Reencarnado Como Galo em Outro Mundo
13 Capítulo 12 Uma Situação Escamosa
_AI! AI! AAAAI! SAI DE CIMA DE MIM!
O despertar de Rikko após voltar de seu inesperado encontro com Thanya não foi nada agradável. O dia já estava claro e os raios de Sol iluminavam o buraco na árvore tornando possível ver o interior dela. Poderia ser um sinal de que teria um bom dia se não fossem os acontecimentos do dia anterior e pelo fato de que seu corpo estava coberto de vorazes formigas, esperançosas em toná-lo o seu desjejum.
_Formigas malditas! Só porque tem um pinto estirado sobre um monte de folhas secas não quer dizer que ele está morto! Vão embora! Procurem comida em outro lugar!
Mas para o azar de Rikko, as formigas não se importaram nem um pouco com suas queixas, e somente um completo idiota recusaria tal iguaria servida à porta de sua casa, pois por causa da escuridão da noite ele não havia notado que o buraco na árvore esse tratava da entrada principal do formigueiro.
_AI! Eu já disse pra parar! Droga, mas que inferno!
As formigas eram bastante persistentes e a dor causada pelas suas mandíbulas ardiam feito fogo, forçando Rikko a deixar a árvore o quanto antes. Já a certa distância da árvore, sacudiu suas penas loucamente para derrubar as intrusas que restavam agarradas a elas.
_Mas que jeito péssimo de começar o dia!
Livre das formigas restantes que agora retornavam ao seu lar de patas vazias, olhou ao seu redor para se situar e pensar no que faria a seguir, quando uma imagem se projetou no ar fino:
Habilidade Adquirida
- Resistência a veneno (baixa) — Nível 1
Consegue suportar até certo ponto os efeitos causados por mordida ou picada de insetos comuns como coceira e pequenos caroços resultantes da inflamação.
_O quê? Aquelas malditas eram venenosas? E o que quis dizer com “até certo ponto”?
_...
_Ei, me responda!
A resposta não veio.
...Ah, deve ser algum tipo de... sistema passivo? Bom, só porque é magia não quer dizer que tenha alguma consciência real. Que seja. Agora preciso mesmo pensar um pouco no que fazer, estou por minha conta, afinal.
Agachou-se naquele mesmo local à maneira das aves de sua espécie e pôs-se a pensar. Chegou à conclusão que primeiro de tudo precisava garantir provisões como água e comida, pois mesmo que Thanya tenha lhe dado o pacote de carne seca e a garrafa de isotônico, logicamente não eram nem de longe uma fonte de sustento e não durariam muito.
_Talvez eu consiga achar algumas frutas, não é difícil encontrar árvores frutíferas numa floresta desse tamanho. E quanto a água… naquela fazenda tinha um córrego, pode estar passando por aqui em algum lugar.
Com sua primeira prioridade definida, seguiu seu caminho pela floresta. Como Thanya havia lhe dito, parecia uma floresta de certo modo tranquila, mas isso não significava livre de perigos, sobretudo para um pintinho como ele, então precisava ter cautela. Avistou um pequeno arbusto cheio de frutas azul-escuras.
_Oba, consegui!
Correu em direção ao arbusto que possuía pequenos frutos com aparência saborosa, mas antes que pudesse bicar uma delas, lhe ocorreu um pensamento:
_Espera um pouco… e se forem frutas venenosas? Não tem nenhum animal se alimentando delas, parecem intocadas. E agora?
Ficou um tempo ponderando sobre o perigo de comer frutas que não se conhece em uma floresta. Em alguns documentários que assistiu, haviam alertas sobre frutas silvestres que a primeira vista parecem inofensivas, mas que podem causar diarréia, tonturas e outros efeitos que dificultariam sua mobilidade e o expondo a perigos, algo que não era desejado por ele, sobretudo em um mundo desconhecido.
_Ah, já sei! Eu posso fazer aquilo!
Apanhou uma das frutas com seu bico cuidadosamente pelo pedúnculo e esmagou com a pata contra uma pedra deixando seu interior se espalhar sob ela.
_Dizem que uma forma de saber se uma fruta é comestível é esfregar um pouco contra a pele e esperar. Se for venenosa, deve causar algum efeito em minha pata depois de alguns minutos.
Em sua atual condição era difícil calcular o tempo além das diferenças entre dia, tarde e noite, então precisava confiar na intuição e esperar obter uma reação da fruta em sua pele. A paciência é uma virtude.
