Reencarnado Como Galo em Outro Mundo

1 Capítulo 1 O Cantar de um Galo Determinado


Acordou de bom humor. O dia lá fora parece ótimo e o ar tem ficado cada vez mais frio nestes últimos dias, sinalizando que o Inverno está a caminho. Ele odeia o Verão com seus dias de calor infernal que não parecem ter fim, embora odeie ainda mais utilizar transporte público cheio de gente. A ausência de espaço pessoal é sufocante, suas roupas amarrotam, e seu pesadelo se faz completo quando tem de lidar com pessoas suadas, principalmente homens que não tem cuidado com sua higiene. Esses são os piores.


Por esse motivo fazia questão de acordar mais cedo durante o Verão para evitar o terrível esmagamento humano que ninguém merece — especialmente ele em sua opinião — . Poder viajar sentado era um luxo ao qual podia se dar quando saía de casa cedo.

Odeia o Verão com todas as suas forças, e se lhe perguntassem algo positivo sobre a estação adorada pelo próprio Diabo, diria que são as garotas. Garotas com roupas leves, curtas e com sorte levemente transparentes como se estivessem assim apenas para satisfazer sua luxúria pessoal.


Para ele não havia coisa melhor para alegrar o dia monótono que uma saia levantada pelo vento ou um decote que mostra mais do que deveria, e seria ainda melhor se conseguisse um número de telefone ou rede social.


_Hum, mais um dia. Preciso me levantar logo.


Olhando a tela do celular, percebe que não pode fazer corpo mole, é hora de dizer “até logo” para sua confortável cama e se aprontar para o trabalho.


Seu nome é Ricardo Casanova, um curioso sobrenome que veio de seu pai, Juan Casanova. Certa vez leu algo sobre um famoso escritor italiano que era bastante conhecido por ser um sedutor nato e que levava este mesmo sobrenome. Parentes? Improvável.


Mas era fato que seu pai quando tinha sua idade era metido a conquistador, pelo menos até o dia em que uma de suas namoradas apareceu em sua porta acompanhada do pai e ostentando uma barriga a qual jurava não estar ali antes.


Com um filho a caminho, não teve outra escolha além de abandonar suas aventuras e até hoje trabalha como servidor público, cargo que conquistou com esforço honesto. Ricardo deveria aprender isso com o pai, mas não estava disposto a ter o mesmo fim por mais que lhe seja grato pela sua criação. Não era o que queria para sua vida.

Com isso em mente, Ricardo saiu de casa e atualmente aluga um pequeno apartamento com o aluguel mais barato que pode conseguir e de onde sai todos os dias para trabalhar na Lanchonete Deliciasas, seu primeiro emprego. Um nome tão ridículo quanto poderia ser, mas sempre tem clientes, isso ao menos mostra que por mais que o prato principal do local sejam frituras de frango super temperadas, as pessoas gostam de alguma maneira, talvez masoquistas.


Considera uma piada passar o dia inteiro vestindo um uniforme cheirando à óleo, mas sabia muito bem que ninguém começava por cima. De acordo com seu pai, “o trabalho dignifica o homem”, ou ao menos era isso em que acreditava. Mas Ricardo não pensava assim. Não estava lá apenas para suar e sofrer até que um dia o mandassem para a rua.


O dono da loja tem uma filha da mesma idade que ele, a qual costuma aparecer na loja e fingir trabalhar apenas para agradar ao pai. Ele tinha um plano quanto a isso. Contava com sua sorte e carisma, pretendia conquistar a garota talvez isso lhe trouxesse a chance de subir de cargo dando adeus àquele uniforme fedido. Mas até que isso aconteça, precisa se esforçar para não perder o emprego.

Após um bom banho e gastar o resto de perfume que ganhou de uma garota, vestiu-se e foi até a geladeira. Enquanto mastigava uma fatia de pizza da noite anterior, pensou se teria dado certo investir mais um tempo com a menina da perfumaria para ganhar mais perfumes.


Teria dado certo se não houvesse o fato de ter sido visto por ela paquerando a funcionária da padaria da esquina. Aliás, a pizza que está comendo foi carinhosamente oferecida por outra garota em quem investiu um dia após a confusão acontecer. Bebeu um último gole de refrigerante e voltou ao banheiro para escovar os dentes, seu melhor cartão de visita.

