Reencarnado Como Galo em Outro Mundo
2 Capítulo 2 O Galo Está Assando
Embora o meio dia se aproximasse, o movimento da loja se encontrava razoavelmente calmo. Uma van com os dizeres “Realizando — Impressões e Festas “ parou no estacionamento da lanchonete e um rapaz de aparência cansada entrou na loja. Carregava grandes sacolas que pareciam pesadas. Foi até Hermes que naquele momento repousava o braço sossegadamente sobre o balcão ao lado do caixa.
_Bom dia, eu sou da Realizando. Vim fazer uma entrega para o senhor Alberto, ele está?
Hermes o cumprimentou com um aperto de mão amigável, mas seu espírito de porco o instigou a dar uma rápida olhada nas sacolas com o canto do olho e só depois se prontificou a responder.
_Está sim, é só subir aquela escada e bater na primeira porta.
O rapaz passou por Ricardo a caminho da escada, então ele aproveitou para olhar também para as sacolas e ver seus conteúdos, mas sem sucesso. Eram sacolas escuras, não dando para ver o que havia dentro. Alguns minutos depois ouviu Alberto lhe chamar do alto da escada.
_Ricardo! Sobre aqui.
Trabalhar há quase um ano na lanchonete lhe ensinou que quando Alberto chamava tinha de ser na mesma hora, e nunca era algo de bom. Subindo a escada, cruzou com o rapaz da entrega descendo com sua expressão mais aliviada que antes e ao vê-lo, apenas pôs a mão em seu ombro e lhe disse:
_Cara, boa sorte pra você.
Ricardo não entendeu aquelas palavras naquele momento e entrou confuso no escritório. Sentado em sua cadeira, Alberto lhe esperava com um indisfarçável sorriso. Sobre sua mesa, uma grande pilha de papéis separados em blocos embrulhados com plástico. Mas o mais preocupante eram os objetos que jaziam na cadeira e no chão à frente da mesa.
_Senhor Alberto, o que é isso?
O que Ricardo se referia era uma chamativa fantasia de frango na cor branca com tudo a que tinha direto: pés de ave, penas de mentira — muitas delas — feitas com pelúcia, asas com buracos nas pontas para as mãos, uma jardineira vermelha com suspensórios e uma enorme cabeça com uma crista tão grande quanto. E para completar o pacote de esquisitice, um avental amarelo estampado com os dizeres: “DELICIASAS — VINTE ANOS ENCHENDO O SEU PAPO!”
_Essa é sua nova função.
Ricardo não tinha palavras para aquele momento. Sua descrença não permitia formular nada, e o “boa sorte” que ouvira minutos antes agora fazia muito mais sentido. Arriscou-se a perguntar, mesmo sabendo o óbvio. Estava ferrado.
_Que função?
_Você vai vestir essa fantasia e entregar panfletos na rua com a propaganda da loja lá na calçada. Quero que faça isso agora mesmo até a hora do seu almoço, e vai continuar depois até a hora de ir embora. E não quero ver você enrolando!
Na cabeça de ricardo brotavam tantos palavrões quanto flores em um jardim. Achou que Alberto estava de brincadeiras com ele, mas não estava. A fantasia era ridícula e parecia muito quente ao toque.
_Isso é sério mesmo, Senhor Alberto? Não acho que passar o dia metido nessa coisa vá fazer alguma di… — Foi interrompido com uma sonora pancada de mão fechada na mesa dada por um estressado Alberto.
_SIM, É!!! E não quero nem sonhar em ver você voltando com os panfletos embaixo do braço! Quero pelo menos trezentos distribuídos a cada rodada. Acabaram? Volte aqui e pegue mais. Entendeu?
_E como vai ficar o atendimento?
_Marcelo vai fazer com as garotas, eles dão um jeito. Agora vai vestir e se manda lá pra fora.
_Sim, senhor.
Orgulho engolido a seco feito uma pedra do chão, Ricardo recolhe a fantasia e deixa o escritório se encaminhando ao vestiário masculino. Até então não a tinha notado, mas Marilise estava confortavelmente deitada no sofá do escritório mexendo no celular e segurando o riso o melhor que podia.
Ricardo vestiu a contragosto a bizarra indumentária enquanto pensava em novos palavrões, mas para ele não havia outra escolha. Perderia o emprego se recusasse a vestir a fantasia. Sem coragem de olhar o resultado no espelho, cruzou o corredor apanhando um amarrado de panfletos da pilha jogada para fora da gerência por Alberto. Foi então que ouviu a porta abrir lentamente às suas costas. Era Marilise que estava o fotografando e nem mesmo fazia questão de esconder. Ignorando isso, desceu as escadas com dificuldade por conta dos enormes pés que calçava e que teimavam em dobrar a cada degrau conquistado e quase o derrubando no meio do caminho.
