para que não percebam.


Desperto do choque ao ser perguntado, Rikko respondeu enquanto beliscava alguns grãos de arroz que sobraram no prato de Inako. Ao menos não corria o risco de ser ouvido.


_Esses dois malucos tentaram me pegar para comer e então lhes dei uma boa surra. Se eles tiverem certeza de que era eu, vão causar uma confusão daquelas aqui dentro. Siga com o plano que usamos no portão.


_Tá, mas e se não der certo?


_Improvisa.


_Improvisar? Tá bom, então…


_Ei, tá tudo bem com você? Ficou calada de repente… — Claire perguntou.


_A-ah, sim, estou bem. Então, esse aqui é Rikko, meu galinho de estimação. Eu entendi o que houve com os moços, mas o Rikko é muito mansinho, não tem como ele ter feito algo assim.


_É mentira! Ela só pode tá mentindo! Não tem como eu esquecer o que eu vi, ainda tá fresco na minha cabeça! — Jean protestou.


_É isso mesmo! As cores da penas dela são iguais! Não tem como meus olhos aguçados errarem! — Axel continuou deixando bem claro que se gabava de sua visão.


A esse ponto, todas as pessoas presentes já haviam dirigido seus olhares para o grupo e ouviam a discussão. Se Thanya, a Arauta da Morte, estivesse observando a tudo isso já estaria arrancando todo seu cabelo até ficar careca. A persistência de Jean e Axel já estava se tornando incômoda, até que…


_Jean. Axel. Chega.


_O quê? Mas Henri, de jeito nenhum que nós vamos-


_Eu disse. Chega.


O olhar de Henri estava fixo nos dois e parecia realmente sério, e ao perceberem isso, a dupla reclamante se calou no mesmo instante. Já faziam alguns anos desde que fundaram juntos a Coeur de Lion e conheciam Henri o bastante para saber o quão assustador o líder ficava quando falava desse jeito.


_Até que enfim, Henri. Estava demorando para você dizer alguma coisa. — Disse Claire cruzando os braços.


_Eu queria aproveitar a minha refeição com calma. O bife estava uma delícia.


_Ah, ótimo! E agora todo mundo está reparando na gente.


_Está tudo bem, deixe comigo.


Henri terminou de limpar sua boca com um guardanapo e levantou de sua cadeira. Calmamente se dirigiu em direção a Inako que nada disse sem reação.


_Olá, Senhorita. Meu nome é Henri Deschamps. Sou o líder do grupo Coeur de Lion, e gostaria de pedir desculpas pelo comportamento dos meus companheiros. — Disse, esboçando um sorriso.


_E eu sou Claire Laurent, a maga. Muito prazer. Esses dois palermas são Jean e Axel e aquela comendo bolo com morangos é a Amélie, nossa curandeira.


_M-Muito prazer.


_Ah, hum… meu nome é Inako. Tudo bem, não se preocupem.


_Inako? Seu nome é bem diferente. De onde você é?


_Eu sou de Sakê.


_Sakê? Acho que já ouvi falar.


_É um pequeno país bem longe daqui.


_Entendo. Bem, eu não pretendo perguntar mais, não quero que se sinta em um interrogatório. Como pedido de desculpas, eu gostaria de pagar a sua refeição.


_Sério? Muito obrigada!


_Claro, deixe conosco. Pessoal, terminamos por aqui, não é mesmo? Vamos embora.


_É, eu concordo. Esses dois precisam de um bom banho frio e cama.


_Mas nós…


_Sem mas! Andando, andando! — Claire interrompeu Jean com empurrões enquanto puxava Axel pela gola de sua roupa.


Logo os três saíram pela porta principal da taverna em meio aos olhares dos curiosos. Amélie, mesmo com vergonha, fez uma breve reverência para Inako antes de passar correndo desajeitadamente pela porta. Henri ficou por último.


_Bem, Senhorita Inako, se nos der licença, uma boa noite!


_Sim, uma boa noite para os senhores!


_E uma boa noite para você também. — Disse Henri para Rikko após passar a mão em suas costas em um gesto de carinho e deixar um punhado de moedas de bronze na mesa. E então finalmente deixou a taverna.


_Ufa, finalmente eles se foram! Estava cansado de bater meu bico nessa mesa dura.


