Reencarnado Como Galo em Outro Mundo

11 Capítulo 10 Um Plano Cruel, Triste Destino e um Encontro


Alguns dias se passaram após o incidente com os ovos, Foi quando um grupo de pessoas de fora chegou, cerca de 18 a 20 pessoas, talvez até mais. Traziam em suas carroças cestas, sacos e até alguns animais vivos. Dois porcos enormes e quatro carneiros.

Todos no galinheiro pararam o que estavam fazendo para observar. Rikko terminava de engolir seu milho quando notou toda aquela movimentação, então aproveitou que estava um pouco mais crescido subir na cerca e observar melhor.


“Mas que monte de gente é esse?”


Haviam pessoas de todas idades, mulheres e homens. Crianças corriam pela fazenda fazendo algazarra e atiçando os pássaros nas árvores atirando pedras e paus. Os homens limpavam o terreno com vassouras de palha, pás e ancinhos rústicos enquanto as mulheres se dividiram em grupos.


Algumas mulheres mais jovens lavavam e descascavam frutas e legumes na beira do córrego enquanto cantarolavam e fofocavam; As mais velhas levaram os animais para os fundos da casa; As mais idosas recebiam os sacos e outros itens na cozinha e do furo em um destes sacos escorria algo que parecia ser farinha. O cão havia sido amarrado embaixo de uma árvore longe da casa, provavelmente para não morder as pessoas.


“Puxa, acho que vão fazer uma festa! E das grandes!”


Rikko se sentiu muito empolgado com tudo aquilo. Fazia algum tempo que não participava de uma festa levando em consideração sua vida anterior. Não que ele pudesse participar da comemoração em si, afinal agora não era mais um humano, mas talvez houvessem sobras que poderiam ser compartilhadas com o galinheiro . Mas foi então que se ouviram os sons horripilantes dos animais em agonia no fundo da casa, e pensamentos sombrios povoaram a mente do pequeno Rikko.



“Esses gritos… aqueles animais acabaram de serem sacrificados! Onde tem festa, tem comida, e se tem comida… há carne! E nós somos carne também! E agora?”


Se ainda restavam dúvidas na cabeça de Rikko, foram confirmadas quando o fazendeiro veio até o galinheiro com uma cesta e recolheu todos os ovos existentes, não deixando um sequer nem para as galinhas que estavam chocas. Antes de sair, olhou para as galinhas e então disse em voz baixa:


_Mas que porcaria. Eles dão a festa pra gente e ainda assim nós tem de oferecer comida também. Ainda bem que não precisa dar muita coisa. Duas já tá de bom tamanho.


“O que ele tá dizendo, droga?” — Mais uma vez Rikko se amaldiçoava por não ser capaz de entender uma palavra que fosse, mas uma coisa era certa: Haveriam galinhas na festa, só que não como convidadas.


Rikko não era o único a perceber isso. Gelda era velha o suficiente para ter visto esta situação acontecer algumas vezes antes, e diferente das outras galinhas, ela não se esqueceu de suas amigas sendo levadas. Sua mente vingativa começou a trabalhar. Correu para perto de suas admiradoras e as chamou em segredo.


_Venham comigo, temos coisas a discutir.


Rikko ainda perambulava ciscando pedrinhas pensando no que fazer. Simplesmente gritar “fujam, eles vão comer todos nós” não seria de grande ajuda, pois as aves já foram criadas com a resignação de que existiam apenas para prover alimento. Tentar salvar apenas os pais talvez fosse o melhor a se fazer, mas como convencê-los a isso? Foi então que perdido em pensamentos, ele ouviu.


_Hum, estavam deliciosas, não é?


_Sim, uma delícia! Pretinhas, fresquinhas e suculentas, hummm…


_Vamos contar para as outras!


_De jeito nenhum! Vamos para dentro e mais tarde voltamos para comer mais.


_Sim, vamos, será o nosso segredinho, hihihihi.