Ao chegar no salão, as reações das pessoas foram mistas. Camila levou as mãos à boca em silêncio horrorizada, Hermes correu para rir na cozinha e Marcelo contorceu a cara de dó, mas por dentro estava aliviado de não ter sido ele. Um dos clientes engasgou com refrigerante e um mais empolgado ao fundo não conteve as risadas a despeito da esposa que o repreendia, mas Júlia por outro lado teve uma reação mais suave mesmo que no fundo também queria rir:
_Isso é coisa do Alberto, né?
_De quem mais poderia ser? Agora tenho de ir lá pra fora com essas porcarias de panfletos até a hora do almoço e vai ser assim até a hora de ir embora. Nem saí e já tá quente pra cacete.
_Se ele mandou é melhor obedecer. Vai logo que Hermes tá te olhando feio.
Perto do caixa agora estava o gerente de cara séria, seus olhos vermelhos indicando que ele riu tudo o que podia na cozinha. Certamente já sabia do que aconteceria, mas devia achar que manter a surpresa lhe seria muito mais divertido.
“Desgraçado, você não perde por esperar!” — Ricardo jurava a si mesmo.
_Ricardo — Hermes abafou um riso — Tá bonito, hein? Vai lá e arrebenta!
_Eu preferia arrebentar a tua cara. — Sussurrou.
_O que você disse?
_Disse que vou botar pra quebrar! — Segurou os panfletos com os e saiu antes que tivesse de dar mais explicações.
O Sol parecia decidido a não se esconder atrás das nuvens para não perder o espetáculo. Eram pouco mais que onze horas e o meio dia já se aproximava aumentando mais a sensação de calor que Ricardo sentia enfurnado em sua patética mortalh., Ainda que estivesse no final de um Outono agradável, já não tinha certeza de onde terminava seu corpo e onde começava a fantasia, ambos em simbiose forçada causada pela quantidade de suor. Para piorar, a pilha de panfletos parecia não ter fim e as pessoas que passavam demonstravam sentimentos mistos em relação à ridícula criatura:
_Coitado, debaixo de um sol desses.
_Que bizarro, só faltam as velas e a cachaça, hahahahahaha!
_Vou postar no meu perfil, vai viralizar.
O tempo assim passava. Houveram os que sentissem pena, mas os comentários maldosos se empilhariam ao seu redor se possuíssem forma física.
Sentia suas forças deixando seu corpo lentamente. A fantasia não lhe permitia carregar seu telefone para que ao menos soubesse quanto tempo faltava para sua pausa e isso o incomodava.
Não demorou muito para começar a criar planos para estragar a maldita fantasia e não vestí-la uma segunda vez, acreditava não ser capaz de tamanha proeza. Mas lembrar que seria degolado vivo por Alberto se fizesse isso o fez se afastar de tais pensamentos. Uma voz familiar o trouxe de volta à sanidade:
_Ricardo, eu trouxe pra você!
Júlia com uma garrafa de água mineral em sua mão parecia uma miragem em seu deserto pessoal. Ricardo apanhou a garrafa e virando em sua boca de uma só vez sem pensar. Talvez pelo fato da água estar bem gelada não sentiu de imediato que estava matando a sede. Ainda que incomodado pelo choque térmico conseguinte, estava grato por terem se lembrado dele.
_Ufa! Valeu, Júlia, estava mesmo precisando. Não foi Alberto que mandou me trazer, né?
_Ele? Ha! Não mesmo. Falei com Hermes que vinha te trazer água e precisava ver a cara que ele fez. Aliás, eu paguei por ela, tá? Acerta comigo depois.
_Peraí que devolvo ela já. — Fez menção de colocar o dedo indicador na boca e devolver o líquido consumido de volta para a garrafa.
_Eca! Eu tava brincando, pô!
_Sabia, você é um anjo.
_Ahã, sei. Bom, deixa eu ir antes que me chamem aos berros, aguenta aí.
_Vou tentar. Ah, Júlia! Me faz um favor?
_Outro?
_É. Outro. Dá uma passada no vestiário, eu acho que esqueci meu telefone na mesa do espelho. Guarda no meu armário pra mim?
_Tá bom, vou ver pra você. Até daqui a pouco!
_Valeu.
