Reencarnado Como Galo em Outro Mundo

20 Capítulo 19 Jantar às Cegas


_Veja, Senhor Rikko! Lá está a cidade!


_Que ótimo! Agora só precisamos entrar.


Os muros da cidade pareciam maiores a cada passo e mostravam sinais de serem muito resistentes. Rikko nunca esteve em uma cidade deste mundo e a única construção humana em sua memória era a casa da fazenda, mas mesmo assim não se sentiu tão impressionado. Era até mesmo esperado que fosse assim. Sua curta vida de otaku adolescente foi ao menos útil.


_Estava pensando agora… não seria melhor eu me esconder?


_Ué, porque?


_Eu sou um galo. Seria bem esquisito um galo entrar andando em uma cidade, não acha?


_Ah, é verdade. Mas não tenho nada pra você se esconder.


_Então se perguntarem, melhor que diga que sou seu bicho de estimação ou coisa assim. Deve servir.


_Mas é só você falar com eles.


_Você pode não ter percebido, mas eu não sou capaz de falar a língua humana.


_Mas eu consigo te entender muito bem.


_Você é demi-humana, eu consigo falar com você porque tenho um poder que permite isso, mas com humanos a coisa é bem diferente, ao menos é até onde eu sei.


_Ahh, entendi.


_De qualquer forma, por enquanto faça como eu disse, tá bom?


_Tá bom!


Os portões da cidade estavam surgiram na frente da dupla, imponentes mas de alguma forma acolhedores para seus corpos cansados. Mas o mesmo não podia se dizer dos soldados que os guardavam. Um deles se adiantou para falar com a estranha dupla.


_Alto lá! Quem é você e o que deseja? — Perguntou um dos soldados.


_Ah! Meu nome é Inako. Sou uma viajante e desejo entrar.


Os soldados a olharam dos pés a cabeça com seriedade.


_Suas roupas estão em farrapos. O que houve?


_Eu venho de muito longe. Fui atacada por monstros em uma dungeon distante daqui. Meus contratantes morreram e perdi todos os meus pertences quando fugi.


_Teve sorte de sobreviver, então. Por estar em caso de necessidade, vamos permitir que entre. Mas se certifique de não causar nenhum problema, entendido?


_Ah, sim, senhor! Prometo que vou me comportar!


_Muito bem, pode passar.


_Muito obriga-


_Um momento! — O outro soldado de vigia decidiu intervir.


_O que foi, Norbert? Essa menina precisa entrar, veja o estado dela!


_Eu já vi. Mas quero entender algo. Mocinha, e essa galinha aí atrás de você?


_HÃ? Ah, é Rikko, meu galo de estimação, senhor.


_Hum, está bem. É meio estranho, mas no fim tem gente que gosta de brincar com a comida, hahahaha.


_O Se- digo, Rikko não é comida, é meu querido bichinho, foi tudo o que me sobrou. — Inako ia protestar em defesa de Rikko com mais veemência, mas apelar para seu estado frágil poderia trazer melhores resultados.


_Ah, bom… desculpe por isso, só estava brincando. Você pode ir, mas cuidado para seu bichinho não atacar ninguém, está bem?


_Prometo que ele é mansinho!


_Está bem, vá logo.


_Muito obrigada, senhor Guarda! — Inako fez uma reverência educada curvando-se até a linha da cintura com as mãos juntas sobre o abdômen e em seguida apanhou Rikko em seus braços e passou correndo pelos portões.


_Ei, lembra do que falamos mais cedo?


_Sobre aquele galo cantando?


_Será que…?


_Não, não pode ser.


_O que vamos fazer?


_Fingir que não sabemos de nada.


_É melhor, mesmo.


_Uau, essa cidade é a maior que eu vi até agora, Senhor Rikko!


_É a primeira vez que eu vejo uma, não tenho nada para comparar.


E lá estava. A cidade de Bordeaux, com casas e prédios de alvenaria, barracas de feirantes e uma grande variedade de pessoas passando, das mais variadas raças.


_Tem pessoas de todos dos tipos por aqui. Humanos, demi-humanos, ei, aquela é uma elfa?


_Sim, é. Elfos puros são meio raros em cidades humanas, então na maioria das vezes vamos ver meio-elfos. Dá pra saber a diferença pelo tamanho das orelhas, são mais curtas nos mestiços.


_Entendi.


_Onde vamos agora, Senhor Rikko?


