Reencarnado Como Galo em Outro Mundo
18 Capítulo 17 - Le Renifleur
_E como vai ser o nosso plano, Senhor Rikko?
Inako postou-se à frente de Rikko, sentada sobre os próprios calcanhares em posição Seiza e o olhava com uma certa admiração. Essa mudança de comportamento era surpreendente, mas ele tinha um plano a formular.
_Vamos ver… bom, como eu disse antes, não vamos conseguir fazer tudo sozinhos, então precisamos da ajuda de aventureiros pra encontrar e resgatar sua irmã. E claro, notificar as autoridades da cidade.
_Ah, sim, mas vamos precisar de dinheiro. Aventureiros não fazem essas coisas de graça, ao menos isso eu sei.
_Você já esteve em um grupo de aventureiros. Como podemos fazer isso?
_Hum… Temos que ir à guilda de aventureiros da cidade e registrar um pedido de missão. O pagamento pode ser feito adiantado ou pago após a missão concluída. Uma parte fica com a guilda e o restante é o pagamento dos aventureiros.
_Pagar adiantado ou depois. Então vamos precisar conseguir dinheiro de um jeito ou de outro. Você tem algum dinheiro?
_Nem um pouquinho. Tive que jogar minha bagagem fora, senão eu ia virar comida de monstro.
_É, faz sentido. Então o primeiro passo será conseguir dinheiro para as despesas e a contratação de aventureiros. Mas não temos tempo de arranjar trabalho. Você sabe que dia é hoje?
_Hã? Hum… é… vingt-sept...mai? Ah, vinte e sete de Maio! A língua daqui é meio complicada pra mim. — Respondeu Inako, envergonhada de seu parco aprendizado.
_Maio… a menos que eu esteja errado, Maio tem trinta e um dias. Então faltam menos de cinco dias para a feira, precisamos agir logo.
_Mas e quanto ao dinheiro?
_Se não temos dinheiro e não podemos arrumar emprego, - ao menos eu -… não que houvesse por aí algum maluco disposto a contratar um galo… será que essa guilda compra itens de aventureiros?
_O Senhor quer dizer espólios de monstros e tesouros? Sim, eles compram! Mas a gente tem que se registrar em uma guilda antes e pegar missões.
_Não podemos matar monstros sem nos registrar?
_Até pode, mas é muito arriscado sem um grupo treinado e mesmo assim, a gente recebe como caçadores comuns, o pagamento é bem menor.
_Precisamos começar de algum lugar. Ah, será que dá pra vender isso?
Rikko abriu sua Item Box e despejou no chão tudo que havia pego durante sua luta pela vida nos últimos meses. Uma pequena montanha de restos de animais se empilhou e exalava um cheiro uma tanto… peculiar.
_Ugh. Quanta coisa, e esse cheiro…
_Estou nessa floresta tem algum tempo e a caixa só conserva bem a comida sem estragar, me dá um desconto. E então, acha que dá pra vender essas coisas?
Rikko deixou de fora as frutas e os peixes que utilizariam como alimento, então que haviam eram presas de animais, peles, ervas e coisas do tipo. Eram seus troféus por ter sobrevivido, então acreditava valerem algo, pelo menos.
_É bastante coisa, Senhor Rikko, mas…
_Mas?
_Não são espólios de montros, são de animais silvestres.
_Mas que bosta, todo esse tempo guardando pra nada!
_Se bem que… a guilda não compra isso a menos que seja pra missões específicas, mas tem fabricantes de remédios e de couro pra pessoas comuns que pagariam algum dinheiro por essas coisas. Não é muito, mas dá pra vender.
_Ótimo, então vamos para a cidade! Daremos um jeito no resto por lá!
_Sim, vamos!
Com seu plano inicial decidido, a curiosa dupla partiu. Chegando à borda da floresta, a barrenta estrada os aguardava.
_Hum… para que lado nós vamos? Eu não tenho um mapa e nem conheço nada daqui.
_Sobre isso eu sei como resolver, vamos nessa direção. — Apontou Rikko com sua asa para um dos lados da estrada. Era a direção para onde a carroça e os aventureiros haviam se dirigido mais cedo. Preferia não dar de cara com eles se possível, mas não tinha outra escolha.