Não precisava acordar mais cedo desta vez. Era final do Outono e por sorte, o ônibus estava mais vazio naquele dia. Agradeceu aos céus por essa dádiva recebida em silêncio.


Tornou seu passatempo olhar pela janela durante o percurso admirando cada garota que passava distraída pelas calçadas, quando viu um anúncio de loja que o fez dar um ruidoso tapa na testa assustando os outros passageiros.

_ Ah, merda! Esqueci que era hoje!


Pediu desculpas aos passageiros e retornando aos seus pensamentos em seguida. Havia esquecido, mas o anúncio fez o favor de lembrar que hoje era 12 de Junho, Dia dos Namorados no país onde vive. Atualmente estava namorando — ou seja lá o que for seu entendimento por namorar — uma funcionária da Deliciasas.


Júlia, sua colega de trabalho, para ele não passava de um namoro que começou por brincadeira mas que acabou se estendendo por dois meses mesmo que estivesse saindo com outras, seu maior recorde de duração até hoje.


“Caramba, ela vai me matar…” — Pensar na fúria da garota o preocupou.

O relacionamento entre os dois não era de todo ruim, mas alguns dias atrás a filha do chefe finalmente começou a conversar mais com ele e a sorrir de tudo que dizia, então o namoro estava com seus dias contados.


Júlia era razoavelmente bonita e segundo ele, tinha peitos que valiam a pena. Ela ainda não havia percebido que ele estava de olho em outra garota, mas ele precisava arrumar uma desculpa para o término da relação de forma amistosa, mas esse 12 de Junho parecia ter se adiantado apenas para atrapalhar sua vida.

“Droga, não tem nenhuma loja perto da lanchonete que sirva para comprar um presente convincente. Será que consigo arrumar alguma coisa durante meu intervalo de almoço?”

Não havia mais tempo para pensar. Seu ponto de descida do ônibus se aproximava e as chaves da loja estavam sob sua responsabilidade.


“Não tem jeito, resolvo isso mais tarde.” Pensou.


Ele iria arrumar um jeito de enrolar Júlia e dar qualquer coisa para ela como presente assim que tivesse uma chance de sair da loja. Mas terá que fazer isso sem que a filha do chefe visse, pois estavam namorando em segredo e a descoberta atrapalharia os seus planos.


“Dizem que “onde se ganha o pão, não se deve comer a carne”, mas a pessoa que inventou essa expressão pode se entupir de pão até explodir, eu vou é me dar bem!” — Pensou ele, debochado.

Eram sete horas e quarenta e cinco minutos. Faltavam quinze minutos para abrir a loja e somente ele havia chegado.


Ricardo tirou as chaves de seu bolso e começou a destrancar os cadeados da grade e na porta dos fundos da loja e então subiu as escadas em direção ao vestiário masculino, um pequeno e apertado quarto onde era obrigado todos os dias a se trocar. Vestiu o horroroso uniforme de cores branca e amarela, mas o surrado avental oleoso ficará para depois.


O uniforme estava fedendo a suor, mas não tem outra escolha. Havia esquecido seu uniforme reserva pendurado na área de serviço e acabou molhando com a chuva da noite anterior, não houve chance de secar a tempo.


“Pensando melhor, minha folga é amanhã, então posso aguentar mais um dia com essa droga de unforme sujo. Com um pouco sorte consigo enrolar Júlia e dar um presente pra ela amanhã.”

_ Bom dia, Ricardo! Chegou na hora, hein?

Sentiu seu coração bater na garganta. Júlia havia acabado de chegar. Como estava em cima da hora apenas o cumprimentou rapidamente e subindo para o vestiário feminino. Não vestia nada que pudesse considerar chamativo, mas suas curvas se destacavam bem e ver o traseiro dela balançando ao subir a escada era uma visão ótima para ele.


“Caramba, olha só essa maravilha… vai ser um desperdício terminar com ela.”

Agora uma rápida explicação sobre as chaves. O gerente que Ricardo adora odiar se aproveitou do fato que o dono da lanchonete sempre chegava mais tarde para jogar as chaves em suas mãos e abrir a loja sozinho. Isso poupava o seu trabalho.