_Bem, acho que já é o bastante. Não sinto coçar ou queimar, então deve ser seguro para comer. Aqui vamos nós!
Apanhou outra fruta no galho, mas desta vez engolindo de uma só vez como todos os alimentos que consumiu após reencarnar, pois aves não possuem dentes afinal de contas, mastigar era algo impossível para ele.
_Hum. Humm. Hummmm, que delícia!
O sabor da fruta era adocicado e levemente ácido, fazendo Rikko sentir algo de familiar em seu sabor. Talvez já tivesse comido algo parecido em algum momento de sua vida passada. Seria o mesmo caso que as amoras da fazenda? Em todo o caso, ter de testar tudo antes de comer o desanimava. Aprender sobre as coisas desse mundo se fazia cada vez mais necessário.
_Muito gostosas, mas preferia não ter de comer as coisas com tanto med-
- Myrtille
_Hein?
Uma imagem surgiu e finalmente ele soube se tratar da fruta chamada Mirtilo, e realmente ele conhecia o sabor, mas não se lembra de ter visto a fruta em si, pois havia apenas sentido seu sabor ao comer um yogurte com a fruta como ingrediente. Embora satisfeito de saber o nome, tinha algo mais em sua cabeça agora.
_Mas só pode estar de sacanagem comigo… eu preciso comer para identificar? Menu!
Nova habilidade adquirida:
- Avaliação
Permite identificar qualquer coisa. Sejam objetos, criaturas ou seres vivos, todos podem ser avaliados perante essa habilidade. Necessário focar com a Visão o alvo de avaliação. É possível avaliar utilizando Olfato, Paladar e Audição, mas exige um foco maior desviando atenção de riscos.
_E só agora me avisa?
_…
_Ah, claro, não podemos perder a graça da piada, não é mesmo? Mas deixa pra lá. Então isso é Mytille… esse nome é Mirtilo em francês. Devem ter mais coisas em comum entre os dois mundos do que estou esperando. Melhor recolher o máximo que puder e armazenar na Caixa de Itens.
Itens adicionados:
- Mirtylle x173
_É bem pouco, mas melhor do que nada. Espero encontrar mais alguma coisa pelo caminho.
O tempo passou, mas sua busca não foi em vão, rendendo ao menos o suficiente para alguns dias se souber racionar bem.
- Fraise des Bois x 21
- Raisin Sauvage x 67
- Framboise x 99
_A variedade de frutas não está ruim, só queria ter chego antes dos outros animais. Acabei pegando só os restos. Mas agora eu preciso de água, estou começando a ficar com sede. Tá certo que eu tenho o isotônico, mas não é a mesma coisa, ainda mais se for a única coisa para beber.
Não demorou muito para conseguir água. Como já imaginava, havia mesmo um riacho nas proximidades, talvez o mesmo que passava pela fazenda, agora bem distante. A água parecia limpa e cristalina, e Rikko pôde notar que haviam peixes nadando calmamente em seu leito. Na outra margem havia um animal bebendo água que não deu atenção ao recém-chegado.
- Cerf Tricorné
Cervo dotado de três chifres, com o central no topo da cabeça tendo a função estética. Quanto mais belo e longo for o chifre, maior é sua chance de encontrar a melhor parceira. Sua carne é muito apreciada entre os homens que passam muito tempo fora de casa.
_Hum, parece gostoso, mas nem vou tentar. Aqueles cascos parecem bem dolorosos e não tenho qualquer chance. Então vamos para a água.
Se aproximou da margem do riacho com cuidado e olhando para os lados, seria alvo fácil para criaturas carnívoras procurando por água. Mergulhou o bico na água provando o primeiro gole. Estava ótima e na temperatura perfeita, nem muito quente ou gelada. Saciou a sede, mas agora vinha a parte mais complicada.
_Certo, encontrei água. Mas… como vou fazer para armazenar? Caixa de Itens!
A caixa surgiu no ar ao seu comando, então a direcionou para dentro da água.
Aviso:
Necessário recipiente para líquidos.
_Ah, claro. Até parece que daria para armazenar desse jeito, seu idiota. Pelo jeito você não jogou RPGs o suficiente ou é apenas burro. Preciso achar alguma coisa.
Vagou pela margem procurando qualquer coisa que pudesse servir como cantil, e já estava quase desistindo, quando notou algo semi- enterrado no chão.
_O que é isso? Parece algum tipo de couro. Será que é a carcaça de algum animal?