Três galinhas acabavam de voltar do buraco na cerca dos fundos que levava para a amoreira. Realmente a árvore estava carregada, então não era difícil haver amoras maduras no chão. Foi então que Rikko teve a ideia:


“É isso! Vou atrair meus pais para fora os chamando para comer amoras! Se eu fizer isso na hora em que o fazendeiro vier, não vamos estar à vista, e de lá vou tentar convencer os dois a fugir. Vai ter que dar certo!”


Plano elaborado, Rikko achou melhor confirmar se haviam amoras no chão o suficiente, ou seria difícil manter os dois ocupados por muito tempo. Correu até os fundos do galinheiro e atravessou a cerca.


_Ah, que bom! Tem um monte!


Ainda havia uma boa quantidade de amoras no chão, principalmente ao redor do tronco da árvore, lá estavam as mais suculentas. A primeira parte do plano estava garantida, agora só precisava atrais os pais para lá.


_Já que tô aqui, vou comer algumas bem rapidinho, e… EI!


O erro de Rikko foi ceder à gula. Não esperava que acima dele estava Gelda à sua espera, e junto dela, uma grande e pesada cesta velha pendurada na amoreira em uma ponta de galho velho. Tudo que Gelda precisou fazer era empurrar a cesta com toda sua força fazendo-a cair sobre Rikko o prendendo. As galinhas de antes estavam apenas jogando a isca, e ele caiu feito um pato. Aliás, pinto.


_Por essa você não esperava, não é mesmo, ladrãozinho? — Gelda agora o encarava por um pequeno furo na cesta.


_Me tira daqui, seu saco de penas! Me tira daqui agora!


_Ah, não tenha tanta pressa, pintinho afobado. Agora se me der licença, preciso cuidar da minha vida. Ah, mas não se preocupe, seus pais vão vir te buscar. Ou não, hihihihihihihihi!


_Sua velha coroca! Você vai ver só quando eu sair! Volta aqui!


No terreno do galinheiro, as galinhas ainda ciscavam normalmente, quando Gelda avistou o fazendeiro a caminho com um facão e uma cesta. Começou a correr e gritar.


_RAPOSA! RAPOSA! Tem uma raposa vindo para cá! Para dentro todo mundo!


O caos tomou conta. No início todos corriam de um lado para outro sem rumo, mas foi então que Goppa tomou as rédeas da situação.


_Acalmem-se! Vamos todos para dentro! Galos, bloqueiem as entradas por dentro, não podemos deixar a raposa entrar! Kel! Kohko! O que estão fazendo? Venham logo!


_Vão vocês! Precisamos encontrar Rikko! — Gritou Kel antes de dar as costas e correr.


Goppa não insistiu, a segurança dos outros estava em jogo. Em poucos segundos quase todos estavam dentro do galinheiro. Os galos usavam suas garras para segurar as portinholas de acesso aos ninhos, já que a porta grande estava sempre trancada por fora. Os únicos que não haviam se refugiado eram Kel e Kohko que estavam à procura de Rikko, e uma Gelda orgulhosa de seu plano que observava suas vítimas de longe.


_Lá vem ele, melhor eu entrar agora.


O fazendeiro já estava do lado de fora da cerca. O facão que trazia na mão brilhava sinistramente à luz do sol. Achou estranho avistar apenas duas galinhas circulando, mas pouco importava. Sua aparência não condizia com sua constituição física, pois entrou no cercado com agilidade o fechando por dentro e Kohko já estava indefesa à sua frente.


_AH, NÃO! KEL, ME AJUDE!


O fazendeiro não perdeu tempo e o facão desceu com velocidade, mas ao invés de Kohko, Kel é quem foi atingido ao defendê-la sendo atingido com força na asa direita. Mesmo ferido, conseguiu rasgar o braço do fazendeiro com suas garras em um último esforço antes de finalmente ser apanhado e pressionado contra o chão.