- Ville Bordeaux
_A cidade mais próxima é Bordeaux. Não é muito longe daqui. Vamos.
_Tá!
Embora não muito distante, eles tinham pelo menos uma hora de viagem a pé para chegar à cidade destinada. Já passava das 14 horas e o sol se encaminhava para o entardecer.
E em Bordeaux, um certo homem visitava uma certa casa.
_Ora, ora, se não é o senhor Montblanc. A que devo a visita?
Charles Montblanc. Um conhecido mercador de escravos e itens roubados do submundo de Champagne. Sua reputação entre os de sua laia era alta, e dificilmente alguém seria capaz de fazer frente em seu próprio ramo de negócios. Ter sangue de nobres ainda fazia algum efeito e ele possui contatos com as pessoas certas, embora venha de uma família há muito despojada de títulos nobres.
_Boucher, meu bom amigo! Estou feliz que ainda goze de boa saúde!
Louis de Boucher. Respeitado proprietário de uma fazenda dedicada ao gado de corte. Sua riqueza e influência o deixava acima de qualquer suspeita mesmo perante à família real, mas sob essa fachada ocultava outro título, um mais obscuro.
_Estou aqui para tratarmos de negócios, como de costume.
_Oh, claro, venha por aqui, por favor.
Foram para a sala principal da casa. Boucher a utiliza sempre que vem à cidade para se aliviar do estresse das coisas do campo e lidar com outros tipos de negócios. É uma suntuosa sala, decorada com retratos de família e mobília cara de alta qualidade. Mesmo sendo um fazendeiro rico, ostentava riqueza acima do que alegava possuir sem qualquer cerimônia. Montblanc sentou-se em um comportável sofá por indicação de Boucher enquanto este abria uma garrafa de bebida para lhe servir pessoalmente.
_Aqui está, meu bom homem. Espera que seja de vosso agrado.
_Ah, ótimo, eu estava mesmo precisando. Agradecido.
Após observar a bebida em sua taça e sentir seu aroma, Montblanc tomou um gole e deu prosseguimento ao diálogo.
_Meu caro Boucher, imagino que esteja ansioso pelo que está por vir. E cá estou eu, Montblanc, para lhe informar que a espera está chegando ao fim.
_Oh! OOOOH! Espere apenas um momento! Pierre!
_Às ordens Senhor. Em que posso servir?
Pierre é o mordomo que atualmente serve a Louis. Sua lealdade não era para com ele, mas sim ao seu pai, Gérard de Boucher, o criador da Ferme de Boucher. Sua partida cerca de dois anos antes devido à idade o colocou a serviço de seu herdeiro, algo que o desgostava muito pelo comportamento peculiar dele.
_Quero que feche as portas e nos deixe a sós. Avise aos empregados. E ponha aquela música para tocar.
_De acordo, Senhor. E quanto ao vosso almoço?
_EU COMEREI DEPOIS! AGORA, SUMA! — O tom apressado e agressivo em sua voz já era fato corriqueiro desde a morte do pai. O mordomo não ousava desobedecer.
_Como Quiser, Senhor.
Esperaram até que o mordomo deixasse o recinto e fechasse as portas como ordenado. Quando os sons de seus passos desapareceram no corredor, Boucher voltou sua atenção ao visitante.
_Desculpe por isso, meu caro. É difícil encontrar bons criados hoje em dia, então tive de me contentar com os de meu velho pai.
_Ora, de maneira alguma! Não se preocupe com isso, estou acostumado a empregados surdos.
_E devo assumir que sua visita é a respeito da Feira?
_Certamente. Será realizada no primeiro dia de Juin, à meia-noite. Em Cognac.
_Que maravilha! Não sabe o quanto espero por isso, meu amigo! Meu bom amigo!
_E é exatamente por saber disso que lhe trago um pequeno regalo, como de costume.
_Oh, mesmo? Eu nunca me desaponto com você! E onde está?
_Aqui mesmo, como pode ver.
Montblanc pôs sobre a mesa baixa de madeira nobre uma pequena caixa adornada em ornamentos de ouro. Boucher caiu de joelhos perante a mesa e estendendo as mãos trêmulas sobre a tampa da caixa. Sua respiração se tornava cada vez mais ofegante a cada centímetro. Quando tateou a tampa, em algum lugar da casa, uma música orquestrada lentamente começou a tocar. O mordomo havia acabado de acionar o dispositivo mágico de vento utilizado para armazenar sons. Era um objeto muito raro que custou uma pequena fortuna apenas para satisfazer aos caprichos de Boucher.