Ao cavar com um bocado de esforço, o objeto finalmente se revelou.
Item Adquirido:
- Odre Sujo x 1
Feito de couro de animais, pode ser utilizado para armazenar água, bebida e outros líquidos. Facilmente carregado à cintura durante as viagens.
_Nossa, quanta lama! Será que tá furado?
Levou o odre para o córrego, lavando-o da maneira que podia segurando com o bico. Após algum esforço enquanto lutava para não cair na água, o objeto revelou estar praticamente novo apesar de sua aparência imunda anterior. Ao mergulhá-lo na água, encheu rapidamente mostrando não ter nenhum vazamento. Como não conseguiria puxá-lo cheio para fora d’ água, armazenou na caixa de itens ali mesmo.
Item Adquirido:
- Odre com Água — Capacidade 2 Litros (Máxima) x 1
_Beleza! Não tá furado! Dois litros é muita coisa pra mim, vai durar bastante.
Naquela hora, um peixe saltou no córrego chamando sua atenção. Como que em sincronia ao mergulho do peixe, sua fome se atiçou.
_Hummm, peixe. Não seria ruim incluir no cardápio. E eu já sei como vou pegar.
Correu para uma grande pedra próxima e começou a cavar a terra macia ao seu redor. Não demorou para elas aparecerem. Um punhado de minhocas remexia vigorosamente após serem tiradas de seu esconderijo.
_Olá, amiguinhas. Tenho um trabalho para vocês.
Mesmo sentindo nojo, matou as minhocas e as levou no bico para perto do córrego. Seu objetivo era simples. Seguraria uma minhoca por vez em seu bico e mergulharia a cabeça na água. Com a minhoca, atrairia a tenção dos peixes menores e quando viessem morder a isca, os puxaria o mais rápido que pudesse com o bico para fora da água. Simples, mas pode funcionar.
_Essa pedra está bem firme, vou usar como apoio. Vamos lá!
Subiu na pedra, respirou fundo e apanhou a minhoca com o bico colocando a cabeça na água em seguida.
“Vamos lá, vamos lá, peixinhos! Mordam bem aqui!”
Falhou na primeira tentativa, pois o peixe arrebentou a minhoca antes mesmo que fosse pego, mas as seguintes foram muito bem, conseguindo apanhar oito pequenos peixes.
Item Adquirido:
- Gardon x 8
_Com esses, tenho mais alguma fonte de proteína além da carne seca. Agora, eu só tenho que… AAAAH, MERDA!
Nem tudo é perfeito. Rikko havia esquecido de um detalhe. Como ele faria para limpar os peixes? E, mais do que tudo, como ele espera fazer fogo para assá-los? Ter esquecido de um detalhe tão idiota o fez sentir tanta raiva que mal cabia tanta em seu pequeno corpo.
_MERDA! MERDA! MERDA! E essa agora!
Gritou, esperneou, mas era inútil. Precisava de fogo ou teria de comer cru, e essa não seria uma boa idéia para peixes apanhados na natureza que poderiam estar carregados de parasitas. Não sabia mais o que pensar e seu repertório de palavrões havia se esgotado. Foi então que lembrou de algo.
_É ISSO! MAGIA!
Sua empolgação com essa constatação o encheu de esperança. Com isso em mente, apanhou tantos galhos e gravetos quanto pôde. Cavou um buraco na terra fofa, juntou pedrinhas em volta, encheu o buraco com palha seca e gravetos e por fim e com muito trabalho, fincou dois galhos nas extremidades com mais um encima onde pretendia encostar galhos com os peixes permitindo girá-los no fogo. Estava tudo pronto, faltava apenas o principal. Postou-se à frente fogueira, respirou fundo e então levantou as asas de forma teatral.
_FOGO!
Nada.
_BOLA DE FOGO!
Nada ainda.
_EXPLOSÃÃÃÃO!!!
Para não dizer que nada ocorreu, uma das varetas com peixe se quebrou com seu peso, caindo no meio dos gravetos. Rikko chamou o menu de habilidades, olhou e olhou, mas não mostrava nada a respeito de magia.
_De que adianta ter esse monte de mana se eu não posso fazer um foguinho sequer? Thanya, SUA MALDITA!
Em algum lugar, uma certa arauta da morte espirrou sujando a tela de seu portátil com ranho. E naquele dia, Rikko teve de se contentar com carne seca, frutas e água. Os peixes ficarão para a próxima.
_Eu ainda vou comer peixe assado.
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