Reencarnado Como Galo em Outro Mundo

8 Capítulo 7 Refeição Indigesta, Dura Verdade e Descoberta


Depois da volta rápida pela pequena fazenda, Rikko já sabia quase tudo sobre o que lá havia. Não deixou de notar que a construção principal, a casa dos fazendeiros, era bem rústica e de forma um tanto diferente dos filmes que assistira.


Enquanto retornavam pelo buraco na cerca, notou um grupo de galinhas reunidas em um canto. Eram as galinhas que fizeram coro na discussão mais cedo com Gelda ao centro que parecia dizer algo em voz baixa. Rikko não gostava dessa atitude, mas que tipo de planos galinhas poderiam ter?


“Melhor ficar de olho nelas por um tempo” — pensou.


Mas no momento o mais importante para ele era encher a barriga, que havia começado a roncar minutos antes.


_Er… papai? Quando vamos comer?


_É verdade! Me desculpe, fiquei tão empolgado em lhe mostrar os arredores, que esqueci que você ainda não havia comido nada. Mas sem mais delongas. Vamos começar.


Por estar com muita fome, Rikko não havia parado para pensar que tipo de alimentos galinhas comiam. Não que ele não conseguisse imaginar, afinal é senso comum — ao menos para ele – que galinhas se alimentem de milho ou ração. Também poderiam ser restos de comida, mas ele daria um jeito de selecionar escapando de comer algo podre.


_Para encontrar comida, antes de tudo precisa usar suas patas para ciscar o chão. Deve usar suas garras e arranhar a terra com força, deste jeito. — Kel revirava o chão vigorosamente, pouco a pouco trazendo à tona terra preta ao seu redor.


Ao ver aqueles movimentos, algo ocorreu na mente de Rikko. Lembrou de algo sobre o que galinhas faziam para comer, e ver Kel revirando a terra só serviu para lhe causa apreensão sobre o que estava por vir. Seus medos se concretizaram com a última ciscada.



_Ah, aí estão, bem gordas e compridas, um ótimo banquete por sinal. Sirva-se, meu filho.


Minhocas. Sujas de terra por fora e cheias de terra por dentro. Um belo punhado delas, remexendo expostas à luz do sol tentando desesperadamente voltar para onde vieram. Rikko sentiu seu estômago — ou moela, quem sabe – revirar.


_Urgh. Pai… tenho mesmo que comer isso? Parece tão… nojento.


_Nojento? Mas você nem experimentou, meu filho! Vamos, dê umas bicadas para matá-las e em seguida coma. Assim, veja!


Kel dá três bicadas fazendo com que uma das minhocas parasse de se mexer, a apanha com o bico e engolindo com prazer. A Rikko restou apenas contemplar a asquerosa visão.


_Hummm, deliciosa. Viu? Agora é a sua vez.


Rikko olhou para o pai, olhou para as minhocas e voltou a olhar para o pai. Sentiu a cabeça girar e a garganta ficou seca. Como se percebessem sua reação, as minhocas emexiam ainda mais como que em desafio. Seu desespero havia chego ao limite.


_E-eu… eu… Mamãe, me aju- MAMÃE???


Tentou pedir ajuda para a mãe que estava próxima, mas não conseguiu conter o grito. Kohko, que até então seguia os dois alguns passos atrás, havia descoberto um grupo de baratas escondidas sob uma tábua no chão e as engolia como se degustasse o melhor dos quitutes.


_Ah, querida! Deixe algumas para mim! — Kel se apressou para perto de sua esposa apanhando duas baratas de cascas lustrosas de uma só vez. Refeição feita, voltaram suas atenções para um pequeno pinto com sua comida ainda “no prato”.


_Desculpe, meu filho, você queria alguma barata? Mas nem suas minhocas comeu ainda. Depressa, coma-as antes que se escondam! — Kel demonstrava preocupação.



Mas Rikko tinha seus próprios problemas naquele momento. Comer ou não comer? Logicamente ele não quer, mas o olhar de apreensão de seus pais lhe causava uma pressão esmagadora naquele momento. Não havia outra escolha, era tudo ou nada.


“Se comer tudo de uma vez só talvez nem dê para sentir o gosto.” — Pensou esperançosamente.


Fechou os olhos, respirou fundo e as engoliu como se fosse espaguete até que não restasse nada delas. Ou quase nada, já que uma pontinha estava mexendo no canto de seu bico vigorosamente. Forçou uma expressão de sorriso e orgulho de si mesmo. Vomitou tudo e então desmaiou.


_Filho, acorde! Você está bem?