Acrescente o fato que o gerente gosta muito de beber e farrear à noite e assim Ricardo acumulava uma nova função contra sua vontade.


Ricardo ardia de raiva a cada vez que isso acontecia, mas o gerente tinha as costas quentes com o dono da loja. Tentava se consolar que era apenas questão de tempo, pois quando conseguir ter a filha do chefe comendo em sua mão, esse jogo virará a seu favor.

_ E então, vai ou não vai abrir a loja?

Júlia havia retornado e agora estava de uniforme parada ao seu lado com um sorriso no rosto.


Ele havia se lembrado ter visto no quadro de escalas que ela viria trabalhar, mas achava que seria durante o horário da tarde e não da manhã.


Esse fato smente serviu para atrapalhar ainda mais seus planos de improvisar um presente, pois ela descobriria que não havia um para ela.


Ricardo agora torcia para que ela não perguntasse sobre o presente dela até o dia seguinte, ou teria de apelar para bichinhos de pelúcia dos jogos de garra, ele era particularmente bom nessas máquinas. Pegou vários para dar de presente para outras garotas, sua estratégia mais básica de conquista.

_ Estou quase terminando. Hermes jogou essa bomba na minha mão de novo, mas como sou responsável, não vou deixar ele me ferrar.

_ Ah, é verdade. Ué, que cara é essa? — Ricardo olhava para o outro lado enquanto falava, mas ela havia percebido. — Viu alguma assombração?

_ Não é nada. — “É mentira, mas de jeito nenhum vou dizer que esqueci do presente dela!”- Eu só estava pensando na merda que poderia acontecer se o patrão chegasse e não visse Hermes na loja.

_ Deixa rolar, você não tem culpa de nada. Eles que são grandes que se entendam.

_ Hahahaha, é, tô me preocupando à toa, afinal eu visto a camisa da empresa — “fedida, mas visto” -. Contou o dinheiro do seu caixa?

_ Sim. Pelo menos desta vez a “fofa” da Marilise não fez a burrada de contar o troco errado. Já paguei duas faltas por causa dela e a cara de pau nem liga, uma filha de patrão que não sabe contar dinheiro. Se bem que não deve nem andar com dinheiro no bolso para as festinhas dela, usa o cartão do papai. — Respondeu enquqanto fazia gestos de “princesa” com as mãos e o corpo.


_Isso é bem a cara dela, mas não me lembro dela fazendo esses movimentos aí, não.


_Ahh, deixa de ser chato! — Júlia bufa e faz careta com a língua.

Marilise é a filha do dono da loja que aliás se chama Senhor Alberto, como o próprio fazia questão de ser chamado. E Júlia não estava falando besteira, Ricardo já havia seguido Marilise até uma festa rave na periferia da cidade e a viu esbanjando com o cartão de crédito em uma mão e um copo de bebida na outra. Ricardo já imaginava a dificuldade de conquistar uma garota fútil feito ela.

_ Melhor você ficar alerta, não marca bobeira com ela. Epa, já são oito horas, o resto do pessoal deve estar chegando.

Ricardo falava como se fossem chegar várias pessoas, mas na verdade, apenas mais dois funcionários estavam sendo esperados para chegar no horário da manhã. Camila, a outra atendente e Marcelo, cozinheiro que segundo Ricardo era quem realmente mantinha a loja de pé com sua comida bem preparada.

Quanto ao gerente chamado Hermes, deve estar correndo feito um desesperado para chegar antes do chefe enquanto evapora sua mais recente ressaca. Imaginá-lo chegando atrasado seria divertido, mas sabe que não adiantaria muito. O dono da loja chega na hora que quer, e todos os dias traz sua amada filha com ele.


A esposa de Alberto, Solange, aparecia apenas em final de mês para raspar o cofre da loja e patrocinar suas compras caras. Os funcionários respiravam aliviados quando sobrava algo para seus salários.

_ Melhor me adiantar e ligar as fritadeiras. Preciso fritar os enpanados que sobraram ontem. Se não botar para vender ainda hoje e a vigilância sanitária aparecer aqui, Alberto vai comer nossos fígados com cebola.

_ Ui, que medo. Mas antes disso, toma aqui o seu presente! — Disse ela, estendendo a mão que carregava um pequeno embrulho verde.