_Sim… é isso…
Como que seguindo uma coreografia, Boucher fechou os olhos e abriu a caixa. Nela, havia um delicado objeto de tecido branco que apanhou rapidamente e segurou junto ao coração e de olhos bem abertos.
_Sim… é isso!
Levantou-se de um único salto, algo impensável para uma pessoa com físico obeso como o dele. Pôs-se a dançar pela sala seguindo a música como se levasse em seus braços a mais bela dama do baile. Sua dança se tornava cada vez mais frenética rodopiando ao redor do sofá com um nada surpreso Montblanc que sorria sinistramente até que no clímax da melodia, o estranho dançarino levantou os braços em direção ao lustre de cristais e abrindo as mãos para revelar seu conteúdo. Uma peça íntima feminina.
_É ISSO!
Levou aquela pequena peça ao rosto, aspirando o mais forte que podia. Seus olhos reviraram em êxtase e com um urro, caiu novamente de joelhos permanecendo em silêncio. A música acabara naquele exato momento.
_UOHHHHHHHH!!!
Ficou naquela posição por cerca de dois minutos. E enfim levantou-se, guardando a peça íntima em seu bolso e recuperando a compostura.
_...Diga-me, meu caro Montblanc. A quem pertence isso?
_A um belo exemplar, vindo do distante país de Sake. Menina meio-humana, Hanjin como chamam por lá, de uma espécie chamada Tanuki. Um achado e tanto.
Os olhos de Boucher se arregalaram. Sua mão instintivamente voltou ao bolso onde se encontrava a peça e a apertou com vontade.
_Eu preciso tê-la. Eu VOU tê-la.
_Eu já imaginava, meu caro. Posso trazê-la amanhã mesmo.
_NÃO!
_Ora? Pensei que a quisesse o quanto antes.
_E QUERO! Mas não assim! Quero ter o prazer de estar lá pessoalmente para dar meu lance! Faço questão de fazer isso na frente de toda aquela corja! Vou mostrar para eles que não podem competir com Le Renifleur, o maior apreciador de flores que já existiu!
Boucher ganhou esse apelido ainda jovem. Tinha o péssimo hábito de roubar peças íntimas de jovens serviçais da casa de seu pai, e nem mesmo suas irmãs mais novas e primas escapavam de sua sanha.
Seu pai, na esperança de dar um jeito no filho, o enviou para estudar em uma escola militar só para homens, mas mesmo lá escapava durante as madrugadas para satisfazer seu fetiche. Até o dia em que finalmente foi às vias de fato e violentou a filha do caseiro em suas férias na fazenda quando já era um homem feito.
O pai teve de resolver a situação se valendo de sua influência e pouco tempo depois, sofreu um acidente de cavalo e nunca mais recuperando a saúde desde então, obrigado a deixar o comando dos negócios para o deturpado filho, que piorava cada vez mais à medida que os anos passavam.
_Tem certeza disso? Alguém pode dar um lance maior do que o seu.
_Não farão isso. Nenhum deles será capaz de cobrir meu lance, darei tudo de mim por essa flor tão delicada. Quantos anos têm?
_Em torno de quinze.
_Hum… um tanto velha, mas não importa. Certas flores intensificam seu aroma com o tempo. Será minha, e de mais ninguém.
_De acordo. Bem, agora se me permite, tenho outros assuntos para resolver. Parece que havia um “ratinho” cheirando onde não devia.
_ESMAGUE-O! Não quero ninguém se interpondo entre mim e minha bela flor!
_É o que pretendo. Então, com sua licença.
Montblanc não esperou que lhe abrissem as portas. Mas ao sair, ainda ouviu a pergunta:
_Meu caro Montblanc. Não me disse o nome dessa flor.
_É Tenko, meu caro. Até breve!
Quando já estava em sua confortável carruagem, Montblanc deu uma última olhada para a casa onde estivera brevemente antes de dar a ordem ao cocheiro para partir.
“Eu adoro esses pervertidos. São uma fonte inesgotável de dinheiro.” — Pensou.
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