Quando Rikko acordou minutos após seu desmaio, seus pais o fitavam com preocupação. Algumas galinhas vieram ver o que houve, curiosas. Com muito custo, Rikko conseguiu se levantar. Sentia-se péssimo, mas se levantou.


_Filho, o que houve com você? — Kel perguntava suavemente. Kohko estava ao lado dele chorando, mas parecia aliviada.


_Só fiquei tonto, acho que foi o Sol quente.


_Ah, então foi … o que é Sol? Porque ele fez isso com você? — Kel não parecia entender o que dizia.


_HÃ? Ah, aquilo lá em cima! — Apontou com sua asa.


_O Olho de Fogo? É, pode ser. Está mesmo quente hoje. Está se sentindo melhor?


_Um pouco. Desculpe, Papai, desperdicei as minhocas.


_Tudo bem, eu e a Mamãe comemos tudo depois que desmaiou.


Rikko preferia fingir que não tinha ouvido aquilo, não havia mais o que pôr para fora.


_Papai, será que não tem outra coisa pra comer? Algo que não se mexa? — Achou melhor especificar por precaução.


Hummm, eu vou te levar para comer pontinhos amarelos. E beber água também. Venha.


Foi caminhando ao lado do pai da melhor maneira que podia, chegando a um tipo de comedouro que ficava a poucos metros do galinheiro. Rezava para que esses pontinhos amarelos não fossem outra coisa nojenta. Não iria aguentar.


_Aqui estão. Pontinhos amarelos. Consegue comer isso?


Milho. Uma grande quantidade de grãos de milho picado tinha acabado de ser posta por alguém ali. “Se tinha milho para comer, porque raios me levou para comer minhocas?” — Sentiu vontade de xingar Kel, mas ao lembrar se tratar de uma ave, aceitou que era daquela forma que lidavam com alimentos. Mas não deixou de pensar por um instante que faria nuggets com ele se tivesse a chance.


_Acho que sim, vou tentar.


Como o esperado, os grãos eram duros e secos, mas só pelo fato de não serem algo nojento como insetos e minhocas já era “melhor do que nada” segundo Rikko. Comeu do jeito que podia alternando com água do bebedouro para não entalar.


_Consegui, Papai! Estava tão gostoso. — Mentiu.


_Que alívio! Venha, agora vou te ensinar a se banhar com areia.


Se milho era algo oferecido a eles todos os dias, o problema de alimentação estaria resolvido ao menos por enquanto. E banhar-se com areia é um hábito que os pássaros fazem para se livrar de parasitas, Rikko – ou melhor, Ricardo — soube a respeito através de livros quando tentava conquistar uma bibliotecária.


_UAAAAAHHH!!!


Rikko não resistiu ao susto. Uma enorme lacraia — Ao menos em relação ao seu tamanho atual – surgiu correndo debaixo do bebedouro em direção à ele, mas Goppa surgiu do nada matando e a devorando ali mesmo.


_Hum, estava de olho nessa malandra há três dias, finalmente a peguei. Obrigado por atraí-la, Pequeno. — Agradeceu enquanto os últimos pares de pernas sumiam em seu bico.


_Err, ugh, de nada.


_Ele é estranho, né?


_Sim, muito estranho.


_Uma refeição gostosa daquelas e ele nem tenta dar uma bicada, um desperdício.


_Pobre Kohko, seu último filho é inútil…


Um falatório entre galinhas começou às costas de Rikko. Goppa foi repreendê-las, mas pelo visto ele será a atração principal do galinheiro por um bom tempo. Ao longe, Gelda e suas amigas mais uma vez observavam a tudo de longe com olhar afiado, e isso não lhe deixou uma boa sensação.


No resto da manhã as coisas para Rikko pareciam um pouco mais calmas. Aprendeu a se banhar com areia. A bater as asas para pegar impulso e subir nos poleiros para quando não dormir mais sob a Kohko. A tarde passou e a noite caiu, fazendo-o adormecer serenamente debaixo de sua nova mãe.


“Amanhã será um novo dia dessa minha nova vida.”


No dia seguinte, pela primeira vez teve contato visual com os donos da fazenda. Era a esposa do fazendeiro. Era uma senhora de pouco mais que quarenta anos, carnuda e com seios enormes, cabelos compridos trançados na altura do pescoço cobertos por uma bandana verde. Seu rosto era feio, mal encarado e curtido pelo sol.


“Essa definitivamente não faz o meu tipo.” — Pensou.


Mas as roupas dela era o que mais chamavam a atenção de Rikko. Não pareciam muito com as roupas de fazendeira comuns em filmes. Lembravam roupas de personagens de RPG, Ele já havia jogado videogames quando era mais novo e sabia disso porque namorou uma garota gamer e acabou voltando a jogar vários deles por cerca de quatro meses, então sabe o básico dessas coisas.


