Reencarnado Como Galo em Outro Mundo
14 Capítulo 13 Comer ou ser Comido – Parte 1
Percalços à parte, Rikko aos poucos vai aprendendo a se virar para obter alimentos. Frutas silvestres não são tão escassas e enquanto ele seguir junto ao córrego não terá problemas quanto a água. O maior problema eram os alimentos proteicos, carne para ser mais exato. Sua atual constituição física de ave é um grande empecilho para essa tarefa e o fato de não ter aprendido a usar mana não lhe ajudava nem um pouco.
“Sem uma base e nem alguém que me ensine, como é que vou aprender a usar meus poderes, afinal?”
Não era como se ele não estivesse tentando. Relembrou em sua mente os vários jogos de sua adolescência, mas em quase todos sempre havia algum tipo de tutorial para ajudar o jogador seja por meio de textos ou personagens agindo como mestre, e como último recurso, ele poderia recorrer a revistas dedicadas a jogos.
“Uma dessas revistas cairia muito bem agora se na verdade eu estivesse em um jogo.”
Mas não. Não é um jogo, é a coisa real. E não tardou para Rikko descobrir isso da pior maneira quando decidiu parar à sombra de uma frondosa árvore e fazer uma refeição. Estava absorto demais em pensamentos para notar que o perigo finalmente o havia encontrado enquanto terminava de comer uma tira de carne seca.
“Droga, ser pequeno ajuda a economizar comida, mas por outro lado estou começando a ficar enjoado de tanto comer essa carne salgada. Se continuar assim vou ter de apelar e começar a comer peixe cru com escamas e tudo. Mas que segunda vida mais ingraAAAA- O QUE É ISSO!?
Subitamente Rikko ganhou altura contra a sua vontade. Uma cobra que o espreitava do alto da árvore se aproveitou de sua distração para dar o bote. Após descer lentamente pelo tronco, ele foi abocanhado pelas costas e agora precisava lutar por sua vida.
_ARGH! Me solta, sua minhoca superdesenvolvida! Seu bafo cheira à carniça!
É evidente que a cobra não o soltaria mesmo que tentasse pedir com educação. Então tudo que podia fazer era usar todas as suas forças para manter a boca da cobra aberta enquanto tentava encontrar um meio de escapar.
Mas estamos falando de uma cobra com um corpo muitas vezes maior do que Rikko. E já que sua refeição estava sendo muito persistente, começou usar a força de sua garganta para sugá-lo.
_EPA, ISSO NÃO É NADA BOM!
Cada vez mais Rikko via seu campo de visão reduzir à medida que afundava. Mas foi nesse momento de desespero que algo aconteceu.
_O que… é isso?
Suas pequenas garras começaram a emanar uma luz azulada que aumentava pouco a pouco.
Habilidade Adquirida:
- Garras de Aço
Custo: 10 SP por vez.
Torna garras quase tão fortes quanto aço. Seu efeito perdura até que o alvo seja atingido. Após isso, precisa ser ativada novamente.
A luz ficava cada vez mais forte até que envolveu seus pés por completo. Mas não era o momento para admiração, e sim o momento para apostar todas as suas fichas.
_Ok, é tudo ou nada! Toma essa!
_SHHHHHHHHAAAAAAAA!!!
Com um longo e alto sibilar, a cobra finalmente o soltou após ter sua língua decepada por uma de suas patas. Coberto de saliva, Rikko comemorou o resultado.
_É! É ISSO! Gostou dessa, maldita?
Alerta:
- Serpent des Forêts
Embora não possua veneno, não tem medo de avançar sobre suas presas usando sua boca e forte sucção. Seu suco gástrico digere suas presas em questão de minutos. Precisa comer ao menos quatro vezes por dia para satisfazer seu metabolismo.
_Você só é grande coisa quando pode pegar de surpresa, né? Mas agora quero ver o que vai fazer sem sua língua!
Cantou vitória antes do tempo. Perder o órgão sensitivo de forma abrupta deixou a cobra desnorteada, mas logo essa confusão deu lugar a uma fúria incontrolável e ela começou a investir contra Rikko dando bocadas que ele mal podia desviar.
_Epa! Opa! Ei! Calma aí! Vamos conversar!
Se a cobra por acaso havia entendido o trocadilho, jamais saberemos. Mas é fato que naquele momento ela parou de se mover e parecia preparar um ataque decisivo fixando o olhar em Rikko. Pressentido que só teria uma chance, ele tratou de se concentrar para atacar mais uma vez com suas garras.
_Não me falhem agora, minhas garras.
_…
_HÁAAAAAA...