_Presente? Meu aniversário é só mês que vem! — disfarçou descaradamente, embora a parte do aniversário fosse verdade.

_Hoje é Dia dos Namorados, seu mané! Não vai me dizer que esqueceu? — Disse, puxando a orelha de Ricardo em tom de brincadeira.

O tom das palavras de Júlia soavam como brincadeira, porém seu olhar deixou bem claro que Ricardo estava pisando em um campo minado. Qualquer descuido era fatal. No entanto, havia algo mais emotivo nesse olhar e Ricardo viu a chance que precisava para improvisar.

_Ah, não, não! Não me esqueci de comprar, mas… eu esqueci em casa! Foi mal, prometo trazer amanhã sem falta, a embalagem é até bem bonita!

_… é mesmo? — Pôde ver o brilho em seu olhar mudando e um sorriso surgiu, a desculpa parecia ter colado. — Eu vou cobrar, hein?

_Tá, pode cobrar. Amanhã é minha folga, mas eu venho na loja só para te trazer seu presente, pode esperar.

_Ok, só quero ver.


“Ferrou, agora ela me botou na parede! Tenho de comprar alguma coisa, e tem de ser caprichada ou ela vai causar um caos dentro da loja!” — Pensar na cena lhe deu calafrios.

Felizmente para Ricardo a conversa havia terminado. Hermes acabava de estacionar seu carro em uma vaga ao lado da loja. Era possível ver de longe suas olheiras fundas sinalizando que a última noite foi daquelas. ele não veio sozinho.


Camila e Marcelo saltaram do carro logo em seguida, com Marcelo postando-se junto ao porta-malas do carro. Hermes veio ao encontro de Ricardo, seu sorriso amarelo brilhante como nunca.

_Bom diia, Ricardo! Muito bem, chegou na hora e já abriu a loja, ganhou um ponto comigo. Já fritou os empanados de ontem?

_Bom dia, Hermes! Eu ia fazer isso agora.

_Como assim? Porra, e eu tinha te elogiado! — Rosnou furioso — Vem logo pegar essas caixas com o Marcelo e levar lá pra dentro! E depois vá fritar a droga dos empanados! Se Alberto chegar e não tiver nada pra vender, a cabeça de alguém vai rolar, e garanto que não será a minha! — Vociferou enquanto abria o porta-malas.

_Sim, senhor! Agora mesmo! — Respondeu, mecanicamente.


Não era a hora nem momento de discutir, mas quando Hermes foi para a loja dado fortes pisadas, Ricardo sussurrou um palavrão entredentes:


_...Seu filho da puta.

No carro, haviam várias caixas com pedaços de frango congelados pingando em folhas de plástico que foram postas cuidadosamente no fundo para não molhar o estofamento recém-aspirado.


Enquanto carregavam as caixas, Marcelo comentou que estava com Camila — moravam no mesmo bairro — esperando o ônibus quando Hermes apareceu e “gentilmente” ofereceu uma carona.


Quando se deram conta, estavam no estacionamento de um supermercado. O plano de Hermes era abastecer a loja e havia conseguido um casal de idiotas para o serviço. A entrega de frangos daquela semana estava atrasada.


_Entendi, vocês tiveram azar. Mas caramba, quanta caixa, bem que as meninas poderiam aju-ah, esqueçe.

À essa altura Júlia já havia desaparecido com Camila para dentro da loja. Escapou de levar um sermão enquanto Ricardo era mastigado, mas fez questão de aparecer rapidamente na porta da cozinha.

_Ei, não esquece de abrir seu presente depois, tá?

Passava das dez horas quando finalmente os donos da loja resolveram aparecer. Pareciam rei e princesa descendo da carruagem, um Jeep preto com sua carroceria e rodas com brilho de java jato.


Primeiro entrou Alberto com sua costumeira carranca de mau humor. Ricardo apostava que ele preferia ficar em casa confortavelmente dando as ordens pelo telefone, mas o homem era do tipo que só acreditava na engorda das galinhas se as apalpasse pessoalmente.


E além do mais sua sala tem o melhor ar-condicionado do local e um confortável sofá, não passaria desconforto por nada. Sem ao menos dar bom dia a ninguém, foi direto à cozinha e avistando as caixas de frango vazias.

_Hermes! Vem aqui.