_Eu já não sabia mais o que dizer pra eles. Aqueles dois me deram medo, mas o líder deles me pareceu ainda mais assustador.


_Bem, sorrir e mostrar os dentes é apenas uma questão de perspectiva. Nem sempre exprime as verdadeiras intenções.


_Uahhh, eu estou ficando com sono… Senhor Rikko, vamos procurar algum lugar pra dormir?


_Sim, eu também estou louco para pregar os olhos.


Pouco tempo depois, nos arredores da cidade, Henri e seus companheiros finalmente chegavam à hospedaria que utilizavam como casa.


_Mas caramba, Henri! A gente estava cara a cara com aquele galo maldito, mas você além de não fazer nada, ainda por cima pagou a comida deles! — Disse Jean.


_Eu concordo! Nunca passei por tanta humilhação desde os meus dez anos quando meu pai me amarrou nu em uma árvore durante meu treinamento! — Disse Axel.


_Ai, eu não precisava dessa explicação, Axel! E Jean, você também reclama demais! Vocês dois se comportam como crianças! Deviam pegar o Henri como exemplo. Ele não tocou naqueles dois e ainda pagou a comida deles.


_Eu agradeço seu elogio, Claire. Realmente, eu jamais agiria de uma forma tão violenta sem ter certeza de haver um motivo justo. E é por isso que… apanhei isso.


Henri estendeu a mão para o alto e entre seus dedos, havia um objeto. Uma pena de galinha. De galo, para ser mais exato.


_Henri, isso é…


_Sim. Eu aproveitei a chance para pegar uma amostra daquele galo para você. Consegue fazer algo apenas com isso?


_Claro que sim, ou eu não me chamo Claire Laurent, a melhor estudante da Academia de Magia de Sauvignon. Vou analisar essa pena ainda hoje!


_Agora sim, esse é o Henri que eu conheço! Vamos fazer canja com aquele galo!


_Jean, vai com calma. Ainda não sabemos com quem ou o quê estamos lidando. Lembre-se que tudo isso aconteceu porque você tentou comer o animal de alguém.


_Então você acredita em nós?


_Não é que eu duvide de vocês, Axel. É que a situação foi estranha demais para ser verdade. Além do mais temos apenas dúvidas, não dá para provar nada ainda.


_Isso mesmo! Deixem comigo, eu vou descobrir o que aquele galo é de uma vez por todas!


_S-sabe… eu acho que aqueles dois não são ruins…


_Amélie? — Os quatro responderam ao mesmo tempo ao comentário da amiga.


_Uau! Que susto…


_Amélie, em que você se baseou para dizer isso?


_É que… eu não senti nada de ruim vindo daqueles dois. M-mas é só uma impressão minha.


_Caramba, eu vivi pra ouvir Amélie falar mais do que dez palavras algo que não é uma prece ou bênção… — Disse Jean.


_Uhhh, desculpe…


_Você não fez nada de errado, Amélie. E eu vou confiar em sua intuição. Ou será o Deus Asclen que sussurrou isso em seu ouvido? — Disse Henri.


_Eu não sei. Só os Deuses sabem das coisas.


_Ah, caiu para nove.


_Cala a boca, Jean. — Disse Claire.


_Nossa Senhor Rikko! Veja essa cama, é muito macia!


_Hum, verdade. Quem diria que logo acima da taverna haviam quartos pra alugar, e o preço é bem em conta também.


O quarto não era espaçoso, mas bastante aconchegante. Havia uma boa cama, alguns móveis simples e uma tina com água quente havia sido oferecida para Inako tomar um banho antes de dormir. Para a dupla cansada e sobrecarregada com seus problemas pessoais, tudo aquilo era um verdadeiro luxo.


_A moça da taverna foi muito boazinha com a gente!


_Talvez ela tenha se sentido culpada pelo que aconteceu lá embaixo. Não que tenha sido, afinal eles estavam atrás de mim pelo que aconteceu.


_Então eles também queria te comer, né? O que você fez?


_Lembra o poder de vento que usei contra aquela cobra enorme? Eu estava escondido dentro de um tronco de árvore. Na hora em que eles me encurralaram, usei a pressão do vento pra mandar eles longe como se fosse um canhão. BUM!