_Filho, aquilo é um dos donos daqui. Jamais lhes cause problemas, ou você é quem terá problemas com eles. — Alertou Kel.


A mulher lavava roupas no córrego e as estendia em um varal de madeira para secar. Foi então que o fazendeiro saiu da casa. Idade parecida com a esposa, Alto e esguio com rosto tão mal encarado quanto ela. Roupas de padrão parecido, com remendos aqui e ali. Apanhou um balde enchendo-o com milho e então veio na direção do galinheiro. Viu Kohko e Kel vindo na direção do comedouro com Rikko logo atrás.


_Humpf! Finalmente um! Por enquanto escaparam da panela, mas é coisa de tempo. — Comentou com as mãos na cintura, antes de seguir na direção das vacas carrwgando um balde e um fardo de feno pesado às costas.


Rikko não conseguiu entender sequer uma palavra do que o fazendeiro havia dito. Ter assistido a vários filmes estrangeiros deixava bem claro que aquela língua não era conhecida e nem se assemelhava a nada que tivesse ouvido. Começou a desconfiar de onde estava, mas precisava de mais informações e duvidava que as galinhas pudessem ter o que precisava saber. Começaria a perambular por conta própria para isso.


Após algum tempo, o fazendeiro retornou com um cesto nas mãos. Estava recolhendo os ovos dos ninhos através das portinholas do galinheiro, mas quando chegou a vez do ninho de Kohko, apenas olhou com desprezo o ninho vazio.


_Veremos amanhã. — Bateu o portão da cerca e foi para casa.


Quatro dias se passaram e o fazendeiro fazia a mesma coisa. Olhava o ninho e olhava para Rikko. Mesmo sem entender o que dizia, Rikko começou a imaginar o que estava acontecendo.

O fazendeiro esperava que Kohko pusesse mais ovos, e a resposta negativa contínua poderia significar que ela estava ficando velha e improdutiva, e o mesmo poderia se dizer de Kel.

Iriam para a panela e isso não demoraria muito, o que preocupava Rikko. Se apegou aos dois e lhes era grato, não permitiria que essa desgraça acontecesse. Mas como? O que um pequeno pintinho poderia fazer para evitar a morte de seus pais?


“Ainda não sei o que eu posso fazer, nem se consigo, mas vou achar um jeito de retribuir o que fazem por mim. Podem esperar”.


Ao final da tarde lhe ocorreu uma idéia. Poderia roubar ovos de outras galinhas durante a noite rolando para baixo de Kohko. Se ele fizer isso com alguma frequência pode enganar os fazendeiros a pensar que Kohko voltou a produzir adiando seu destino. Faria isso naquela noite mesmo.


Tarde da noite, todas as galinhas já estavam dormindo. Rikko rastejou lentamente saindo debaixo de Kohko e foi vasculhar os outros ninhos. Precisava fazer isso com o máximo de cautela, ou acordaria as galinhas e seu plano iria por água abaixo. Um a um, foi espiando os ninhos, mas para sua preocupação não encontrara ovo algum.


“Droga, será que elas só botam ovos ao amanhecer?”


Já havia perdido as esperanças, quando notou algo. Era um ovo! Havia sido deixado de lado por uma galinha completamente absorta em seu sono. Era sua chance. Lentamente rolava o ovo pelo chão em direção ao ninho de sua mãe quando uma luz atingiu seu olho vinda de uma fresta na madeira. Parou por um momento sua empreitada indo observar pela fresta, e a surpresa quase o fez cair.


“Mas que porra é essa?”


Lá fora, no céu escuro da noite, duas luas flutuavam no mar de estrelas. Uma era mais ou menos da mesma cor da que conhecia, mas um pouco maior. A outra era de uma tonalidade levemente rosada e menor. Essa descoberta o deixou abismado.Olhou novamente para ter certeza.


“Duas luas? Mas que lugar é esse? Estou mesmo em outro mundo? Não estou entendendo mais nada! Que droga!”


Depois de alguns minutos pensando, chegou à conclusão de que… não havia uma conclusão. Ainda precisava ajudar seus novos pais, então descobrir onde estava ficaria para outra oportunidade. Voltou a rolar o ovo e quando chegou ao ninho, o depositou lentamente embaixo de Kohko, que nada sentiu. Sua missão estava cumprida, ao menos naquele momento.



_Não muito longe dali, alguém observava seus movimentos. Era Kakke, a primeira galinha a festejar com Kohko o nascimento de seu filho. Fechou o olho entreaberto voltando a dormir.