_SSHAAAAA!
_TOME ISSO! GARRAS DE AÇO!
Ambos fizeram seus movimentos em sincronia. A cobra se lançou de boca aberta retesada feito uma flecha. Mas Rikko conseguiu desviar do ataque em pleno ar rodopiando seu corpo com a ajuda de suas asas. Atingiu em cheio a lateral da cobra, decepando sua cabeça. Seu corpo foi ao chão em espasmos e a luta teve seu fim.
_Arf, arf, arf… EU CONSEGUI!
Nível Adquirido.
Nome: Rikko
Classe: Ave Doméstica (?)
Nível: 1>2 (+1)
Vitalidade/ HP: 10>15 (+5)
Mana/ SP: 100+80
Força: 1>3 (+2)
Agilidade: 5>7 (+2)
Destreza: 1>2 (+2)
Inteligência: 10>2 (+2)
Carisma: 1
Habilidades
- Garras de Aço: 1>2 (+2)
_Oba, ganhei experiência! Não é muito, mas é um começo. Será que consigo armazenar o cadáver dessa coisa?
Evocou a caixa de itens e pôs sobre o corpo sem vida da cobra, que desapareceu no ar.
Itens Adicionados:
- Pele de Cobra: x1
- Saliva de Cobra x1 (50 ml)
_Ué, só isso? Espero que ao menos essas coisas tenham serventia.
Luta vencida, Rikko foi até o córrego lavar suas penas pegajosas de saliva. O cheiro azedo que emanava quase o fez vomitar, mas sentiu-se orgulhos de sua primeira vitória.
_Agora sim, sinto que estou em outro mundo! Seja lá o que for, pode vir! Estou preparado, hahahahaha!
Deixou o orgulho subir à cabeça, mas ao lembrar que estava apenas começando, estabeleceu que era necessário treinar mais e subir de nível o quanto antes e garantir sua sobrevivência.
Nos dias que se seguiram, concentrou-se em pequenas lutas contra animais da floresta e armazenar tudo que podia. Quando a carne seca acabou, decidiu engolir seu orgulho e começar a comer carne crua de peixes e animais para complementar sua alimentação.
Permaneceu na floresta por longos quatro meses alcançando a idade de um galo jovem. Sua aparência mudou durante esse tempo e as penas brancas que possuía mudaram de cor adquirindo as mesmas cores que seu pai, Kel, tinha. Preto e laranja agora eram suas cores predominantes, mas curiosamente em seu peito ainda haviam penas brancas que formavam um curioso padrão que lembrava algum tipo de ave.
_Mas que engraçado. Parece aquele pingente que Júlia me deu. Até que fiquei estiloso assim, e ainda tem essa crista maneira! — Dizia Rikko, admirando o próprio reflexo na água do córrego.
_Será que meus pais ficariam orgulhosos com o galo em que me tornei? Bem, os galináceos, sim. Agora vejamos meu status.
Nome: Rikko
Classe: Ave Doméstica (?)
Nível: 10
Vitalidade/ HP: 100
Mana/ SP: 100+100
Força: 10
Agilidade: 20
Destreza: 10
Inteligência: 15
Carisma: 1
_Eu não entendo… eu deveria estar mais forte do que isso, ou será que estou enganado? Será que fui negligente com o treinamento? E até hoje não entendi essa interrogação em minha classe…
Habilidades:
- Harmonia das Línguas
- Resistência a veneno (baixa) — Nível 5
- Avaliação
- Garras de Aço: Nível 10
- Aceleração: Nível 10
- Rajada de Asas: Nível 10
_Ganhei duas novas habilidades. Vão ser uma mão na roda daqui por diante, mas fico me perguntando até onde consigo evoluir. Agora, parando para pensar… talvez eu não tenha ficado mais forte porque continuo enfrentando animais comuns. Como seria se eu enfrentasse algum monstro? Acho que vou ter de sair daqui e descobrir. Está decidido! É isso que vou fazer!
Deu uma última volta pela floresta, recolheu algumas frutas, peixes e água e então considerou que estava preparado para ir. Mas ainda precisava decidir para que direção seguir. Subiu em uma grande árvore e ao chegar na copa, aguçou sua visão ao redor.
- Forêt d’Alvernac
_Então essa floresta tem um nome? E escrito em francês como os animais e frutas...hum? O que é esse ponto verde lá longe?
- Ferme Houx
Ponto inicial. Proprietários: Antoine e Margaux.
_Ponto inicial… é de onde eu saí. Então lá está a fazendo daqueles dois. Vou deixar marcado para nunca mais voltar lá. Bem, é hora de descer e botar o pé na estrada.