_O que é um canhão?


_Ah, é… deixa pra lá, é complicado explicar. Vá tomar seu banho antes que a água esfrie e depois vá dormir. Teremos um dia cheio amanhã.


_Tá bom. O senhor não vai espiar, né? Eu tenho vergonha.


_Espiar? De jeito nenhum! Eu sou um cavalheiro! E tem uma cortina grossa onde está a tina, feche-a para se banhar.


_Ah, tá! O senhor pode deitar na cama, eu vou logo depois.


_… Na cama? Não, durma lá você. Eu vou dormir naquelas almofadas.


_Ué, não quer dormir na cama comigo?


_Nós não temos essa intimidade toda. Aceite meu cavalheirismo e respeito em lugar disso.


_Ah, tá bom, então.


Rikko já estava quase adormecendo quando Inako saiu do banho. Estava usando um camisolão de segunda mão oferecido pela dona do quarto.


_Senhor Rikko? Tá dormindo?


_Quase.


_Eu vou apagar a vela.


_Pode apagar. E boa noite.


_Boa noite pro senhor também.


_…


_Ah, Senhor Rikko?


_O que foi agora?


_Eu queria mais uma vez agradecer o senhor por estar comigo nessa viagem. Muito obrigada mesmo.


_Ah, claro. Estou ao seu dispor. Agora durma.


_Ehehehe, sim.


“Ufa, ainda bem que ela foi dormir. Mesmo que agora eu seja um galo, isso não muda o fato de eu te sido um mulherengo na minha vida anteior. Dormir na mesma cama que uma menina bonita é uma péssima idéia. Preciso manter esse galinha dento de mim em xeque. A Júlia não me perdoaria por isso.”


Enquanto adormecia, os pensamentos de Inako se enchiam de preocupações. Pensou em seu pai, sozinho e atarefado no templo; Pensou nos aventureiros do Les intrépides, que morreram para que el pudesse se salvar; Mas, principalmente, pensou em sua irmã Tenko, cujo paradeiro e destino ainda eram incertos.


“Tenko. Me espere, minha irmã. Vou te salvar, não importa como.”


_Muito bem, garotas! Hora do banho!


A voz já era conhecida por Tenko. Era Germain, o carcereiro responsável pelo cativeiro onde ela e demais meninas se encontravam. Mas era a primeira vez em dias desde que chegara ali que o ouvia dizer a palavra banho. A que tipo de banho ele se referia?


_Vamos lá, tirem todas as suas roupas e joguem nesse cesto! Tirem tudo!


O açoite na mão esquerda de Germain indicava que resistir era inútil. Pouco a pouco as meninas se desnudavam deixando à mostra seus jovens corpos que já mostravam sinais de emagrecimento causado pela dieta pobre a base de duas refeições por dia. Algumas levavam a marca do dito açoite nas costas como uma dolorosa lembrança para as desobedientes e atrevidas.


_Hahahahaha! Vocês não tem porque ficarem com vergonha de mim. Eu só posso olhar com meu olho esquerdo, o outro é de vidro. — Fez questão de removê-lo para mostrar à elas, devolvendo ao buraco escuro que ficara no rosto. — Além do mais, eu teria de ser louco pra estragar a mercadoria só por uns minutos de prazer. Agora terminem de colocar as roupas no cesto!


_O que vai fazer com nossas roupas? – Perguntou uma das meninas.


_Queimar.


As meninas entraram em desespero. Mesmo em trapos, suas roupas eram a única coisa física a lhes lembrar que um dia possuíram alguém que se esforçou para lhes dar o que vestir. O que comer. Uma cama e um banho quente. Que um dia foram amadas.


_EU NÃO VOU FAZER ISSO! NÃO VOU DEIXAR QUE – AI!


_VOCÊ NÃO TEM QUERER POR AQUI!


Uma das meninas tentou protestar apenas para ser açoitada por Germain na altura da costela em seguida. Caída no chão, ela se contorceu de dor e começou a chorar. Tenko não conseguiu suportar ver aquilo e interveio antes que uma segunda pancada visse.


_Por favor, pare! Eu mesmo ponho as roupas dela no cesto! Não bata mais!