_Vamos fazer como você havia dito e vender os itens que pegamos, não podemos fazer nada sem dinheiro, não é?


_Ah, é mesmo. Deixa eu ver… vamos em lojas menores vender o que o Senhor pegou, hummm… ah! Senhorita, pode me dar uma informação? — Inako interrompeu a conversa e foi falar com uma jovem passante.


_Hã? Claro, o que quer saber?


_Tem algum vendedor de remédio ou coureiro aqui por perto?


_Ah, se você for naquela direção após as barracas, vai encontrar um beco cheio dessas lojas.


_Aquele lado? Muito obrigada, senhorita!


_Ora não tem de que. Tenha um bom dia.


_A senhorita também!


Rikko ficou parado no local onde estava fingindo comer algo do chão enquanto olhava os arredores. Fingir ser um animal era relativamente fácil para ele.


“Hum, não vejo ninguém suspeito por perto, devem agir longe do centro da cidade, precisamos ver isso em algum momento.”


_Se-


_Shhhh! Fale baixo!


_Hã? Porquê?


_Lembre-se, não é qualquer um que consegue me entender. Se te virem falando com um galo, vão pensar que é louca e não vão querer conversa.


_Ah, mas…


_Ao menos por enquanto, depois a gente vê o que faz.


Inako apanha mais uma vez Rikko em seus braços, assim poderá falar com ele dicretamente.


_Tá bom, então. Aquela senhorita disse que tem um beco cheio de lojas depois das barracas.


_Então vamos logo, estou começando a ficar com fome.


A dupla dirigiu-se ao beco mencionado pela transeunte. Haviam várias lojas de pequeno porte com aparência curtida pelo tempo. Provavelmente já estavam lá antes mesmo dos prédios o redor serem construídos.


_Vamos nessa primeiro.


Entraram na primeira loja do beco, uma pequena loja de poções. Haviam várias prateleiras repletas de frascos com criaturas preservadas nas paredes. No balcão, um senhor de idade tirava um cochilo debruçado.


_Hã… senhor?


Não ouve resposta. O velho senhor estava em sono profundo, seu ronco ressonava de um jeito que dava até mesmo pena acordá-lo.


_E agora, Senhor Rikko?


_Deixa comigo. Me ponha no balcão.


Inako fez o que Rikko pediu. Agora sobre o imóvel, Rikko endireitou sua postura, estufou o peito e…


_COCORICÓOOOOO!


_UWAAAAAA!


_AI!


O pobre velho não esperava por isso. O susto fez cair de sua cadeira e seus pés bateram contra o balcão quase derrubando tudo guardado em seu interior. Inako não esperava que Rikko fizesse isso, então levou as mãos às orelhas um pouco tarde demais, estava atordoada.


_Uuuuh, meus ouvidos…


_Os seus? Menina- ai, minhas costas… um grito mais forte do que esse e eu ou ficaria curado da surdez, ou surdo de vez. Agora será que pode me levantar?


_Ah, desculpa, senhorzinho, é que como você não estava acordando… — Inako correu para o outro lado do balcão para ajudar o velho senhor a se levantar.


_Está tudo bem, exceto pelo susto que levei, eu estava mesmo precisando acordar. Mas então, em que posso ajudá-la, mocinha?


_Nós- digo, eu trouxe algumas coisas que quero vender.


_Hum, muito bem, vejamos o que você tem aí.


Inako havia se esquecido de que somente Rikko poderia abrir sua item box, mas ele havia pensado rápido, fazendo com que ela aparecesse junto se sua mão e fez um sinal piscando o olho.


_Oh, uma item box! Nada mal, nada mal, e oh- quanta coisa!


Uma bela pilha de itens se espalhou sobre o balcão e o velho homem arregalou os olhos de surpresa.


_Senhorzinho, isso vale algo pra você?


_Hohohoho! Ora, sem dúvidas, mocinha! Estava mesmo precisando dessas coisas. Minha especialidade são poções, mas esse couro também me é de serventia. Comprarei tudo.


_Mesmo?


_Sim. Vejamos… temos presas de cobra, veneno ressecado, couro, várias ervas dentre outras coisas… bem, o que me diz de

três moedas de prata?


_Três? Sim, parece bom! Eu aceito!


_Hohoho, muito bem. Negócio fechado então!


Negociação feita, três moedas de prata agora brilhavam levemente á luz de velas na mão de Inako. Ela tentou guardá-las, mas por um momento lembrou-se que não tinham nada que servisse para isso.