Ao ouvir seu nome sendo chamado, Hermes teve um arrepio. Veio ao encontro de seu chefe a passos largos tentando conter os efeitos da bebedeira na noite anterior. Não poderia vacilar nem por um instante.

_B-bom dia, Senhor Alberto! A seu serviço! — Dizia com um sorriso mais que forçado — Algo não está de seu agrado?

_O caminhão com os frangos congelados. Cadê o maldito do motorista que não apareceu para entregar até agora? Ou só entregou essas caixas Aqui? — Rugiu apontando as caixas empilhadas.

_Liguei para ele de novo hoje! Disse que precisava levar o caminhão ao mecânico, problema com o motor ao que parece. Mas garantiu que viria entregar ainda hoje depois que buscar os frangos no distribuidor.


_E essas caixas?


_Eu me adiantei comprando essa caixas no supermercado porque não tinha quase nada para vender. Aqui está a nota fiscal. — Tirou uma folha de papel dobrada do bolso e entregou ao chefe.


Uma veia na testa de Alberto parecia pronta para estourar.

_Mas que merda! — O soco na parede da cozinha e o palavrão podiam ser ouvidos no salão. — Liga de novo pra esse maldito e avisa que se não aparecer aqui até às quatro horas não precisa vir mais! E vai me ressarcir cada centavo!

Após seu veredito, subiu as escadas em direção ao seu escritório enquanto bufava.


_S-sim senhor, vou fazer isso agora mesmo! — Sentindo o sangue congelar, Hermes correu para telefone sentindo suas pernas vacilando.

_Alô, Gilmar? É o Hermes.

_Opa, seu Hermes! Pode falar.

_Vou direto ao ponto. O Senhor Alberto mandou avisar que se você não chegar até as quatro horas com a mercadoria, não precisa mais vir e que vai ter de arcar com o prejuízo. Desculpe, ordens do patrão.

_Calma, espera aí! Não vou deixar vocês na mão, é que o caminhão precisa de peças, mas já estou resolvendo isso. Se não der pra usar o caminhão, tenho um conhecido que pode emprestar o dele. Seu chefe pode ficar sossegado.

_Eu te entendo, essas coisas acontecem. Vamos ficar te aguardando. — com suspiro de alívio, Hermes fez o movimento de levar o telefone ao gancho.

_Seu Hermes, espera! — Assim disse a voz de Gilmar.

_Hã? O que foi, tem algum outro problema?

_É que vai ter muita mercadoria, vou precisar de ajuda pra descarregar.

_Ah, só isso? Não tem problema, eu seguro o Ricardo depois da hora e faço ele te ajudar.

_Ricardo é aquele magrelo de topete, né?

_É sim, porque?

_Nada não. Até mais tarde.


Hermes desliga o telefone ponderando por um momento o que Gilmar queria dizer com aquilo, mas na verdade para ele pouco importava, contanto que pudesse afastar as presas de Alberto de seu pescoço.

Do outro lado da linha, Gilmar desligava o celular enquanto tirava do bolso o dinheiro para pagar o abastecimento de seu caminhão ao frentista. Mentiu sem qualquer arrependimento sobre o estado do veículo.


Pagamento feito, deixou o posto de combustíveis, mas antes de seguir pela estrada, apanhou novamente o telefone e fez mais uma ligação.

_Oi, pai! Ainda tô na escola, o que foi?

_Diana, papai vai passar na escola pra te buscar, a gente vai resolver aquele assunto ainda hoje.


_Ai, pai, deixa isso pra lá!

_De jeito nenhum! Ele te fez chorar, não vou deixar isso assim!

_Eu não devia ter te contado.

_Você é minha filha, e meu trabalho como pai é cuidar de você. Se aquele pirralho teve culhão de beijar outra garota na sua frente, merece ter uma conversinha comigo. Te prometo que não vou fazer nada demais com ele, só conversar.

_Promete?

_Prometo, meu docinho. Confia no teu pai. Até daqui a pouco.


Com um suspiro, a voz do outro lago da linha assentiu desligando em seguida. Gilmar abre o arquivo de mensagens visualizando uma foto em particular. Uma selfie. Nela, sua filha estava sorrido abraçada com um rapaz e uma festa ao fundo. Era Ricardo. Gilmar olhava fixamente para seu rosto e disse em voz baixa:


_Só uma conversinha, mesmo. — Então checou a pesada barra de ferro escondida atrás do banco, até então usada apenas para afugentar ladrões.

