Reencarnado Como Galo em Outro Mundo

7 Capítulo 6 Do Ovo Para Um novo Mundo


Tudo ficou branco e sem som ao seu redor. Um infinito e sereno branco.


“Onde eu tô agora? O que vai acontecer comigo?”


Seu peito emanou uma estranha luz e novamente sentiu seu corpo sendo puxado para o que parecia ser um túnel surgido do nada à sua frente. Caso seja o Inferno para onde esteja indo, está conformado, nunca esperaria alcançar ao Céu, não depois de tudo que fez.


Ao final do túnel, estava novamente em um lugar de infinito branco com ainda mais túneis, cuja quantidade era impossível calcular. Novamente seu peito brilhou agora ainda mais forte e um novo puxão ocorre agora a uma velocidade absurda, mal podia se mover.


Ei, pera aí! VAI DEVAGAAAAAAR…


A velocidade crescia cada vez mais a ponto de sentir a impressão que seu corpo estava se desfazendo como areia e poderia sumir a qualquer momento. Preferiu fechar os olhos e se deixar levar quando ouviu uma estranha voz:


E-EI! QUEM É VOCÊ? DE ONDE VE- AH, VOLTA AQUI!!!


Seja lá quem fosse, ele não poderia parar nem se quisesse. Parecia uma voz de mulher, mas não teve tempo de ver de onde vinha.


“Até quando eu vou ficar assim? Tô começando a ficar enjoa-


Com uma parada brusca, sua alma finalmente se implodiu em pó e tudo ficou escuro. Sem olhos, não podia ver. Sem ouvidos, não podia ouvir. Havia apenas sua consciência, ou era o que achava. E mesmo essa agora sentia se apagar. E nada mais sentiu perdendo a noção de tempo mais uma vez.


“Eu dormi? Que sensação de aperto é essa?”


No meio do escuro, estava em algum lugar apertado e quente. Não sentia sua respiração e isso lhe causou incômodo. Seja lá onde estivesse, queria sair, e sair agora! Procurou um ponto de apoio na abafada escuridão, mas ao tentar tatear em busca de saída, percebeu que algo estava errado.


“Eu não sinto minhas mãos! Onde estão meus dedos? E meus pés, eles estão estranhos!”


Checadas todas as estranhezas, tentava agora sentir seu rosto. Mas mesmo este agora não era mais como conhecia. Entrou em desespero quando sentiu sua boca protuberante e pontuda. Pôs-se a gritar a plenos pulmões.


_SOCORRO! ME TIREM DAQUI! SOCORRO!


Não havia notado até então que sua voz também estava estranha, parecia mais jovem e esganiçada, mas isso agora pouco importava. Foi então que no meio de seu desespero ouviu um som de algo se rachando ao seu redor e de fora também vinham som de pancadas.


_Tem alguém aí fora? EI, EU TÔ AQUI!


Finalmente um buraco se abriu perante seus olhos. Estava livre. Se arrastou pela saída forçando para alargá-la, mas nada podia ver, pois sair de um lugar escuro para a luz exigia tempo para recuperar a visão.


A primeira coisa que viu com muito custo foi aquilo em que estava preso. Lhe parecia ser uma enorme casca de ovo de cor levemente rosada, ou seja lá que cor era.


_Que droga é essa? Eu saí de um ovo? O que tá acontecendo aqui…?


Olhar para seu próprio corpo serviu apenas para aumentar o pânico que já sentia. Tinha asas, pés de ave e agora conseguia ver o que estava à frente de seu rosto. Um bico!


_MAS QUE PORRA É ESSA???


_...Porra? O que é porra, meu filho?



Sua linha de raciocínio fora interrompida por alguém. Agora completamente acostumado com a luz, virou-se na direção da voz e se deparando com o que parecia uma enorme pata de ave. Seguiu sua forma até a outra ponta encontrando uma ave gigante conectada a ela. Era uma galinha branca com pintas amarelas gigante. E estava o encarando curiosa.


_UAAAAHHH! QUE ISSO? — Com o espanto, saltou para trás caindo sobre a casca de ovo terminando de quebrá-la. A galinha gigante não esboçou surpresa alguma com seu susto, olhando-o com curiosidade.


_Você está bem, meu filho? Se machucou?


_Bem nesse momento é uma palavra muito relativa, mas… não me machuquei. — ao se dar conta do que ela lhe chamou, perguntou — Porque está me chamando de filho?


_Porque você é meu filho, porque mais seria? — A resposta era tão natural e direta que fez Ricardo — ou seja lá o que ele era agora – ficar boquiaberto.


_Fique aqui, meu filho. Vou chamar seu pai. QUERIDO! VENHA AQUI! NASCEU, NOSSO FILHO NASCEU!


Ricardo olhou ao redor e só então se deu conta de que estava em algum tipo de galinheiro. Haviam vários ninhos de palha rente às paredes, poleiros e um forte cheiro que vinha do chão de terra batida com serragem e repleto de montinhos escuros aos quais preferia não saber o que eram embora tivesse certeza. Realmente, era um galinheiro. E ele, um pinto.


_Onde ele está, Kohko? Ah, meu precioso filho! Ele é lindo, minha querida! Nosso filho!



_Sim, querido! Nosso filho, e nossa salvação. — Juntou seu pescoço ao dele como se abraçassem e fecharam os olhos suspirando.