_Oh, mocinha, não tem onde guardá-las?


_Ehehehe.. é que perdi toda minha bagagem fugindo de monstros, e minha roupa não tem bolsos. — Respondei inako, levemente sem graça.


_Deve ter sido bem diícil. Aqui, pegue isto. É uma bolsinha velha, mas vai servir para você por enquanto. — O bom senhor estendeu gentilmente uma pequena bolsa porta de couro.


_Nossa! Posso mesmo?


_Sim, claro. Ela não tem mais serventia para mim, é por conta da casa.


_Muito obrigada, senhorzinho! Tenha uma boa tarde! — Inako fez uma longa reverência e apanhou Rikko de cima do balcão que acompanhava a transação silenciosamente.


_Eu que agradeço! Volte sempre!


Fora da loja, Inako deu uma última olhada antes de guardar as moedas na pequena bolsinha, estava feliz por ver dinheiro de novo.


_Inako, você achou esse preço justo?


_Sim, está tudo bem, Senhor Rikko! Aprendi a lidar com o dinheiro daqui e a quantia é justa. Aquele senhorzinho é muito gentil.


_Certo, e você acha que esse dinheiro vai dar para comer e dormir em algum lugar?


_Se procurarmos algum lugar barato, vamos poder comer três refeições e dormir em uma estalagem por uma semana sem problemas.


_Parece ótimo! Então vamos fazer isso, estou morrendo de fome.


_Ah, mas Senhor Rikko, porque não ofereceu os itens da cobra monstro?


_Você havia dito que itens de monstros tem mais valor se forem vendidos para a guilda, então quis mantê-los e ver o quanto podemos conseguir lá.


_Ah, é mesmo! Talvez o senhorzinho não tivesse como cobrir ao valor.


_É uma possibilidade. Vamos comer?


_Vamos!


_Ah, espera. Precisamos passar em algum lugar antes para conseguir roupas melhores para você. Já andou por tempo demais desse jeito.


_Puxa, posso mesmo, Senhor Rikko?


_Claro que pode! Você é minha companheira de viagem e sem você eu teria problemas sozinho.


_Muito obrigada, Senhor Rikko! — Inako parecia realmente feliz por ouvir palavras tão gentis. — Mas não podemos gastar muito, né? Me contento com roupas usadas.


_Se não tiver problema com isso, então tudo bem.


Não foi difícil encontrar uma loja de roupas usadas. Inako buscou ser prática comprando algo em conta e confortável, pois seus trajes estavam além da restauração e também um par de sapatos para substituir a única sandália geta que restou.


Após perguntarem a algumas pessoas, chegaram à conclusão que a melhor escolha é a Taverne à Volonté, situada na parte leste da cidade. É um estabelecimento de aparência simples, mas aconchegante. Estava bem cheio e muitas pessoas já estavam levemente embriagadas. Escolheram a mesa mais distante no fundo do estabelecimento.


_Parece um lugar bem animado, e sinto um cheiro ótimo de comida. — Rikko tinha um fio de baba escorrendo no canto do bico.


_Sim, está muito bom… EI, MOÇA! — Inako não perdeu tempo chamando uma das atendentes da taverna. Logo veio uma moça de cabelos castanhos.


_Olá! Bem-vinda à nossa taverna! O que vai querer?


_Hã, bem, não tenho muito dinheiro no momento. O que você tem que seja mais em conta?


_Hum, pode ficar tranquila, nossos preços são os melhores da cidade. E se quer uma recomendação, eu gosto muito de Riz au poulet effiloché à l'huile d'olive, aux herbes e vin au miel para beber.


“Nossa, é muito francês pra mim, não entendi quase nada.” — Rikko, tentou entender o nome do prato, mas sem resultado.


_Hum, parece… bom. Vou querer isso! — Inako também não pareceu entender, mas se deixou levar pela fome e o ambiente alegre.


_Está certo, aguarde só um pouco. — A atendente acenou com a cabeça e foi em direção à cozinha para fazer o pedido, mas não antes de olhar disfarçadamente para Rikko e deixando a a mesa com um rosto surpreso.


Inako bebeu a água trazida de antemão em uma caneca pela atendente e ofereceu metade para Rikko que a bebeu com vontade. Como o esperado, várias pessoas nas mesas vizinhas começaram a notar a estranha presença no local.


_Hã… Senhor Rikko, estão reparando no Senhor.


_Não tem o que fazer. Enquanto eles estiverem só olhando, tudo bem. Vamos ficar numa boa e ir embora assim que terminarmos de comer.