_KEL!!!


_QUERIDA, FUJ-


O impiedoso facão fez sua nova vítima e a cabeça de Kel rolou pelo chão. Kohko entrou em choque ao ver seu amado decaptado, não sendo capaz de escapar do golpe certeiro:


_Kel…


Seus corpos agora sem vida foram colocados no cesto que o fazendeiro trazia. Gelda não sentiindo nem uma migalha de compaixão se aproveitou da distração do fazendeiro para sair de seu esconderijo.


Ela se aproximava do galinheiro satisfeita de ter ficado até o último instante. Mas quando tentou entrar por uma das portinholas, percebeu que estava fortemente fechada. Quem a segurava pelo lado de dentro era Kakke, que havia visto tudo que aconteceu através de uma fresta.


_ABRAM! ME DEIXEM ENTRAR!


_NÃO ABRAM! A raposa está do lado de fora! Segurem firme! — Gritou Kakke.


Ninguém ousou obedecer a voz que vinha do lado de fora. Goppa, o único que poderia perceber a falta de Gelda estava ocupado demais segurando uma portinhola do lado oposto, não conseguindo ouvir a esposa gritando no meio da confusão.


_DESGRAÇADOS! SOU EU, ABRAM! ABRAM! A-


Um som foi ouvido em meio aos gritos de fora e de dentro. Gelda agora era mais um cadáver decapitado no chão a ser recolhido pelo fazendeiro.


_Duas já estava bom, mas vou levar mais uma, vai que reclamam.


Fora da cerca, Rikko ouviu a confusão no galinheiro, mas nada podia fazer. A Cesta pesada não cedia aos seus esforços e na posição em que estava, não pode avistar o fazendeiro.


Cerca de meia hora depois, o barulho no galinheiro perdia a força, mas isso só o deixou ainda mais preocupado. A mudança de humor das galinhas fora repentina demais.


Rikko já estava exausto de tanto empurrar e bater contra a cesta e não notou que havia adormecido. Quando acordou, havia pedido a noção de tempo e a luz sol já estava tocando a cesta embaixo da amoreira e iluminando seus olhos por uma fresta.


_O sol já está bem alto. Deve ser entorno de meio dia. Não aguento mais, quero sair daqui agora! Quero procurar meus pais!


Fez menção de recomeçar sua luta contra a cesta, mas algo lhe chamou a atenção. Não havia percebido um ponto de terra fofa no chão onde ficava uma das raízes da amoreira.


_Será que eu consigo cavar e sair daqui?


Concentrou todas as suas forças nos pés para revirar o chão, que não estava tão macio abaixo daquele ponto como gostaria e haviam algumas pedras persistentes em não sair do lugar. Levou cerca de uma hora para cavar um buraco grande o suficiente para se espremer e passar por baixo da cesta.


_Argh, consegui! Preciso ir pro galinheiro agora!


Seus pés estavam imundos de terra e cheios de machucados pelo esforço, mas não podia parar para descansar, sua preocupação com os pais era maior. Ao chegar no galinheiro, encontrou as galinhas ainda abaladas. Haviam sinais de sangue aqui e ali no terreno. Sentiu que o pior havia acontecido. Kakke e Goppa vieram a seu encontro.


_Rikko! Onde você esteve? — Goppa se alegrou ao vê-lo por um instante, mas em seguida sua expressão mudou.


_Kakke, melhor você contar a ele. Eu não consigo.


_Contar o quê?


_Rikko, nos perdoe. Eu não sei como contar isso a você, mas… seus pais foram levados, juntos com Gelda.


Rikko não conseguia falar. Já havia pressentido, mas ter a confirmação era ainda pior que a dúvida. Demorou um pouco para que ele pudesse recobrar o raciocínio. Mas quando Kakke e Goppa pensavam que diriar algo, saiu correndo a toda velocidade em direção à casa principal. Nessa hora todos os presentes comiam e festejavam o que parecia ser aniversário de casamento dos fazendeiros. Kakke veio atrás de Rikko tentando pará-lo, mas era tarde demais.