Agora havia um enorme galo à sua frente. Crista proeminente, esporas afiadas, olhos amarelos a lhe fitar em um misto de seriedade e alegria. Pôs-se a gritar.


_MEU FILHO NASCEU! VENHAM TODOS VER!


Fora do galinheiro havia uma grande comoção de vozes misturadas ao longe. Outras galinhas ao que parecia, e bem animadas.


_Kel, meu querido. Precisamos dar um nome pra ele.


_Sim, um nome bonito como merece.


_Eu gosto de Chiko, o que lhe parece?


_Falta imponência. Kello, pois é meu filho, que tal?


_Muito feio — Até Ricardo se espantou com a sinceridade bruta de sua “mãe” — Hum… Kikko?


_Mas é quase a mesma coisa de antes — Retrucara Kel, chateado.


_O meu nome é Ricardo! — Tentou intervir. Não gostava dos nomes de jeito nenhum.


O casal se entreolhou. Ricardo teve a impressão que não deveria ter se intrometido, mas agora era tarde demais e então ficou em silêncio esperando uma resposta.


_Ricardo? Que nome é esse? Você acabou de nascer, meu filho. De onde tirou isso?


_Ele começou a falar logo depois que saiu do ovo, querido. Ele com certeza é especial! Não achei esse nome feio, mas… Já sei! Rikko! O que acha, meu amor?


Kel, seu “pai”, ficou pensativo por um instante enquanto o encarava com seu olhar inquisitivo. Então deu seu parecer.


_Muito bem! Rikko, esse será seu nome! Seja bem-vindo, Rikko!


_É, vai dar pro gasto. — Pensou “Rikko” em voz baixa.


_O que disse, meu filho? A mamãe não entendeu.


_N-não é nada, eu gostei! Meu nome é Rikko!


Achou melhor não tocar mais no assunto, não que lhe importasse à aquela altura, estava mais interessado em saber onde estava e em qual situação se metera. O fato de galinhas falarem nem o espantava mais. O burburinho fora do galinheiro estava mais alto e próximo, foi quando Kel tomou novamente a palavra.


_Quanto ao nome, estamos resolvidos. Agora precisamos mostrá-lo aos outros. Venha, Rikko. Devem estar curiosos para te ver. Mexa suas pernas e venha eriçarr suas penas!


Rikko agora estava fora do galinheiro. No céu, um tímido sol surgia por detrás das montanhas e podia sentir o frescor do vento trazendo o aroma das árvores. “Muito melhor do que ficar confinado naquele ovo apertado”, pensou.


À sua frente, um grande grupo de galos e galinhas de várias cores o fitavam com curiosidade formando uma meia-lua reunidos. Falavam entre si desordenadamente sendo difícil entender o que diziam. Kel tomou a frente e pronunciou:


_Ouçam todos! Este é Rikko! O nosso filho!


_Finalmente depois de tanto tempo, Kel! Já estávamos preocupados! — Disse um galo preto à frente.


_Sim, Goppa. Já não tinha mais esperanças, mas fui agraciada ao menos uma última vez. — Kohko respondera, orgulhosa.


“Uma última vez? O que ela quis dizer com isso?” — Rikko ficou pensativo com aquela afirmação, mas ter o tal Goppa o encarando olho no olho afastou esse pensamento por enquanto.


_Ele parece saudável. Ainda é cedo para ter certeza, Se ele for em frente, pode ser que vocês não sejam levados. Alegrem-se e tenham esperança!


Uma das galinhas, de cor laranja, cantou de alegria e foi falar com Kohko. Parecia bem feliz.


_Eu sabia que conseguiria, Kohko! Há mais em você do que todos esperavam! — Disse ela encarando as outras galinhas em tom de satisfação.


_Isso é uma afronta! — Comentou uma galinha cinzenta em tom claramente descontente. — Eu, Gelda, nunca duvidei!


_Isso mesmo! Isso mesmo! Isso mesmo! — Um grupo atrás de Gelda tomou suas dores em coro. Gelda se sentiu poderosa partindo para a retaliação mais uma vez e ainda mais feroz.


_Está vendo? Não precisamos de alguém tão desconfiada! Melhor segurar a sua língua, Kakke, pode acabar tornando seus ovos mais amargos do que fel!


_JÁ CHEGA! BASTA DISSO! — Gritou Goppa calando Gelda e os demais. — Hoje é um dia de alegria, e devemos congratular os dois por sua cria! Lamento por isso, Kel. Imagino que tenha muito a ensinar ao seu filho, então melhor que o faça agora. Esqueça essas despeitadas.


_Farei isso, obrigado. — Kel assentiu com a cabeça — Venha, Rikko, vou lhe mostrar o lugar.


Kel o levou através de um buraco escondido na cerca e começou a lhe mostrar os arredores a partir dele . Parecia ser uma pequena fazenda focada em criação de galinhas, havendo poucos animais que denotassem outro uso senão o de subsistência. Haviam dois cavalos em um pequeno estábulo, duas vacas e um touro em uma cerca e quatro cabras com um bode.


Havia uma casa rústica no centro da fazenda, então presumiu que fosse a casa dos donos do local, que até então não haviam aparecido ainda, talvez dormindo. Havia um cão de grande porte dormindo tranquilamente com a língua para fora em uma casinha logo ao lado da casa. Nos fundos dela, uma horta, plantação de milho, um poço e um córrego que cortava a fazenda. Afora a estrada de terra batida que levava para algum lugar era tudo o que havia para se ver e nada mais.