_Numa boa? Ah, está bem, eu acho.


Alguns minutos depois a atendente voltou trazendo um grande prato de madeira talhada com a comida e uma caneca. Inako notou uma pequena tigela vazia juntamente com o prato.


_É para dar um pouco do arroz para seu bichinho. Ele deve estar com fome, também. — A atendente respondeu com um sorriso para Inako ao explicar.


_Ah, muito obrigada!


_Não tem de que. Boa apetite! — E então, saiu para atender as outras mesas.


Inako apanhou a colher enchendo com uma boa quantidade de arroz e ervas na tigela de Rikko e então ia dar a primeira colherada quando:


_Ei.


_Senhor Rikko, o que houve?


_Também quero carne.


_Ahhh… o Senhor tem certeza?


_Claro que tenho! Estou cheio de fome, só arroz e ervas não vai ser o bastante. Passa pra cá.


_Se o Senhor insiste…


Inako ainda estava apreensiva, mas acedeu ao pedido. Ela ficou vendo Rikko comer a carne com gosto. Não só ela, mas algumas pessoas das mesas próximas haviam percebido e ficaram observando a cena espantados.


_Senhor Rikko… tá tudo bem com você?


_Sim, a comida está ótima, porque eu não estaria bem?


_É que… bem…


_Fala logo de uma vez.


_O que o Senhor está comendo… é carne de frango.


_Ah, certo. E daí?


_O Senhor é um galo. Galo, frango, sabe…?


_Ah, eu entendi. Não tenho problema nenhum com isso. Pelo contrário, é uma forma de mostrar respeito.


_Mostrar respeito…?


_É. Essa ave foi sacrificada para alimentar alguém. Foi abatida, limpa, cozida e temperada. Agora está servida e estamos nos alimentando dela. Seria muito desrespeito recusar a comer.


_Ah, entendi.


_Então coma antes que a comida esfrie. Ah, quero um gole nisso que está bebendo também. Espera, isso é vinho?


_É, sim, porque?


_Espera um pouco. Quantos anos você tem?


_Quinze, porque?


_E você pode beber isso? Você não é criança?


_Criança, eu? Eu tenho quinze anos. — Disse Inako inflando as bochechas, sentindo-se ofendida.


_Pensei que pessoa de sua idade não podiam beber. Ao menos eu ouvi isso em algum lugar.


_Ah, mas é que de onde eu venho, pessoas com catorze anos já é considerada adulta. E até onde eu sei, nesse país também é assim.


_Ah, bom, se é assim…


_De qualquer forma, essa caneca é só metade vinho. A outra metade é agua adoçada com mel. Prove um pouco.


As outras pessoas ficaram surpresas mais ainda com a menina oferecendo bebida para a ave que a acompanhava diretamente de sua caneca.


_Hum, até que é gostoso. Meio que parece um suco de uvas, só que mais alcoólico.


_Viu? Não dá para eu ficar bêbada. Se bem que a Tenko, ela sim ficaria. Ela fica bêbada bebendo Amazake.


_Tenho a impressão de que sei o que é isso, acho que entendi.


Alguns minutos depois, os pratos e caneca estavam vazios. A quantidade era boa o bastante para que não precisassem repetir, então agora eles decidiram que era hora de pagar a conta e ir em busca de uma estalagem para dormir.


_Bem, uaaaah, agora enchemos a barriga, é hora de ir embora. Temos de procurar um lugar para dormir, já está escurecendo lá fora.


_É verdade, Senho Rikko. Estou mortinha de sono também. Vou chamar a quela moça.


Inako levantou-se da cadeira e estendeu o braço para o alto e disse:


_MOÇA, A CONTA , POR FAVOR! — Disse Inako.


Mas parece que ela não foi a única a fazer isso. Uma outra voz quase se sobrepôs a dela, a fazendo se virar surpresa para as pessoas da mesa posta próximo a dela.


_Ué?


_Ah, desculpe se te assustei, menina! Estávamos pensando em pedir a conta também.


Haviam cinco pessoas na mesa próxima a dela. Não seria algo fora do comum, se não fosse o fato do olhares de Rikko, que até então se encontrava do lado oposto de Inako sendo coberto por ela, com dois indivíduos da mesa próxima. Um deles era de um homem alto e forte com cabelos curtos e outro trajando roupas escuras. Os três ao se reverem, não conseguiram conter a voz de surpresa.


_AH.