De volta à lanchonete, finalmente Marilise entrava no restaurante. De óculos escuros e celular na mão, fazia pose forçada de modelo. Júlia mal conseguia conter o asco e a cara de desgosto se esforçando para que ela não notasse. Marilise foi até ela e a cumprimentou.

_Oi, amiga. Você parece ótima hoje!

_Ah, oi, Marilise. Obrigada, você também.

_Sempre estou, bobinha! Ricardo veio hoje, né?

_Veio sim, porque?

_Só perguntando mesmo, não precisa forçar sua cabecinha.

_Tá bom. Escuta, minha escala tá alterada. Tinha pedido uma folga pra amanhã, o que aconteceu?

_Ah, sua folga? É que a Camila precisava de folga amanhã pra levar a avó no médico, coitadinha. Quebra essa pra ela, tá?

_Mas ela não me disse nada.

_Uéee, não falou com você? Camila! Vem cá rapidinho!

Do outro lado do salão veio Camila. Desajeitada, tropeçou em uma cadeira quase deixando cair seus óculos de lentes espessas.


Júlia gosta dela, sempre que pode ajuda a colega a atender os clientes e controlar sua timidez, o que tornava Camila o prato predileto de Marilise para exercer sua pretensa autoridade. A fazia de gato e sapato.


E essa relação de subserviência chegava a seu cume naquele momento.

_S-sim, senhorita Marilise!

_Milinha, você não tinha pedido para trocar a sua folga? Júlia disse que não estava sabendo.

“Milinha” não era um apelido carinhoso. De forma alguma. Era a senha subliminar deixando bem claro por Marilise que ela deveria agir de acordo com suas orientações, recorria à esse apelido sempre que lhe convinha para desespero de Camila.


Toda vez em que a ouvia chamar assim a fazia engolir em seco, afinal precisava do emprego para cuidar sozinha de sua avó, única parente que lhe restava no mundo.

_S-sim, a minha avó está com suspeita de pnemonia, preciso muito levar ela pro médico. M-me desculpa, Júlia!

_Tá, tudo bem, você precisa mais do que eu.

_Obrigada! — Camila responde chorosamente, evitando cruzar olhares com Marilise.

_Prontinho, Camila. Era só isso, pode ir.

_Sim, senhorita! — E lá se foi novamente para o fundo do salão tão rápida quanto veio.

Sentindo-se triunfante, Marilise estufou o peito se virando para Júlia:


_Viu? Agora acredita e mim?

_Mas eu não disse que duvidava, só não entendi a troca.

_Ah, tá bom então. Mas não se esqueça, o que eu disser, está dito.

_Tá, entendi, desculpe.


Na verdade Júlia queria muito retrucar, mas sabia que discutir com Marilise era o mesmo que brincar de amarelinha às cegas em um campo minado. Camila também sairia prejudicada, então preferiu engolir o sapo. Ao menos por enquanto.

_Assim tá melhor. Vou subir, meu pai quer me ensinar a fazer a contabilidade da loja. Quem sabe um dia eu te ensine também, né? Uma ajudinha para subir na vida, vamos ver. Até mais tarde!

Deixando Júlia ardendo por dentro, foi em direção à escada com um andar vitorioso. Mas antes de pisar no primeiro degrau aproveitou para falar com ]Ricardo que tinha acabado de sair da cozinha com um pedido.

_Oi, Ricardo! Não vai derrubar a bandeja, tá? — Uma piscadela de olho e aquilo parecia ter um feitiço de efeito inverso; Por muito pouco Ricardo não deixou o prato com asas de frango cair com a surpresa.

_O-oi, Marilise! O dia está lindo lá fora, né?

_É, pode ser. Até depois. — Subiu sorrindo as escadas.

_Sim, até depois!

Ricardo estava com um sorriso estampado na cara, mas ao ver que Júlia lhe observava com mais afinco do que anotava o pedido de um cliente, achou melhor disfarçar e entregar o pedido..

Notas finais
Espero que tenham gostado de minha história, e saibam que tem muito mais para vir!