_Rikko! … Por favor, não olhe.


Mas ele não a ouviu. Não queria ouvir. Os festejantes estavam sentados em torno de uma enorme mesa improvisada. À mesa, pratos variados à moda do campo estavam dispostos, e entre eles… uma travessa de porcelana contendo restos de galinha que terminavam de ser devorados.


_...não...


Em uma árvore distante, o cão do casal partia e roía os ossos que restavam de seus pais e Gelda. Por sua inimiga não sentia qualquer píedade, ela havia colhido o que plantou, afinal. Mas não poderia dizer o mesmo quanto a seus pais.


_Ugh!


A tristeza tomou conta de Rikko. Sua comida queria voltar pela garganta, sentia tonturas, suas pernas perdiam as forças. Aqueles não eram seus pais originais. Estes ficaram em seu antigo mundo, sua antiga vida. Mas o pouco tempo que passou junto aos dois o fez sentir-se amado mais uma vez tanto quanto. E agora eles se foram.


Queria sentir ódio dos fazendeiros, mas o que havia a ser feito? Viveram a vida do jeito que podiam. Talvez pudesse sentir ódio pela violência com que mataram seus pais se Kakke resolvesse contar como foi, mas a verdade é que ele preferia não saber. Agora havia penas um pensamento em sua cabeça.


_Eu vou embora daqui.


_Então se decidiu. Para onde vai?


_Não sei. Qualquer lugar para longe daqui serve. Só não quero mais ficar aqui.


_Então vá. Vá agora mesmo, enquanto ninguém está olhando e não olhe para trás. Siga adiante e viva a vida que Kel e Kohko lhe deram. Boa sorte, pequenino. Que a vida he seja mais gentil.


_Adeus, senhora Kakke. Se cuida.


E então Rikko foi embora, tendo somente Kakke por testemunha. Bagagem? Nenhuma. O que um simples pinto poderia carregar consigo?

Certamente ódio e arrependimento além da tristeza pela morte de seus pais, a qual talvez pudesse adiar se não houvesse sido enganado.


Por algum motivo, lembrou de Júlia naquele momento. Queria que estivesse ali, consolando-o. Mas ela agora era apenas uma recordação a queimar estranhamente em seu peito.


Algumas horas de caminhada e a fazenda já se via ao longe e a noite dava seus primeiros sinais. Sentia fome e sede, sentia frio também ,mas nada queria além de ir para longe. Preferia até mesmo morrer despedaçado e mastigado naquela floresta por algum monstro ou animal que fosse, teria sido melhor do que ficar naquele maldito lugar aguardando sua vez de complementar uma refeição.


Irônico, não? Alguém que um dia trabalhou servindo aves, as cobrindo com temperos e fritando em óleo quente, agora era uma delas e sentia-se abatido pela morte de duas. Se isso não fosse irônico, ao menos seria triste. Ao menos para Rikko agora, sem rota ou destino.


A noite finalmente chegou. As duas luas pairavam no céu sem nuvens, dois olhos em tamanhos desiguais a acompanhar aquele pequeno ser patético. Exausto demais para continuar, encontrou um buraco na base de uma árvore, e lá com folhas secas fez sua cama. E adormeceu.


Seu sono não foi tranquilo. Reviu lembranças de sua vida passada, sobretudo as que menos queria ver. Sentia o coração apertado. Ameaçou chorar, e a visão de Júlia novamente surgiu e o reconfortou. Então relembrou os acontecimentos mais recentes, sentiu desespero e Júlia o acolheu. E então relembrou de seu futuro incerto, e Júlia lhe sorriu.


“Vai ficar tudo bem, Ricardo.”


“Jú-”


_FINALMENTE TE ENCONTREI!