Rikko saltou da árvore sem pensar duas vezes, fazendo uso de suas asas para controlar sua descida. Aves domésticas não voam mais do que alguns metros, mas aterrissar de um lugar alto é uma outra história.
_Ufa! Ainda bem que tenho asas. Esborrachar no chão deve doer muito.
Levou algum tempo caminhando até finalmente encontrar uma estrada de terra batida. Não viu sinal de cidade ou qualquer outra construção próxima, mas pôde ouvir sons que pareciam cascos de cavalo. Voltou correndo para a floresta e escondeu-se atrás de uma pedra a tempo de não ser visto pelo grupo que se aproximava.
No comando dos cavalos havia um senhor de idade avançada que seguia de cabeça baixa com um grande chapéu de palha cobrindo o rosto queimado pelo sol. Sua carroça levava fardos de feno e algo mais. Sobre os fardos descansava um grupo de aventureiros, e não havia dúvidas quanto a isso. Suas roupas e armaduras se diferiam entre si e era possível saber a profissão de cada um.
_Aaaah, estou cansado de ficar deitado. Ei, coroa! Pode parar, vamos descer por aqui mesmo! O resto seguiremos a pé. — Disse um deles, um homem alto de cabelos bem curtos portando um machado.
_Quêee? É sério isso, Jean? Ainda tem um pedação pra andar! Tenha dó! — Replicou uma jovem moça usando túnica de cores escuras e portando um cajado e um enorme chapéu.
_Hahahaha! Claire está certa, Jean. Acabamos de voltar de uma quest trabalhosa, uma carona mais demorada não vai matar ninguém. — Disse um rapaz de armadura completa.
_Tsc! Lá vem você de novo, Henri! Você não precisa concordar com tudo que Claire diz! Um corpo bem treinado torna a pessoa mais alerta!
_Bem, não é como se eu não quisesse andar também, mas Claire gastou um bocado de mana, principalmente em você, ou será que já se esqueceu?
_Merda. Não posso negar isso, mas é que…
_Não é mais fácil admitir que você só quer descer para dar uma mijada? Na verdade eu também quero. — Interrompeu um mascarado com roupas pretas. — Não vai rolar esperar chegar na estalagem.
_DEDO-DURO!
_Não tem de que.
_Eca, que nojo! Isso é muito mais informação do que eu esperava! Axel, é muito rude falar isso na frente de duas damas! Olha só, Amélie está em choque! — Protestou Claire.
_E.. eu não… estou chocada. — Respondeu timidamente a menina usando trajes religiosos encolhida em um canto da carroça. — E-esse tipo de coisa é da natureza dos rapazes, e-eu acho.
_Você está certa em parte, Amélie. Mas Claire está certa em reclamar. Jean e Axel, se vocês querem tanto se aliviar precisam serem mais diretos, mas com educação. — Afirmou Henri.
_Tá bom, tá bom, foi mal, não está mais aqui quem falou. — Respondeu Axel, admitindo seu erro.
_AHHHH, foi mal! Mas vamos descer ou não? Estou quase explodindo aqui! — Avisou Jean enquanto apertava a virilha com as mãos.
_Você não tem jeito mesmo. Senhor! Pode parar. Vamos descer. — Disse Henri enquanto dava duas pancadas na carroça.
_Hohoho, muito bem. Não se deve ignorar quando a natureza chama, hohoho.
Todos desembarcaram. Jean e Axel correram em direção à floresta entrando no meio dos arbustos. Henri foi em direção ao carroceiro com um pequeno saco de pano em uma das mãos.
_Obrigado pela carona, senhor. Quando lhe devemos?
_Ora, ora, o que é isso? Vocês não me devem nada. Muito pelo contrário, foi um prazer e honra os trazer em minha carroça! Quem negaria uma carona para os aventureiros da Coeur de Lion, que ajuda a proteger nossas terras?
_Então mais uma vez, agradecemos! Siga em paz e até um dia!
_Hohoho, assim será. Tenham um bom dia! — Respondeu o carroceiro, tirando o chapéu e fazendo uma reverência antes de puxar as rédeas dos cavalos pondo a carroça novamente em movimento.
Na floresta, Jean e Axel se certificaram que não fossem vistos antes de urinarem. Rikko, ao ver que os dois vinham em sua direção, mudou de esconderijo rapidamente se metendo em um grande arbusto espesso e ficando abaixado.
“Droga, eles tinha que vir justo pra cá? Mijem de uma vez e se mandem!”
Foi o que pensou antes que sentisse algo quente e molhado o cobrir por inteiro.
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