Com a mente mais leve pela água gentilmente oferecida, Ricardo sentiu peso na consciência ao pensar em Júlia. Pretendia manter o namoro só mais um tempo até Marilise cair em seus braços, mas por um breve momento pensou que poderia ser legal ficar com ela e parar com os flertes aleatórios. Mas só por um momento.
_Bom, penso nisso melhor mais pra frente. Ainda sounovo. Tem muita garota por aí que ainda quero conhecer antes de sossegar, seria triste tirar delas a chance de me conhecer.
De volta à lanchonete, Júlia passou direto pelo salão em direção à escada sem dar atenção ao movimento, mas parou por um instante antes de pisar o primeiro degrau.
_Camila, aguenta firme só mais um pouquinho. Vou lá em cima rapidinho, tá?
Hermes, que havia contado os minutos para o retorno dela em seu relógio folheado a ouro, não ficou calado perante essa comunicação:
_Virou bagunça agora, é? Primeiro a água, agora isso. Tem clientes esperando, sabia?
_Só vou no vestiário, volto em cinco minutos!
_Tsc, tá bom, vai logo de uma vez. Mas vou descontar do seu almoço!
Dando as costas de cara feia, Júlia subiu as escadas e cruzou o corredor em direção ao vestiário masculino. De fato o celular de Ricardo estava sob a pequena mesa embutida no espelho. No exato momento em que o apanhou, uma campainha toca. Hesitou por um instante, mas a curiosidade foi maior e o fato que a tela não estava bloqueada lhe encorajou a continuar.
_Nossa, está cheio de mensagens. De quem são?
Antes não o tivesse feito. Ao rolar as mensagens, viu que todas se tratavam de remetentes femininos, nomes que nunca tinha ouvido falar de Ricardo nem por brincadeira.
_Sou a namorada dele! Que monte de garotas são essas? Eu vou ver isso agora mesmo.
Resoluta, deslizou o dedo sobre a tela e uma a uma, foi visualizando cada mensagem e toda a verdade escondida até quele momento veio à tona.
>Alice Loirinha:
“Gatinho, aquele passeio no shopping tá garantido, né? Me responde assim que puder, tá? Beijos.”
>Carla Morena:
“Oi! Já tem uma semana que eu não te vejo! Quero te ver, me liga.”
>Monique Livraria:
“Amei aquele livro que me recomendou. Quem diria que você gosta de algo tão romântico… Vem comigo comprar o próximo volume? Beijinhos.”
>Lúcia Peituda
“Poxa, Ricardinho. A gente ficou aquela vez e você nunca mais veio me ver. Tô morrendo de saudade! Me liga.
Júlia não conseguia mais parar. Seus dedos trêmulos e olhos marejados não tinham mais controle, esquecera que só poderia estar ali alguns minutos, mas a tristeza havia feito seu tempo parar.
Dezenas de nome e apelidos diferentes, todos femininos… Há quanto tempo tempo ele vinha enrolando todas elas? Chegara à mensagem de número 43, e esta em especial fez sua atenção dobrar. Sentiu uma pontada em seu coração como uma faca em brasa. Tinha a data de hoje, ainda não lida:
>Marilise Patroazinha:
“Ricardo. Até que você é divertido e aquele beijo roubado ontem me deixou arrepiada. Mas sério… O que eu vou querer com um pé-rapado? Trabalha pro meu pai fritando frango.
Soube pela Inês da bomboniére que você não sai de lá sem comprar chocolates, mas nunca ganhei nenhum. Te vi me seguindo naquela festa, e pra piorar, eu sei que você tá namorando a otária da Júlia, ou será que ela é só um tira-gosto antes de mim?
Eu odeio aquela babaca, sempre se metendo onde não deve, bancando a certinha. Odeio fingir que sou amiga dela, pensei até em pedir pro meu pai mandar ela embora. Você é um galinha, e aquela trouxa te merece!”
Júlia sentiu que desabaria no chão, mas uma nova mensagem havia sido recebida, e essa foi a gota d’água:
>Marilise Patroazinha
“Eu já ia me esquecendo: A otária pediu folga pro Hermes no mesmo dia que você, aposto que queria te chamar pra sair, um encontro perfeito, talvez? Só que não.
Eu mudei a folga dela e obriguei a molenga da Camila a mentir dizendo que precisava da folga, adoro como ela faz o que eu quero. E o idiota do Hermes nem dá um pio, afinal depois dos meus pais sou em quem manda aqui. Porque tô te contando isso? Porque você é um frouxo, não vai contar pra ela. E eu adoro ferrar com vocês. Feliz Dia dos Namorados!
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