_Ora sua… merda. Vá logo para aquele canto e leve essa garota com você! — Germain baixou o chicote e apanhou os trapos à força das mãos da menina.


_Eu quero todas vocês naquele canto, e quero agora! Vão!


Após presenciarem uma nova surra, era impossível para as pobres meninas recusarem a ordem dada. Logo estavam reunidas e nuas em um canto úmido e cheio de marcas de bolor do cativeiro.


_Agora virem de costas!


_AAAAAHH!!


_NÃO!


_PARE!


Os gritos tinham motivo e eram inevitáveis. Assim que as meninas se viraram contra a parede, baldes e mais baldes de água gelada as atingiram. Jogada impiedosamente por Germain, a água vinha de um poço fundo nas proximidades do cativeiro, o que não queria dizer que a água que vinha de lá seja tão limpa, embora não tivesse cheiro.


_Agora fiquem de frente! Vamos, eu não tenho a noite toda!


Novamente, água gelada as encharcavam. Além do frio causado, elas precisavam suportar a dor causada pelas feridas de açoite em contato com a água. Germain parecia muito contente em saber o sofrimento que causava, mas logo a água parou de vir.


_Hum, já deve ser o bastante. Agora peguem esses panos aqui para se secarem! — Disse ele, atirando ao chão um monte de panos que mais pareciam sacos de feira para carregar legumes. Por muito pouco, as meninas os recolheram antes que fossem molhados pelos restos da água que escorria. A sensação que eles causavam ao serem passados pelo corpo era péssima, mas era melhor que permanecerem molhadas no frio da noite.


_Germain! Eu trouxe as roupas que tu pediu!


Um outro homem adentrou ao cativeiro. Era alto e corpulento, suas roupas fediam a bebida azeda e ainda haviam restos de alimento presos aos fios de sua longa e suja barba. Trazia consigo um outro cesto com uma pilha de roupas, visivelmente roupas de escravos, feitas de qualquer jeito com um tecido de qualidade quase tão péssima quanto os que as meninas usaram para se secar.


_Deixe aí. Pegue aqueles trapos e queime bem longe daqui. O lugar de sempre, você sabe.


O homem atendeu de pronto recolhendo o cesto com as roupas velhas, mas antes de sair, lançou um olhar mais do que pecaminoso em direção às meninas.


_Ei! Vá logo embora! Sabe muito bem que elas não são pro nosso bico!


_Eu sei — Respondeu com um resmungo, mas ao olhar uma última vez, avistou Tenko e então aproximou-se de Germain para lhe falar.


_Ei, é aquela ali? A de orelhas castanhas?


_Ela mesmo. De todas, essa é a que vai se dar mal pra valer.


_Tá fodida, hahahahaha!


_Tá mesmo. Agora vai logo!


A porta do cativeiro, que se encontrava escancarada, logo se fechou novamente. Mas mesmo assim, não era possível ver o que se passava do lado de fora além da escuridão. Assim que o homem se foi com o cesto, Germain voltou sua atenção para as meninas.


_Agora que estão secas, vistam logo essas roupas e voltem pra suas jaulas!


Um a um, os cadeados das jaulas eram trancados. Após verificar que estavam todas trancadas, o carcereiro Germain arqueou as costas tentando ajustar a coluna em meio a um gemido e então bocejou.


_Uaaaahhh. Por hoje é só. Vão dormir e não quero ouvir nem um pio, entenderam?


_…


_Heh, Estão começando a aprender. Melhor assim. Preciso de uma bebida.


A porta mais uma vez bateu e agora as meninas estavam no escuro, pois Germain levava e trazia a única fonte de luz que elas tinham durante a noite, uma velha e enferrujada lamparina a óleo. A elas nada restava além de tentar dormir em meio a imundície e sofrer em silêncio.


“O que eles queriam dizer com aquilo? O que vai acontecer comigo?”


Tenko não tinha certeza de seu destino, mas o fato de terem arrancado sua roupa íntima dias antes não lhe deixava uma boa sensação de forma alguma.


“Estou com frio. Será que Inako tá dormindo direitinho? Ela sempre acaba deixando os pés pra fora do futon…”


Com muito custo, Tenko finalmente adormeceu graças às lembranças de sua irmã a qual talvez nunca mais veja.